O Gigante

ChapeuNos meus longínquos tempos de criança, ele me parecia um verdadeiro gigante: para erguer meu olhar até seu rosto, eu precisava inclinar bastante a cabeça para trás. Dessa visão de menino, surgia uma boa dose de medo, pois não se tratava de alguém dado a muitas conversas, a muitas interações. Em meio ao silêncio que o envolvia, conservava sempre um semblante circunspecto, e seu jeito fechado impingia-lhe, vez por outra, as feições da severidade. Ele não era, em absoluto, violento; nunca o enxerguei como alguém que eu desejasse manter distância, que eu preferisse não encontrar. É curioso perceber agora aquele medo que jamais engendrou o repúdio. Algumas vezes, meus irmãos e eu, seus netos que moravam na capital, nos atrevíamos, sem o menor pudor, a escalá-lo quando estava distraído ou a pular em seu colo enquanto descansava no sofá. Por algum motivo, entendíamos que sua reação impaciente àquela efusividade ruidosa era apenas aparente; nos parecia claro que reagia assim não porque se incomodava com nossas brincadeiras, mas consigo mesmo; por querer retribuir e não saber como fazê-lo. Assim, na expectativa de repetir esse assédio, ficávamos ansiosos à janela, naqueles finais de tarde chuvosos, esperando-o chegar do trabalho. Quando ele apontava na esquina da rua, vinha a passos firmes, rápidos, carregando seus pertences e um chapéu marrom muito bem cuidado, simples e limpo. Da parcela visível do cabelo, notava-se que ele os alisava com óleo e esse esmero ele tinha também ao se vestir: sapato preto lustrado; calça com três pregas, modesta, limpa, cinto à altura do umbigo, chaveiro, relógio de bolso, camisa social sem manga, de algodão, lisa, impecável. Não era incomum que chegasse de caminhão, o mesmo que o conduzira, junto com o motorista e outros colegas, ao longo do dia de trabalho. Ficávamos animados com essa chegada diferente e ao vê-lo descendo da carroceria, corríamos para recebê-lo. Ao longo dos anos, amenizou-se toda aquela seriedade que o caracterizava e assim, nesses modos menos taciturnos, ele costuma me acorrer à lembrança: seu sorriso incontido, seus gestos singulares, sua robustez, a voz altiva, as mãos grossas do capinar, a pele alva extensamente castigada pelo sol, o invejável azul saturado dos olhos e um contemplar discreto, na maioria das vezes, à janela, fitando o infinito. Amante da boa música caipira, dessas que não se fazem mais, ele tinha sempre por perto um radinho de pilha, que costumeiramente ligava ao ir para cama e ao acordar de madrugada, quando partia para mais um dia de trabalho. Conservava prazeres singelos, nunca dispondo de tempo e muito menos de dinheiro para gozá-los: findo seus anos de serviço, quando poderia dispor de seu merecido descanso, a doença o levou pouco tempo depois. De seus objetos, restou quase nada para lembrá-lo; entretanto, com o avançar implacável da idade, está ficando cada vez menos imprescindível estimular minhas recordações, principalmente das pessoas queridas, pela via material. Confesso que ela ainda me é importante, mas, hoje em dia, as histórias que ouço sobre elas são tão ou mais encantadoras do que o tangível. Há pouco tempo, num bate papo casual com minha mãe, falávamos sobre a prática da leitura e eu recordava o quanto gostava de ler estando na casa de meu avô, onde havia uma pequenina estante, abarrotada com livrinhos, dos mais variados tipos e qualidades. Ela me contou que, restrito por apertadíssimos limites financeiros, meu avô se permitia uma única extravagância: livros. Eis o único item que ele admitia estourar o orçamento. Essa novidade não me saiu mais da cabeça e as recordações desse tempo, quando eu vasculhava aquela estante maravilhosa à procura do desconhecido, se aprofundaram. Certa noite, acordei com a imagem de um daqueles livros, que trazia à capa uma mansão sinistra. Corri então em direção à minha estante, peguei um título e o folheei até encontrar um conto. Decidi então relê-lo, pois as reminiscências da história ainda estavam vivas, fortemente associadas ao livro da estantezinha do meu avô. Poucas linhas à frente, interrompi a leitura; temi que aquela tradução ignóbil maculasse as circunstâncias maravilhosas com as quais minha mente perturbada envolvera a obra. Passou-me então pela cabeça lê-la no original em inglês, mas essa ideia foi atropelada por outra, ansiosa em prestar um pequeno tributo à esse homem que, no evento de sua morte, recebeu do neto mais velho a crueldade da ausência e da desconsideração. Então, traduzi esse conto, escrito em 1841, para o português, na tentativa de reparar o irreparável: um erro do passado. Muito em breve, publicarei essa tradução, essa homenagem, aqui no Extrato.

