Você

Você lê um livro que te impressiona porque diz muita coisa a seu respeito;
Você tem vontade que outros o leiam porque deseja que tenham a mesma experiência;
Você se embaraça ao indicá-lo aos amigos porque ele é escrito em inglês;
Você procura uma versão do livro em português porque o autor é o famoso Erich Fromm;
Você se decepciona enormemente porque inexiste tradução para o seu idioma;
Você tem uma grande ideia porque certos desafios o instigam;
Você começa a verter o livro para o português porque acredita na sua capacidade;
Você termina orgulhoso seu trabalho porque ele não foi nada fácil;
Você o submete a diversas editoras porque almeja recompensa mínima por seu esforço;
Você constata o total desinteresse delas porque o livro não vende fácil;
Você se emputece consigo mesmo por ter dispendido precioso tempo em vão;
Você ignora esse trabalho por um tempo porque precisa evitar a frustração;
Você pensa naqueles para os quais indicou o livro porque nunca o verão nas livrarias;
Você resolve disponibilizar o livro no seu blog porque tem arroubos raros de despojamento;
Você coloca o livro na área Trabalhos/Tradução porque quer se mostrar organizado;
Você se sente livre porque só agora dá um fim ao que se propôs.

RSI

Para os fins deste post, o objeto sexual de um ser humano é outro ser humano sobre o qual recai o desejo de copular. Homem é o ser humano que possui genitália masculina e mulher é aquele que possui genitália feminina. O objeto sexual do homem é sempre a mulher e o da mulher, o homem; portanto, a cópula é aqui considerada uma relação heterossexual. Nesse contexto, convém salientar que não se impõe restrição alguma à prática de tal relação, onde o acoplamento das genitálias é apenas um dos possíveis exercícios sexuais.

GenerosoPrincipalFIGURA 1

O gráfico da figura 1 mostra as curvas típicas de tensão sexual do homem e da mulher, quando excitados independente e continuamente ao longo de um intervalo de tempo. A curva H mostra o comportamento da tensão masculina enquanto a curva F, o comportamento da feminina. Os pares de valores associados aos ápices das curvas definem pontos orgiásticos. A curva F exibe n pontos orgiásticos e a curva H apenas um. Os ângulos \alpha e \beta definem as declividades das tensões crescentes enquanto \alpha' e \beta' a das tensões decrescentes que precedem o término de cada uma das curvas. Tal declividade é denominada rigidez. O comportamento típico observado em cada uma das curvas revela que a rigidez nas parcelas decrescentes é maior que nas parcelas crescentes. Uma característica importante para os fins deste post é o comportamento típico de \alpha > \beta, ou seja, de que, nas parcelas crescentes das curvas, a rigidez masculina é maior que a feminina. Assim, até o instante t_{OH}, tem-se que a tensão masculina  é sempre maior que a feminina. Como consequência, o único instante orgiástico masculino precede qualquer instante orgiástico feminino.
Entende-se por Relação Sexual Ideal (RSI) aquela na qual homem e mulher atingem, por excitação recíproca, no mesmo instante, o ápice de suas tensões sexuais, ou seja, quando t_{OH} = t_{O1F}. Se ocorrer o comportamento típico de \alpha > \beta, mostrado na figura 1, a RSI é então impossível. Entretanto, se o homem atrasar, em relação à mulher, a evolução de sua tensão em t_a:= t_{O1F} - t_{OH} unidades de tempo, a RSI é atingida. Esse atraso pode ser realizado de duas maneiras, mostradas a seguir.

GenerosoAtrasado1FIGURA 2

No gráfico da figura 2, o homem realiza o atraso t_a logo no início da relação sexual e ambas as curvas evoluem continuamente até a RSI.

GenerosoAtrasado2

FIGURA 3

No gráfico da figura 3, o homem inicia sua curva simultaneamente com a mulher, mas realiza interrupções ao longo do tempo, de tal forma que a soma dos atrasos parciais t_{a1}, \cdots, t_{an} totaliza t_{a}. Convém ressaltar que dependendo dos declividades \alpha e \alpha', a RSI pode propiciar diversos instantes orgiásticos para a mulher, ainda com o homem apresentando níveis significativos de tensão sexual. Na prática, o atraso t_a pode ser consequência de certos exercícios sexuais (preliminares, por exemplo) que excitam muito mais a mulher do que o homem. Como não há regra geral que estabeleça essa ou aquela prática sexual como mais excitante à mulher, cabe aos parceiros descobri-las.
Convém salientar que o modelo ideal apresentado não pretende conferir ao homem um papel mais significativo que a mulher na relação sexual, mas dizer que existem diferenças nas características intrínsecas de excitação: o homem, via de regra, é sexualmente mais rígido que a mulher e por isso precisa estar atento à evolução de sua excitação, de forma que o sexo seja prazeroso para ambos.

Hora Extra

box– Há tempos não brincamos no sofá da sala. – disse ela.
– É verdade! – disse ele.
– Não podemos deixar certos hábitos esmorecerem.
– Sem dúvida! Deixamos mais algum além do sofá?
– Sim, o de tomar banho juntos.
– Tem razão! Confesso que prefiro muito mais esse.
– Por quê?
– Água quente me favorece a vasodilatação.
– Que tal revisitarmos esses dois hábitos de uma vez?
– Haverá intervalo?
– Pode ser…
– Nesse sábado?
– Não. Agora.
– Após um dia extenuante de trabalho?
– Exato. Algum problema?
– Nenhum, mas o banho precisará ficar no segundo tempo.

