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Posts com Tag ‘psicanálise’

Interpretação

pevearO laureado tradutor norte-americano Richard Pevear, célebre por verter para o inglês clássicos da literatura russa em parceira com sua dedicada esposa Larissa Volokhonsky, também russa, disse certa vez que traduzir é fundamentalmente interpretar. Tal qual o ofício de ator, o tradutor elabora a partir do texto original o seu entendimento particular, a sua visão da obra e os transcreve ao seu público-leitor. Nesse ato de interpretação, o tradutor deve buscar aquilo que acredita ser a versão mais próxima possível de um obra imaginária, escrita pelo próprio autor na língua-destino. Na prática, o casal Pevear & Volokhonsky, ao assimilarem um texto de Dostoiévski, por exemplo, procuram reproduzir em palavras tudo aquilo que absorveram, como se Dostoiévski fossem, um Dostoiévski tão fluente na língua inglesa quanto na russa. Por mais interessante e criativa que se considere essa abordagem do trabalho de tradução, devo dizer que discordo respeitosamente do eminente tradutor quando ele reduz traduzir a interpretar, quando considera que a instância final da tradução é a interpretação. Acredito que a segunda seja condição necessária, mas não suficiente para a primeira, pois junto com o interpretar, deve estar presente, com o mesmo nível de importância, o analisar: a incorporação imaginária de um autor não deve se sobrepor à capacidade analítica da pessoa do tradutor, do seu senso de realidade. Quero dizer que, no ato de verter, existe o autor interpretado, ficcional, obra do inconsciente mas há também o tradutor real, sua consciência, apta a raciocinar, a tomar decisões e inibir, se for necessário, eventuais impropriedades geradas no imaginário. Neste ponto, a similaridade com a dinâmica psíquica apregoada pela Psicanálise é evidente, mas devo confessar que não foi essa minha intenção, pelo menos a consciente. De qualquer forma, eu entendo as coisas assim: uma vez apreendido o seu contexto, não há muita margem interpretativa para verter para o português, por exemplo, uma frase como “I’m hungry!”; e não é a simplicidade dessa exclamação que reduz as possibilidades para a tal interpretação, mas sua proximidade estrutural com o português “Estou faminto!”. Em circunstâncias mais complexas que esse exemplo simplório, essa proximidade precisa ser avaliada pela faculdade analítica do tradutor, utilizando todo o seu vocabulário da língua destino. Por causa disso, considero um bom tradutor aquele que conhece bem a língua origem e muitíssimo bem a língua destino, pois é justamente essa última que ele pode manipular. Em termos genéricos, eu acredito que a utilização da capacidade interpretativa cresce, sem prejuízo de outros fatores, com as diferenças estruturais das línguas origem e destino: entre o russo e o inglês, por exemplo, as distâncias são grandes, bem maiores que as distâncias existentes entre o inglês e as línguas latinas. Eis por que o nosso felizardo tradutor Richard Pevear – residente em Paris, casado com uma Mystery_of_Marie_Rogetliterata russa, bem pago e premiado por suas traduções (que puta inveja a minha!) – considera tão intensamente o ato da interpretação. Para conferir qualidade ao seu trabalho, ele, com razão, precisa interpretar os autores das obras russas que traduz; muito mais do que este blogueiro metido a sabichão – bisonho tradutor brasileiro, ignorado pelas editoras – ao verter para o português textos como os do grande Edgar Allan Poe. Por falar nisso, após um esforço hercúleo das minhas pífia capacidade interpretativa e razoável capacidade analítica, disponibilizei no menu “Trabalhos/Tradução”, submenu Edgar Allan Poe, a versão para o português de mais um conto, o segundo, da chamada trilogia Dupin, intitulado O Mistério de Marie Rogêt; agora, só falta um para completar Os Três Contos do Cavalheiro Auguste Dupin!! Como é peculiar aqui no Extrato, seu autor não é nada modesto e anuncia, desde já, que conseguiu produzir a melhor tradução desse conto para a língua portuguesa.

