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Posts com Tag ‘livro’

Casas de Verão

sheepA Etologia nos ensina que certas espécies de animais têm a invejável capacidade de se ausentar do mundo exterior, recolhendo-se em suas cavernas acolhedoras para assim iniciar um prolongado estado letárgico, período em que seu metabolismo cai drasticamente. Em outras palavras, trata-se de um sono longo e profundo, cujo objetivo é garantir a própria sobrevivência e por conseguinte a de sua espécie, seja evitando a hostilidade do clima ou dos implacáveis inimigos predadores. Quando querem evitar o frio intenso, diz-se que esses animais hibernam; quando evitam o calor tórrido, diz-se que entram em estivação. Dentre aqueles que hibernam, os mais notórios são os da espécie Ursus Maritimus – vulgo urso polar – enquanto a estivação é bem exemplificada pelo comportamento dos moluscos pulmonados – os singelos caracóis. Nos anais da Ciência, não há registro de seres da espécie Homo Sapiens Sapiens hibernando ou estivando. A razão mais difundida é a seguinte: esses animais “evoluíram’’ de macacos africanos habitantes de regiões onde as temperaturas não eram extremas; fato que tornou absolutamente desnecessário o citado estado letárgico. Entretanto, com a vênia devida aos nobres homens da Ciência, quero contestar essa explicação simplificada afirmando categoricamente que no mesmo intuito de se proteger de um ambiente de extrema hostilidade, o homem também é capaz de se amodorrar por longos períodos, juntando-se à turma dos ursos e caracóis. A fim de balizar essa contundência, quero revelar em primeira mão que as manifestações orgânicas deste blogueiro – indigno representante da tal espécie Homo Sapiens Sapiens – julgaram, em determinado momento, um ambiente altamente hostil aquele que se estabeleceu na última eleição presidencial brasileira e assim resolveram colocá-lo numa espécie de alienação profunda, período em que sua parca vontade de interação com o mundo exterior hibernou; ou melhor, estivou, porque o aborrecido escrevinhador que traça estas linhas prefere o frio ao calor. Nesses modos, ficou ele durante muito tempo com seus livros e seus estudos; imerso no fantástico mundo da Literatura, perdido nos intrincados caminhos da Psicanálise. Se isso tudo o satisfazia, o que o motivou então a sair da toca? O que o tirou do seu conforto e o fez enfrentar a dura realidade de um novo governo Dilma, de uma velha oposição liderada por Aécio, da imprensa “livre’’ que antecipa edições de revista e esculhamba a religião dos outros, do terrorismo em nome de Deus, da falta de água, da falta de luz, da falta do Chavez (o mexicano), das redações do Enem, da superexposição de alguém queimado vivo? Respondo: a vontade incontrolável de tecer comentários sobre um certo livro, uma obra prima. Começo então dizendo que, certo dia, ocorreu-me a ideia de reler um dos notáveis romances da chamada Literatura Brasileira: Vidas Secas (1938), do turrão Graciliano Ramos (1892-1953). Esse eminente escritor nordestino, que nunca conheceu os escritos de Marcel Proust por não admitir ler veados (terminologia dele), é um dos expoentes do chamado romance regionalista, tão exaltado por professores e intelectuais de esquerda. Ao terminar o livro, concluí que um pouco de Proust não teria feito mal algum ao homofóbico autor alagoano: num estilo simplório e maçante, ele narra as previsíveis desventuras de uma família de retirantes, formada por um homem obstinado, uma cachorra, uma mulher insatisfeita e seus filhos maltratados. Devo dizer, entretanto, que o tema levantado pelo desinteressante Vidas Secas é para mim bastante atrativo: a exemplar tenacidade do homem rústico, alheio, por desinformação ou repúdio, à alta instabilidade do mundo urbano. Procurando, ou melhor dizendo, fuçando pela incrível Internet algum outro romance regionalista notável, deparei-me com o título Gente Independente, do autor islandês Halldór Kiljan Laxness (1902-1998), AR-703019967merecidamente laureado com o prêmio Nobel de Literatura em 1955. Resolvi então adquiri-lo de imediato, uma vez que há ainda exemplares disponíveis em Português, lançados pela editora Globo. Aconteceu que comprei o livro sem folheá-lo antecipadamente, na sortida Lojas Americanas, e fui descobrir que se trata da tradução de uma tradução somente após abrir a encomenda. Como não me agrada ser duplamente ludibriado, uma vez que, segundo os italianos, “Traduttore, Traditore” (Tradutor, Traidor), adquiri a tradução inglesa Independent People (1946), sobre a qual a citada edição brasileira se baseou. Depois de uma angustiante espera, o livro finalmente chegou e ao tentar ler suas primeira páginas, percebi que meu inglês presunçoso não alcançaria os termos pouco convencionais utilizados pelo tradutor John Thompson. Se o tema que procurava era obstinação, adotei-o para minha procura e decidi só desistir da obra caso não houvesse outras traduções em inglês ou em português. Para a minha enorme satisfação, a editora lisboeta Cavalo De Ferro publicou em 2007 uma edição de Gente Independente, vertida com precisão para o português, direto do islandês, pela islandesa Guðlaug Rún Margeirsdóttir, tradutora que fixou moradia na cidade portuguesa da Figueira da Foz. Tão logo o livro chegou, após uma eternidade é claro, iniciei a prazerosa leitura que infelizmente terminou uns poucos dias atrás. Digo infelizmente porque Gente Independente, lançado no período de 1934 a 1935 em dois volumes, é o tipo de obra prima que, logo em seus primeiros capítulos, invade irremediavelmente a vida de quem a lê. Tal qual Vidas Secas, o livro também trata de um homem obstinado, uma cachorra, mulheres insatisfeitas e filhos maltratados. Diferente da obra brasileira, esse romance épico islandês traz, no estilo e no conteúdo, a preocupação de um escritor que busca retratar seus personagens muito além dos rótulos, dos estereótipos ou das posições ideológicas; eles não são apenas obstinados, apenas infelizes, apenas maltratados, rudes, humilhados: o protagonista Guðbjartur Jónsson, por exemplo, é alguém que não é possível qualificar, alguém indecifrável, quase real; sua filha Ásta Sóllilja carrega, num tom magistralmente poético, os dramas típicos da menina, da irmã mais velha, da mãe, da esposa, daquela que se põe a servir e a cuidar. Por detestar sinopses reveladoras, concluo dizendo que a história se passa no ambiente rural islandês, onde vivem camponeses e senhores de terra: os primeiros, trabalham de sol a sol, mesmo quando ele não aparece, e os últimos, auferem os dividendos. Nesse contexto, o protagonista busca colocar-se como alguém incompatível com esses dois grupos, alguém que insiste em se autodenominar independente. Alguns entusiastas dessa obra, os mais exaltados, afirmam sem muita relutância, que para a maioria daqueles que a lerem, ela seguramente figurará entre as “top ten” de suas vidas. Muito embora esses tipos de ranking não me impressionem e até denigram previamente uma obra ainda não conhecida, devo confessar aqui no Extrato, onde busco não seguir a trilha da manada, que me tornei mais um neste rebanho de leitores inebriados por essa belíssima história, mais um naquela malhada diligentemente velada por Bjartur de Casas de Verão.

