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Posts com Tag ‘Globo’

Casas de Verão

sheepA Etologia nos ensina que certas espécies de animais têm a invejável capacidade de se ausentar do mundo exterior, recolhendo-se em suas cavernas acolhedoras para assim iniciar um prolongado estado letárgico, período em que seu metabolismo cai drasticamente. Em outras palavras, trata-se de um sono longo e profundo, cujo objetivo é garantir a própria sobrevivência e por conseguinte a de sua espécie, seja evitando a hostilidade do clima ou dos implacáveis inimigos predadores. Quando querem evitar o frio intenso, diz-se que esses animais hibernam; quando evitam o calor tórrido, diz-se que entram em estivação. Dentre aqueles que hibernam, os mais notórios são os da espécie Ursus Maritimus – vulgo urso polar – enquanto a estivação é bem exemplificada pelo comportamento dos moluscos pulmonados – os singelos caracóis. Nos anais da Ciência, não há registro de seres da espécie Homo Sapiens Sapiens hibernando ou estivando. A razão mais difundida é a seguinte: esses animais “evoluíram’’ de macacos africanos habitantes de regiões onde as temperaturas não eram extremas; fato que tornou absolutamente desnecessário o citado estado letárgico. Entretanto, com a vênia devida aos nobres homens da Ciência, quero contestar essa explicação simplificada afirmando categoricamente que no mesmo intuito de se proteger de um ambiente de extrema hostilidade, o homem também é capaz de se amodorrar por longos períodos, juntando-se à turma dos ursos e caracóis. A fim de balizar essa contundência, quero revelar em primeira mão que as manifestações orgânicas deste blogueiro – indigno representante da tal espécie Homo Sapiens Sapiens – julgaram, em determinado momento, um ambiente altamente hostil aquele que se estabeleceu na última eleição presidencial brasileira e assim resolveram colocá-lo numa espécie de alienação profunda, período em que sua parca vontade de interação com o mundo exterior hibernou; ou melhor, estivou, porque o aborrecido escrevinhador que traça estas linhas prefere o frio ao calor. Nesses modos, ficou ele durante muito tempo com seus livros e seus estudos; imerso no fantástico mundo da Literatura, perdido nos intrincados caminhos da Psicanálise. Se isso tudo o satisfazia, o que o motivou então a sair da toca? O que o tirou do seu conforto e o fez enfrentar a dura realidade de um novo governo Dilma, de uma velha oposição liderada por Aécio, da imprensa “livre’’ que antecipa edições de revista e esculhamba a religião dos outros, do terrorismo em nome de Deus, da falta de água, da falta de luz, da falta do Chavez (o mexicano), das redações do Enem, da superexposição de alguém queimado vivo? Respondo: a vontade incontrolável de tecer comentários sobre um certo livro, uma obra prima. Começo então dizendo que, certo dia, ocorreu-me a ideia de reler um dos notáveis romances da chamada Literatura Brasileira: Vidas Secas (1938), do turrão Graciliano Ramos (1892-1953). Esse eminente escritor nordestino, que nunca conheceu os escritos de Marcel Proust por não admitir ler veados (terminologia dele), é um dos expoentes do chamado romance regionalista, tão exaltado por professores e intelectuais de esquerda. Ao terminar o livro, concluí que um pouco de Proust não teria feito mal algum ao homofóbico autor alagoano: num estilo simplório e maçante, ele narra as previsíveis desventuras de uma família de retirantes, formada por um homem obstinado, uma cachorra, uma mulher insatisfeita e seus filhos maltratados. Devo dizer, entretanto, que o tema levantado pelo desinteressante Vidas Secas é