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tappt1O casal de irmãos estava animadíssimo com sua primeira viagem intercontinental: eles atravessariam o Atlântico partindo da terra do carnaval rumo à terra do fado a bordo de um Airbus A330, essa “aeronave supergigante”, segundo a empolgada avaliação do menino, o mais novo. Contribuía muito para a excitação que lhes inundava a origem lusitana da companhia aérea e não se cansavam de dizer a todo momento para quem quisesse ouvir: “Papai! Mamãe! Vocês têm razão! São estrangeiros que falam nossa língua!”. Os pais, constrangidos com aquele ruidoso e incansável entusiasmo, repreendiam-nos com veemência, mas o silêncio dos pimpolhos era apenas momentâneo. Já sobrevoavam o citado oceano, três horas após o início da viagem, quando a mãe iniciou um sono merecido e o pai observou os filhos, sentados em poltronas contíguas, deliberando freneticamente, num preocupante volume baixo, assunto que ele não conseguiu discernir. A matéria discutida pelos pequeninos não pôde ser apurada porque, naquele exato momento, o pai notou a milagrosa extinção da volumosa e impaciente fila que havia se formado em direção ao banheiro do avião; oportunidade rara para que ele pudesse proceder a um serviço cujo resultado o aliviaria de suas incômodas cólicas. Como era significativa a distância do banheiro – o oásis no qual se aliviaria – até sua poltrona, ele resolveu investigar o assunto que os dois pequenos tanto conversavam depois de sua importante empreitada. Terminada gloriosamente essa obra inenarrável, o pai, assim que sai do banheiro, vê as crianças em pé sobre suas poltronas e as ouve, daquela distância, em alto e bom som. O menino esbravejou: “Papai! Aquela história que você contou pra gente é mentira! Isso é muito feio!”. A menina completou franzindo a testa: “É mesmo, papai! Muito feio! Até agora a gente não viu nenhuma portuguesa de bigode!”.

Uníssono

children-with-question-markNuma rua que ladeava o cemitério da cidade, passavam de carro o pai com o casal de filhos, quando o menino perguntou:
– Papai, quando a gente morre e enterram, o que acontece com o corpo?
– Uns bichos que vivem no fundo da terra comem a carne e os ossos que sobram, depois de muito tempo, viram pó.
– Todo dia alguém morre, papai? – perguntou a menina assustada.
– A cada minuto muitas e muitas pessoas morrem, minha filha.
– Mas também muitas pessoas nascem. Não é, papai? – perguntou ansiosamente o menino a fim de amenizar a crueza da conversa.
– Correto, meu filho. Isso também é verdade. Sabia que nascem mais pessoas do que morrem?
– Sério? – perguntou a menina.
– Sim.
– Ufa!! – proferiu o menino aliviado. Depois de alguns segundos, ele retomou com nova pergunta:
– E de onde viemos?
– Dos macacos há muito…
– Isso a gente já sabe! – interpelou a menina – Ele tá perguntando como que a gente foi criado, como que a gente se formou.
– Isso! – confirmou o menino – Tô perguntando como é que a gente nasce.
– Vocês nasceram da mamãe! – tentou escapulir o pai.
– Não, papai!!! – disseram os dois em uníssono.
– Você não entende não, seu bobo? – ralhou o menino – A gente quer saber como é que a gente foi criado, como é que a mamãe ficou grávida. Captou?
– Captei. – disse resignadamente o pai – Foi assim: o papai colocou uma sementinha dele para se juntar com uma sementinha da mamãe, e a partir daí cada um de vocês se formaram.
– Papai, e de onde vocês tiraram essas sementinhas? Em que lugar elas se encontraram? – perguntou, intrigado, o menino.
– Olha, já estamos chegando em casa! Depois a gente continua essa conversa. – disse o pai visivelmente incomodado.
– Papai, por que você não quer mais conversar? Por acaso essas sementinhas tem alguma coisa a ver com a vagina? – perguntou a menina.
– Tem.
– Eu sabia! – gritou ela animadamente.
– Papai, também tem a ver com o pinto? – perguntou o menino, enciumado.
– Sim, gente, tem a ver com o pinto e com a vagina. – respondeu nervosamente o pai em tom conclusivo. Incansáveis e novamente em uníssono, começaram:
– Papai, e como foi que você colocou…
– Assunto encerrado!!!