Casas de Verão

sheepA Etologia nos ensina que certas espécies de animais têm a invejável capacidade de se ausentar do mundo exterior, recolhendo-se em suas cavernas acolhedoras para assim iniciar um prolongado estado letárgico, período em que seu metabolismo cai drasticamente. Em outras palavras, trata-se de um sono longo e profundo, cujo objetivo é garantir a própria sobrevivência e por conseguinte a de sua espécie, seja evitando a hostilidade do clima ou dos implacáveis inimigos predadores. Quando querem evitar o frio intenso, diz-se que esses animais hibernam; quando evitam o calor tórrido, diz-se que entram em estivação. Dentre aqueles que hibernam, os mais notórios são os da espécie Ursus Maritimus – vulgo urso polar – enquanto a estivação é bem exemplificada pelo comportamento dos moluscos pulmonados – os singelos caracóis. Nos anais da Ciência, não há registro de seres da espécie Homo Sapiens Sapiens hibernando ou estivando. A razão mais difundida é a seguinte: esses animais “evoluíram’’ de macacos africanos habitantes de regiões onde as temperaturas não eram extremas; fato que tornou absolutamente desnecessário o citado estado letárgico. Entretanto, com a vênia devida aos nobres homens da Ciência, quero contestar essa explicação simplificada afirmando categoricamente que no mesmo intuito de se proteger de um ambiente de extrema hostilidade, o homem também é capaz de se amodorrar por longos períodos, juntando-se à turma dos ursos e caracóis. A fim de balizar essa contundência, quero revelar em primeira mão que as manifestações orgânicas deste blogueiro – indigno representante da tal espécie Homo Sapiens Sapiens – julgaram, em determinado momento, um ambiente altamente hostil aquele que se estabeleceu na última eleição presidencial brasileira e assim resolveram colocá-lo numa espécie de alienação profunda, período em que sua parca vontade de interação com o mundo exterior hibernou; ou melhor, estivou, porque o aborrecido escrevinhador que traça estas linhas prefere o frio ao calor. Nesses modos, ficou ele durante muito tempo com seus livros e seus estudos; imerso no fantástico mundo da Literatura, perdido nos intrincados caminhos da Psicanálise. Se isso tudo o satisfazia, o que o motivou então a sair da toca? O que o tirou do seu conforto e o fez enfrentar a dura realidade de um novo governo Dilma, de uma velha oposição liderada por Aécio, da imprensa “livre’’ que antecipa edições de revista e esculhamba a religião dos outros, do terrorismo em nome de Deus, da falta de água, da falta de luz, da falta do Chavez (o mexicano), das redações do Enem, da superexposição de alguém queimado vivo? Respondo: a vontade incontrolável de tecer comentários sobre um certo livro, uma obra prima. Começo então dizendo que, certo dia, ocorreu-me a ideia de reler um dos notáveis romances da chamada Literatura Brasileira: Vidas Secas (1938), do turrão Graciliano Ramos (1892-1953). Esse eminente escritor nordestino, que nunca conheceu os escritos de Marcel Proust por não admitir ler veados (terminologia dele), é um dos expoentes do chamado romance regionalista, tão exaltado por professores e intelectuais de esquerda. Ao terminar o livro, concluí que um pouco de Proust não teria feito mal algum ao homofóbico autor alagoano: num estilo simplório e maçante, ele narra as previsíveis desventuras de uma família de retirantes, formada por um homem obstinado, uma cachorra, uma mulher insatisfeita e seus filhos maltratados. Devo dizer, entretanto, que o tema levantado pelo desinteressante Vidas Secas é para mim bastante atrativo: a exemplar