Cooperação

cooperacao– Quantas horas são? – perguntou a mãe dele.
– São três e meia da manhã. – respondeu o pai dele.
– Que barulhada é essa?
– São eles.
– Meu Deus, mas o que é isso?
– Sexo selvagem.
– Precisam grunhir assim?
– Pensa que é simulação?
– Só pode ser!
– Creio que não. Tá ouvindo também os tapas?
– Tapas? Nele ou nela?
– Como é que vou saber?
– Não podemos mais convidá-los para dormir aqui.
– Por quê?
– Os vizinhos vão pensar que somos nós.
– Pois eu espero que sim! Minha reputação ficará em alta!
– Ouça! Agora pararam de gritar! Ufa!
– Devem estar com as bocas ocupadas.
– Finalmente um romântico beijo na boca.
– Pela animação anterior, não creio que seja isso.
– O que acha que estão fazendo então?
– Aquilo que você nunca gostou de fazer.
– Um no outro simultaneamente?
– Trabalho cooperativo, minha velha! Trabalho cooperativo!

Auditoria

celular – Intrigou-me a chamada de um número desconhecido para o seu celular. – disse ela.
– Não me lembro de qualquer ligação diferente nesses dias. – disse ele.
– Sabendo que tal esquecimento aconteceria, ainda há pouco recorri novamente ao dispositivo.
– Conseguiu o número?
– Surpreendentemente não. O registro das chamadas está agora vazio.
– É verdade! Costumo apagá-lo de tempos em tempos.
– Posso saber o motivo dessa prática saneadora?
– Evitar travamento do aparelho por saturação de memória.
– Lamento informá-lo do baixo nível de credibilidade dessa tua resposta.
– Posso perguntar a razão da auditoria?
– Venho notando um certo desinteresse da tua parte. No sábado, ele ficou evidente.
– Só porque não concordei com aquela posição?
– Era algo que me parecia perfeitamente factível.
– E que com certeza me provocaria uma dolorosa crise de ciático.
– Você continua pouco convincente. Devo relembrá-lo que aventuras com terceiros sem um acordo prévio constituem traição.
– Embora absurda tal acusação, seu ciúme é uma surpresa. Devo eu regozijar-me ou preocupar-me?
– Preocupar-se.
– Por quê?
– Nesse estado, sou inundada por pensamentos perversos, homicidas.
– Entendo…Como faço para me tornar crível?
– Neste exato momento, ocorre-me o sexo selvagem.
– Entendo…Saberia me precisar quão selvagem?
– Não.

Combinação

– Hoje você foi selvagem! – disse ele.Sufocado
– Quis te fazer de objeto. – disse ela.
– Alguma razão especial?
– Não. Puro egoísmo.
– Pois é… Você ficou por cima o tempo todo!
– Fiquei sim. Algum problema?
– Você se esqueceu que eu preciso respirar.
– Peço desculpas.
– Vamos combinar assim: da próxima vez, quando eu estiver sem ar, vou te dar um tapa bem forte no seu glúteo esquerdo. Aí você para e sai de cima do meu rosto imediatamente.
– Quer fazer eu parar de calvalgar com um tapa?
– Isso!
– Vai morrer sufocado.

Alucinações

Não há melhor exercício para a elevação da autoestima feminina do que transitar pelas dependências de uma faculdade de Engenharia Mecânica; melhor até do que passar por um canteiro de obras. A escassez acentuada de mulheres torna o ambiente insalubre, poluído pelo excesso dos odores produzidos pela testosterona. Há um clima de aridez, próprio das regiões desérticas, e uma paisagem repugnante, monótona e sem cor. O aluno, peregrino nessa terra seca e arenosa, quando se depara com uma moça de contornos minimamente definidos, alucina e julga ver Juliana Paes. O caminhar daquela criatura maravilhosa, que ingenua e inadvertidamente passeia pelo local, o inunda de ansiedade e estranhos fenômenos oriundos da região pélvica passam a incomodá-lo. Ele vê que outros colegas, igualmente ansiosos, começam a rodear a única fêmea-alvo da região e se irrita. Pensa em brigar pelo que já era seu, mas percebe-se um idiota, um macho desesperado numa cena selvagem do Animal Planet. Constrangido, ele recua e volta a peregrinar. Bem mais à frente, uma outra, também de contornos retilíneos,  passa por ele e se transforma repentinamente, diante de seus olhos, na Paula Fernandes.

Receituário

O “psicanalista selvagem” Georg Groddeck, já citado aqui no Extrato, disse que dor lombar em mulheres é manifestação somática de insatisfação sexual; resultado de uma espécie de revolta do id. Ele explica que a região é responsável pelo principal movimento do prazer feminino, o vai e vem que define o cavalgar da mulher no homem. Eis um exercício que deveria fazer parte integrante do receituário fisioterapêutico: tanto elas, amazonas, como nós, mangas-largas marchadores, seguiríamos o tratamento com afinco.