made in brazil

ArrogânciaVez por outra, atrevo-me a opinar sobre searas nas quais meu conhecimento é bastante limitado. Talvez seja fruto de arrogância e onipotência, peculiaridades ainda difíceis de controlar e que já me trouxeram as pechas de insociável, antipático, pedante e outras impropriedades do tipo. Confesso que essa e outras idiossincrasias já foram mais proeminentes: encarregaram-se de desbastá-las as lições implacáveis desta ineficiente labuta chamada viver. Uma vez assimilados e analisados esses impactos, sobreveio uma rudimentar percepção de que tais impulsos provocam danos quando extrapolam meus limites e invadem territórios alheios. Dessa invasão descabida resultam as tais pechas impróprias; algo que muito me incomoda, mas uma justa reação a manifestações de insolência. Com elas, acobertei muitas vezes  fraquezas e superficialidades, pois era matéria vital não desvelá-las. Enxergar esse mecanismo, uma espécie de estupidez sofisticada, foi tão surpreendente quanto descobrir que não é possível saber de tudo, sequer daquilo que se julga conhecer em profundidade, por mais óbvio que isso possa parecer. Durante muito tempo, houve uma rejeição da minha parte, uma anafilaxia, à frase “Eu não sei”. Talvez tudo isso seja distorção de um traço remoto, acredito congênito, cujos primeiros sinais se deram no menino perguntador. Enfim, pensando nessas coisas dolorosas, sempre me acorre ao final uma inexplicável sensação de profundo acolhimento, como se estivesse nos braços da Providência Divina, quando me deparo confrontando essas minhas mazelas com as da grotesca criatura veneziana “made in brazil” chamada Diogo Mainardi.

Sábado

De vez em quando, o pai levava os dois filhos à loja de discos para que escolhessem algum de sua preferência. Quando avisados sobre o dia do evento, os meninos se empolgavam e já começavam a pensar no que iriam escolher. Um desses eventos caiu justamente num sábado frio e chuvoso e os garotos temiam que a saída pudesse ser adiada. Quando ouviram movimentação no quarto do pai, já bem cedo, foram lá, receosos, e perguntaram carinhosamente se iriam de fato ao shopping, comprar os discos. A reposta afirmativa fez com que os dois corressem para se aprontar e depois se sentassem quietos no sofá da sala, um do lado do outro, aguardando o seu benfeitor. Tão logo ele apareceu na sala, os meninos se levantaram e, sem tomar café direito, os três partiram para iniciar aquele animado sábado musical. Ao chegar à loja, os meninos se dividiram, cada qual para a seção de seu interesse. O pai, na maioria das vezes, aproveitava o ensejo para também tentar achar algo que gostava ou pudesse vir a gostar. Enquanto os filhos procuravam, chamou-lhe a atenção, por alguma razão completamente desconhecida, uma pequena e escondida área da estante onde estavam perfilados discos de Punk Rock. Curioso, começou a passar um por um, observando o pitoresco das capas, quando, de repente, interrompe e repara demoradamente uma delas. O mais velho percebeu o espanto do pai e foi tomado por uma enorme apreensão, pois tinha sido ele quem havia indicado aquela nova loja, diferente da que costumavam frequentar. O pai então retira o disco, chama um funcionário e o mostra para ele:
– Rapaz, como vocês têm coragem de colocar um disco deste pra vender?
– Doutor, é a febre do momento!
– Se causa febre é porque transmite algum tipo de doença.
– O dr. sabia que as músicas são muito sinceras?
– Não tenho a menor dúvida! Uma delas se chama Vou Fazer Cocô! Não existe nada mais sincero do que isso!
– As letras são secas, simples e diretas. É a voz da juventude.
Nesse momento, o pai mira alternadamente a juventude estampada na cara dos filhos, já atônitos e taquicárdicos, mostra-lhes a capa do disco, apontando nervosamente o título, e de onde estava, diz a eles em volta alta: “O nome do disco é Pisando na M…! Sabem o que significam esses três pontinhos aqui? Sabem? MERDA! MERDA!”. Enquanto os funcionários gargalhavam e os meninos já davam aquele sábado como perdido, o pai resolveu esperar pela escolha dos filhos. Decidiu que não compraria nada para ele daquele antro que dava “voz à juventude”. Assim, o mais velho saiu com um álbum dos Beatles, o outro levou um do Jackson 5 e o pai deixou a loja indignado com o que é considerada a obra-prima do grupo Garotos Podres. Anos mais tarde, um dos filhos me contou que nunca mais voltaram lá.