Exemplar 162

ledoIvoEm meio ao frenesi futebolístico provocado pela Copa Do Mundo em mais um magnífico mês de junho, resolvi, um dia destes, largar um pouco os livros e zapear pela TV atrevendo-me a conferir a programação de alguns canais alheios à cobertura da citada competição esportiva. Quando me coloco a mudar freneticamente de canais televisivos, nunca procuro algo específico, mas qualquer imagem que, durante o intervalo de tempo de um segundo que separa uma mudança da outra, me chame a atenção. Nesse dia ao qual me referi, interrompeu-me a figura terna e agradável do saudoso poeta alagoano Lêdo Ivo, com seu jeito simples e preciso de falar, sem rodeios, inconfundível. Eu já havia gostado muito de assistir a uma entrevista desse valoroso imortal da Academia Brasileira de Letras concedida ao jornalista Geneton Moraes Neto, quando contou, risonho e descontraído, algumas histórias de sua convivência com outros famosos escritores: revelou que Guimarães Rosa, por exemplo, era um sujeito muito pouco modesto pois se julgava, sem o menor pudor, o melhor escritor da língua portuguesa de todos os tempos; disse também que era Rosa quem escrevia os press-releases de seus próprios livros, quando os elevava à condição de obras-primas, trabalhos inigualáveis na literatura mundial. Nesse segundo programa que comecei a assistir, mais uma biografia que uma entrevista, Ivo contou sobre suas origens humildes em Maceió e que ele desde cedo já se imaginava um escritor, mesmo vivendo numa cidade sem bibliotecas à época. Sobre outros escritores, revelou que sempre foi muito próximo a Graciliano Ramos e que esse o influenciou quando resolveu definir seu estilo, refratário ao movimento modernista de 1922: Ramos considerava os modernistas nada além de um bando de homossexuais assanhadiços. Entremeando esses causos, vários sonetos do poeta eram recitados, e devo confessar que, mesmo sendo um amante mais da prosa que da poesia, apreciei deveras os cuidadosos versos do autor alagoano. No intuito de melhor conhecer sua obra e também para saciar temporariamente minha ânsia por livros, resolvi encomendar por uma famosa livraria virtual o título Poesia Completa 1940-2004, da Editora Topbooks. Transcorridos os intermináveis dez dias para a entrega, tal qual um menino que recebe um presente há muito desejado, fui invadido por uma satisfação inenarrável ao abrir o livro e descobrir que meu exemplar, composto em papel de alta gramatura, é o centésimo sexagésimo segundo de uma edição com apenas duzentos exemplares e que, surpreendentemente, está autografado. Repito: autografado. Não, não se trata de uma assinatura psicografada: Lêdo Ivo, falecido em 2012, assinou os duzentos exemplares ainda em vida. Orgulhoso, estou com o meu aqui perfeitamente perfilado em minha estante pretensiosa; creio que restem apenas trinta e oito ou menos na Editora. A propósito, já li algumas páginas dessa obra e transcrevo a seguir um dos poemas que mais apreciei.

