À Mesa

chalaQuando Helinho chegou em casa com o canudo debaixo do braço, Dona V* sentiu um misto de orgulho e alívio. Inquieta, pensou consigo: “Quem sabe agora, longe das más influências acadêmicas, esse menino se emenda”. Para receber o filho bacharel, ela havia preparado, entre outros quitutes, um delicioso challah, a guloseima preferida do pimpolho, seguindo uma velha receita de seus antepassados judeus. Diante daquela mesa que sustentava inúmeros quitutes, Helinho empolgou-se e, tendo um generoso naco do citado pão divino – ou melhor dizendo, “pão apetitoso”, pois Helinho não crê em certos termos – a saracotear pela boca, anunciou:
– Mamãe, agora, após tantos anos de estudos, período dos mais profícuos em minha longa jornada discente, vou poder aplicar os conhecimentos adquiridos com a ajuda de tão nobres e eminentes mestres “uspianos”, sem falar nos valorosos pensadores, sobre cujas ideias construí as minhas. E tudo isso, Mamãe, veja bem! Tudo isso sem prejuízo de minha autonomia, de minha emancipação intelectual. Finalmente, praticarei esta ciência maravilhosa, que mudou radicalmente minha vida, lançando a luz inefável da consciência crítica aos quatro cantos deste nosso imenso país assolado pela ignorância, pela alienação, pela corrupção, pela mediocridade e tantas outras mazelas provocadas pelo subdesenvolvimento político, social, econômico, artístico, cultural e educacional… Cof, cof, cof… Advogarei com fervor as causas de minhas convicções, defenderei a liberdade do pensamento, questionarei os dogmas, insurgir-me-ei contra qualquer tipo de censura, polemizarei com o establishment reacionário, apontarei a idiotia do esquerdismo xiita, rechaçarei a tirania moral dos setores escravizantes da sociedade… Cof, cof….
Naquele momento, a mãe então o acudiu, batendo-lhe nas costas, rogando que interrompesse o arsenal de palavras sofisticadas que dissera, pois receava que pudesse se engasgar e também para evitar que seu discurso descambasse para um tema que havia sido razão de divergência entre os dois. Angustiada, ela ainda guardava em seu infinito coração de mãe cada palavra que Helinho proferiu alguns anos antes, sentado naquela mesma mesa, onde anunciou sua descrença inexorável em Deus:
– Eu li Schopenhauer, Mamãe! Li Nietzsche! Senti-me livre ao descobrir o mal causado pela repressão religiosa, que estreita e circunscreve a capacidade do agir, do pensar, do discernir, do raciocinar. Deus é uma ficção, Mamãe! Um artifício! Um subterfúgio! Louvo esta ciência eminentemente humana que me concedeu a clarividência, louvo estes autores iluminados, gênios do pensamento, ápice e glória de tudo o que se chama conhecimento.
Dona V*, que após tais palavras receava ouvir uma tediosa ode à Filosofia, sentiu-se derrotada e procurou convencer o filho, numa longa e cansativa discussão, de que talvez fosse possível conciliar a opção profissional com a crença no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob ou, pelo menos, na figura de um criador. Lá pelas tantas, quando percebeu a inutilidade de seus argumentos ante à intransigência do filho, resignou-se como toda mãe dedicada, vítima do tal amor incondicional. Recobrada dessas amargas lembranças e no intuito de dar um novo rumo à conversa que estavam tendo em companhia do canudo, a mãe perguntou:
– Tem alguma estratégia para levar a cabo todos esses planos profissionais?
– Pois é, Mamãe. Eu tava aqui pensando se o Papá conseguiria conversar com o Seu Frias para me arranjar uma vaguinha lá na Folha.
E assim se fez: Helinho tornou-se funcionário deste eminente diário paulistano. Ali, numa ascensão meteórica, dada a sua inteligência de asquenaze – inteligência que ele acredita ser geneticamente superior a de qualquer muçulmano – e uma profunda habilidade com as palavras, tornou-se aquilo que o jornalismo denomina colunista e dos mais renomados, daqueles qualificados pelos desavisados como polêmicos. Certo dia, novamente sentado à farta mesa de sua mãe, onde devorava um indescritível kugel de cenoura, Helinho foi submetido a um colóquio indigesto. Um considerável pedaço da guloseima atravessava o canal esofágico do colunista rumo ao seu estômago vazio quando, com aquela ternura própria de mãe, Dona V* disse:
– Meu filho, eu li aquele seu artigo sobre manifestações racistas.
– Mamãe, já pedi para que a senhora não leia o que escrevo. Fico encabulado! Constrangido!
– Mas meu filho, você é muito bom! Gosto de suas opiniões e do jeito que escreve!
– Obrigado, mamãe! Desculpe! Mas então? Gostou?
– O artigo está bem escrito, como sempre. Mas, você não acha que extrapolou um pouco?
– Não me preocupo muito com isso, Mamãe. Dentro do limite da responsabilidade, escrevo o que penso.
– Preocupo-me com você, meu filho. Receio que esse seu limite esteja excessivamente amplo. Lembra daquele artigo da Demografia do Nobel?
– Sim.
– Aquilo ali soou mal, meu filho! Chamaram de preconceito científico!
– Mamãe, eu apresentei números. Números são números: uma das ferramentas fundamentais do raciocínio lógico.
– Filho, você acredita que raciocinou da mesma forma no artigo do racismo?
– Não com números, mas com John Stuart Mill.
– Você acha que numa livre manifestação de ideias sobre esse tema, aqui no Brasil, os atores teriam poderes proporcionais?
– Sim!
– Vamos supor então um grande apresentador de TV ou qualquer bom comunicador declarando abertamente que não gosta dos negros.
– Já imaginei.
– Você acha que haveriam forças, forças emanadas de uma minoria negra, para lutar em pé de igualdade com o comunicador?
– Sim!
– Aqui no Brasil?
– Sim!
– Não minta, meu filho. Você não acredita nessa proporcionalidade!
– Como assim, Mamãe? Se digo que acredito é porque acredito.
– No artigo do Pastor e os Gays, você diz que o pastor Silas Malafaia não deveria se pronunciar quanto à cura gay.
– Eu disse que ele não deve se pronunciar na condição de psicólogo.
– Então na condição de pastor, ele pode?
– Sim!
– Usando seus programas de TV, seus programas de rádio, seus panfletos, suas revistas, seus CD’s, seus DVD’s, sua igreja?
– Humm… É….
– Você não acredita no que escreveu, meu filho! Se acreditasse, não lhe pareceria muito sensato mandar um pastor homofóbico calar a boca e, meses depois, pregar liberdade de expressão para milhares de racistas.
–  Mamãe, insinua que sou preconceituoso em relação aos negros?
– Não, meu filho. Desconheço as causas dessa diferenciação que você fez. Mas, de alguma forma, eu lamento ter te tirado da psicanálise. Talvez você mesmo já soubesse a reposta.
– Um filósofo não precisa de Psicanálise!!!!
– Filho, entenda! Essas suas ideias são muito bonitas, mas são fundadas apenas em teorias! O mundo real é diferente! A realidade não se submete à teoria: a realidade é a verdade!
– Mamãe, insinua que ainda sou inexperiente? Insinua que eu precise voltar ao banco da escola para aprender alguma coisa?
– Pelo contrário, meu filho! O problema é justamente este: você ainda está sentado no banco da escola! Nunca saiu dele!