para mim bastante atrativo: a exemplar tenacidade do homem rústico, alheio, por desinformação ou repúdio, à alta instabilidade do mundo urbano. Procurando, ou melhor dizendo, fuçando pela incrível Internet algum outro romance regionalista notável, deparei-me com o título Gente Independente, do autor islandês Halldór Kiljan Laxness (1902-1998), AR-703019967merecidamente laureado com o prêmio Nobel de Literatura em 1955. Resolvi então adquiri-lo de imediato, uma vez que há ainda exemplares disponíveis em Português, lançados pela editora Globo. Aconteceu que comprei o livro sem folheá-lo antecipadamente, na sortida Lojas Americanas, e fui descobrir que se trata da tradução de uma tradução somente após abrir a encomenda. Como não me agrada ser duplamente ludibriado, uma vez que, segundo os italianos, “Traduttore, Traditore” (Tradutor, Traidor), adquiri a tradução inglesa Independent People (1946), sobre a qual a citada edição brasileira se baseou. Depois de uma angustiante espera, o livro finalmente chegou e ao tentar ler suas primeira páginas, percebi que meu inglês presunçoso não alcançaria os termos pouco convencionais utilizados pelo tradutor John Thompson. Se o tema que procurava era obstinação, adotei-o para minha procura e decidi só desistir da obra caso não houvesse outras traduções em inglês ou em português. Para a minha enorme satisfação, a editora lisboeta Cavalo De Ferro publicou em 2007 uma edição de Gente Independente, vertida com precisão para o português, direto do islandês, pela islandesa Guðlaug Rún Margeirsdóttir, tradutora que fixou moradia na cidade portuguesa da Figueira da Foz. Tão logo o livro chegou, após uma eternidade é claro, iniciei a prazerosa leitura que infelizmente terminou uns poucos dias atrás. Digo infelizmente porque Gente Independente, lançado no período de 1934 a 1935 em dois volumes, é o tipo de obra prima que, logo em seus primeiros capítulos, invade irremediavelmente a vida de quem a lê. Tal qual Vidas Secas, o livro também trata de um homem obstinado, uma cachorra, mulheres insatisfeitas e filhos maltratados. Diferente da obra brasileira, esse romance épico islandês traz, no estilo e no conteúdo, a preocupação de um escritor que busca retratar seus personagens muito além dos rótulos, dos estereótipos ou das posições ideológicas; eles não são apenas obstinados, apenas infelizes, apenas maltratados, rudes, humilhados: o protagonista Guðbjartur Jónsson, por exemplo, é alguém que não é possível qualificar, alguém indecifrável, quase real; sua filha Ásta Sóllilja carrega, num tom magistralmente poético, os dramas típicos da menina, da irmã mais velha, da mãe, da esposa, daquela que se põe a servir e a cuidar. Por detestar sinopses reveladoras, concluo dizendo que a história se passa no ambiente rural islandês, onde vivem camponeses e senhores de terra: os primeiros, trabalham de sol a sol, mesmo quando ele não aparece, e os últimos, auferem os dividendos. Nesse contexto, o protagonista busca colocar-se como alguém incompatível com esses dois grupos, alguém que insiste em se autodenominar independente. Alguns entusiastas dessa obra, os mais exaltados, afirmam sem muita relutância, que para a maioria daqueles que a lerem, ela seguramente figurará entre as “top ten” de suas vidas. Muito embora esses tipos de ranking não me impressionem e até denigram previamente uma obra ainda não conhecida, devo confessar aqui no Extrato, onde busco não seguir a trilha da manada, que me tornei mais um neste rebanho de leitores inebriados por essa belíssima história, mais um naquela malhada diligentemente velada por Bjartur de Casas de Verão.

