Interrupção

drakroom– Ouvi dizer sobre um novo ranking de fantasias femininas. – disse ele.
– Também ouvi, mas não sei do conteúdo. – disse ela.
– Falaram-me apenas da número 1.
– E qual é?
– Cópula com um estranho, com um completo desconhecido.
– Hum…
– Concorda ou discorda?
– No âmbito de minhas preferências, discordo.
– Qual seria sua predileta?
– Algo ainda mais impessoal que um estranho.
– Animais?
– Não, eles têm identidade.
– Objetos?
– Lugar-comum.
– Então o quê?
– Às vezes, imagino um quarto bem escuro e me vejo sozinha na cama, dormindo.
– Nem é preciso dizer que seu sono é interrompido?!
– Exato, interrompido por mãos que rasgam minhas roupas de baixo.
– Você se assusta?
– Sim, mas sou receptiva. Depois, uma língua me percorre e me estimula.
– Como reage?
– Mantenho os olhos fechados. Quieta, pressinto que não precisarei fazer muito.
– Fica passiva?
– No ótimo sentido do termo.
– Entendo…
– A seguir, uma boca suga avidamente minhas costas.
– E então?
– Enquanto dentes mordem minha nuca, sou invadida inescrupulosamente.
– E como termina?
– Volto a ficar sozinha na cama e caio num profundo sono angelical.
– Justo: depois do amor, o descanso…
– Nada disso! Durmo na intenção de que tudo se repita.

made in brazil

ArrogânciaVez por outra, atrevo-me a opinar sobre searas nas quais meu conhecimento é bastante limitado. Talvez seja fruto de arrogância e onipotência, peculiaridades ainda difíceis de controlar e que já me trouxeram as pechas de insociável, antipático, pedante e outras impropriedades do tipo. Confesso que essa e outras idiossincrasias já foram mais proeminentes: encarregaram-se de desbastá-las as lições implacáveis desta ineficiente labuta chamada viver. Uma vez assimilados e analisados esses impactos, sobreveio uma rudimentar percepção de que tais impulsos provocam danos quando extrapolam meus limites e invadem territórios alheios. Dessa invasão descabida resultam as tais pechas impróprias; algo que muito me incomoda, mas uma justa reação a manifestações de insolência. Com elas, acobertei muitas vezes  fraquezas e superficialidades, pois era matéria vital não desvelá-las. Enxergar esse mecanismo, uma espécie de estupidez sofisticada, foi tão surpreendente quanto descobrir que não é possível saber de tudo, sequer daquilo que se julga conhecer em profundidade, por mais óbvio que isso possa parecer. Durante muito tempo, houve uma rejeição da minha parte, uma anafilaxia, à frase “Eu não sei”. Talvez tudo isso seja distorção de um traço remoto, acredito congênito, cujos primeiros sinais se deram no menino perguntador. Enfim, pensando nessas coisas dolorosas, sempre me acorre ao final uma inexplicável sensação de profundo acolhimento, como se estivesse nos braços da Providência Divina, quando me deparo confrontando essas minhas mazelas com as da grotesca criatura veneziana “made in brazil” chamada Diogo Mainardi.