O TODO E A PARTE

Uma parte visível.
A outra parte escondida.
Assim me divido
no jogo da vida.

Assim me divido,
me somo e me subtraio.
Uma parte é do relâmpago
e a outra parte é do raio.

Sou dia e sou noite,
a certeza e o talvez
atrás da montanha.

Só ganho quando perco.
Só perco quando ganho.
Estou desperto e sonho.

(Curral de Peixe, 1991-1995)

Willendorf

visualArtsNa minha opinião, nem sempre modesta, todo o agrupamento de pessoas passível de ser qualificado família deveria possuir em seu rol de bens comuns uma enciclopédia sobre Arte, tão cuidadosa e não menos volumosa que uma obra histórica ou o tradicional livro religioso, item essencial para os crentes, como a tal Bíblia da Família, por exemplo. Digo isso porque diferente da História e da Religião, a Arte proporciona uma visão única do ser humano; através dela, é possível assistir à transformação desta necessidade intrínseca ao homem de harmonizar sons, formas, cores e texturas. Conhecer tal necessidade é, em última instância, desvendar muito do espírito humano, uma vez que ela é uma das expressões mais honestas daquilo que o constitui: o amálgama do meio que circunda o homem com seus caracteres inerentes. Assim e por não acreditar na obsolescência dos livros e enciclopédias, ainda que completamente imerso na era da Internet, resolvi dispor em minha estante pretensiosa, ao lado da Bíblia de Jerusalém, a obra The Visual Arts: A History, dos autores Hugh Honour e John Fleming, em sua sétima edição. A abordagem do livro é realmente enciclopédica, pois cobre a Arte desde o período paleolítico até o final do século XX, dedicando alguns capítulos para as artes oriental e americana; tudo isso apresentado num volume único, de mil páginas, tamanho 30 cm x 23 cm, cujo conteúdo possui nível introdutório, mais descritivo que analítico. Animado com a chegada dessa obra robusta, iniciei uma incursão despretensiosa por suas páginas grafadas com letras miúdas, justamente pelo tal período pré-histórico da Arte, quando lá pelas tantas, uma certa figura muito me chamou a atenção. Tratava-se da escultura de uma deusa mãe, conhecida por Vênus de Willendorf, onde são perfeitamente discerníveis, até para o mais desatento observador, os seios generosos e os glúteos protuberantes. Em menor escala, pode-se perceber também os grandes lábios vaginais e sua inconfundível separação. Por alguma razão, o artista preferiu não esculpir o rosto, cobrindo-o com cabelos. O texto explica que tais imagens não eram incomuns naquela época primitiva e sua adoração objetivava atrair a fertilidade, em sua mais ampla concepção: a capacidade de nutrir e de reproduzir. Procurar invocar tais dádivas idolatrando seios e vagina faz todo o sentido, mas qual seria o papel da bunda nessa história? A fim de procurar respostas, matutei intensamente com meus botões e, após um tempo significativo, ocorreu-me a ideia de que o escultor não tencionou conferir um caráter utilitarista ao seu trabalho, visando o fim precípuo de atrair fertilidade. Tenho para mim que ele tentou reproduzir as regiões que mais o encantavam – com motivações puramente sexuais – na fisionomia feminina: dentre as partes interessantes, há a bunda; não há o rosto. Eis que surge então, nesses tempos remotos, as concepções mais rudimentares sobre a beleza feminina: seios fartos, glúteos abundantes, longos cabelos trançados e uma vagina bem definida. A partir daí, tal concepção se desenvolveu e, junto com ela, a faculdade artística do ser humano. Eu diria que essa estreita relação  “Mulher-Arte” é, no mínimo, bastante interessante. Quando chego nesse ponto de minhas elucubrações – uma espécie de resultado -, sou invadido por uma necessidade quase patológica para tirar conclusões. Eis então mais uma: acredito que fazer, praticar Arte é, em última instância, buscar retratar, descrever o feminino.Venus_Willendorf

