Tortura

narcDevo dizer que não é muito fácil para nós narcisistas – daquela espécie que se considera, além de belo e magnânimo, uma profícua fonte de inspiração para toda a humanidade -, revelar, sem o mais leve traço de constrangimento, as verdadeiras fontes do nosso insípido saber, de nossas parcas habilidades; problemas constrangedores que procuramos encobrir deliberadamente com uma aura de autenticidade. Assim, dissimulando heroicamente o que é de fato mera reprodução, procuramos impressionar os de espírito influenciável ou então, pelo menos, intelectos mais modestos. Dentre as pessoas que elegemos como vítimas, há sempre aquelas que nos contrariam, quando não se deixam iludir por nossas qualidades fabricadas, por nosso assédio eloquente, formatado num discurso sofisticado e numa considerável dose de auto suficiência; faculdade indispensável aos que dispõem do comportamento narcisístico como recurso para amenizar suas enormes dificuldades no campo afetivo. O narcisismo, após proporcionar os primeiros prazeres a quem o pratica eficientemente, entranha-se de maneira indelével até as camadas mais profundas do aparato psíquico e ali se instala em caráter permanente. Nesse estado, as frustrações deixam de ser fenômenos típicos da vida humana e se tornam ameaças de um mundo hostil, arquitetado para destruir esta estrutura ímpar e maravilhosa que é o ego narcisista. Essa sensível intolerância aos dissabores que rotineiramente assolam as pessoas, aliada a uma pungente necessidade de aprovação, torna a vida do narcisista, na maioria das vezes, um constante desafio, uma batalha ininterrupta. Assim, para nós, a arte de viver significa, em última instância, guerrear: nesse combate, nossos melhores aliados são aqueles que nos admiram, que acreditam em nossos disparates; nossos piores oponentes são justamente outros narcisistas. Sim, pensando e agindo apenas em causa própria, é impossível aos narcisistas estruturarem-se em qualquer espécie de comunidade, uma vez que o fundamental num agrupamento uno de seres humanos, onde impera a colaboração, é o reconhecimento do outro como uma entidade dotada de valor intrínseco, liberdade e autonomia. Em nossa visão distorcida, esse outro divide-se em dois tipos apenas: os que nos adulam e os que nos ofendem; em outras palavras, todo aquele que não está a meu favor, está contra mim; se não é meu amigo, é meu inimigo. Conviver, então, transforma-se em algo bastante extenuante ou, em termos mais modernos, estressante: se estamos numa guerra, se a qualquer momento iremos encontrar a figura de um adversário ou a de um aliado, precisamos estar constantemente preparados para defender e atacar; algo que exige um nível mínimo de adrenalina na corrente sanguínea, um mínimo de tensão no sistema nervoso. Imersos nesse ambiente adverso, perturbados por esse estado de alerta, alguns narcisistas sucumbem; em particular, aqueles psicologicamente mais frágeis, para os quais a perene atmosfera de conflito e a profunda ansiedade que os acomete significam tortura. Para esses derrotados, a grave crise que os assaltou, que os derrubou, é uma excelente oportunidade para lançar um novo olhar para si mesmo, agora com olhos menos fantasiosos, mais sinceros, buscando o autoconhecimento, a auto responsabilidade, a tolerância para consigo.  A esses prisioneiros da vida ficcional que fabricaram resta tomar ciência – com ajuda profissional, se preciso for – da realidade, das idiossincrasias genuínas da natureza humana.

