Iniciação

nine– Ainda se lembra de sua primeira experiência? – perguntou ela.
– Sexual? – perguntou ele.
– Pelo que acabamos de fazer, não me ocorreria outro tema.
– Eu tinha dezoito anos.
– Tão tarde assim?
– Pois é… Perda efetiva de virgindade, somente nessa época.
– Como assim?
– Fui iniciado na matéria aos nove.
– Já posso imaginar quem foi a professora.
– Sério?
– Seria uma prima mais velha?
– Exato! Como soube?
– Aos onze, tive priminhos de nove.

Veredicto

Eu estava na quarta série primária e a professora de Português, tia Ângela, fazia parte daquele grupo de pessoas que me intimidavam. Eu ainda tinha destas coisas naquela época: temor de autoridades, principalmente quando eram rigorosas. Lembro-me de ficar amedrontado na aula em que tia Ângela informou sobre o livro que precisaríamos ler, objeto de avaliação da famigerada “ficha literária”. Esse era o apelido sofisticado que se dava para uma prova sobre os dados da história e sua “correta” interpretação. Havia uma delas por semestre e, naquela aula, fomos informados que seríamos avaliados quanto à leitura da obra teatral Auto da Compadecida, do turrão Ariano Suassuna. Ao chegar em casa, informei, ansioso, sobre a premência na compra do livro: era necessário começar a ler o quanto antes, pois eu já sabia da minha dificuldade no ramo da interpretação de textos. De posse da obra, iniciei imediatamente os esforços que resultaram, até a data da prova, em duas leituras completas e várias outras que cobriam trechos específicos da história. Na véspera da ficha literária, fiz uma revisão geral e constatei, segundo minha avaliação, que estava pronto para o que desse e viesse, que me tornara um especialista nas aventuras e desventuras de João Grilo. Como já mencionei aqui no Extrato, padeço de problemas crônicos com expectativas positivas, desde tenra idade. Teimosas, elas sempre rejeitaram a materialização; comportamento que não foi diferente com a expectativa do sucesso na ficha. Quando recebi a nota, um rubro e odioso “4”, enxerguei-me o único condenado naquele julgamento da história: o Salvador de Suassuna havia sido misericordioso com todos, exceto comigo. Creio que tenha sido esse veredicto injusto que, desde então, me impede de ler o renomado autor paraibano.

Cuca

Uma vez sedimentados os tópico iniciais do Cálculo Diferencial e Integral, devidamente avaliados por  três provas ao longo do primeiro semestre, acreditava-se que estivéssemos aptos a cursar a famigerada disciplina Cálculo II, motivo de terrorismo dos colegas mais antigos, alguns deles agonizando a sua terceira reprovação. O novo curso apresentaria o domínio do Cálculo com mais dimensões: da reta passaríamos ao plano e depois ao cubo. Haviam três turmas e uma delas, a nossa, estava sob responsabilidade de uma professora, recém-chegada do seu longo curso de doutorado. À princípio, julgamo-nos afortunados, já que os trejeitos da doutora, franzina e quase delicada, não nos provocara maiores temores. Lembro-me de alguém dizer: “Vai ser moleza!”. Naquela época, ainda éramos moleques que apelidavam os outros: entre nós, passamos a chamar a doutora pela alcunha de Cuca, personagem célebre do preconceituoso Monteiro Lobato no seu Sítio do Picapau Amarelo. O formato e a tintura capilares daquela que achávamos inofensiva lembravam quase que imediatamente a horrenda figura do seriado da Rede Globo. O problema de se criar uma expectativa positiva e acreditar piamente nela é que o destino raramente a confirma, rejeitando-a parcial ou totalmente. Quis o nosso destino optar pela rejeição total e a Cuca, de vítima de nosso escárnio, transformou-se em bruxa sádica, comedora de criancinhas. Aquela mulher frágil adquiriu, como o Cálculo, outras dimensões. Para não sermos devorados, tivemos que nos privar ainda mais do sono para então suar sangue nas derivadas parciais, nas integrais duplas, triplas, de superfície, no Teorema de Green, etc… Ao final do curso, aprovado e pensativo, tive vontade de transcrever o soneto abaixo, na página em branco anterior a contracapa do livro texto O Cálculo com Geometria Analítica Vol. II, de Louis Leithold.

Soneto XXXII

Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.

Fazia, de papel, toda uma armada;
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada…

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel, são como aqueles,
perfeitamente, exatamente iguais…

– Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!
 

Guilherme de Almeida (Nós, 1917)