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Posts com Tag ‘filho’

Alívio


O pai costumava andar de cueca pela casa. Certo dia, a filha pré-adolescente pergunta:
– Papai, você gostaria de ter um pinto maior?
– Filha…. Estou satisfeito com o que tenho! Afinal, consegui fabricar você e seu irmãozinho.
– Pois o meu homem vai ter um pinto bem grande.
– Filha…. Tamanho não é documento!  – alertou a mãe assustada.
– Ufa! Ainda bem! – exultou o filho caçula.

Casas de Verão

sheepA Etologia nos ensina que certas espécies de animais têm a invejável capacidade de se ausentar do mundo exterior, recolhendo-se em suas cavernas acolhedoras para assim iniciar um prolongado estado letárgico, período em que seu metabolismo cai drasticamente. Em outras palavras, trata-se de um sono longo e profundo, cujo objetivo é garantir a própria sobrevivência e por conseguinte a de sua espécie, seja evitando a hostilidade do clima ou dos implacáveis inimigos predadores. Quando querem evitar o frio intenso, diz-se que esses animais hibernam; quando evitam o calor tórrido, diz-se que entram em estivação. Dentre aqueles que hibernam, os mais notórios são os da espécie Ursus Maritimus – vulgo urso polar – enquanto a estivação é bem exemplificada pelo comportamento dos moluscos pulmonados – os singelos caracóis. Nos anais da Ciência, não há registro de seres da espécie Homo Sapiens Sapiens hibernando ou estivando. A razão mais difundida é a seguinte: esses animais “evoluíram’’ de macacos africanos habitantes de regiões onde as temperaturas não eram extremas; fato que tornou absolutamente desnecessário o citado estado letárgico. Entretanto, com a vênia devida aos nobres homens da Ciência, quero contestar essa explicação simplificada afirmando categoricamente que no mesmo intuito de se proteger de um ambiente de extrema hostilidade, o homem também é capaz de se amodorrar por longos períodos, juntando-se à turma dos ursos e caracóis. A fim de balizar essa contundência, quero revelar em primeira mão que as manifestações orgânicas deste blogueiro – indigno representante da tal espécie Homo Sapiens Sapiens – julgaram, em determinado momento, um ambiente altamente hostil aquele que se estabeleceu na última eleição presidencial brasileira e assim resolveram colocá-lo numa espécie de alienação profunda, período em que sua parca vontade de interação com o mundo exterior hibernou; ou melhor, estivou, porque o aborrecido escrevinhador que traça estas linhas prefere o frio ao calor. Nesses modos, ficou ele durante muito tempo com seus livros e seus estudos; imerso no fantástico mundo da Literatura, perdido nos intrincados caminhos da Psicanálise. Se isso tudo o satisfazia, o que o motivou então a sair da toca? O que o tirou do seu conforto e o fez enfrentar a dura realidade de um novo governo Dilma, de uma velha oposição liderada por Aécio, da imprensa “livre’’ que antecipa edições de revista e esculhamba a religião dos outros, do terrorismo em nome de Deus, da falta de água, da falta de luz, da falta do Chavez (o mexicano), das redações do Enem, da superexposição de alguém queimado vivo? Respondo: a vontade incontrolável de tecer comentários sobre um certo livro, uma obra prima. Começo então dizendo que, certo dia, ocorreu-me a ideia de reler um dos notáveis romances da chamada Literatura Brasileira: Vidas Secas (1938), do turrão Graciliano Ramos (1892-1953). Esse eminente escritor nordestino, que nunca conheceu os escritos de Marcel Proust por não admitir ler veados (terminologia dele), é um dos expoentes do chamado romance regionalista, tão exaltado por professores e intelectuais de esquerda. Ao terminar o livro, concluí que um pouco de Proust não teria feito mal algum ao homofóbico autor alagoano: num estilo simplório e maçante, ele narra as previsíveis desventuras de uma família