O Porvir

faltam4diasSegundo a tabela de mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em 2012, o homem brasileiro com a idade de quarenta anos em 2010 viverá, em média, até os 75,1 anos e aquele com os mesmos quarenta em 2011 viverá até os 75,3. Fazendo-se um extrapolação linear desse crescimento, uma vez que o IBGE ainda não divulgou os dados do ano passado, o homem de quarenta em 2012 viverá 75,5 anos. Atualmente, isso significa que um ser humano do sexo masculino, nascido no Brasil em 1972, desfrutando, na sua plenitude, da complicada idade do lobo, tem pela frente 45,6% de sua vida. Portanto, esses primatas, dotados de sofisticado raciocínio lógico e de um polegar opositor, já usufruíram mais da metade de sua história no planeta Terra. Ao subconjunto deles, composto por amantes da Literatura, do qual faço parte integrante, restam-lhe menos de 34,5 anos de leitura, uma vez que nem mesmo o leitor mais desocupado consegue ler ininterruptamente. Consideremos que esses tais aficionados lerão, em média, três horas por dia durante trinta anos. Há, portanto, uma janela de tempo de 4 anos para leitura ininterrupta. Em um romance, há em média 120.000 palavras. Assim, esses ávidos leitores, hoje quarentões, lendo uma média de 170 palavras por minuto, consumirão, até se tornarem setuagenários, por volta de 3.000 romances. Caso haja, dentre os indivíduos citados, alguns deles cujas quantidades de títulos ainda por ler em suas bibliotecas particulares já tenham ultrapassado o correspondente à esse número, eles precisarão começar a fazer escolhas cruéis, ou então se fiar na teoria de vidas futuras que reencarnam: interessante perspectiva que ensejaria a prática da leitura por um mesmo espírito – é apenas através dele que se absorve Literatura – até o fim dos tempos. Embora altamente impreciso, o resultado de toda essa aritmética tranquilizou-me sobremaneira, pois, sendo um cético contumaz à teimosa reincidência da alma à vida terrestre, constatei satisfeito que, nas condições da previsão do IBGE, terei tempo de sobra para apreciar minha humilde biblioteca no seu volume atual e também continuar adquirindo compulsivamente mais livros, com a possibilidade real de conseguir lê-los. Alguns diriam que essa minha tranquilidade diante de tão débeis suposições é descabida, sendo fruto de arrogância, de prepotência, uma vez que o futuro e a onipotência à Deus pertencem. Os religiosos mais extremistas diriam que é pecado venial porque tal sensação de segurança, embora inconsciente, é como querer se igualar ao Todo-Poderoso; cogitariam a hipótese de que eu, imerso nessa autoconfiança profana, poderia ser acometido por uma síncope letal a qualquer momento, até mesmo durante minhas leituras. Sou obrigado a concordar, em certa medida, com a ideia do pedantismo; talvez seja isto mesmo: lá no fundo de minha mente perturbada, agrada-me a ilusão de ser o dono do meu futuro. À superfície, tenho plena consciência de que o porvir é praticamente incontrolável; digo “praticamente” porque há algumas certezas: na hipótese da tal síncope durante a leitura, por exemplo, é absolutamente certo que eu não estaria segurando um livro do “blue eyes” Chico Buarque de Hollanda – “escritor” que precisa estar em Paris para se inspirar -, nem do imortal Paulo Coelho – considerado persona non grata à feira literária de Frankfurt 2013 – e de outros congêneres.

Uma carta ao Lance

(English Version)

Querido Lance,

Entre as pessoas com as quais eu costumo conversar aqui, há um tal Machado. Outro dia, revelei a ele a ansiedade que me aflige quando penso na incerteza do meu destino, quando vagueio pelos caminhos desse lugar estranho e agradável, belo e incompreensível, calmo e misterioso. Meu atencioso confidente argumentou que é inútil tentar desvendar o mistério, essa estrutura de duas faces, onde coabitam vida e morte.
– Estivemos de um lado, agora estamos do outro. – disse ele.
– E então? O que vai acontecer comigo nesse lado? – perguntei.
– Você tinha essa resposta quando estava lá?
– Eu só sabia da morte.
– Pois aqui nos retiraram até essa certeza.