Nota:
Essa pequenina obra de ficção é livremente inspirada no filósofo-jornalista-colunista ateu Hélio Schwartsman e naquilo que se pode considerar como sendo suas “ideias”.

Respeito

dupinDescobri a maioria dos autores que hoje me são familiares remexendo estantes de livros. Além de minha curiosidade congênita pela matéria, esse bisbilhotar tinha raízes na vontade de explorar o desconhecido, na procura por respostas, na busca por tesouros escondidos; ocupações essas que, vez por outra, tomavam horas de meus finais de semana, ou, dependendo da época, das minhas férias. Hoje percebo que a estante mais divertida, aquela que mais tive prazer em desbravar foi a da casa de meu avô; algo que costumava fazer nos dias mais frios, cinzentos e chuvosos de minha cidade natal. Ali, enfurnado dentro de casa, na pequena sala de estar, eu primeiro corria os olhos pelas prateleiras abertas da estante e depois abria as portas de sua parte inferior, onde havia uma imensidão de títulos empilhados desordenadamente; confusão que, ao invés de desestimular a procura, atiçava ainda mais o meu interesse. Conforme já citei em post anterior, numa dessas incursões pelo desconhecido, chamou-me a atenção um livro de capa sombria, amedrontadora, própria das histórias de horror, exibindo uma espécie de macaco gigantesco, com uma mansão decrépita em segundo plano, desenhados de maneira rudimentar, quase ingênua, mas compatível com o preço e a qualidade da edição. Tratava-se de um compêndio de contos do escritor norte americano Edgar Allan Poe (1809-1849) cuja capa ilustrava um deles, intitulado pelo tradutor Os Crimes da Rua Morgue. Talvez esse autor tenha sido o primeiro a compor o conjunto de artistas que admiro e, por conta disso, hoje ele não poderia faltar na minha biblioteca pretensiosa. O livro e as lembranças daquele tempo incitaram sonhos intranquilos, que numa noite tórrida me fizeram acordar com as antigas imagens do conto, ainda indefinidas. Resolvi então relê-lo a fim de aliviar o incômodo e também para poder reviver aquele tempo, aquelas horas à estante do meu saudoso avô, alguém que descobri recentemente ser também um bibliófilo. A péssima tradução que há muito repousava em minha estante impediu que eu prosseguisse e, ato contínuo, suscitou um encadeamento de ideias: primeiro, resolvi buscar traduções mais recentes e constatei que eram igualmente ruins; depois, apesar do meu parco conhecimento de Inglês, decidi ler o conto no original, mas isso não aplacou algo ainda indefinível que me inquietava; após algum tempo perscrutando os recessos de minha mente perturbada, percebi que eu desejava, na verdade, corrigir certas faltas cometidas, reparar culpas desconfortáveis, escondidas desde a morte de meu avô; culpas que, sem motivo aparente, emergiram. Diante dessa clarividência e desejoso de lhe agradecer pelos momentos inesquecíveis à sua estante, ocorreu-me traduzir o conto; mas traduzi-lo da maneira que o texto e seu autor merecem: com respeito. Após um longo tempo de labuta e animado por ter finalmente superado este desafio de verter para o Português um escrito do admirável Edgar Allan Poe, resolvi impor-me mais um, ainda não iniciado: traduzir, além desse, os outros dois textos com o mesmo protagonista. Assim, publico aqui no Extrato mais uma obra em construção, disponível no menu Tradução, submenu Edgar Allan Poe, chamada Os Contos do Monsieur C. Auguste Dupin, onde o primeiro deles, por mim intitulado Os Assassinatos na Rue Morgue, está finalizado. Por conta de minhas pesquisas e de uma absoluta falta de modéstia que frequentemente me acomete, trata-se, até o presente momento, da melhor tradução desse conto para a língua portuguesa.