Abissal

cardosoNão é incomum que eu navegue pelo Extrato sem considerá-lo sério, austero e portanto, para os padrões atuais, enfadonho. Sua linguagem é rebuscada e a preocupação com a estética, excessiva. Os temas são geralmente elevados e a aversão pelo superficial é notória. Entretanto, o autor percebe que essa rigidez formal reflete apenas parte de sua personalidade, que está calcada não só naquilo que é profundo, mas também, em menor intensidade, no frívolo. Assim, neste post, atrevo-me a falar sobre aquilo que para mim é o ápice da superfluidade: celebridades. Então vamos lá. Um dia desses, vagando pelo incrível youtube, deparei-me com uma entrevista no programa denominado Na Moral, da Rede Globo, que, embora realizada há mais de um ano, não impediu que eu me pronunciasse, ainda que tão tardiamente: confesso que assuntos televisivos não me provocam necessidade alguma por atualização. A entrevista, conduzida pelo repórter-pseudo-poeta Pedro Bial, apresentador do programa, teve a participação do esquálido Pedro Cardoso, ator contratado da Globo, e de um fotógrafo paparazzi. Assistindo ao programa pela primeira e única vez, notei que sua dinâmica parecia ser a de incitar a polêmica: o assunto era a indústria das celebridades, defendida pelo fotógrafo e atacada pelo ator serelepe, efusivamente anunciado como sendo o inimigo número 1 dos paparazzi. Parecendo estar possuído pelo espírito de algum tagarela assanhadinho, provavelmente o do Clóvis Bornay, Pedro Cardoso iniciou a entrevista desferindo contra a profissão de seu oponente um arsenal de injúrias pré-formatadas, enquanto saracoteava pelo palco, constrangendo o entrevistador e dificultando o enquadramento das câmeras. Nesses ânimos e embasado numa autêntica filosofia de botequim, o ator argumentava que o problema fundamental não está no paparazzi em si, mas naquele que consome seus produtos, na mídia perversa e dominadora que alimenta uma indústria de ilusão. Declarou, como em todo bom discurso demagógico, que a vontade das pessoas em conhecê-lo é a mesma que ele tem em conhecê-las e, portanto, isso deveria impedir que sua privacidade fosse violada por terceiros, uma vez que ele não é diferente de ninguém. O fotógrafo teve pouquíssimas oportunidades para falar, mas, ao final e inesperadamente, revelou que o seu maior consumidor é a própria Globo, patroa dos dois Pedros e dona do programa. Diante dessa revelação, a consternação foi geral: Cardoso abateu-se como um anêmico e o canastrão Bial, que parece ter finalmente se convencido de que em mulher não se bate, pelo menos não nas circunstâncias em que uma de suas namoradas diz ter sido agredida, tratou logo de encerrar a entrevista pedindo socorro à boazuda Dira Paes, estranha partícipe do programa e cujo comentário final não me atrevo, por razões de assepsia, a citar aqui. Que o eminente ator não é diferente de ninguém, todos nós o sabemos, incluindo a mídia perversa que paga o seu salário, os paparazzi bisbilhoteiros e o público que deseja saber de sua vida. Ele se esquece entretanto que desde tempos imemoriais, as pessoas dotadas de alguma notoriedade, embora iguais a todas as outras, não conseguem e nunca conseguirão gozar de sua intimidade como qualquer anônimo. É no mínimo ingênuo querer acreditar que um notório artista conseguirá um dia ir a uma padaria, a um shopping, a uma farmácia, sem ser interpelado por alguém, sem ter sua intimidade violada em algum nível; algo impossível, uma vez que o sucesso nessa atividade está alicerçado inexoravelmente na notoriedade, no reconhecimento de um público. Um artista sem público não é artista. Os paparazzi e outros congêneres são, eventualmente, uma consequência dessa relação essencial, um de seus subprodutos. Se levarmos a sério as declarações de Cardoso no programa – algo que admito difícil de fazer – o ator demonstra sua abissal imaturidade, pelo menos no que diz respeito à sua profissão: ele deseja que ela seja desprovida de frustrações; tal qual um menino birrento, ele quer porque quer que as chatices de seu quotidiano de ator desapareçam, em particular os paparazzi. Todo o palavrório bem decorado que preparou acoberta o seguinte: ele ainda não sabe lidar com o fato incontestável de que a vida, em quaisquer de suas áreas, é feita mais de frustrações que de sucessos. Se o intelecto do ator dispor de alguma capacidade reflexiva, ele deve ter notado, após a entrevista, o ridículo de sua “atuação” e, ao tentar falar do tema numa próxima oportunidade, vai precisar optar entre revelar sua total incapacidade para conversar honesta e civilizadamente sobre a incômoda verdade de ser ele mais uma banal celebridade ou conceber um personagem sofisticado, com um discurso ainda mais hipócrita que o seu na entrevista, mas que dê a ele uma falsa sensação de segurança em relação aos dissabores do inesperado, daquilo que teima em não aceitar.