Devo confessar que tais conversas me trouxeram um pouco de conforto e paciência para essas longas horas de espera. Quando não estou com ele, caminho sozinho, cabisbaixo, refletindo intensamente sobre a estrada tortuosa que trilhei na minha primeira etapa, no primeiro lado do mistério, segundo o meu amigo. Por algum motivo que sinceramente desconheço, adquiri nesse lugar uma certa clarividência sobre mim, sobre a forma como costumo me relacionar com o que está ao redor. Embora essa nova característica tenha me colocado a par das minhas limitações, próprias de alguém que olha apenas para si, ainda me é difícil ficar em paz comigo mesmo. Dessa inquietude, nasceram arrependimentos sinceros, não daqueles que sufocam, que nos obrigam a pedir desculpas desesperadamente, mas que me fizeram olhar para trás e enxergar que, mesmo dominado por aquela triste ignorância, eu poderia ter agido diferente, poderia ter dado ouvidos à voz interior que me sugeria um outro rumo, um outro destino e que, hoje, me acusa. Em relação a você, ao pequeníssimo tempo que vivemos juntos, há muito desse incômodo sentimento de perda, de ter valorado o efêmero, de ter desprezado o amor sincero, de ter passado mais tempo comigo mesmo, cego e surdo à realidade, blasfemando contra a inesperada condição de pai. Para a minha grata surpresa, nesse lugar bastante diferente do paraíso e do inferno que concebemos em vida, tenho vivenciado essa dor de uma maneira tranquila e compreensiva; algo que meu amigo Machado qualificou como maturidade. Ele me assegurou que eu estava pronto para aquilo que viria: deu-me um lápis, uma borracha e duas folhas brancas, sem pauta, sem restrições. “Seria bom que escrevesse para ele”, disse o meu amigo.
Lance, não é minha intenção tentar mudar sua opinião a meu respeito: primeiro, porque acredito que esteja correta e, segundo, porque ainda age nessa minha mente atordoada uma significativa quantidade de orgulho. Gostaria apenas de revelar minhas impressões sobre o que tem acontecido com você nesses últimos meses. Uma diferença brutal entre o meu mundo e o seu é a possibilidade de podermos assistir, eu e essa legião de almas andarilhas, por breves momentos, o que acontece aí do outro lado. Vou começar dizendo do enorme orgulho paternal que me invadiu quando assisti a entrevista, e em especial a motivação para tê-la concedido. Penso na enorme coragem que teve para revelar a sua face sombria, própria de todos nós, àquela astuta entrevistadora, que menosprezou quase tudo que você disse. Penso na angústia que lhe acometeu ao perceber que invadira espaços, que ultrapassara fronteiras, que desqualificara cinicamente a honestidade de seus acusadores, que se aproveitara, de uma maneira vil, da inocência de seus defensores. Penso na sua dificuldade em preservar quem feriu e ao mesmo tempo escancarar-se, diante de uma câmera de TV, à paladina dos bons costumes. Penso na sua sinceridade ao dizer dos impulsos que lhe fizeram tomar rumos auto-destrutivos, de que eles ainda estão presentes, contra os quais você vem travando, no divã de um analista, incessante batalha para tentar domá-los. Penso no prazer que tem pela sua profissão, na ânsia de dar um novo sentido a ela, voltando a competir honestamente. Penso em como ainda é duro consigo mesmo: marcou-me o momento no qual qualificou egoísta sua intenção de se valer da entrevista também para tentar retornar ao trabalho, para exprimir sua indignação contra ao que chamou apropriadamente de “pena de morte”. Há egoísmo nesse interesse tanto quanto há na sua vontade de pedir perdão: o ser humano é egoísta; pensa primeiro em si e depois nos outros; somos assim. Temos o hábito de rotular, de enquadrar, de definir, simplificar tanto coisas quanto pessoas, porque alguém, um dia, julgou mais fácil analisar grupos do que indivíduos. Doutrinados nessa atitude cômoda ao longo da vida, não temos a percepção de que cada um é único e passamos, na maior parte do tempo, a qualificar os outros: alguns, como a sua entrevistadora, o fazem de maneira profissional.