Expansão

quatro– Trouxe o filme? – perguntou ele.
– Aqui está. Finalmente ficou disponível. – disse ela.
– Creio que houve algum engano.
– Qual?
– Combinamos assistir a um filme adulto.
– Pois você o está segurando!
– Mas há um cavalo na capa do DVD!
– Você sabe que repudio a mesmice. Faz-se necessário expandir nossas fronteiras.
– Tal expansão precisa necessariamente abarcar outras espécies do reino animal?
– O preconceito é sempre maléfico: dificulta novas ideias.
– Veja esta foto aqui na sinopse. Pergunto eu: qual proveito poderíamos tirar de uma mulher manipulando a glande de um rocinante?
– Se você observar esta outra foto aqui, verá que ela o cavalga adereçada apenas com botas, esporas e chicote.
– O que intenta?
– Imitá-los.
– Ainda não conhecia este seu lado cruel.
– Eis a expansão à qual me referia.
– Uma vez que me colocasse na posição de um quadrúpede, você precisaria ser muito, muito sensata.
– O que temeria? As esporadas ou as chicotadas?
– Ambas e mais ainda a combinação chicote e posição “de quatro”.
– Como assim?
– Em virtude dessa tua ânsia por novas ideias, teria receio que fosse acometida pelo impulso masculino de preencher orifícios.