de retirantes, formada por um homem obstinado, uma cachorra, uma mulher insatisfeita e seus filhos maltratados. Devo dizer, entretanto, que o tema levantado pelo desinteressante Vidas Secas é para mim bastante atrativo: a exemplar tenacidade do homem rústico, alheio, por desinformação ou repúdio, à alta instabilidade do mundo urbano. Procurando, ou melhor dizendo, fuçando pela incrível Internet algum outro romance regionalista notável, deparei-me com o título Gente Independente, do autor islandês Halldór Kiljan Laxness (1902-1998), AR-703019967merecidamente laureado com o prêmio Nobel de Literatura em 1955. Resolvi então adquiri-lo de imediato, uma vez que há ainda exemplares disponíveis em Português, lançados pela editora Globo. Aconteceu que comprei o livro sem folheá-lo antecipadamente, na sortida Lojas Americanas, e fui descobrir que se trata da tradução de uma tradução somente após abrir a encomenda. Como não me agrada ser duplamente ludibriado, uma vez que, segundo os italianos, “Traduttore, Traditore” (Tradutor, Traidor), adquiri a tradução inglesa Independent People (1946), sobre a qual a citada edição brasileira se baseou. Depois de uma angustiante espera, o livro finalmente chegou e ao tentar ler suas primeira páginas, percebi que meu inglês presunçoso não alcançaria os termos pouco convencionais utilizados pelo tradutor John Thompson. Se o tema que procurava era obstinação, adotei-o para minha procura e decidi só desistir da obra caso não houvesse outras traduções em inglês ou em português. Para a minha enorme satisfação, a editora lisboeta Cavalo De Ferro publicou em 2007 uma edição de Gente Independente, vertida com precisão para o português, direto do islandês, pela islandesa Guðlaug Rún Margeirsdóttir, tradutora que fixou moradia na cidade portuguesa da Figueira da Foz. Tão logo o livro chegou, após uma eternidade é claro, iniciei a prazerosa leitura que infelizmente terminou uns poucos dias atrás. Digo infelizmente porque Gente Independente, lançado no período de 1934 a 1935 em dois volumes, é o tipo de obra prima que, logo em seus primeiros capítulos, invade irremediavelmente a vida de quem a lê. Tal qual Vidas Secas, o livro também trata de um homem obstinado, uma cachorra, mulheres insatisfeitas e filhos maltratados. Diferente da obra brasileira, esse romance épico islandês traz, no estilo e no conteúdo, a preocupação de um escritor que busca retratar seus personagens muito além dos rótulos, dos estereótipos ou das posições ideológicas; eles não são apenas obstinados, apenas infelizes, apenas maltratados, rudes, humilhados: o protagonista Guðbjartur Jónsson, por exemplo, é alguém que não é possível qualificar, alguém indecifrável, quase real; sua filha Ásta Sóllilja carrega, num tom magistralmente poético, os dramas típicos da menina, da irmã mais velha, da mãe, da esposa, daquela que se põe a servir e a cuidar. Por detestar sinopses reveladoras, concluo dizendo que a história se passa no ambiente rural islandês, onde vivem camponeses e senhores de terra: os primeiros, trabalham de sol a sol, mesmo quando ele não aparece, e os últimos, auferem os dividendos. Nesse contexto, o protagonista busca colocar-se como alguém incompatível com esses dois grupos, alguém que insiste em se autodenominar independente. Alguns entusiastas dessa obra, os mais exaltados, afirmam sem muita relutância, que para a maioria daqueles que a lerem, ela seguramente figurará entre as “top ten” de suas vidas. Muito embora esses tipos de ranking não me impressionem e até denigram previamente uma obra ainda não conhecida, devo confessar aqui no Extrato, onde busco não seguir a trilha da manada, que me tornei mais um neste rebanho de leitores inebriados por essa belíssima história, mais um naquela malhada diligentemente velada por Bjartur de Casas de Verão.

