Alívio


O pai costumava andar de cueca pela casa. Certo dia, a filha pré-adolescente pergunta:
– Papai, você gostaria de ter um pinto maior?
– Filha…. Estou satisfeito com o que tenho! Afinal, consegui fabricar você e seu irmãozinho.
– Pois o meu homem vai ter um pinto bem grande.
– Filha…. Tamanho não é documento!  – alertou a mãe assustada.
– Ufa! Ainda bem! – exultou o filho caçula.

Novidades

tappt1O casal de irmãos estava animadíssimo com sua primeira viagem intercontinental: eles atravessariam o Atlântico partindo da terra do carnaval rumo à terra do fado a bordo de um Airbus A330, essa “aeronave supergigante”, segundo a empolgada avaliação do menino, o mais novo. Contribuía muito para a excitação que lhes inundava a origem lusitana da companhia aérea e não se cansavam de dizer a todo momento para quem quisesse ouvir: “Papai! Mamãe! Vocês têm razão! São estrangeiros que falam nossa língua!”. Os pais, constrangidos com aquele ruidoso e incansável entusiasmo, repreendiam-nos com veemência, mas o silêncio dos pimpolhos era apenas momentâneo. Já sobrevoavam o citado oceano, três horas após o início da viagem, quando a mãe iniciou um sono merecido e o pai observou os filhos, sentados em poltronas contíguas, deliberando freneticamente, num preocupante volume baixo, assunto que ele não conseguiu discernir. A matéria discutida pelos pequeninos não pôde ser apurada porque, naquele exato momento, o pai notou a milagrosa extinção da volumosa e impaciente fila que havia se formado em direção ao banheiro do avião; oportunidade rara para que ele pudesse proceder a um serviço cujo resultado o aliviaria de suas incômodas cólicas. Como era significativa a distância do banheiro – o oásis no qual se aliviaria – até sua poltrona, ele resolveu investigar o assunto que os dois pequenos tanto conversavam depois de sua importante empreitada. Terminada gloriosamente essa obra inenarrável, o pai, assim que sai do banheiro, vê as crianças em pé sobre suas poltronas e as ouve, daquela distância, em alto e bom som. O menino esbravejou: “Papai! Aquela história que você contou pra gente é mentira! Isso é muito feio!”. A menina completou franzindo a testa: “É mesmo, papai! Muito feio! Até agora a gente não viu nenhuma portuguesa de bigode!”.