Ingratidão

B-52

Ao terminar um curso de verão em Seattle, promovido pela Unidade de Dinâmica Estrutural (UDE) da Boeing, o aluno Ray William Clough estava bastante decepcionado: o modelo matemático que concebera para o problema que lhe foi proposto apresentou resultados desanimadores quando comparados com os dados experimentais. Tratava-se das propriedades vibratórias de asas do tipo delta (foto), simuladas em laboratório como barras engastadas, anguladas a 45 graus. Ele havia representado esse tipo especial de asa como uma estrutura treliçada, estratégia adotada para a análise aeroelástica de asas convencionais. Talvez um fracasso não fosse sua expectativa para o término curso, ao qual fora assistir para se inteirar das últimas novidades do cálculo estrutural na indústria da aviação. O programa das aulas incluía basicamente as técnicas de análise estrutural mais avançadas, utilizadas na Boeing, para o projeto de componentes aeronáuticos: asas, especificamente. O autor de tais técnicas,  engenheiro-chefe da UDE e professor do curso Jonathan Turner, propunha a cada um dos alunos um problema real da Boeing para que fosse desenvolvido, a partir do conteúdo teórico do curso. Como eram desconhecidas da comunidade acadêmica da época, as eficientes ideias de Turner atraíram a atenção de alguns pesquisadores, que se matriculavam no curso, ministrado todo o verão. Assim, no verão do ano de 1952, estava lá o desanimado Ray Clough, professor novato de Engenharia Civil da Universidade da California em Berkeley. Diante do fracasso da solução que arduamente concebera, Clough deu-se por vencido e, ao despedir-se de Turner, ficou patente para o mestre o desapontamento do aluno. O Engenheiro sugeriu ao acadêmico que retornasse no verão seguinte para continuar o trabalho; ideia que foi aceita de imediato. Ao retomar os trabalhos no verão de 1953, Clough recebeu a seguinte sugestão de Turner: “Ao invés de utilizar uma treliça bidimensional, montada com barras, modele a estrutura com placas, interconectando-as pelos seus vértices.” A partir dessa ideia, Clough estudou placas – que passou a denominar elementos – de formato triangular e retangular. O modelo mostrou-se muito mais simples com elementos triangulares do que com os retangulares e os resultados obtidos foram excelentes. O professor de Berkeley percebeu também que a diminuição do tamanho das placas, que promovia o aumento do número de elementos, tornava os resultados do modelo mais próximos dos valores experimentais. Assim, com a técnica apreendida e bem sucedida, Clough e outro célebres alunos de Turner, disseminaram a ideia no meio acadêmico, que lhe deu a devida a atenção somente dez anos mais tarde. Batizada por Clough de Método dos Elementos Finitos, a técnica de Jonathan Turner ganhou notoriedade e aplicação generalizada, a um ponto tal que os matemáticos, eternos adoradores do abstrato, se interessaram, construindo todo uma teoria a partir dela. Com o tempo, o FEM (Finite Element Method) ganhou fundamentos algébricos complexos, quando lhe arranjaram outros pais: alguns deles, verdadeiros padrastos. Em meus estudos, fui vítima de um desses últimos e, apenas recentemente, descobri em quem posso confiar. Tomei gosto justamente pela teoria matemática do Método – filha ingrata e desnaturada do seu verdadeiro genitor – cujo formato sofisticado é simplesmente maravilhoso, para o qual dedicarei, em breve, uma nota anunciando novo estudo.

Contragolpe

GolEu estava de férias da faculdade quando meu pai, ao telefone, perguntou: “Quer ganhar um carro?”. Até o meu animado “Sim” correram alguns minutos para a completa assimilação de todo o significado daquela pergunta, porque um carro, para mim, sempre fora um bem de terceiros, inatingível. Naquela época, meu principal objetivo material era adquirir um aparelho de som mais potente e moderno, que explorasse todas as vantagens do “Compact Disc”, novidade tecnológica que muito me interessava. Retornei das férias, orgulhoso e destemido, conduzindo um pomposo Gol AP 1.8 a álcool, ano 1985, usado, ou melhor, abusado; mas potente, uma máquina. Ao longo da viagem até Uberlândia, fui refletindo sobre os benefícios que aquele veículo me traria: haveria uma enorme vantagem competitiva para conseguir namorar a Cláudia. Poucos dias depois que cheguei, exerci minha nova condição de pretendente poderoso e convidei a gatinha para sair. Como já mencionei aqui no Extrato, eram necessários pouquíssimos atributos para se conseguir o título de “gatinha” na engenharia; no entanto, minha musa dispunha realmente de volumes proporcionais e harmonicamente dispostos, um cabelo negro liso, longo e uma voz macia. Havíamos saído algumas vezes, apenas como amigos, mas de posse daquele Gol, fui tomado por uma coragem sem precedentes e resolvi ultrapassar definitivamente o obstáculo da amizade. Meu convite foi aceito, como quase sempre acontecia, e fui pegá-la em casa, com o carro; algo que a impressionou menos do que eu imaginava. Entretanto, essa pequena decepção foi completamente superada quando me dei conta do tamanho da saia que ela trajava: sentada ali ao meu lado, no banco do passageiro, a área das pernas que estava desnuda era mais do que satisfatória; algo tão inesperado e surpreendente quanto o Gol. Depois de repetir diversas vezes o quanto estava bonita, percebi o efeito benéfico dos elogios: ela estava diferente, menos retraída, mais espontânea. Pensei então comigo: “É hoje!”. Durante o passeio, rimos e conversamos muito; bem mais do que outras vezes. Quando fui deixá-la em casa, o carro, a mini-saia e minha presunção afrouxaram-me o controle dos impulsos e tentei atacá-la nos três beijinhos de despedida. Fui contragolpeado por duas mãos no meu peito, impedindo minha investida, e uma reação indignada.
– O que você tá fazendo? – perguntou ela.
– Tentando te beijar…Eu gosto muito de você – respondi.
– Mas eu não quero nada com você. Somos apenas amigos. E tem mais: eu não gosto de ser tocada sem aviso prévio. Por que fez isso?
– Você… tá de mini-saia e eu… tô com carro.
– Tchau!
Passaram-se alguns anos até que nos falássemos de novo e outros tantos para que eu conseguisse ter uma vaga ideia das forças instintivas, minha e dela, envolvidas nesse fatídico episódio.