Sete

sevenHá muito, muito tempo, numa de minhas frequentes visitas solitárias ao cinema, tive o prazer de assistir ao filme Se7en – Os Sete Crimes Capitais (Se7en), do diretor David Fincher. Estrelada por Morgan Freeman e Brad Pitt nos papéis de investigadores de polícia, a película (a mídia ainda era essa em 1995) conta a história de um serial killer – interpretado pelo ator Kevin Spacey, em sua melhor atuação até o momento – cujo modus operandi se inspira nos chamados sete pecados capitais: Gula, Avareza, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça e Vaidade. A dupla de investigadores é então encarregada de descobrir o paradeiro do assassino e capturá-lo. Assim descrito, com a prudência de não revelá-lo aos que ainda não assistiram, o filme parece banal, soando como um história policial previsível, como mais um produto padronizado da indústria cinematográfica norte-americana. Confesso que em relação à sétima arte, sou alguém de difícil satisfação e convencimento: não é muito comum que eu considere uma história filmada tão nobre quanto uma história escrita. Entretanto, no caso de Se7en, minhas resistências caem por terra e me acorre a necessidade de ser justo, de ser honesto, de afirmar categoricamente que esse filme é um autêntico trabalho artístico, uma obra-prima. Em sua trilha sonora, há uma famosa peça do indescritível compositor Johann Sebastian Bach, e são citados no transcorrer da história os célebres autores Dante Alighieri e John Milton. Não posso dizer que Se7en tenha influenciado minha admiração atual por Bach e Dante, mas é curioso assistir ao filme hoje e perceber que eu já havia tomado conhecimento dessas duas personalidades, as quais, anos mais tarde, seriam parte integrante de minha estante pretensiosa: por algum motivo, a modesta coleção de Bach e A Divina Comédia estão dispostas bem próximas. Alguns dias atrás, recebi o livro John Milton: The Complete English Poems – coleção de poemas do poeta inglês John Milton, lançado pela cuidadosa editora inglesa Everyman’s Library – e o coloquei perto dos demais. Porém, antes disso, como acontece com qualquer livro recém-chegado aos meus domínios, interrompo qualquer outra ocupação a fim de folheá-lo. Chamou-me a atenção um pequeno grande poema dedicado à Shakespeare. Ainda com as fortes lembranças do filme e empolgado com minhas aventuras no campo da tradução, resolvi então me atrever a verter para o Português os versos rimados desse texto, intitulado On Shakespeare, apresentado no menu Trabalhos, Tradução, submenu John Milton. Na tradução possível das rimas, procurei manter, apesar de minhas pobres experiências poéticas, a nobreza e a altivez do texto original.

Respeito

dupinDescobri a maioria dos autores que hoje me são familiares remexendo estantes de livros. Além de minha curiosidade congênita pela matéria, esse bisbilhotar tinha raízes na vontade de explorar o desconhecido, na procura por respostas, na busca por tesouros escondidos; ocupações essas que, vez por outra, tomavam horas de meus finais de semana, ou, dependendo da época, das minhas férias. Hoje percebo que a estante mais divertida, aquela que mais tive prazer em desbravar foi a da casa de meu avô; algo que costumava fazer nos dias mais frios, cinzentos e chuvosos de minha cidade natal. Ali, enfurnado dentro de casa, na pequena sala de estar, eu primeiro corria os olhos pelas prateleiras abertas da estante e depois abria as portas de sua parte inferior, onde havia uma imensidão de títulos empilhados desordenadamente; confusão que, ao invés de desestimular a procura, atiçava ainda mais o meu interesse. Conforme já citei em post anterior, numa dessas incursões pelo desconhecido, chamou-me a atenção um livro de capa sombria, amedrontadora, própria das histórias de horror, exibindo uma espécie de macaco gigantesco, com uma mansão decrépita em segundo plano, desenhados de maneira rudimentar, quase ingênua, mas compatível com o preço e a qualidade da edição. Tratava-se de um compêndio de contos do escritor norte americano Edgar Allan Poe (1809-1849) cuja capa ilustrava um deles, intitulado pelo tradutor Os Crimes da Rua Morgue. Talvez esse autor tenha sido o primeiro a compor o conjunto de artistas que admiro e, por conta disso, hoje ele não poderia faltar na minha biblioteca pretensiosa. O livro e as lembranças daquele tempo incitaram sonhos intranquilos, que numa noite tórrida me fizeram acordar com as antigas imagens do conto, ainda indefinidas. Resolvi então relê-lo a fim de aliviar o incômodo e também para poder reviver aquele tempo, aquelas horas à estante do meu saudoso avô, alguém que descobri recentemente ser também um bibliófilo. A péssima tradução que há muito repousava em minha estante impediu que eu prosseguisse e, ato contínuo, suscitou um encadeamento de ideias: primeiro, resolvi buscar traduções mais recentes e constatei que eram igualmente ruins; depois, apesar do meu parco conhecimento de Inglês, decidi ler o conto no original, mas isso não aplacou algo ainda indefinível que me inquietava; após algum tempo perscrutando os recessos de minha mente perturbada, percebi que eu desejava, na verdade, corrigir certas faltas cometidas, reparar culpas desconfortáveis, escondidas desde a morte de meu avô; culpas que, sem motivo aparente, emergiram. Diante dessa clarividência e desejoso de lhe agradecer pelos momentos inesquecíveis à sua estante, ocorreu-me traduzir o conto; mas traduzi-lo da maneira que o texto e seu autor merecem: com respeito. Após um longo tempo de labuta e animado por ter finalmente superado este desafio de verter para o Português um escrito do admirável Edgar Allan Poe, resolvi impor-me mais um, ainda não iniciado: traduzir, além desse, os outros dois textos com o mesmo protagonista. Assim, publico aqui no Extrato mais uma obra em construção, disponível no menu Tradução, submenu Edgar Allan Poe, chamada Os Contos do Monsieur C. Auguste Dupin, onde o primeiro deles, por mim intitulado Os Assassinatos na Rue Morgue, está finalizado. Por conta de minhas pesquisas e de uma absoluta falta de modéstia que frequentemente me acomete, trata-se, até o presente momento, da melhor tradução desse conto para a língua portuguesa.