tenacidade do homem rústico, alheio, por desinformação ou repúdio, à alta instabilidade do mundo urbano. Procurando, ou melhor dizendo, fuçando pela incrível Internet algum outro romance regionalista notável, deparei-me com o título Gente Independente, do autor islandês Halldór Kiljan Laxness (1902-1998), AR-703019967merecidamente laureado com o prêmio Nobel de Literatura em 1955. Resolvi então adquiri-lo de imediato, uma vez que há ainda exemplares disponíveis em Português, lançados pela editora Globo. Aconteceu que comprei o livro sem folheá-lo antecipadamente, na sortida Lojas Americanas, e fui descobrir que se trata da tradução de uma tradução somente após abrir a encomenda. Como não me agrada ser duplamente ludibriado, uma vez que, segundo os italianos, “Traduttore, Traditore” (Tradutor, Traidor), adquiri a tradução inglesa Independent People (1946), sobre a qual a citada edição brasileira se baseou. Depois de uma angustiante espera, o livro finalmente chegou e ao tentar ler suas primeira páginas, percebi que meu inglês presunçoso não alcançaria os termos pouco convencionais utilizados pelo tradutor John Thompson. Se o tema que procurava era obstinação, adotei-o para minha procura e decidi só desistir da obra caso não houvesse outras traduções em inglês ou em português. Para a minha enorme satisfação, a editora lisboeta Cavalo De Ferro publicou em 2007 uma edição de Gente Independente, vertida com precisão para o português, direto do islandês, pela islandesa Guðlaug Rún Margeirsdóttir, tradutora que fixou moradia na cidade portuguesa da Figueira da Foz. Tão logo o livro chegou, após uma eternidade é claro, iniciei a prazerosa leitura que infelizmente terminou uns poucos dias atrás. Digo infelizmente porque Gente Independente, lançado no período de 1934 a 1935 em dois volumes, é o tipo de obra prima que, logo em seus primeiros capítulos, invade irremediavelmente a vida de quem a lê. Tal qual Vidas Secas, o livro também trata de um homem obstinado, uma cachorra, mulheres insatisfeitas e filhos maltratados. Diferente da obra brasileira, esse romance épico islandês traz, no estilo e no conteúdo, a preocupação de um escritor que busca retratar seus personagens muito além dos rótulos, dos estereótipos ou das posições ideológicas; eles não são apenas obstinados, apenas infelizes, apenas maltratados, rudes, humilhados: o protagonista Guðbjartur Jónsson, por exemplo, é alguém que não é possível qualificar, alguém indecifrável, quase real; sua filha Ásta Sóllilja carrega, num tom magistralmente poético, os dramas típicos da menina, da irmã mais velha, da mãe, da esposa, daquela que se põe a servir e a cuidar. Por detestar sinopses reveladoras, concluo dizendo que a história se passa no ambiente rural islandês, onde vivem camponeses e senhores de terra: os primeiros, trabalham de sol a sol, mesmo quando ele não aparece, e os últimos, auferem os dividendos. Nesse contexto, o protagonista busca colocar-se como alguém incompatível com esses dois grupos, alguém que insiste em se autodenominar independente. Alguns entusiastas dessa obra, os mais exaltados, afirmam sem muita relutância, que para a maioria daqueles que a lerem, ela seguramente figurará entre as “top ten” de suas vidas. Muito embora esses tipos de ranking não me impressionem e até denigram previamente uma obra ainda não conhecida, devo confessar aqui no Extrato, onde busco não seguir a trilha da manada, que me tornei mais um neste rebanho de leitores inebriados por essa belíssima história, mais um naquela malhada diligentemente velada por Bjartur de Casas de Verão.