Seu Tupi

pontingFingerNa segunda metade da saudosa e desinibida década de setenta, morávamos nós numa cidade litorânea, período em que meu pai era empregado de uma enorme repartição pública, ligada ao governo local. Em um dado momento de sua carreira, convidaram-no para assumir um posto mais alto, cujo acréscimo pecuniário era obviamente menor que o acréscimo das responsabilidades. Aceito prontamente o convite, uma vez que a situação econômico-financeira da família não era das melhores, meu pai passou a se envolver com problemas maiores e mais importantes. Certa vez, a fim de resolver um deles, ele precisou sair de sua mesa e se deslocar até um outro setor longínquo da repartição. Ainda animado pela promoção – inconteste reconhecimento de seus esforços -, ele caminhava rapidamente por um corredor extenso para diligenciar a solução do tal problema, quando reconheceu ao longe um colega que vinha em sentido contrário. À medida que se aproximavam, meu pai ia se esforçando para tentar lembrar o nome do sujeito, quando finalmente, à poucos metros de se encontrarem, ele conseguiu: chamava-se Alceu Tupinambá Neto ou Seu Tupi, para os mais próximos. Embora não tivesse muito contato com Seu Tupi, dada a distância física e organogramática dos setores respectivos, meu pai resolveu chamar o colega por sua alcunha ao cumprimentá-lo efusivamente; algo que aparentemente não incomodou Seu Tupi. Entabularam então aquele tipo de colóquio cortês, obrigatório e superficial, que versa sobre temas amenos seguido de uma rápida despedida, pois Seu Tupi também estava apressado. Quando retomou seu caminho, meu pai, visivelmente preocupado, pensou consigo: “Espero nunca encontrar Seu Tupi fora do trabalho, porque se isso acontecer e os meninos estiverem comigo, o Renato vai aprontar das suas!”. Eram duas as razões fundamentais da aflição de meu pobre pai: uma de cunho estético e outra de caráter comportamental. A primeira relacionava-se ao fato indiscutível de que a Natureza privara Seu Tupi do mais remoto traço de beleza fisionômica e, por isso, da possibilidade muitas vezes conveniente de se passar despercebido: mirrado e corcunda, com as orelhas generosas sustentando pesados óculos de míope, sua figura remetia à uma caricatura circense. Devo dizer que, desde tenra idade, tenho uma curiosidade quase incontrolável pelos assuntos ditos reservados e foi ela que me fez ouvir não muito claramente, enquanto brincava, meu pai comentar sobre Seu Tupi algo do tipo: “Ele é mais feio do que bater em mãe”. A segunda razão diz respeito à índole nada retraída de um dos meus irmãos mais novos: o “Renato” supracitado. Segundo de uma prole considerada numerosa para os padrões atuais, Renato, por suas peripécias, sempre demandou de meus pais esforços disciplinares mais enérgicos do que dispendiam com o restante dos filhos. Por alguma razão, eu sempre o admirei por isso e considero, até hoje, uma de suas obras-primas a depilação do rabo de um cachorro, que costumava perambular por nossa rua, com a lâmina de barbear do pai; que a continuou utilizando depois, sem, é claro, ter sido informado do fato. Diante da dificuldade em educar criaturinhas dessa espécie, meu pai sempre conservava o hábito de levar as maiores, meu irmão e eu, para caminhar na calçada da praia. Adorávamos esses passeios dominicais porque nos sentíamos mais soltos e a liberdade, para dois traquinas como nós, de seis e oito anos à época, significava uma tranquilidade rara e revigorante para o pai. Numa dessas tardes, após caminharmos um certo tempo, ele nos ordenou que ficássemos mais próximos dele e, à princípio, não entendemos muito bem o motivo. Ao nos aproximarmos, ele olhou severamente para o meu irmão e disse: “Você vai se comportar, ouviu? Vai se comportar!”.  Espantados com aquela repreensão gratuita, notamos que o pai observava fixamente algo mais adiante quando também voltamos nosso olhar para onde estava o dele. Imerso no ar quente que subia da calçada, uma figura inusitada apareceu: com o peito desnudo e trajando um desconcertante calção de banho, Seu Tupi caminhava em nossa direção e nos deteve a atenção desde o momento em que o vimos. Num absoluto silêncio, nós dois acompanhamos sua aproximação e também os cumprimentos inevitáveis, desses que os adultos se vêm obrigados a travar por pura e completa formalidade. Iniciaram timidamente uma conversa, quando pouco tempo depois o pai sentiu que meu irmão lhe puxava as calças com insistência. Fingindo não perceber, o pai prosseguiu com sua fala exagerada no intuito de chamar para si toda a atenção do colega, mas sem muito sucesso. Seu Tupi, incomodado com a inquietação da criança, pediu educadamente ao seu interlocutor oportunidade para que ela se pronunciasse. Meu pai tentou, a todo custo, dissuadir Seu Tupi de tal concessão, mas o colega de trabalho insistiu com veemência. Nesse momento, vi então que Renato adquirira os mesmos trejeitos de alguém hipnotizado, tal era a feição de espanto que exibia. Ele então apontou o dedo indicador para Seu Tupi e anunciou nervosamente: “Nossa, papai! Como é que pode? Ele fala! Ele fala!”.