Culpa

Syd BarretNão me considero um admirador inveterado do trabalho da banda Pink Floyd, uma vez que aprecio apenas uma pequena parte de seu extenso repertório, distribuído por 14 álbuns de estúdio e inumeráveis compilações “caça-níqueis”. O grupo inglês da cidade de Cambridge, fundado originalmente pelo baixista Roger Waters e pelo baterista Nick Mason, teve diversas formações no início da carreira até finalmente estabilizar-se, quando assinou contrato com a gravadora EMI. Nessa época, além de Waters e Mason, faziam parte do conjunto o tecladista Richard Wright e o guitarrista Syd Barret. Por conta da enorme habilidade em seu instrumento e uma profícua criatividade musical, Barret, amigo de infância de Waters e um ano mais novo que ele, acabou se tornando o principal compositor da banda: dentre as onze músicas presentes no excelente primeiro álbum The Piper At The Gates of Dawn (1967), Barret assina sozinho oito delas e as demais, participa da composição. Os colegas do grupo e pessoas próximas a ele, como seu aluno de guitarra David Gilmour, já haviam se acostumado com seu jeito insociável e seu temperamento oscilante, sem falar nos episódios, cada vez mais frequentes, em que fazia ou falava coisas absolutamente sem sentido. Esse comportamento excêntrico agudizou-se sobremaneira pelo consumo do chamado ácido lisérgico ou LSD; prática que não era privilégio apenas de Barret, mas da maioria esmagadora dos roqueiros psicodélicos da época. A predisposição do guitarrista ao desequilíbrio mental aliada ao seu vício tornou-se um problema quando começou a interferir nos relacionamentos profissionais do grupo com terceiros: entrevistas, compromissos e outras obrigações eram sistematicamente prejudicados pelos desatinos de Barret. A coisa degringolou quando o roqueiro deixou de colaborar no processo criativo da banda; fato que passou a comprometer também seu relacionamento com os outros membros. Foi por essa época também que Barret, apelidado Crazy Diamond, encarcerou a namorada num dos quartos de seu apartamento por três dias, alimentando-a nesse período, com biscoitos que jogava por debaixo da porta. Nos shows do grupo, ele sequer se dava ao trabalho de cantar ou tocar seu instrumento, sendo muitas vezes substituído por seu pupilo Gilmour. Certa vez, no carro que costumava pegar cada um dos músicos antes dos shows, alguém disse: “Vamos pegar o Syd?”. Alguém respondeu: “Pra mim ele não faz falta!”. Outros disseram: “Pra mim também não!”. Dentre esses outros, estava também Gilmour, que a partir daí foi efetivado na banda; evento que facilitou a expulsão de Barret – já considerado um doido varrido – em dezembro de 1967, quando não lhe foram dadas maiores satisfações. Algum tempo depois, Waters e Gilmour, arrependidos pela forma que baniram o colega, resolveram visitar Garret na casa de sua mãe, onde havia buscado refúgio. Quando os viu, a Sra. Barret disse: “Ele não quer ver vocês! Ele está muito, muito triste! O que vocês fizeram com o meu filho não se faz!”. Os dois tanto insistiram que acabaram por restabelecer o contato, mas a saúde mental do amigo já estava bastante precária. Alguém então teve a ideia de solicitar a ajuda do eminente psicanalista escocês Ronald Laing, que deu seu veredicto: “O problema dele é incurável”. Desde então e durante todo o tempo em que esteve ativo, o grupo Pink Floyd carregou esse peso, essa culpa, enquanto Syd Barret manteve-se recluso na casa materna, praticando a pintura, arte que tanto amava, a fotografia, jardinando flores e visitando museus até sua morte em 2006. Para o deleite dos apreciadores de rock, dentre os quais me incluo, a carga emocional de toda essa história foi lindamente expressa no álbum Wish You Were Here (1975), o melhor da carreira do Pink Floyd, avaliado ao final do post. Nas últimas sessões de gravação desse disco (eu ainda uso essa terminologia), Barret apareceu inesperadamente nos estúdios da EMI na Abbey Road: estava pálido, barrigudo, careca, sem sobrancelhas, desleixado. Quando o grupo finalmente o reconheceu, Waters e Gilmour, aos prantos, foram cumprimentá-lo.
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À Mesa