À Mesa

chalaQuando Helinho chegou em casa com o canudo debaixo do braço, Dona V* sentiu um misto de orgulho e alívio. Inquieta, pensou consigo: “Quem sabe agora, longe das más influências acadêmicas, esse menino se emenda”. Para receber o filho bacharel, ela havia preparado, entre outros quitutes, um delicioso challah, a guloseima preferida do pimpolho, seguindo uma velha receita de seus antepassados judeus. Diante daquela mesa que sustentava inúmeros quitutes, Helinho empolgou-se e, tendo um generoso naco do citado pão divino – ou melhor dizendo, “pão apetitoso”, pois Helinho não crê em certos termos – a saracotear pela boca, anunciou:
– Mamãe, agora, após tantos anos de estudos, período dos mais profícuos em minha longa jornada discente, vou poder aplicar os conhecimentos adquiridos com a ajuda de tão nobres e eminentes mestres “uspianos”, sem falar nos valorosos pensadores, sobre cujas ideias construí as minhas. E tudo isso, Mamãe, veja bem! Tudo isso sem prejuízo de minha autonomia, de minha emancipação intelectual. Finalmente, praticarei esta ciência maravilhosa, que mudou radicalmente minha vida, lançando a luz inefável da consciência crítica aos quatro cantos deste nosso imenso país assolado pela ignorância, pela alienação, pela corrupção, pela mediocridade e tantas outras mazelas provocadas pelo subdesenvolvimento político, social, econômico, artístico, cultural e educacional… Cof, cof, cof… Advogarei com fervor as causas de minhas convicções, defenderei a liberdade do pensamento, questionarei os dogmas, insurgir-me-ei contra qualquer tipo de censura, polemizarei com o establishment reacionário, apontarei a idiotia do esquerdismo xiita, rechaçarei a tirania moral dos setores escravizantes da sociedade… Cof, cof….
Naquele momento, a mãe então o acudiu, batendo-lhe nas costas, rogando que interrompesse o arsenal de palavras sofisticadas que dissera, pois receava que pudesse se engasgar e também para evitar que seu discurso descambasse para um tema que havia sido razão de divergência entre os dois. Angustiada, ela ainda guardava em seu infinito coração de mãe cada palavra que Helinho proferiu alguns anos antes, sentado naquela mesma mesa, onde anunciou sua descrença inexorável em Deus:
– Eu li Schopenhauer, Mamãe! Li Nietzsche! Senti-me livre ao descobrir o mal causado pela repressão religiosa, que estreita e circunscreve a capacidade do agir, do pensar, do discernir, do raciocinar. Deus é uma ficção, Mamãe! Um artifício! Um subterfúgio! Louvo esta ciência eminentemente humana que me concedeu a clarividência, louvo estes autores iluminados, gênios do pensamento, ápice e glória de tudo o que se chama conhecimento.
Dona V*, que após tais palavras receava ouvir uma tediosa ode à Filosofia, sentiu-se derrotada e procurou convencer o filho, numa longa e cansativa discussão, de que talvez fosse possível conciliar a opção profissional com a crença no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob ou, pelo menos, na figura de um criador. Lá pelas tantas, quando percebeu a inutilidade de seus argumentos ante à intransigência do filho, resignou-se como toda mãe dedicada, vítima do tal amor incondicional. Recobrada dessas amargas lembranças e no intuito de dar um novo rumo à conversa que estavam tendo em companhia do canudo, a mãe perguntou:
– Tem alguma estratégia para levar a cabo todos esses planos profissionais?
– Pois é, Mamãe. Eu tava aqui pensando se o Papá conseguiria conversar com o Seu Frias para me arranjar uma vaguinha lá na Folha.