Permita-me então, Lance, um atrevimento, uma ousadia: permita-me defendê-lo. Você não precisa, eu sei, pois se tornou alguém extramente corajoso; uma característica que não recebeu do meu DNA. Nessa rara oportunidade que me foi concedida, preciso tomar, também egoisticamente, ao menos uma vez, uma atitude paterna. Como o ciclista mentiroso já está sendo adequadamente imolado, quero defender o Lance ser-humano, desejoso de reparar, de pedir perdão, defender o homem trabalhador, pai de cinco filhos, marido, sobrevivente do câncer, filho solitário, órfão de pai, órfão de pai, órfão de pai… Permita-me dizer da hipocrisia do “American Way of Life”, do moralismo barato e pernicioso que impera naquilo que se chama opinião pública norte-americana, da qual a afamada apresentadora Oprah Winfrey é um dos seus porta-vozes, um dos seus ícones. Sempre ruidosa e histérica, a plateia dessa que te entrevistou espera assistir a um show, a um espetáculo, se possível a um circo de horrores, no qual saracoteiam o belo e o bizarro, o santo e o profano, o mocinho e o bandido, o canalha e o humanitário. Ela precisa ver você, precisa ver o mundo por essa ótica binária, que o divide em certo e errado, em bons e maus, porque assim qualquer história fica mais compreensível e palatável à plebe. A ardilosa entrevistadora, ao criticar reiteradamente o cinismo do entrevistado exibindo antigas entrevistas, não conseguiu esconder o seu próprio cinismo, o que estampava nas suas feições, em seus trejeitos sempre desconfiados. Mas não é apenas dessa hipocrisia oportunista que desejo lhe defender:  a sociedade que te aponta o dedo, dotada de um canhestro senso de justiça, é a mesma que se recusa a assinar protocolos de redução de gases tóxicos, é a mesma responsável pela enorme crise econômica mundial que se instalou, é a mesma que usurpa países autônomos, que faz e financia guerras, que apoia golpes de estado, que tolera a venda indiscriminada de armas. Por que essa sociedade, que aceitou atônita e boquiaberta as mentiras deslavadas do governo para a invasão do Iraque, resolve virar-lhe as costas por conta de suas mentiras? Por que ela decidiu banir para sempre de sua profissão um órfão que precisava desesperadamente mostrar à alguma figura paterna que podia, sem ela e a qualquer custo,  vencer, que podia ser alguém  autônomo, independente, bem sucedido? Por quê? Porque você frustrou o narcisismo coletivo, Lance. Você frustrou a infalibilidade do homem norte-americano: essa triste concepção que ilude nossas mentes desde muito cedo. Você se revelou um ser humano, frágil, de carne e osso; algo para o qual os seus idólatras não estavam preparados. Assim, concreto, vejo você mais claramente e te percebo mais adulto, mais consciente de si próprio e da realidade do mundo.
Aqui, enquanto escrevo, percebo a vibração, o tráfego de seres desesperados, desses corpos disformes procurando o inconcebível, desses olhos opacos perscrutando o vazio, esperançosos por notícias concretas, por um mísero fiapo de certeza a respeito do destino. Devo dizer que estou um pouco mais sereno para lidar com todas essas dúvidas: acreditávamos piamente que, nesse ambiente aprazível, nos seria concedida a paz, mas começo a crer que não é bem assim que as coisas funcionam por aqui: acho que iniciaremos um novo processo, lento e difícil, do qual dispomos de pouquíssimas informações. Pensando nessa angústia que nos contamina, lembro-me do conselho que lhe deram: “A verdade vos libertará”. Que verdade é essa, Lance? Onde está ela?  Não consigo encontrar resposta para essa pergunta e ninguém a tem por aqui. O que temos, o que ganhamos foi um pouco mais de despojamento de nós mesmos, uma percepção um pouco mais aguçada do que está à nossa volta, do imaterial e do concreto. Sim, Lance, agradeço por não terem retirado desse novo universo a matéria, essa massa palpável, limitada no tempo e no espaço. Por isso, continuamos nos cumprimentando, nos abraçando, nos beijando. Também não nos privaram dos objetos: eles estão por toda parte, à nossa disposição. Um dia desses, andei numa bike veloz e sonhei contigo.