Almoço

– Já te falei pra não me beijar assim! -avisou a babá.
– Por que?
– Porque sempre fica roxo e o meu namorado não acredita quando eu digo que um menino de cinco anos me deu um “chupão”. Agora desce do meu colo e senta aqui pra você almoçar.
– Não quero!
– Depois você vai ficar com fome. Senta aqui… Come… Isso! Gostou do verdinho?
– Não! Eu quero leite!
– Agora é hora de almoçar! Continua comendo… Nossa, que calor! Segura a colher pra mim que eu vou tirar meu casaco.
– Aqui???
– É!
– Quer dizer que eu vou ver seus peitinhos? Oba!

Davos-Platz

Desde que me entendo por gente, gosto de livros. A leitura veio bem depois; primeiro, atraiu-me o objeto livro: a capa, o papel, a fonte, o cheiro, a textura, o folhear. Quando pequeno, eu costumava passar um bom tempo admirando a imponente estante da sala, preenchida parcialmente pelos livros técnicos do meu pai. A forma pela qual ele os distribuia era regular e padronizada: assunto, autor, do exemplar mais alto para o mais baixo. Se algum deles estivesse disposto fora do padrão, eu mesmo o consertava. Ao  longo do tempo, foram chegando os romances da minha mãe, assinante do Círculo do Livro, e a área desocupada  da estante encheu-se gradativamente de cor, ganhou finalmente vida. Por alguma razão, não era necessário padronizá-la como a seção técnica, e o móvel, agora inteiro e equilibrado, revelou-se perfeito. Gigantesco para a minha estatura de menino, eu conservava um respeito quase religioso por ele, pelo incomensurável esforço humano sustentado nas suas prateleiras de madeira: quanto trabalho, quanto tempo, quanto escrever e reescrever para produzir aquela quantidade infindável de páginas. Havia um livro específico que me chamava mais a atenção do que os outros: volumoso, bem costurado, com capa dura, papel branco, letras pequenas, cheiro de novinho e delicioso de folhear. Na sobrecapa, havia uma foto intrigante de um castelo ao pôr do sol e acima de suas torres, lia-se: A Montanha MágicaThomas Mann. A partir desse livro e das reminiscências daquele tempo, ocorreu-me, recentemente, acrescentar àquela atração sensorial infantil, que nunca arrefeceu, o interesse pela Literatura. Iniciei escalando a Montanha até chegar ao sanatório de Davos-Platz, só para ver como era, e junto com Hans Castorp, prolonguei deliberadamente minha estada.

Brincar

Alguns dos grandes músicos só admitiam bancar o professor se o aluno já tivesse
superado, de maneira incontestável, o seu período de formação. Numa linguagem mais
popular, só aceitavam o “filé”. Um desses músicos deparou-se, certa vez, com os olhos curiosos do filho de nove anos que, acercando-se dele, o observavam trabalhar ao piano. Disse o filho: “Papai, eu também sei tocar. Deixa eu te mostrar”. O menino então fez uma baita confusão sonora com as teclas do instrumento. Após aquela exibição, o pai pensou um pouco e disse: “Acho que você gostar mais disso aqui”. Ele então posicionou o polegar direito na tecla da clave de sol e tocou sol – lá – si – dó – si – la – si – dó – ré.  Durante aquele prolongado momento, o pai distraiu-se com a dificuldade do filho que tentava aprender a sequência que ele criara, quando, enfim,  precisou retornar ao trabalho. Alguns dias depois, o garoto aproximou-se do pai, ao piano, e disse novamente:  “Papai, eu também sei tocar. Deixa eu te mostrar”. Lembrou-se, sem erro algum, daquele “sol – lá – si – dó – si – la – si – dó – ré” de dias atrás. O pai pensou um pouco e disse: “Acho que você vai gostar mais disso aqui”. Repetiu-se então aquele momento mágico entre os dois, motivado por uma outra sequência de notas. E assim, após uma série desses momentos mágicos, o músico fez o filho cantar e, ao ouvi-lo, teve a estranha recordação de uma infância que não viveu. Descobriu como era bom brincar e empolgou-se: do alto da sua estatura, escreveu 66 peças para os aprendizes.