E assim se fez: Helinho tornou-se funcionário deste eminente diário paulistano. Ali, numa ascensão meteórica, dada a sua inteligência de asquenaze – inteligência que ele acredita ser geneticamente superior a de qualquer muçulmano – e uma profunda habilidade com as palavras, tornou-se aquilo que o jornalismo denomina colunista e dos mais renomados, daqueles qualificados pelos desavisados como polêmicos. Certo dia, novamente sentado à farta mesa de sua mãe, onde devorava um indescritível kugel de cenoura, Helinho foi submetido a um colóquio indigesto. Um considerável pedaço da guloseima atravessava o canal esofágico do colunista rumo ao seu estômago vazio quando, com aquela ternura própria de mãe, Dona V* disse:
– Meu filho, eu li aquele seu artigo sobre manifestações racistas.
– Mamãe, já pedi para que a senhora não leia o que escrevo. Fico encabulado! Constrangido!
– Mas meu filho, você é muito bom! Gosto de suas opiniões e do jeito que escreve!
– Obrigado, mamãe! Desculpe! Mas então? Gostou?
– O artigo está bem escrito, como sempre. Mas, você não acha que extrapolou um pouco?
– Não me preocupo muito com isso, Mamãe. Dentro do limite da responsabilidade, escrevo o que penso.
– Preocupo-me com você, meu filho. Receio que esse seu limite esteja excessivamente amplo. Lembra daquele artigo da Demografia do Nobel?
– Sim.
– Aquilo ali soou mal, meu filho! Chamaram de preconceito científico!
– Mamãe, eu apresentei números. Números são números: uma das ferramentas fundamentais do raciocínio lógico.
– Filho, você acredita que raciocinou da mesma forma no artigo do racismo?
– Não com números, mas com John Stuart Mill.
– Você acha que numa livre manifestação de ideias sobre esse tema, aqui no Brasil, os atores teriam poderes proporcionais?
– Sim!
– Vamos supor então um grande apresentador de TV ou qualquer bom comunicador declarando abertamente que não gosta dos negros.
– Já imaginei.
– Você acha que haveriam forças, forças emanadas de uma minoria negra, para lutar em pé de igualdade com o comunicador?
– Sim!
– Aqui no Brasil?
– Sim!
– Não minta, meu filho. Você não acredita nessa proporcionalidade!
– Como assim, Mamãe? Se digo que acredito é porque acredito.
– No artigo do Pastor e os Gays, você diz que o pastor Silas Malafaia não deveria se pronunciar quanto à cura gay.
– Eu disse que ele não deve se pronunciar na condição de psicólogo.
– Então na condição de pastor, ele pode?
– Sim!
– Usando seus programas de TV, seus programas de rádio, seus panfletos, suas revistas, seus CD’s, seus DVD’s, sua igreja?
– Humm… É….
– Você não acredita no que escreveu, meu filho! Se acreditasse, não lhe pareceria muito sensato mandar um pastor homofóbico calar a boca e, meses depois, pregar liberdade de expressão para milhares de racistas.
–  Mamãe, insinua que sou preconceituoso em relação aos negros?
– Não, meu filho. Desconheço as causas dessa diferenciação que você fez. Mas, de alguma forma, eu lamento ter te tirado da psicanálise. Talvez você mesmo já soubesse a reposta.
– Um filósofo não precisa de Psicanálise!!!!
– Filho, entenda! Essas suas ideias são muito bonitas, mas são fundadas apenas em teorias! O mundo real é diferente! A realidade não se submete à teoria: a realidade é a verdade!
– Mamãe, insinua que ainda sou inexperiente? Insinua que eu precise voltar ao banco da escola para aprender alguma coisa?
– Pelo contrário, meu filho! O problema é justamente este: você ainda está sentado no banco da escola! Nunca saiu dele!