O Gigante

ChapeuNos meus longínquos tempos de criança, ele me parecia um verdadeiro gigante: para erguer meu olhar até seu rosto, eu precisava inclinar bastante a cabeça para trás. Dessa visão de menino, surgia uma boa dose de medo, pois não se tratava de alguém dado a muitas conversas, a muitas interações. Em meio ao silêncio que o envolvia, conservava sempre um semblante circunspecto, e seu jeito fechado impingia-lhe, vez por outra, as feições da severidade. Ele não era, em absoluto, violento; nunca o enxerguei como alguém que eu desejasse manter distância, que eu preferisse não encontrar. É curioso perceber agora aquele medo que jamais engendrou o repúdio. Algumas vezes, meus irmãos e eu, seus netos que moravam na capital, nos atrevíamos, sem o menor pudor, a escalá-lo quando estava distraído ou a pular em seu colo enquanto descansava no sofá. Por algum motivo, entendíamos que sua reação impaciente àquela efusividade ruidosa era apenas aparente; nos parecia claro que reagia assim não porque se incomodava com nossas brincadeiras, mas consigo mesmo; por querer retribuir e não saber como fazê-lo. Assim, na expectativa de repetir esse assédio, ficávamos ansiosos à janela, naqueles finais de tarde chuvosos, esperando-o chegar do trabalho. Quando ele apontava na esquina da rua, vinha a passos firmes, rápidos, carregando seus pertences e um chapéu marrom muito bem cuidado, simples e limpo. Da parcela visível do cabelo, notava-se que ele os alisava com óleo e esse esmero ele tinha também ao se vestir: sapato preto lustrado; calça com três pregas, modesta, limpa, cinto à altura do umbigo, chaveiro, relógio de bolso, camisa social sem manga, de algodão, lisa, impecável. Não era incomum que chegasse de caminhão, o mesmo que o conduzira, junto com o motorista e outros colegas, ao longo do dia de trabalho. Ficávamos animados com essa chegada diferente e ao vê-lo descendo da carroceria, corríamos para recebê-lo. Ao longo dos anos, amenizou-se toda aquela seriedade que o caracterizava e assim, nesses modos menos taciturnos, ele costuma me acorrer à lembrança: seu sorriso incontido, seus gestos singulares, sua robustez, a voz altiva, as mãos grossas do capinar, a pele alva extensamente castigada pelo sol, o invejável azul saturado dos olhos e um contemplar discreto, na maioria das vezes, à janela, fitando o infinito. Amante da boa música caipira, dessas que não se fazem mais, ele tinha sempre por perto um radinho de pilha, que costumeiramente ligava ao ir para cama e ao acordar de madrugada, quando partia para mais um dia de trabalho. Conservava prazeres singelos, nunca dispondo de tempo e muito menos de dinheiro para gozá-los: findo seus anos de serviço, quando poderia dispor de seu merecido descanso, a doença o levou pouco tempo depois. De seus objetos, restou quase nada para lembrá-lo; entretanto, com o avançar implacável da idade, está ficando cada vez menos imprescindível estimular minhas recordações, principalmente das pessoas queridas, pela via material. Confesso que ela ainda me é importante, mas, hoje em dia, as histórias que ouço sobre elas são tão ou mais encantadoras do que o tangível. Há pouco tempo, num bate papo casual com minha mãe, falávamos sobre a prática da leitura e eu recordava o quanto gostava de ler estando na casa de meu avô, onde havia uma pequenina estante, abarrotada com livrinhos, dos mais variados tipos e qualidades. Ela me contou que, restrito por apertadíssimos limites financeiros, meu avô se permitia uma única extravagância: livros. Eis o único item que ele admitia estourar o orçamento. Essa novidade não me saiu mais da cabeça e as recordações desse tempo, quando eu vasculhava aquela estante maravilhosa à procura do desconhecido, se aprofundaram. Certa noite, acordei com a imagem de um daqueles livros, que trazia à capa uma mansão sinistra. Corri então em direção à minha estante, peguei um título e o folheei até encontrar um conto. Decidi então relê-lo, pois as reminiscências da história ainda estavam vivas, fortemente associadas ao livro da estantezinha do meu avô. Poucas linhas à frente, interrompi a leitura; temi que aquela tradução ignóbil maculasse as circunstâncias maravilhosas com as quais minha mente perturbada envolvera a obra. Passou-me então pela cabeça lê-la no original em inglês, mas essa ideia foi atropelada por outra, ansiosa em prestar um pequeno tributo à esse homem que, no evento de sua morte, recebeu do neto mais velho a crueldade da ausência e da desconsideração. Então, traduzi esse conto, escrito em 1841, para o português, na tentativa de reparar o irreparável: um erro do passado. Muito em breve, publicarei essa tradução, essa homenagem, aqui no Extrato.