chalaQuando Helinho chegou em casa com o canudo debaixo do braço, Dona V* sentiu um misto de orgulho e alívio. Inquieta, pensou consigo: “Quem sabe agora, longe das más influências acadêmicas, esse menino se emenda”. Para receber o filho bacharel, ela havia preparado, entre outros quitutes, um delicioso challah, a guloseima preferida do pimpolho, seguindo uma velha receita de seus antepassados judeus. Diante daquela mesa que sustentava inúmeros quitutes, Helinho empolgou-se e, tendo um generoso naco do citado pão divino – ou melhor dizendo, “pão apetitoso”, pois Helinho não crê em certos termos – a saracotear pela boca, anunciou:
– Mamãe, agora, após tantos anos de estudos, período dos mais profícuos em minha longa jornada discente, vou poder aplicar os conhecimentos adquiridos com a ajuda de tão nobres e eminentes mestres “uspianos”, sem falar nos valorosos pensadores, sobre cujas ideias construí as minhas. E tudo isso, Mamãe, veja bem! Tudo isso sem prejuízo de minha autonomia, de minha emancipação intelectual. Finalmente, praticarei esta ciência maravilhosa, que mudou radicalmente minha vida, lançando a luz inefável da consciência crítica aos quatro cantos deste nosso imenso país assolado pela ignorância, pela alienação, pela corrupção, pela mediocridade e tantas outras mazelas provocadas pelo subdesenvolvimento político, social, econômico, artístico, cultural e educacional… Cof, cof, cof… Advogarei com fervor as causas de minhas convicções, defenderei a liberdade do pensamento, questionarei os dogmas, insurgir-me-ei contra qualquer tipo de censura, polemizarei com o establishment reacionário, apontarei a idiotia do esquerdismo xiita, rechaçarei a tirania moral dos setores escravizantes da sociedade… Cof, cof….
Naquele momento, a mãe então o acudiu, batendo-lhe nas costas, rogando que interrompesse o arsenal de palavras sofisticadas que dissera, pois receava que pudesse se engasgar e também para evitar que seu discurso descambasse para um tema que havia sido razão de divergência entre os dois. Angustiada, ela ainda guardava em seu infinito coração de mãe cada palavra que Helinho proferiu alguns anos antes, sentado naquela mesma mesa, onde anunciou sua descrença inexorável em Deus:
– Eu li Schopenhauer, Mamãe! Li Nietzsche! Senti-me livre ao descobrir o mal causado pela repressão religiosa, que estreita e circunscreve a capacidade do agir, do pensar, do discernir, do raciocinar. Deus é uma ficção, Mamãe! Um artifício! Um subterfúgio! Louvo esta ciência eminentemente humana que me concedeu a clarividência, louvo estes autores iluminados, gênios do pensamento, ápice e glória de tudo o que se chama conhecimento.
Dona V*, que após tais palavras receava ouvir uma tediosa ode à Filosofia, sentiu-se derrotada e procurou convencer o filho, numa longa e cansativa discussão, de que talvez fosse possível conciliar a opção profissional com a crença no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob ou, pelo menos, na figura de um criador. Lá pelas tantas, quando percebeu a inutilidade de seus argumentos ante à intransigência do filho, resignou-se como toda mãe dedicada, vítima do tal amor incondicional. Recobrada dessas amargas lembranças e no intuito de dar um novo rumo à conversa que estavam tendo em companhia do canudo, a mãe perguntou:
– Tem alguma estratégia para levar a cabo todos esses planos profissionais?
– Pois é, Mamãe. Eu tava aqui pensando se o Papá conseguiria conversar com o Seu Frias para me arranjar uma vaguinha lá na Folha.