Eddie Gunderson
(1953-2012)

Duna

JanelaLembro-me do meu primeiro semestre na faculdade e de suas tardes quentes de domingo, quando eu abria a janela do meu quarto alugado. Tratava-se de um dos cômodos da casa de uma família conhecida, onde moravam pai e dois filhos, que se repartiam em outros dois quartos. Não se poderia afirmar categoricamente que era uma residência suntuosa, mas também não era simples. A vizinhança era realmente nobre e o bairro ficava afastado da cidade ruidosa. Graciosamente custeado pelo meu pai, a um preço bem abaixo do valor de mercado, o quarto onde me instalei tinha cama, criado-mudo, armário embutido, escrivaninha e um banheiro próprio: era pois, uma suíte mobiliada. Logo nas primeiras semanas de aula, notei que essa minha situação domiciliar, comparada à dos meus colegas, colocava-me numa condição similar a de um membro da realeza britânica, com o conforto e bem-estar que a cerca, mas sem a cafonice que lhe é peculiar. De qualquer forma, sentia-me constrangido toda vez que um colega, mal alojado em alguma república pestilenta, perguntava sobre algo relativo à minha moradia. Se fosse possível eu desconversava, senão mentia: não me agradava o fato de ser erroneamente classificado como um “barão”, obsoleta terminologia, muito utilizada na época, para se referir aos financeiramente afortunados. Um dos membros da família que não ocupava espaço na casa propriamente dita, mas residia numa edícola nos fundos do terreno, chamava-se Duna. Quando trancafiada, sua casinha parecia sufocar-lhe, dadas suas dimensões descomunais: aquela dobermann preta, de pelo liso e maravilhosamente reluzente, suplantava significativamente os padrões de tamanho considerados para sua raça e gênero. Pouco antes da minha chegada, ela havia sido submetida a uma intervenção cirúrgica para a retirada do útero, evitando que o câncer nessa região, diagnosticado prematuramente, se alastrasse. Não era certo dizer que ainda fosse uma mocinha na flor da idade, pois já havia tido algumas ninhadas e os donos acreditavam que sua acuidade visual, já não muito boa devido às características intrínsecas da raça, estivesse ainda mais comprometida, particularmente à noite, período em que ficava solta. Confesso que nunca me senti à vontade perto de cães e, logo nos meus primeiros dias ali, percebi que Duna padecia desse mesmo desconforto em relação aos seres humanos, incluindo seus donos, aos quais desobedecia sem a menor cerimônia. Quanto a mim, um ser humano novato perambulando em seu território, devo dizer ela não foi muito receptiva quando fomos apresentados: latiu agressivamente o tempo inteiro e ignorou sumariamente o pedaço de comida que me permitiram jogar para ela. Lembro-me dos seus olhos arregalados fitando os meus, enquanto apoiava suas patas dianteiras da grade de metal; postura que a elevava a uma altura amedrontadora. Quando voltávamos de uma saída noturna, o procedimento era o seguinte: o dono saia do carro, antes de abrir o portão da garagem, aproximava-se da porta de entrada e esperava que Duna também se aproximasse para identificá-lo. Uma vez que isso ocorresse, ele abria a porta, entrava na casa e, a duras penas, trancafiava a enorme cadela no seu casebre, quando então entrávamos com o carro. A impressão que me ocorria toda vez que assistia essa cena é que nós, seres de uma espécie dita evoluída e soberana, estávamos a mercê daquela fera canina, subjugados ao seu poderio. Com o tempo, meu desconforto com cachorros, transformado em pavor, não me permitia tocar com os pés fora da casa sem averiguar com segurança que Duna estava presa. Dentro de casa, entretanto, sentia-me