Você

Você lê um livro que te impressiona porque diz muita coisa a seu respeito;
Você tem vontade que outros o leiam porque deseja que tenham a mesma experiência;
Você se embaraça ao indicá-lo aos amigos porque ele é escrito em inglês;
Você procura uma versão do livro em português porque o autor é o famoso Erich Fromm;
Você se decepciona enormemente porque inexiste tradução para o seu idioma;
Você tem uma grande ideia porque certos desafios o instigam;
Você começa a verter o livro para o português porque acredita na sua capacidade;
Você termina orgulhoso seu trabalho porque ele não foi nada fácil;
Você o submete a diversas editoras porque almeja recompensa mínima por seu esforço;
Você constata o total desinteresse delas porque o livro não vende fácil;
Você se emputece consigo mesmo por ter dispendido precioso tempo em vão;
Você ignora esse trabalho por um tempo porque precisa evitar a frustração;
Você pensa naqueles para os quais indicou o livro porque nunca o verão nas livrarias;
Você resolve disponibilizar o livro no seu blog porque tem arroubos raros de despojamento;
Você coloca o livro na área Trabalhos/Tradução porque quer se mostrar organizado;
Você se sente livre porque só agora dá um fim ao que se propôs.

Sermão

montanhaCaros irmãos, gostaria de discorrer brevemente sobre o despojar-se: tema bastante recorrente não só no ideário Católico, mas também no religioso de uma forma geral. O assunto – espécie de cliché teológico – também é tratado pelas crenças orientais, sendo um dos fundamentos da doutrina budista, que prega o desapego às coisas materiais e aos prazeres mundanos em prol da pureza da alma. O Hinduísmo rejeita veementemente o apego material e o considera um entrave ao exercício da espiritualidade. Em nossa Bíblia cristã, há diversas passagens pregando a precedência da alma sobre às efemeridades da vida. Em Mateus 5,3-12, ensina-nos Cristo as nove bem-aventuranças e, logo na primeira, ele trata do assunto: “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o reino do céu”. No capítulo anterior, o evangelista escreve que o tentador, ao oferecer à Jesus poder e glória sobre todos os reinos do mundo em troca de submissão, recebe a seguinte resposta: “Vai-te, Satanás; pois está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto'”. Mais à frente, no capítulo 16, o mesmo Mateus apresenta uma exortação do Mestre aos seus discípulos: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser preservar sua vida, irá perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa, este a preservará. Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a vida?” Percebe-se, portanto, um certo nível de incompatibilidade entre espiritualidade e materialidade, no qual o ser contrapõe-se ao ter. A alma associa-se ao eterno enquanto a matéria ao perecível: “Não ajunteis tesouros na terra, onde traça e ferrugem os consomem, e os ladrões invadem e roubam; mas ajuntai tesouros no céu…” (Mt 6,19-20). Nesse contexto, a mim me parece que despojar significa libertar-se de tudo o que é passageiro, de tudo o que não é eterno. Diante da concepção de que somos formados por um corpo e uma alma, o conjunto das coisas efêmeras, no qual se incluem os construtos humanos e naturais, também abarca o corpo limitado, a carne. A busca pelo despojar-se é, em última instância, a busca pelo aprimoramento da alma, da nossa parcela que cremos ser eterna. Assim, minoramos a angústia da morte; o repúdio, o medo que ela nos causa: desapegar-se do finito é aceitá-lo. Renunciar é aprender sabiamente a morrer. Eis então que venho enaltecer a decisão de Vossa Santidade o Papa Demissionário Bento XVI; alguém que, nesses tempos de insaciáveis fome e sede de poder, abdicou, nos últimos anos de vida que lhe restam, do posto de substituto de São Pedro. Com a saúde debilitada, rejeitou a ideia de definhar em público, de ser admirado menos por suas obras e mais por sua senilidade. Perderá ainda o posto de Cardeal e voltará a ser o Bispo Joseph Aloisius Ratzinger, um fã de Mozart. Viverá recluso num convento, em meio aos livros, orando, estudando, lendo e escrevendo; ações em prol das quais vale a pena sua renúncia, pois são formas dignas, honestas de despojamento, do saber morrer.