E assim se fez: Helinho tornou-se funcionário deste eminente diário paulistano. Ali, numa ascensão meteórica, dada a sua inteligência de asquenaze – inteligência que ele acredita ser geneticamente superior a de qualquer muçulmano – e uma profunda habilidade com as palavras, tornou-se aquilo que o jornalismo denomina colunista e dos mais renomados, daqueles qualificados pelos desavisados como polêmicos. Certo dia, novamente sentado à farta mesa de sua mãe, onde devorava um indescritível kugel de cenoura, Helinho foi submetido a um colóquio indigesto. Um considerável pedaço da guloseima atravessava o canal esofágico do colunista rumo ao seu estômago vazio quando, com aquela ternura própria de mãe, Dona V* disse:
– Meu filho, eu li aquele seu artigo sobre manifestações racistas.
– Mamãe, já pedi para que a senhora não leia o que escrevo. Fico encabulado! Constrangido!
– Mas meu filho, você é muito bom! Gosto de suas opiniões e do jeito que escreve!
– Obrigado, mamãe! Desculpe! Mas então? Gostou?
– O artigo está bem escrito, como sempre. Mas, você não acha que extrapolou um pouco?
– Não me preocupo muito com isso, Mamãe. Dentro do limite da responsabilidade, escrevo o que penso.
– Preocupo-me com você, meu filho. Receio que esse seu limite esteja excessivamente amplo. Lembra daquele artigo da Demografia do Nobel?
– Sim.
– Aquilo ali soou mal, meu filho! Chamaram de preconceito científico!
– Mamãe, eu apresentei números. Números são números: uma das ferramentas fundamentais do raciocínio lógico.
– Filho, você acredita que raciocinou da mesma forma no artigo do racismo?
– Não com números, mas com John Stuart Mill.
– Você acha que numa livre manifestação de ideias sobre esse tema, aqui no Brasil, os atores teriam poderes proporcionais?
– Sim!
– Vamos supor então um grande apresentador de TV ou qualquer bom comunicador declarando abertamente que não gosta dos negros.
– Já imaginei.
– Você acha que haveriam forças, forças emanadas de uma minoria negra, para lutar em pé de igualdade com o comunicador?
– Sim!
– Aqui no Brasil?
– Sim!
– Não minta, meu filho. Você não acredita nessa proporcionalidade!
– Como assim, Mamãe? Se digo que acredito é porque acredito.
– No artigo do Pastor e os Gays, você diz que o pastor Silas Malafaia não deveria se pronunciar quanto à cura gay.
– Eu disse que ele não deve se pronunciar na condição de psicólogo.
– Então na condição de pastor, ele pode?
– Sim!
– Usando seus programas de TV, seus programas de rádio, seus panfletos, suas revistas, seus CD’s, seus DVD’s, sua igreja?
– Humm… É….
– Você não acredita no que escreveu, meu filho! Se acreditasse, não lhe pareceria muito sensato mandar um pastor homofóbico calar a boca e, meses depois, pregar liberdade de expressão para milhares de racistas.
–  Mamãe, insinua que sou preconceituoso em relação aos negros?
– Não, meu filho. Desconheço as causas dessa diferenciação que você fez. Mas, de alguma forma, eu lamento ter te tirado da psicanálise. Talvez você mesmo já soubesse a reposta.
– Um filósofo não precisa de Psicanálise!!!!
– Filho, entenda! Essas suas ideias são muito bonitas, mas são fundadas apenas em teorias! O mundo real é diferente! A realidade não se submete à teoria: a realidade é a verdade!
– Mamãe, insinua que ainda sou inexperiente? Insinua que eu precise voltar ao banco da escola para aprender alguma coisa?
– Pelo contrário, meu filho! O problema é justamente este: você ainda está sentado no banco da escola! Nunca saiu dele!

