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Posts com Tag ‘viagem’

Croft Port

croftPDevo confessar que a intensidade de minha inesquecível estada em paragens lusitanas teve o vinho como seu elemento fundamental. Não é que a comida portuguesa precise de algum auxílio ou algum adorno para ser apreciada, uma vez que ela, tal qual o vinho português, nunca foi desprovida de personalidade. Acontece que o encontro desses dois, quando adequadamente realizado, enseja em espíritos mais afeitos à gastronomia uma experiência inigualável, quase transcendental. Por exemplo, a combinação do folheado com vitela, servido no restaurante Camafeu da cidade do Porto, com um vinho tinto da região do Douro é algo que meu estilo pobre e rústico de escrita não alcança e nunca alcançará descrever. Para um turista inebriado pelo acolhimento português, há uma certa vantagem do vinho em relação à comida. A bebida podemos levá-la para casa, sem prejuízo dos riscos inerentes, é claro: rompimento da garrafa durante a viagem e a nem sempre alerta Receita Federal. A fim de tentar reproduzir aqui, em terras tupiniquins, um pouco da experiência que tive no citado restaurante portuense, decidi então enfrentar o desafio de levar vinhos lusitanos para o recesso do meu lar. Dentre os que consegui trazer, gostaria de destacar o vinho tinto do porto Croft Port Vintage adquirido na própria adega que o produz, situada na cidade do Porto. A seguir, seguem minhas avaliações canhestras.
Cor: vermelho escuro, rubro;
Aroma: delicado, mas atrativo;
Sabor: doce sem ser melífluo;
Tipo: tinto;
Safra: 2007;
Região: Douro;
Origem: Portugal (terra de beleza bestial);
Nota: 4/5

Novidades

tappt1O casal de irmãos estava animadíssimo com sua primeira viagem intercontinental: eles atravessariam o Atlântico partindo da terra do carnaval rumo à terra do fado a bordo de um Airbus A330, essa “aeronave supergigante”, segundo a empolgada avaliação do menino, o mais novo. Contribuía muito para a excitação que lhes inundava a origem lusitana da companhia aérea e não se cansavam de dizer a todo momento para quem quisesse ouvir: “Papai! Mamãe! Vocês têm razão! São estrangeiros que falam nossa língua!”. Os pais, constrangidos com aquele ruidoso e incansável entusiasmo, repreendiam-nos com veemência, mas o silêncio dos pimpolhos era apenas momentâneo. Já sobrevoavam o citado oceano, três horas após o início da viagem, quando a mãe iniciou um sono merecido e o pai observou os filhos, sentados em poltronas contíguas, deliberando freneticamente, num preocupante volume baixo, assunto que ele não conseguiu discernir. A matéria discutida pelos pequeninos não pôde ser apurada porque, naquele exato momento, o pai notou a milagrosa extinção da volumosa e impaciente fila que havia se formado em direção ao banheiro do avião; oportunidade rara para que ele pudesse proceder a um serviço cujo resultado o aliviaria de suas incômodas cólicas. Como era significativa a distância do banheiro – o oásis no qual se aliviaria – até sua poltrona, ele resolveu investigar o assunto que os dois pequenos tanto conversavam depois de sua importante empreitada. Terminada gloriosamente essa obra inenarrável, o pai, assim que sai do banheiro, vê as crianças em pé sobre suas poltronas e as ouve, daquela distância, em alto e bom som. O menino esbravejou: “Papai! Aquela história que você contou pra gente é mentira! Isso é muito feio!”. A menina completou franzindo a testa: “É mesmo, papai! Muito feio! Até agora a gente não viu nenhuma portuguesa de bigode!”.

O Milagre

Por conta de alguns posts na categoria Fotografia, pode-se notar que o Extrato andou visitando alguns sítios portenhos. Em tempos de Papa Francisco, tornou-se menos constrangedor revelar uma econômica viagem turística a essa  presunçosa capital sul-americana, onde os sinais trágicos do terceiro mundo são, como os daqui, evidentes. Se houvesse oportunidade, confessaria ao humilde Papa – Cardeal à época e eterno benfeitor dos pobres – que eu sempre nutri uma certa aversão aos argentinos: nada que descambasse para a discriminação raivosa, mas para algo que foi sendo paulatinamente construído a partir de rivalidades futebolísticas pouco amistosas de parte a parte. Estou certo de que a penitência que Vossa Eminência me daria seria rezar uma dezena de Pais-Nossos e fazer algum tipo de caridade, já que a “fé sem obras é morta” (Ti 2:26). Como não tive essa chance, coube à providência divina operar o milagre de transformar aquela imagem negativa, tão arraigada pelas (poucas) vitórias argentinas sobre o meu Flamengo, em algo profícuo. E assim aconteceu. Não foi a delícia incomparável do doce de leite argentino a única causa de tal transformação, mas também um bate-papo casual com um taxista hermano. Eu imaginava que o colóquio fosse caminhar para a inquestionável beleza das brasileiras e suas bundas maravilhosas, mas ele acabou discursando, num enrolado portunhol, sobre o Tango autêntico, de raiz, bastante diferente daquele tango hiperproduzido que se apresenta aos turistas. Lá pelas tantas, não sei com qual intenção, ele me disse: “Quando vou ao Rio, se me levam num bar onde está tocando qualquer tipo de música brasileira diferente de Bossa-Nova, eu não fico.” Naquele momento, lembrei-me de um disco (vulgo CD), presente de aniversário, há muito desprezado em algum canto das minhas gavetas e pouquíssimas vezes tocado. Como os argentinos, a Bossa-Nova também me era desagradável; até aquele incômodo pronunciamento categórico do taxista. Já em casa, procurei envergonhado pelo disco e, ao ouvi-lo, desejei ardentemente agradecer àquele argentino por me fazer apreciar uma criação brasileira que, devido a pensamentos preconceituosos, eu fizera questão de ignorar. A excelente obra musical à qual me refiro, apresento a seguir, com minhas insolentes avaliações.garotaIpanema

12 horas

aviao– Está frio! Por que resolveu viajar de saia? – perguntou ele.
– Ela viabilizará a execução de um plano – respondeu ela.
– Estaria eu incluso?
– Completamente.
– Já imagino o que seja, mas posso perguntar onde e quando?
– No avião. Começaremos logo após apagarem o sinal de atar o cintos.
– Devo informá-la que teremos assentos contíguos aos nossos.
– Disporemos do banheiro.
– Bem pensado! Mas o que você quis dizer com “começaremos”?
– A ação se repetirá pelo menos umas três vezes.
– Não acha que desconfiarão ao entrarmos tantas vezes juntos?
– Sem a desconfiança de terceiros, a empreitada perde o sentido.
– Entendo…Pretende gritar?
– Ainda não me decidi, mas há uma forte possibilidade.
– Entendo… Acho que serão 12 horas nada monótonas.
– Você terá certeza quando eu lhe contar o restante do plano.
– Entendo…