Mentira

EscravidãoO nome do autor me era conhecido. Havia alguns livros dele na estante da sala, na minha época de adolescente. Apesar de faltarem lembranças estruturadas, não seria de todo absurdo afirmar que meu pai comentou sobre ele conosco: Erich Fromm.  Até bem pouco tempo, a impressão que ficara escondida, mas viva, era a de um filósofo brilhante, alguém admirável, cujo texto simples, inteligente e direto fazia refletir sobre a liberdade; muito embora ainda me fosse obscura que liberdade era essa afinal, pois eu só conseguia entender a falta dela nos regimes de escravidão, em tempos remotos da História. Recentemente, por algum motivo desconhecido, a lembrança emergiu das ininteligíveis profundezas da mente e ocorreu-me vasculhar a antiga estante à procura daqueles três livros para descobrir seus títulos. Anotei cada um deles, coloquei os exemplares nos seus locais de origem e corri às livrarias na esperança de encontrá-los: infelizmente, todos fora de catálogo. Como a minha necessidade de possuir bens materiais é patológica, não era suposto que eu tomasse aqueles livros da estante emprestados: eles não eram e nunca foram meus. Nesse estado de decepção, de impossibilidade do ter, não me é costumeiro reagir de maneira produtiva, fruto de um pensamento mais elaborado; apenas murmuro, lamento profundamente o insucesso da empreitada até que surja algo diverso para me entreter. Nesse caso particular, consegui,  através de árduo raciocínio, chegar à este belíssimo e óbvio questionamento: se o texto era simples, como diziam as lembranças, e minha leitura de inglês razoável, por que não arriscar ler as obras na língua em que haviam sido escritas? Por que não? Bom, entre a ocorrência da ideia e a procura pelos livros na Amazon, transcorreu o tempo de “inicialização” do computador. Lá estavam eles, a preços módicos e portanto acessíveis para mim: Escape From Freedom, Man For Himself e The Sane Society. Comprei-os e aguardei ansiosamente os infindáveis dias que se passaram até a entrega: queria iniciar logo a descoberta daquele autor que jazia há muito em minhas reminiscências e também proceder ao desafio de ler meus primeiros livros inteirinhos em inglês. Embora minhas expectativas em relação às obras tenham sido maiores do que o conteúdo que revelaram, algo perfeitamente normal naquele estado de ansiedade que me encontrava, descobri do que se tratava a liberdade decantada pelo filósofo e também psicanalista alemão dr. Fromm. Ele argumenta que é uma tendência do homem manter-se ligado, atado afetivamente à alguém e que, no devido momento, faz-se necessário esforço para romper esse laço, lutar, ir de encontro ao estado inicial de dependência, inimiga da liberdade. Se por algum motivo, cedemos à inércia e não realizamos esse movimento desconfortável, transferimos as figuras parentais, principais objetos de nossas primeiras ligações, para terceiros e a eles nos ligamos por um cordão umbilical psicológico, ficamos prisioneiros de nós mesmos, da nossa carência infantil, da necessidade de aprovação, de sermos aceitos, de sermos amados, admirados, nutridos. Tal comportamento é benéfico e essencial nos primeiros anos de vida, mas torna-se destrutivo e escravizante em idade adulta, quando são necessárias autenticidade e autonomia. Nesse estado de dependência, o adulto cronológico fica refém da criança psicológica, que, imatura, birrenta e egocêntrica, é incapaz de aceitar a realidade; situação que o impele a fabricar um mundo para si, um mundo onde suas fantasias sofisticadas ganham vida e se transformam em verdades absolutas. Ele, então, se torna vítima dessa criatividade maléfica, quando o assaltam sistematicamente o medo e a insegurança, dos quais precisa se proteger valendo-se, muitas vezes, de arrogância e de uma falsa autoconfiança: armas que dissimulam sua fraqueza, sua debilidade emocional. Armado, escravizado, com olhar voltado unicamente para si, esse homem esquizoide passa a estabelecer relações distorcidas: vincula-se àqueles que o veneram e repudia agressivamente aqueles que podem ameaçar suas verdades fictícias, que as contestam. Para ele, desafiá-lo é como tentar matá-lo, porque sua fraude preciosa pode ser descoberta, porque sua vida como um todo fundamenta-se na mentira.

Discordâncias

Basic-EconomicsAcredito que esta seja a primeira vez que leio um livro técnico do qual discordo quase completamente. Devo dizer que essa novidade é uma experiência ímpar: acostumado com livros de matemática, onde há muito pouco do que se discordar, vejo como um progresso da minha débil autenticidade confrontar a  pequena coleção de opiniões próprias que disponho com a sapiência de um acadêmico da Universidade de Stanford. O título do livro é Basic Economics: a common sense guide to the Economy, escrito pelo economista americano Thomas Sowell, fervoroso adepto do chamado livre mercado. O autor prega que um mercado só é livre quando não há intervenção de espécie alguma no mecanismo de preços; mecanismo esse que, regido pelas leis da oferta e da demanda, confere o devido valor a cada produto ou serviço comercializado, resolvendo, de maneira definitiva, o problema econômico: a correta alocação dos escassos recursos disponíveis para uma determinada sociedade. A partir dessa verdade, que coloca repetidamente ao longo do texto, Sowell defende com unhas e dentes que o tal mecanismo é algo perfeito e, portanto, intocável; que qualquer tentativa de regrá-lo provocará privilégios e desigualdades; que, diferentemente da lei da gravidade, a flutuação livre dos preços, fundamento do Capitalismo, não pode ser desafiada; que eventuais regramentos infratores desse dogma divino podem colocar, em última instância, uma nação inteira em crise recessiva. Aguardo, com certa incredulidade, o redentor capítulo do livro onde o autor pousará os pés no chão e apresentará exceções à sua abstração. Por enquanto, flutuando em seu mundo fictício, Sowell insiste em afirmar que cartéis e monopólios são fenômenos raros; que o cidadão pode facilmente substituir o alho pelo bugalho, evitando submeter-se a um produtor único; que agências reguladoras são sempre maléficas; que ganância e Capitalismo são incompatíveis; que competência administrativa é a única causa do sucesso das grandes corporações; que a prática do “dumping” é algo intrínseco aos processos do mercado e estimulante da concorrência; que falências e quebradeiras generalizadas produzem efeitos saneadores, revigorantes e outras impropriedades do gênero. Apoio minhas discordâncias não no meu conhecimento de Economia, que é pobre, como os países do terceiro mundo, mas no dia a dia do mundo real, na existência da OPEP, no serpear dos lobistas pelos corredores do poder, no envolvimento de grandes empresas como a IBM em escândalos de corrupção, na crise econômica mundial de 2008 e o consequente recrudescimento da regulação pelos Bancos Centrais, bem como outros fatos concretos que se opõem à etérea teoria do nobre professor de Stanford. Se o homem não dispõe de pudor para desequilibrar os ecossistemas da Terra, algo que os americanos sabem fazer como ninguém, por que haveria de tê-lo para controlar um mero construto da mente humana, o mercado? Não vejo o livre mercado que o dr Sowell tanto defende como uma força natural intocável ou como um mandamento religioso, ao qual devemos nos submeter passiva e obedientemente; não é algo isento de distorções e problemas. Em prol do ser humano, há que se preservar racionalmente seus muitos benefícios e aliviar seus muitos malefícios, interferindo direta e deliberadamente nos seus movimentos. Apesar dessas dissonâncias, confesso que estou gostando do livro, porque me instiga o confronto, o embate de ideias; ações para as quais preciso sair do meu conforto e da minha alienação; para as quais preciso estudar e me informar. Lendo textos como o do dr Sowell, percebo cada vez mais clara a desnecessidade de me posicionar ideologicamente, muito embora alguns encarem isso como “ficar em cima do muro”. Para esses, cuja ânsia por rotular é algo fisiológico, digo então que sou um anarquista de extrema direita.