Nota:
Essa pequenina obra de ficção é livremente inspirada no filósofo-jornalista-colunista ateu Hélio Schwartsman e naquilo que se pode considerar como sendo suas “ideias”.

Vida-Obra

freudCoachLi em algum lugar que não é possível separar a vida de alguém de sua obra, uma vez que a obra, seja ela qual for, é sempre, de alguma forma, produto da vida; fato que não impede que uma seja admirada e a outra rejeitada: as partes desse todo indissociável são portanto discerníveis. Entre outros fatores, o nível de tal discernimento sofre influência da natureza da obra, sendo mais alto naqueles trabalhos mais técnicos. Num contexto mais humano, pode ocorrer que a obra, antes admirada, fique, de certo modo, “prejudicada” ao tomarmos conhecimento de certos pormenores da vida que nos causam repúdio. Perante o arcabouço moral que nos sustenta, pode acontecer também que, em não se conhecendo vida e obra, uma eventual informação que desabone a primeira provoque fortes resistências para se conhecer a segunda. Nessas duas situações, vida e obra tornam-se uma massa monolítica indiscernível. Ambas encaradas assim, um contínuo homogêneo vida-obra, pode ocorrer que se admire com menos intensidade as pinturas de Caravaggio por conta de suas reiteradas práticas delinquentes e, em particular, do assassinato que cometeu; também é possível que resulte atenuada a sensibilidade nos escritos de Dostoiévski ao se saber que o autor russo, por ser viciado em jogo, viveu constantemente endividado, não lhe sendo possível sustentar dignamente a família até sua morte; pode-se afirmar ainda que as letras rebeldes das músicas de Caetano Veloso e sua patota estejam eternamente maculadas em virtude de que agora é “‘Proibido Proibir’, desde que não se trate de uma biografia não autorizada”; não seria um absurdo passar a ler a poesia de Drummond com um olhar menos encantado ao se saber que o escritor, chefe de gabinete do ministro da educação na ditadura Vargas, era preconceituoso em relação ao romance regionalista nordestino; pode ocorrer também que se repudie os textos humanísticos de Rousseau ao se tomar conhecimento de que o filósofo suíço abandonou num orfanato os cinco filhos que teve com sua amante. Até pouco tempo atrás, quando me acorriam à mente esses e diversos outros exemplos, certas palavras emergiam e ficavam impressas no fundo desta minha mente perturbada: moralismo, inveja, preconceito, hipocrisia. Junto com elas, surgia também uma espécie de revolta interior, de indignação, momento em que perguntas também pululavam: será que o pensamento crítico sempre precisa discernir vida e obra? Em prol de autonomia, é necessário aceitar a obra ainda que a conduta de vida do autor desagrade? Para citar um exemplo e ser menos abstrato, esse  conflito sempre me ocorre quando tento ler alguns dos numerosos textos do psicanalista italiano que atende pelo nome de Contardo Calligaris, particularmente aqueles sobre “vida a dois”. Esse afamado colunista do grupo Folha, para o qual sua conhecida reincidência em enlaces matrimoniais é uma virtude, não me soa crível quando fala ou escreve sobre esse assunto. A mim me parece que, atrás da fachada de satisfação que alega ter adquirido com seus diversos casamentos, há nesse pupilo de Lacan dificuldades em manter, de forma duradoura, um relacionamento conjugal: dos 18 ao 60 anos de idade, Calligaris desposou sete mulheres; feito que resulta uma média de 6 anos de vida útil por casamento. Se considerarmos esse número um padrão de comportamento, resta à sua atual relação pouco mais de 3 anos de sobrevida. Por falar nisso, dos diversos depoimentos desse psicanalista da burguesia paulistana, que não se furta em dar entrevistas sobre sua vida pessoal e cujo valor da sessão ultrapassa os US$400,00, pode-se concluir que o início do relacionamento amoroso com a atual esposa – atriz global e ex-mulher de galã – se deu quando ambos ainda eram casados e ela, na condição de analisanda. Esse tipo de interação que alguns analistas estabelecem, de ética altamente questionável, não é raridade na história da Psicanálise: o renomado analista indiano Masud Khan, especialista na teoria das perversões, costumava comentar abertamente, para quem quisesse ouvir, sobre as relações sexuais que mantinha com suas analisandas. Não estou afirmando que,  no caso de sua atual mulher, Calligaris tenha seguido à risca os passos do indiscreto colega indiano, muito embora, aos meus olhos muitas vezes severos, o analista que estabelece uma relação dessa natureza com o analisando, seja por qual forma ela ocorrer, coloca-se na mesma posição de um adulto que abusa de um menor, dada a diferença das capacidades psicológicas; diferença essa que é condição fundamental num trabalho verdadeiramente psicanalítico. Enfim, mesmo diante dessas peculiaridades que desabonam completamente, na minha particular avaliação, a vida-obra dessa nobre celebridade ítalo-brasileira, devo admitir que ainda não consegui me livrar do pensamento fixo naquelas quatro palavras que citei. Agora, ao final, refletindo um pouco mais sobre esse confuso texto que escrevi, pode ser que no afã de me tornar autêntico – esforço iniciado no divã de um excelente psicanalista ético – eu exagere um pouco, embrenhando-me demasiadamente em questões teóricas; atitude que me faz questionar, vez por outra e em vão, aquilo que há de mais simples: o gostar e o não gostar.

