O Empate

mara

Final de semestre na faculdade de Engenharia costuma consumir impiedosamente mentes e corpos, em especial daqueles poucos alunos mais preocupados com o bom rendimento escolar. Assim aconteceu num ordinário dezembro em Uberlândia, onde traços de um verão sufocante já se delineavam. No quarto da república insalubre que me abrigava, eu evitava a invasão dos desagradáveis insetos noturnos mantendo as venezianas fechadas, algo que me dava a devida tranquilidade para debruçar-me, na postura de um Quasímodo, sobre aqueles livros técnicos implacáveis. Nesse período, a diversão e o lazer eram absolutamente suprimidos e a máxima distração à qual me permita era ligar, durante um tempo limitado, o mini-system Pioneer que eu acabara de adquirir, cujo pagamento havia sido parcelado em doze módicas prestações. Certa vez, absorto nesse breve, porém revigorante interlúdio musical, ouço me chamarem ao telefone; algo que me causou surpresa, porque interações telefônicas sempre me foram bastante escassas, particularmente naquela longínqua época pré-celular. Do outro lado da linha, a voz suave da Cláudia – personagem de uma outra história, ocorrida anteriormente a esta, já postada aqui no Extrato – impressionava-se com o longo período de um ano e meio desde nossa última conversa.
– O que aconteceu que você resolveu ligar? – perguntei animado.
– Preciso de sua ajuda. Estou enrolada com um trabalho. Acho que você vai conseguir me salvar.
– Qual trabalho?
– O de “Máquinas Térmicas” que eu sei que você já cursou no semestre passado.
– É verdade…
– Pois é…Procurei antes o André e o Maurício, mas eles não puderam ajudar. Então estou ligando pra você.
– Cláudia, quer dizer que eu fui a sua terceira opção?
– Isso mesmo! Pode me ajudar?
Entre essa pergunta e a minha resposta final, transcorreu um curto espaço de tempo onde dois grupos de sentimentos travaram uma batalha ferrenha: de um lado, o time do “amor ao próximo”, liderado pela piedade religiosa, e do outro o do “amor próprio”, liderado pela indignação raivosa. Acabou vencendo o primeiro e minha colega de ocasião informou que no dia seguinte iria deixar o trabalho em casa a fim de que eu começasse a dar uma olhada. O problema de disputas internas como a que ocorreu em minha imatura psiquê é que sempre a parte derrotada se porta como uma má perdedora. Assim, no tapetão, o time do “amor próprio” conseguiu a anulação do primeiro litígio e partiu para o segundo com toda a agressividade que lhe é peculiar. Como nunca fui afeito a pedir opiniões a terceiros sobre minhas questões pessoais, desgastei-me sozinho durante algumas horas e finalmente percebi que não haveria um vitorioso: caracterizou-se o empate. Decidi então que faria o trabalho inteiro para ela, um trabalho medíocre, mas completo, e ao entregá-lo eu diria: “Aqui está o trabalho. Eu não gostei nem um pouco do seu oportunismo e de ter sido sua terceira opção. Peço que não me procure e nem converse comigo nunca mais.” Senti que ambas as partes ficaram satisfeitas com a virtuosa decisão e dei início ao tedioso empreendimento, única avaliação na disciplina “Máquinas Térmicas”, cujo professor alcunhávamos Maracujá, por conta de sua idade avançada. Na noite seguinte, ela me ligou para saber do progresso de minha avaliação.
– Passe aqui amanhã para pegar o trabalho. Ele já está pronto. – disse eu seriamente.
– Você já fez o trabalho? Sem mim? –  ela perguntou espantada.
– Sim. Algum problema?
– De jeito nenhum… Como posso te agradecer?
– Amanhã a gente conversa.
No outro dia, por volta das quatro da tarde, a Cláudia tocou a campainha da minha honesta república pestilenta e eu já a aguardava ansioso para desferir-lhe os golpes verbais tão bem preparados. Corri então em direção a porta e, ao abri-la, tentei iniciar a ofensa:
– Aqui está o traba….Você… tá de mini-saia!
– Ainda se lembra dela?
– De cada detalhe…
– Tá sozinho?
– Tá todo mundo em aula.
– Posso entrar?
– Por favor…

“I once had a girl or should I say she once had me”
John Lennon

Contragolpe

GolEu estava de férias da faculdade quando meu pai, ao telefone, perguntou: “Quer ganhar um carro?”. Até o meu animado “Sim” correram alguns minutos para a completa assimilação de todo o significado daquela pergunta, porque um carro, para mim, sempre fora um bem de terceiros, inatingível. Naquela época, meu principal objetivo material era adquirir um aparelho de som mais potente e moderno, que explorasse todas as vantagens do “Compact Disc”, novidade tecnológica que muito me interessava. Retornei das férias, orgulhoso e destemido, conduzindo um pomposo Gol AP 1.8 a álcool, ano 1985, usado, ou melhor, abusado; mas potente, uma máquina. Ao longo da viagem até Uberlândia, fui refletindo sobre os benefícios que aquele veículo me traria: haveria uma enorme vantagem competitiva para conseguir namorar a Cláudia. Poucos dias depois que cheguei, exerci minha nova condição de pretendente poderoso e convidei a gatinha para sair. Como já mencionei aqui no Extrato, eram necessários pouquíssimos atributos para se conseguir o título de “gatinha” na engenharia; no entanto, minha musa dispunha realmente de volumes proporcionais e harmonicamente dispostos, um cabelo negro liso, longo e uma voz macia. Havíamos saído algumas vezes, apenas como amigos, mas de posse daquele Gol, fui tomado por uma coragem sem precedentes e resolvi ultrapassar definitivamente o obstáculo da amizade. Meu convite foi aceito, como quase sempre acontecia, e fui pegá-la em casa, com o carro; algo que a impressionou menos do que eu imaginava. Entretanto, essa pequena decepção foi completamente superada quando me dei conta do tamanho da saia que ela trajava: sentada ali ao meu lado, no banco do passageiro, a área das pernas que estava desnuda era mais do que satisfatória; algo tão inesperado e surpreendente quanto o Gol. Depois de repetir diversas vezes o quanto estava bonita, percebi o efeito benéfico dos elogios: ela estava diferente, menos retraída, mais espontânea. Pensei então comigo: “É hoje!”. Durante o passeio, rimos e conversamos muito; bem mais do que outras vezes. Quando fui deixá-la em casa, o carro, a mini-saia e minha presunção afrouxaram-me o controle dos impulsos e tentei atacá-la nos três beijinhos de despedida. Fui contragolpeado por duas mãos no meu peito, impedindo minha investida, e uma reação indignada.
– O que você tá fazendo? – perguntou ela.
– Tentando te beijar…Eu gosto muito de você – respondi.
– Mas eu não quero nada com você. Somos apenas amigos. E tem mais: eu não gosto de ser tocada sem aviso prévio. Por que fez isso?
– Você… tá de mini-saia e eu… tô com carro.
– Tchau!
Passaram-se alguns anos até que nos falássemos de novo e outros tantos para que eu conseguisse ter uma vaga ideia das forças instintivas, minha e dela, envolvidas nesse fatídico episódio.