Veredicto

Eu estava na quarta série primária e a professora de Português, tia Ângela, fazia parte daquele grupo de pessoas que me intimidavam. Eu ainda tinha destas coisas naquela época: temor de autoridades, principalmente quando eram rigorosas. Lembro-me de ficar amedrontado na aula em que tia Ângela informou sobre o livro que precisaríamos ler, objeto de avaliação da famigerada “ficha literária”. Esse era o apelido sofisticado que se dava para uma prova sobre os dados da história e sua “correta” interpretação. Havia uma delas por semestre e, naquela aula, fomos informados que seríamos avaliados quanto à leitura da obra teatral Auto da Compadecida, do turrão Ariano Suassuna. Ao chegar em casa, informei, ansioso, sobre a premência na compra do livro: era necessário começar a ler o quanto antes, pois eu já sabia da minha dificuldade no ramo da interpretação de textos. De posse da obra, iniciei imediatamente os esforços que resultaram, até a data da prova, em duas leituras completas e várias outras que cobriam trechos específicos da história. Na véspera da ficha literária, fiz uma revisão geral e constatei, segundo minha avaliação, que estava pronto para o que desse e viesse, que me tornara um especialista nas aventuras e desventuras de João Grilo. Como já mencionei aqui no Extrato, padeço de problemas crônicos com expectativas positivas, desde tenra idade. Teimosas, elas sempre rejeitaram a materialização; comportamento que não foi diferente com a expectativa do sucesso na ficha. Quando recebi a nota, um rubro e odioso “4”, enxerguei-me o único condenado naquele julgamento da história: o Salvador de Suassuna havia sido misericordioso com todos, exceto comigo. Creio que tenha sido esse veredicto injusto que, desde então, me impede de ler o renomado autor paraibano.

Davos-Platz

Desde que me entendo por gente, gosto de livros. A leitura veio bem depois; primeiro, atraiu-me o objeto livro: a capa, o papel, a fonte, o cheiro, a textura, o folhear. Quando pequeno, eu costumava passar um bom tempo admirando a imponente estante da sala, preenchida parcialmente pelos livros técnicos do meu pai. A forma pela qual ele os distribuia era regular e padronizada: assunto, autor, do exemplar mais alto para o mais baixo. Se algum deles estivesse disposto fora do padrão, eu mesmo o consertava. Ao  longo do tempo, foram chegando os romances da minha mãe, assinante do Círculo do Livro, e a área desocupada  da estante encheu-se gradativamente de cor, ganhou finalmente vida. Por alguma razão, não era necessário padronizá-la como a seção técnica, e o móvel, agora inteiro e equilibrado, revelou-se perfeito. Gigantesco para a minha estatura de menino, eu conservava um respeito quase religioso por ele, pelo incomensurável esforço humano sustentado nas suas prateleiras de madeira: quanto trabalho, quanto tempo, quanto escrever e reescrever para produzir aquela quantidade infindável de páginas. Havia um livro específico que me chamava mais a atenção do que os outros: volumoso, bem costurado, com capa dura, papel branco, letras pequenas, cheiro de novinho e delicioso de folhear. Na sobrecapa, havia uma foto intrigante de um castelo ao pôr do sol e acima de suas torres, lia-se: A Montanha MágicaThomas Mann. A partir desse livro e das reminiscências daquele tempo, ocorreu-me, recentemente, acrescentar àquela atração sensorial infantil, que nunca arrefeceu, o interesse pela Literatura. Iniciei escalando a Montanha até chegar ao sanatório de Davos-Platz, só para ver como era, e junto com Hans Castorp, prolonguei deliberadamente minha estada.