Criador

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Das pessoas mais próximas a mim, há algumas que se auto intitulam “ateus” e suspeito que ainda devam existir outras que dificilmente se disporão a fazê-lo, protegendo-se num discreto silêncio. Admiro profundamente a coragem das primeiras, pois ao falarem de sua descrença em Deus, envoltas numa evidente consternação, num visível embaraço, revelam – na maioria das vezes, inadvertidamente – o mais recôndito, o mais íntimo de si mesmas. Após muito chafurdar em minhas leituras psicanalíticas, descobri que esse tal embaraço do descrente não resulta apenas do receio de se colocar num grupo minoritário, sob o risco real de sofrer alguma espécie de preconceito, de julgamento, de repúdio pela maioria religiosa. Tenho para mim que o homem é, por natureza, um ser adorador: quando pequenino, adora a mãe; ao tomar plena consciência de sua individualidade física, passa a adorar a si próprio e assim, ao longo de sua vida, cumula-se de ídolos, desses objetos materiais ou imateriais que incessantemente venera. Nesse contexto, porque rejeita a concepção de um ídolo-criador, onisciente e onipresente, ou seja, de Deus, não se pode afirmar que o ateu não seja um idólatra: tal qual o crente, ele também elege para si um inumerável conjunto de ídolos particulares. Se ateus e crentes são igualmente adoradores natos, por que discordam em relação à existência de Deus? Acredito que a ideia desse ídolo-criador está intimamente relacionada com a figura materna, com aquela que cria e nutre. A crença em Deus é um desdobramento do processo de relacionamento com a mãe, do amor e ódio que se tem por ela: o ser humano que termina se afeiçoando pelo poder materno, crê na criação e, em determinado momento, transfere tal afeição para o poder de um Criador, tornando-se um crente. O ateu, por sua vez, decidiu se rebelar contra esse poder num dado período da vida e assim permaneceu, de tal forma que, para ele, acreditar em Deus e venerá-lo significa subjugar-se eternamente à mãe. Acredito ser mais natural que o homem estime o poder materno ao invés de repudiá-lo, porque assim estrutura todo um aparato afetivo que muito lhe ajudará no instinto inato de criar, cuidar e proteger sua prole. Portanto, a consternação de quem se denomina ateu é a consternação daquele que, mesmo de forma difusa e desintencional, revela ao mundo os problemas profundos que carrega em relação à sua figura materna. Essas minhas elucubrações nada originais tiveram origem num texto do psicanalista selvagem Georg Groddeck, um de meus ídolos. Reproduzo a seguir um pequeno trecho.

“A mãe, o amor à mãe e o ódio à mãe, tudo dá aos seres humanos, inclusive o Deus… Quem se denomina ateu ou convence os demais a chamarem-no assim, só está tentando evitar um nome, porque gostaria de negar sua infância e porque nele se enfrentam diretamente o ódio e o amor à mãe. Por querer fugir a autoridade do complexo materno, encobre esse fragmento de divindade com trapos e palavras, de modo a acreditar que não mais o vê. Tornou-se portanto parcialmente cego… Com a ajuda da psicanálise, é possível provar que quem nega friamente ou passionalmente a divindade, trava uma luta pessoal contra a mãe, algo que nada tem a ver com a sede de verdade…”

Extraído do artigo Sobre o Isso em “Estudos Psicanalíticos Sobre Psicossomática” (2011), p. 46, Editora Perspectiva,
Georg Walther  Groddeck