Contragolpe

GolEu estava de férias da faculdade quando meu pai, ao telefone, perguntou: “Quer ganhar um carro?”. Até o meu animado “Sim” correram alguns minutos para a completa assimilação de todo o significado daquela pergunta, porque um carro, para mim, sempre fora um bem de terceiros, inatingível. Naquela época, meu principal objetivo material era adquirir um aparelho de som mais potente e moderno, que explorasse todas as vantagens do “Compact Disc”, novidade tecnológica que muito me interessava. Retornei das férias, orgulhoso e destemido, conduzindo um pomposo Gol AP 1.8 a álcool, ano 1985, usado, ou melhor, abusado; mas potente, uma máquina. Ao longo da viagem até Uberlândia, fui refletindo sobre os benefícios que aquele veículo me traria: haveria uma enorme vantagem competitiva para conseguir namorar a Cláudia. Poucos dias depois que cheguei, exerci minha nova condição de pretendente poderoso e convidei a gatinha para sair. Como já mencionei aqui no Extrato, eram necessários pouquíssimos atributos para se conseguir o título de “gatinha” na engenharia; no entanto, minha musa dispunha realmente de volumes proporcionais e harmonicamente dispostos, um cabelo negro liso, longo e uma voz macia. Havíamos saído algumas vezes, apenas como amigos, mas de posse daquele Gol, fui tomado por uma coragem sem precedentes e resolvi ultrapassar definitivamente o obstáculo da amizade. Meu convite foi aceito, como quase sempre acontecia, e fui pegá-la em casa, com o carro; algo que a impressionou menos do que eu imaginava. Entretanto, essa pequena decepção foi completamente superada quando me dei conta do tamanho da saia que ela trajava: sentada ali ao meu lado, no banco do passageiro, a área das pernas que estava desnuda era mais do que satisfatória; algo tão inesperado e surpreendente quanto o Gol. Depois de repetir diversas vezes o quanto estava bonita, percebi o efeito benéfico dos elogios: ela estava diferente, menos retraída, mais espontânea. Pensei então comigo: “É hoje!”. Durante o passeio, rimos e conversamos muito; bem mais do que outras vezes. Quando fui deixá-la em casa, o carro, a mini-saia e minha presunção afrouxaram-me o controle dos impulsos e tentei atacá-la nos três beijinhos de despedida. Fui contragolpeado por duas mãos no meu peito, impedindo minha investida, e uma reação indignada.
– O que você tá fazendo? – perguntou ela.
– Tentando te beijar…Eu gosto muito de você – respondi.
– Mas eu não quero nada com você. Somos apenas amigos. E tem mais: eu não gosto de ser tocada sem aviso prévio. Por que fez isso?
– Você… tá de mini-saia e eu… tô com carro.
– Tchau!
Passaram-se alguns anos até que nos falássemos de novo e outros tantos para que eu conseguisse ter uma vaga ideia das forças instintivas, minha e dela, envolvidas nesse fatídico episódio.

made in brazil

ArrogânciaVez por outra, atrevo-me a opinar sobre searas nas quais meu conhecimento é bastante limitado. Talvez seja fruto de arrogância e onipotência, peculiaridades ainda difíceis de controlar e que já me trouxeram as pechas de insociável, antipático, pedante e outras impropriedades do tipo. Confesso que essa e outras idiossincrasias já foram mais proeminentes: encarregaram-se de desbastá-las as lições implacáveis desta ineficiente labuta chamada viver. Uma vez assimilados e analisados esses impactos, sobreveio uma rudimentar percepção de que tais impulsos provocam danos quando extrapolam meus limites e invadem territórios alheios. Dessa invasão descabida resultam as tais pechas impróprias; algo que muito me incomoda, mas uma justa reação a manifestações de insolência. Com elas, acobertei muitas vezes  fraquezas e superficialidades, pois era matéria vital não desvelá-las. Enxergar esse mecanismo, uma espécie de estupidez sofisticada, foi tão surpreendente quanto descobrir que não é possível saber de tudo, sequer daquilo que se julga conhecer em profundidade, por mais óbvio que isso possa parecer. Durante muito tempo, houve uma rejeição da minha parte, uma anafilaxia, à frase “Eu não sei”. Talvez tudo isso seja distorção de um traço remoto, acredito congênito, cujos primeiros sinais se deram no menino perguntador. Enfim, pensando nessas coisas dolorosas, sempre me acorre ao final uma inexplicável sensação de profundo acolhimento, como se estivesse nos braços da Providência Divina, quando me deparo confrontando essas minhas mazelas com as da grotesca criatura veneziana “made in brazil” chamada Diogo Mainardi.