Casa

Passei a maior parte da minha vida em capitais e não seria muito acertado dizer que sou um rapaz do interior, apesar de ter nascido numa cidade onde o urbano e o rural se confundiam. Entretanto, esse pouco tempo que usufruí de minha terra natal deixaram lembranças, marcas indeléveis de uma infância alegre, momentos registrados nessas fotografias, hoje desbotadas, que reiteradamente retornam à mente e que me localizam nesse tempo bom e longínquo. As reminiscências de minhas origens não têm o tom melancólico e excessivo do saudosismo, mas resultam de saudades sinceras, de  vestígios interioranos manifestos nessa minha personalidade que, na maioria do tempo, se arroga cosmopolita. Imerso nessa época irrecuperável, não me ocorre chorar aquilo que foi perdido ou desvirtuado ao longo dos anos, mas tentar avigorar o discernimento sobre mim mesmo, promover trincas nessa máscara de altivez, ingênua e artificialmente fabricada, que acreditei indispensável para os centros cosmopolitas. Dessa busca, nem sempre bem sucedida, surge a necessidade de revisitar a terra natal na sua versão contemporânea, bem menos modesta, mas que ainda guarda traços de outros tempos, onde ainda coexistem a cidade e o campo, onde as crianças ainda brincam na rua, onde as pessoas ainda se reúnem nos finais de semana, onde se volta do trabalho para  almoçar em casa, onde os vizinhos se conhecem, onde a compra na venda é marcada na caderneta, onde as distâncias são pequenas, onde a diversão é singela, onde a vida que corre aqui nos grandes centros, lá prefere caminhar. Receio que essa ligação nunca rompida com essas origens se fundamente num desejo, dissimulado pelo arrogante homem urbano, de estar em casa, em família, de ficar junto dos meus, de vivenciar seus problemas e seus prazeres, seus sucessos e fracassos, dramas e alegrias.

Atrator

Em janeiro de 1963, o matemático e meteorologista norte-americano Edward Lorenz publicou o artigo Deterministic Non Peridodic Flow, no qual propôs o seguinte sistema de equações para modelar a convecção do ar numa célula atmosférica:

x'=\sigma(y-x)
y'=x(\rho-z)-y\,\,\,,
z'=xy-\beta z

onde as incógnitas x,y,z são funções do tempo e descrevem o estado do sistema. As constantes \sigma,\rho,\beta são parâmetros físicos e foram especificados com os valores 10, 8/3 e 28, respectivamente. Lorenz esperava que o sistema “caminhasse” para uma das três situações de convecção estável conhecidas, dentro do contexto do problema. Uma vez atingida tal situação, o sistema apresentaria os mesmos valores de x,y,z indefinidamente. Entretanto, ele observou que, nessas condições, ao perturbar o sistema a partir de um dos pontos de convecção estável, as soluções encontradas para os sucessivos instantes de tempo não convergem para nenhuma das outras situações estáveis. As soluções se comportam como se estivessem “indecisas”: os valores orbitam na vizinhança de um dos pontos de estabilidade e então mudam repentinamente de trajetória em direção ao outro ponto, repetindo essas oscilações e saltos de uma maneira irregular, não-periódica, imprevisível. Par causa desse comportamento, Lorenz chega a concluir que previsões meteorológicas suficientemente antecipadas são impossíveis. Em termos matemáticos, o modelo de Lorenz é um sistema de equações diferenciais; tópico de uma disciplina que eu já havia cursado na faculdade. Anos mais tarde, precisei utilizá-la para fins mais relevantes do que simplesmente conseguir o mínimo para aprovação nas provas e durante a fase de recordação dos assuntos, comecei a esboçar um resumo, a fim de registrar o estudo. Por alguma razão que não me recordo, eu o interrompi, mas  com o advento do Extrato, ocorreu-me retomá-lo e também outros trabalhos iniciados que ficaram esquecidos. Primeiramente, publico para download esse Estudo de Equações Diferenciais, ainda em estágio inicial, para o qual dedico uma página específica, ilustrada pelo bonito gráfico das soluções do modelo de Lorenz no seu estado instável, conhecido como Atrator de Lorenz.

Davos-Platz

Desde que me entendo por gente, gosto de livros. A leitura veio bem depois; primeiro, atraiu-me o objeto livro: a capa, o papel, a fonte, o cheiro, a textura, o folhear. Quando pequeno, eu costumava passar um bom tempo admirando a imponente estante da sala, preenchida parcialmente pelos livros técnicos do meu pai. A forma pela qual ele os distribuia era regular e padronizada: assunto, autor, do exemplar mais alto para o mais baixo. Se algum deles estivesse disposto fora do padrão, eu mesmo o consertava. Ao  longo do tempo, foram chegando os romances da minha mãe, assinante do Círculo do Livro, e a área desocupada  da estante encheu-se gradativamente de cor, ganhou finalmente vida. Por alguma razão, não era necessário padronizá-la como a seção técnica, e o móvel, agora inteiro e equilibrado, revelou-se perfeito. Gigantesco para a minha estatura de menino, eu conservava um respeito quase religioso por ele, pelo incomensurável esforço humano sustentado nas suas prateleiras de madeira: quanto trabalho, quanto tempo, quanto escrever e reescrever para produzir aquela quantidade infindável de páginas. Havia um livro específico que me chamava mais a atenção do que os outros: volumoso, bem costurado, com capa dura, papel branco, letras pequenas, cheiro de novinho e delicioso de folhear. Na sobrecapa, havia uma foto intrigante de um castelo ao pôr do sol e acima de suas torres, lia-se: A Montanha MágicaThomas Mann. A partir desse livro e das reminiscências daquele tempo, ocorreu-me, recentemente, acrescentar àquela atração sensorial infantil, que nunca arrefeceu, o interesse pela Literatura. Iniciei escalando a Montanha até chegar ao sanatório de Davos-Platz, só para ver como era, e junto com Hans Castorp, prolonguei deliberadamente minha estada.