Criador

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Das pessoas mais próximas a mim, há algumas que se auto intitulam “ateus” e suspeito que ainda devam existir outras que dificilmente se disporão a fazê-lo, protegendo-se num discreto silêncio. Admiro profundamente a coragem das primeiras, pois ao falarem de sua descrença em Deus, envoltas numa evidente consternação, num visível embaraço, revelam – na maioria das vezes, inadvertidamente – o mais recôndito, o mais íntimo de si mesmas. Após muito chafurdar em minhas leituras psicanalíticas, descobri que esse tal embaraço do descrente não resulta apenas do receio de se colocar num grupo minoritário, sob o risco real de sofrer alguma espécie de preconceito, de julgamento, de repúdio pela maioria religiosa. Tenho para mim que o homem é, por natureza, um ser adorador: quando pequenino, adora a mãe; ao tomar plena consciência de sua individualidade física, passa a adorar a si próprio e assim, ao longo de sua vida, cumula-se de ídolos, desses objetos materiais ou imateriais que incessantemente venera. Nesse contexto, porque rejeita a concepção de um ídolo-criador, onisciente e onipresente, ou seja, de Deus, não se pode afirmar que o ateu não seja um idólatra: tal qual o crente, ele também elege para si um inumerável conjunto de ídolos particulares. Se ateus e crentes são igualmente adoradores natos, por que discordam em relação à existência de Deus? Acredito que a ideia desse ídolo-criador está intimamente relacionada com a figura materna, com aquela que cria e nutre. A crença em Deus é um desdobramento do processo de relacionamento com a mãe, do amor e ódio que se tem por ela: o ser humano que termina se afeiçoando pelo poder materno, crê na criação e, em determinado momento, transfere tal afeição para o poder de um Criador, tornando-se um crente. O ateu, por sua vez, decidiu se rebelar contra esse poder num dado período da vida e assim permaneceu, de tal forma que, para ele, acreditar em Deus e venerá-lo significa subjugar-se eternamente à mãe. Acredito ser mais natural que o homem estime o poder materno ao invés de repudiá-lo, porque assim estrutura todo um aparato afetivo que muito lhe ajudará no instinto inato de criar, cuidar e proteger sua prole. Portanto, a consternação de quem se denomina ateu é a consternação daquele que, mesmo de forma difusa e desintencional, revela ao mundo os problemas profundos que carrega em relação à sua figura materna. Essas minhas elucubrações nada originais tiveram origem num texto do psicanalista selvagem Georg Groddeck, um de meus ídolos. Reproduzo a seguir um pequeno trecho.

“A mãe, o amor à mãe e o ódio à mãe, tudo dá aos seres humanos, inclusive o Deus… Quem se denomina ateu ou convence os demais a chamarem-no assim, só está tentando evitar um nome, porque gostaria de negar sua infância e porque nele se enfrentam diretamente o ódio e o amor à mãe. Por querer fugir a autoridade do complexo materno, encobre esse fragmento de divindade com trapos e palavras, de modo a acreditar que não mais o vê. Tornou-se portanto parcialmente cego… Com a ajuda da psicanálise, é possível provar que quem nega friamente ou passionalmente a divindade, trava uma luta pessoal contra a mãe, algo que nada tem a ver com a sede de verdade…”

Extraído do artigo Sobre o Isso em “Estudos Psicanalíticos Sobre Psicossomática” (2011), p. 46, Editora Perspectiva,
Georg Walther  Groddeck