Uníssono

children-with-question-markNuma rua que ladeava o cemitério da cidade, passavam de carro o pai com o casal de filhos, quando o menino perguntou:
– Papai, quando a gente morre e enterram, o que acontece com o corpo?
– Uns bichos que vivem no fundo da terra comem a carne e os ossos que sobram, depois de muito tempo, viram pó.
– Todo dia alguém morre, papai? – perguntou a menina assustada.
– A cada minuto muitas e muitas pessoas morrem, minha filha.
– Mas também muitas pessoas nascem. Não é, papai? – perguntou ansiosamente o menino a fim de amenizar a crueza da conversa.
– Correto, meu filho. Isso também é verdade. Sabia que nascem mais pessoas do que morrem?
– Sério? – perguntou a menina.
– Sim.
– Ufa!! – proferiu o menino aliviado. Depois de alguns segundos, ele retomou com nova pergunta:
– E de onde viemos?
– Dos macacos há muito…
– Isso a gente já sabe! – interpelou a menina – Ele tá perguntando como que a gente foi criado, como que a gente se formou.
– Isso! – confirmou o menino – Tô perguntando como é que a gente nasce.
– Vocês nasceram da mamãe! – tentou escapulir o pai.
– Não, papai!!! – disseram os dois em uníssono.
– Você não entende não, seu bobo? – ralhou o menino – A gente quer saber como é que a gente foi criado, como é que a mamãe ficou grávida. Captou?
– Captei. – disse resignadamente o pai – Foi assim: o papai colocou uma sementinha dele para se juntar com uma sementinha da mamãe, e a partir daí cada um de vocês se formaram.
– Papai, e de onde vocês tiraram essas sementinhas? Em que lugar elas se encontraram? – perguntou, intrigado, o menino.
– Olha, já estamos chegando em casa! Depois a gente continua essa conversa. – disse o pai visivelmente incomodado.
– Papai, por que você não quer mais conversar? Por acaso essas sementinhas tem alguma coisa a ver com a vagina? – perguntou a menina.
– Tem.
– Eu sabia! – gritou ela animadamente.
– Papai, também tem a ver com o pinto? – perguntou o menino, enciumado.
– Sim, gente, tem a ver com o pinto e com a vagina. – respondeu nervosamente o pai em tom conclusivo. Incansáveis e novamente em uníssono, começaram:
– Papai, e como foi que você colocou…
– Assunto encerrado!!!

Namoradinha

maosdadas– Papai, eu estou namorando. – disse o menino de sete anos.
– Nossa! Quem é ela, meu filho? – perguntou o pai assustado.
– Uma menina lá da minha sala.
– Ela é bonita?
– Não, papai. Ela é linda!
– Qual o nome dessa namorada tão linda?
– É Júlia.
– Bonito nome! Mas, diz pra mim: como é esse namoro?
– A gente fica de mãos dadas o tempo todo.
– Ah…Que bom! Parabéns pela sua primeira namoradinha, meu filho!
– Primeira? Mês passado eu tava com a Camila.

Troca

menorahApós assistir a um filme sobre a paixão de Cristo, o menino judeu pergunta:
– Papai, Jesus era um dos nossos?
– Sim, meu filho.
– Quem eram aqueles homens que trocaram ele por um ladrão? Palestinos?
– Não, meu filho. Eles eram dos nossos também.
– Por que fizeram isso?
– Não sei, mas Jesus disse que era preciso que fosse crucificado.
– Para quê?
– Para que acreditassem nele.
– E funcionou?
– Sem dúvida! Daí surgiram os cristãos.
– Então nós ajudamos a criar o Cristianismo?
– De uma certa forma, sim.
– Nossa!!
– Como se sente?
– Orgulhoso!

Dever de casa

camaraAo chegar em casa, o pai vê no telefone o registro de uma ligação para um número desconhecido. De lá do escritório, pergunta:
– Quem foi que usou o telefone?
– Fui eu, papai. – responde a filha de nove anos.
– Que número é este que você ligou?
– Liguei para a Câmara dos Deputados.
– Para quê? – pergunta o pai surpreso e indignado.
– Eu li nessa cartilha aqui que ligando pra esse telefone a gente pode sugerir leis. – argumenta a filha, mostrando ao pai a página com os contatos da casa legislativa.
– Que lei você quer que eles façam?
– Uma lei proibindo o dever de casa. – diz a menina, franzindo a testa.
– E o que eles te disseram?
– Eu não consegui falar.
– O que aconteceu?
– Apareceu a voz de uma moça dizendo umas informações. Papai, pelo que ela disse, eles só trabalham 3 dias na semana. É verdade?
– Isso mesmo…Tá chateada?
– Vou ter que mudar minha sugestão, mas fiquei animada!
– Animada? Por quê?
– Não vou pedir pra proibir todos os dias; só de quarta até sexta. Assim eles vão aceitar!