aliviado e seguro, dado que havia um monstro negro do lado de fora para nos proteger de visitas indesejadas. Assim, tranquilo, enfurnava-me no quarto para estudar, principalmente nos domingos que iniciavam uma semana de provas, incluindo os tórridos, desprovidos de um brisa sequer, característica marcante dos calores de Uberlândia. O mormaço obrigava-me transladar a escrivaninha para perto da janela que, aberta, conferia-me uma falsa sensação de frescor. Certa vez, absorto na obtenção de uma derivada complicada, senti jactos repetitivos de ar quente na região que se costuma denominar popularmente de cangote e, numa reação de susto, virei a cabeça para esquerda, na direção daquela estranha fonte de ar: pude constatar então, taquicárdico e perplexo, que Duna me observava, que devia estar me observando estudar já há algum tempo, pois aquela cara grande que se apresentou diante de mim lembrou-me vultos que percebi, momentos antes, para os quais a concentração matemática não me permitiu atentar. Para a minha grata surpresa, após assistir ao meu susto e perceber o meu medo, ela continuou quieta como estivera: eu acreditava que, nessas circunstâncias, ela ficaria bastante indócil. Então, ali estava eu, estático na cadeira, olhando para ela, com as patas dianteiras no peitoril da janela e o focinho a poucos centímetros do meu. Com o passar do tempo, o medo deu lugar a um fiapo de consciência e pude notar que embora a altura da janela dificultasse um ataque, não o impediria, caso Duna estivesse realmente disposta a me ferir. De alguma forma, aquela figura corcunda, debruçada sobre uma mesa, pareceu-lhe inofensiva e então ela resolveu, cordialmente, tomar a iniciativa para estabelecer uma comunicação. Afastei-me vagarosamente da janela e, à uma distância que me pareceu segura, resolvi retribuir com palavras sua manifestação amistosa; algo que, aparentemente, ela julgou insuficiente, permanecendo como estivera: quieta. Lembrei-me então das guloseimas que costumava guardar no armário: naquela época, longe do seio materno, o chocolate serviu-me como um refúgio doce e nutritivo. Toda sexta-feira, ao voltar da escola, eu passava nas Lojas Americanas, no centro da cidade, e comprava barras variadas, nas cores negra e branca. Naquele momento em que precisava retribuir a benevolência de Duna, desrespeitando as recomendações expressas de não alimentá-la com doces, destaquei dois tabletes de uma barra de chocolate meio-amargo Nestlé e joguei pela janela. Ela então desceu, engoliu os tabletes de uma vez e retornou ao peitoril com um expressão diferente: sua ansiedade era perceptível e pareceu-me evidente que havia gostado do quitute. Após jogar mais alguns tabletes, aquela fera já subia na janela abanando o arremedo de rabo, próprio da raça; fato que me fez ficar orgulhoso de mim mesmo, daquela experiência nova de conseguir conquistar alguém. Duna então acostumou-se a subir naquela janela e eu me acostumei a reservar parte de minhas barras para ela: a cadela havia se tornado chocólotra como eu. A partir daí, nossa relação evoluiu, atingindo o ápice quando passeamos juntos, sozinhos, pela vizinhança: quem conduziu o passeio foi ela, puxando-me o tempo todo pela coleira. Terminado o semestre, resolvi então deixar aquele meu quarto principesco para habitar uma honesta república pestilenta. Seis meses depois, com enormes saudades, fui visitar minha amiga, animado pela informação de que os cães nunca esquecem seus benfeitores. Quando aproximamos de sua edícola, eu e os donos nos surpreendemos com a reação de Duna: eu havia me tornado novamente um estranho em seu território.