Croquete

CanudoNo intuito de honrar gloriosamente o título adquirido após quatro anos de labuta, o Doutor resolveu se embrenhar no árduo exercício do magistério. Afinal de contas, o nobre canudo tinha sido emitido, pública e gratuitamente, por uma universidade federal, fato que acreditou suscitar em sua alma pouco dadivosa sentimentos de gratidão. Tomado por um ânimo incomum para empreitadas tão pouco lucrativas, resolveu dedicar-se de corpo e alma, subtraindo tempo da convivência com os filhos para recordar assuntos antigos, já que sua ideia seria ministrar aulas na graduação. Empregado, durante o dia, numa repartição pública, o único turno que lhe sobrava era o noturno, horário em que sua mulher trabalhava e a babá procedia à rotina das crianças. Comprou livros, preparou aulas e criou expectativas; queria dar um enfoque novo ao ensino da disciplina que se especializara. Após essa preparação intensa, procurou uma faculdade, submeteu-lhe o currículo, sendo aceito de imediato: “Profissionais dispostos a ministrar esta disciplina, como o senhor, são raros; a gente vai te pegar nem que for no laço!”, disse efusivamente o coordenador do curso. O Doutor, então, acertou os horários das aulas com a faculdade e passou a aguardar ansiosamente o início do semestre seguinte. Fez planos de alimentar uma caderneta de poupança com o singelo acréscimo pecuniário que teria e, orgulhoso, acresceu antecipadamente ao currículo a experiência vindoura: era uma nova carreira que para ele se iniciava, novos horizontes, novos desafios. Certo dia, quando estava imerso em seus estudos, a babá dos filhos trouxe-lhe um pratinho com diversos salgadinhos: “Aqui, Doutor. São pro senhor. Minha mãe que fez.”, disse animadamente a garota. Ele experimentou e teceu elogios rasgados àqueles quitutes feitos com tanto esmero e sabor. O croquete, particularmente, tinha um paladar inigualável: “É a especialidade da mamãe”, disse ela. Nos dias que se sucederam, naquele mesmo horário, os salgadinhos eram servidos e deliciosamente saboreados pelo futuro professor. Ao final de uma semana, junto com os salgadinhos, a babá solicitou um minuto da sua atenção: “Seu Doutor, minha mãe resolveu montar um negócio. Lá onde eu moro, tem muitos bares e o meu tio que gosta de uma cerveja disse que eles não vendem croquetes que prestem. Mamãe então resolver aproveitar essa chance porque, como o senhor mesmo sabe, essa é a especialidade dela. Fez alguns para um dos botecos e vendeu tudo. Fez para outros e vendeu tudo. Os pedidos são tantos que ela não está dando conta do serviço. Disse que vai precisar da minha ajuda e como não posso deixar ela na mão, deixar ela perder essa chance, vou ter que sair. Quero pedir minhas contas”. Um silêncio sepulcral separou o fim desse pedido e o início de uma profunda cólera que sufocou o nobre Doutor: desprovido de babá, quem iria tomar conta dos filhos quando estivesse nas aulas, exercendo a sua porção altruísta? Foram necessários alguns dias para minorar aquele ódio mortal que o fizera proferir, internamente, palavrões que nem ele próprio sabia que conhecia. Houve então espaço, ainda que pequeno, para uma breve reflexão e o Doutor se deu conta que não havia sido honesto consigo mesmo: tudo aquilo que fizera e que faria não era altruísmo, mas pura insuflação de ego, como acontecera na sua especialização apoteótica. Foi preciso que o destino preferisse o croquete ao canudo para que ele tirasse, por breves momentos, os olhos daquela imagem fictícia de si mesmo e reparasse um pouquinho mais nos filhos.

Tráfego

Alguns acreditam que o comportamento instável dos malucos é influenciado pelo ritmo lunar. Observações empíricas conduzem à teoria de que a lua cheia exacerba os doidos. Não por acaso, costumamos chamá-los lunáticos, ou desejosos de jogar pedra na lua. Foi justamente numa fase de lua cheia que algo inusitado aconteceu na Catedral Santa Terezinha em Uberlândia. Eu frequentava as missas dominicais da Catedral às 7:15 da manhã, religiosamente, e assim evitava a multidão de outros horários e também eventos pitorescos. Entretanto, a linha ideológica do pároco rejeitava a ideia de restringir o acesso às dependências da Catedral a quem quer que fosse: ricos e pobres, retos e pecadores, sãos e pinéis. Afinal, somos todos filhos de Deus, feitos à imagem e semelhança do Criador. Por isso, nós, fiéis atentos, éramos frequentemente distraídos pela presença pitoresca, constrangedora e repugnante de um mendigo maltrapilho ou de alguém desprovido das plenas faculdades mentais. No domingo ao qual me referi, impressionou-nos a quantidade e a efusividade dos doidos. Inquietos, andavam o tempo todo, percorriam a igreja descrevendo os mais diversos caminhos: circulares, curvilíneos, transversais, diagonais, etc… Rodeados por aquele tráfego, ficávamos aliviados quando alguns saíam pela porta principal, numa vã esperança de que tinham ido embora. Alguns costumavam parar e nos encarar seriamente, algo que nos causava um certo desconforto. Os momentos de silêncio eram quebrados por grunhidos, conversas sem sentido e ruídos repentinos. No início da liturgia eucarística, cansado daquele andar desenfreado, um deles resolve se sentar ao chão, bem no meio da igreja, à vista de todos. Durante o silêncio quase absoluto que reinava após a consagração do pão, um outro maluco se aproximou dele e disse em alta voz: “Hei, levanta daí rapaz! Vai embora! Deixa a gente em paz! O padre não gosta de doido dentro da igreja não!”. De fiéis silenciosos, viramos plateia e caímos na gargalhada.