Discordâncias

Basic-EconomicsAcredito que esta seja a primeira vez que leio um livro técnico do qual discordo quase completamente. Devo dizer que essa novidade é uma experiência ímpar: acostumado com livros de matemática, onde há muito pouco do que se discordar, vejo como um progresso da minha débil autenticidade confrontar a  pequena coleção de opiniões próprias que disponho com a sapiência de um acadêmico da Universidade de Stanford. O título do livro é Basic Economics: a common sense guide to the Economy, escrito pelo economista americano Thomas Sowell, fervoroso adepto do chamado livre mercado. O autor prega que um mercado só é livre quando não há intervenção de espécie alguma no mecanismo de preços; mecanismo esse que, regido pelas leis da oferta e da demanda, confere o devido valor a cada produto ou serviço comercializado, resolvendo, de maneira definitiva, o problema econômico: a correta alocação dos escassos recursos disponíveis para uma determinada sociedade. A partir dessa verdade, que coloca repetidamente ao longo do texto, Sowell defende com unhas e dentes que o tal mecanismo é algo perfeito e, portanto, intocável; que qualquer tentativa de regrá-lo provocará privilégios e desigualdades; que, diferentemente da lei da gravidade, a flutuação livre dos preços, fundamento do Capitalismo, não pode ser desafiada; que eventuais regramentos infratores desse dogma divino podem colocar, em última instância, uma nação inteira em crise recessiva. Aguardo, com certa incredulidade, o redentor capítulo do livro onde o autor pousará os pés no chão e apresentará exceções à sua abstração. Por enquanto, flutuando em seu mundo fictício, Sowell insiste em afirmar que cartéis e monopólios são fenômenos raros; que o cidadão pode facilmente substituir o alho pelo bugalho, evitando submeter-se a um produtor único; que agências reguladoras são sempre maléficas; que ganância e Capitalismo são incompatíveis; que competência administrativa é a única causa do sucesso das grandes corporações; que a prática do “dumping” é algo intrínseco aos processos do mercado e estimulante da concorrência; que falências e quebradeiras generalizadas produzem efeitos saneadores, revigorantes e outras impropriedades do gênero. Apoio minhas discordâncias não no meu conhecimento de Economia, que é pobre, como os países do terceiro mundo, mas no dia a dia do mundo real, na existência da OPEP, no serpear dos lobistas pelos corredores do poder, no envolvimento de grandes empresas como a IBM em escândalos de corrupção, na crise econômica mundial de 2008 e o consequente recrudescimento da regulação pelos Bancos Centrais, bem como outros fatos concretos que se opõem à etérea teoria do nobre professor de Stanford. Se o homem não dispõe de pudor para desequilibrar os ecossistemas da Terra, algo que os americanos sabem fazer como ninguém, por que haveria de tê-lo para controlar um mero construto da mente humana, o mercado? Não vejo o livre mercado que o dr Sowell tanto defende como uma força natural intocável ou como um mandamento religioso, ao qual devemos nos submeter passiva e obedientemente; não é algo isento de distorções e problemas. Em prol do ser humano, há que se preservar racionalmente seus muitos benefícios e aliviar seus muitos malefícios, interferindo direta e deliberadamente nos seus movimentos. Apesar dessas dissonâncias, confesso que estou gostando do livro, porque me instiga o confronto, o embate de ideias; ações para as quais preciso sair do meu conforto e da minha alienação; para as quais preciso estudar e me informar. Lendo textos como o do dr Sowell, percebo cada vez mais clara a desnecessidade de me posicionar ideologicamente, muito embora alguns encarem isso como “ficar em cima do muro”. Para esses, cuja ânsia por rotular é algo fisiológico, digo então que sou um anarquista de extrema direita.