Nota:
Essa pequenina obra de ficção é livremente inspirada no filósofo-jornalista-colunista ateu Hélio Schwartsman e naquilo que se pode considerar como sendo suas “ideias”.

Vida-Obra

freudCoachLi em algum lugar que não é possível separar a vida de alguém de sua obra, uma vez que a obra, seja ela qual for, é sempre, de alguma forma, produto da vida; fato que não impede que uma seja admirada e a outra rejeitada: as partes desse todo indissociável são portanto discerníveis. Entre outros fatores, o nível de tal discernimento sofre influência da natureza da obra, sendo mais alto naqueles trabalhos mais técnicos. Num contexto mais humano, pode ocorrer que a obra, antes admirada, fique, de certo modo, “prejudicada” ao tomarmos conhecimento de certos pormenores da vida que nos causam repúdio. Perante o arcabouço moral que nos sustenta, pode acontecer também que, em não se conhecendo vida e obra, uma eventual informação que desabone a primeira provoque fortes resistências para se conhecer a segunda. Nessas duas situações, vida e obra tornam-se uma massa monolítica indiscernível. Ambas encaradas assim, um contínuo homogêneo vida-obra, pode ocorrer que se admire com menos intensidade as pinturas de Caravaggio por conta de suas reiteradas práticas delinquentes e, em particular, do assassinato que cometeu; também é possível que resulte atenuada a sensibilidade nos escritos de Dostoiévski ao se saber que o autor russo, por ser viciado em jogo, viveu constantemente endividado, não lhe sendo possível sustentar dignamente a família até sua morte; pode-se afirmar ainda que as letras rebeldes das músicas de Caetano Veloso e sua patota estejam eternamente maculadas em virtude de que agora é “‘Proibido Proibir’, desde que não se trate de uma biografia não autorizada”; não seria um absurdo passar a ler a poesia de Drummond com um olhar menos encantado ao se saber que o escritor, chefe de gabinete do ministro da educação na ditadura Vargas, era preconceituoso em relação ao romance regionalista nordestino; pode ocorrer também que se repudie os textos humanísticos de Rousseau ao se tomar conhecimento de que o filósofo suíço abandonou num orfanato os cinco filhos que teve com sua amante. Até pouco tempo atrás, quando me acorriam à mente esses e diversos outros exemplos, certas palavras emergiam e ficavam impressas no fundo desta minha mente perturbada: moralismo, inveja, preconceito, hipocrisia. Junto com elas, surgia também uma espécie de revolta interior, de indignação, momento em que perguntas também pululavam: será que o pensamento crítico sempre precisa discernir vida e obra? Em prol de autonomia, é necessário aceitar a obra ainda que a conduta de vida do autor desagrade? Para citar um exemplo e ser menos abstrato, esse  conflito sempre me ocorre quando tento ler alguns dos numerosos textos do psicanalista italiano que atende pelo nome de Contardo Calligaris, particularmente aqueles sobre “vida a dois”. Esse afamado colunista do grupo Folha, para o qual sua conhecida reincidência em enlaces matrimoniais é uma virtude, não me soa crível quando fala ou escreve sobre esse assunto. A mim me parece que, atrás da fachada de satisfação que alega ter adquirido com seus diversos casamentos, há nesse pupilo de Lacan dificuldades em manter, de forma duradoura, um relacionamento conjugal: dos 18 ao 60 anos de idade, Calligaris desposou sete mulheres; feito que resulta uma média de 6 anos de vida útil por casamento. Se considerarmos esse número um padrão de comportamento, resta à sua atual relação pouco mais de 3 anos de sobrevida. Por falar nisso, dos diversos depoimentos desse psicanalista da burguesia paulistana, que não se furta em dar entrevistas sobre sua vida pessoal e cujo valor da sessão ultrapassa os US$400,00, pode-se concluir que o início do relacionamento amoroso com a atual esposa – atriz global e ex-mulher de galã – se deu quando ambos ainda eram casados e ela, na condição de analisanda. Esse tipo de interação que alguns analistas estabelecem, de ética altamente questionável, não é raridade na história da Psicanálise: o renomado analista indiano Masud Khan, especialista na teoria das perversões, costumava comentar abertamente, para quem quisesse ouvir, sobre as relações sexuais que mantinha com suas analisandas. Não estou afirmando que,  no caso de sua atual mulher, Calligaris tenha seguido à risca os passos do indiscreto colega indiano, muito embora, aos meus olhos muitas vezes severos, o analista que estabelece uma relação dessa natureza com o analisando, seja por qual forma ela ocorrer, coloca-se na mesma posição de um adulto que abusa de um menor, dada a diferença das capacidades psicológicas; diferença essa que é condição fundamental num trabalho verdadeiramente psicanalítico. Enfim, mesmo diante dessas peculiaridades que desabonam completamente, na minha particular avaliação, a vida-obra dessa nobre celebridade ítalo-brasileira, devo admitir que ainda não consegui me livrar do pensamento fixo naquelas quatro palavras que citei. Agora, ao final, refletindo um pouco mais sobre esse confuso texto que escrevi, pode ser que no afã de me tornar autêntico – esforço iniciado no divã de um excelente psicanalista ético – eu exagere um pouco, embrenhando-me demasiadamente em questões teóricas; atitude que me faz questionar, vez por outra e em vão, aquilo que há de mais simples: o gostar e o não gostar.

Uníssono

children-with-question-markNuma rua que ladeava o cemitério da cidade, passavam de carro o pai com o casal de filhos, quando o menino perguntou:
– Papai, quando a gente morre e enterram, o que acontece com o corpo?
– Uns bichos que vivem no fundo da terra comem a carne e os ossos que sobram, depois de muito tempo, viram pó.
– Todo dia alguém morre, papai? – perguntou a menina assustada.
– A cada minuto muitas e muitas pessoas morrem, minha filha.
– Mas também muitas pessoas nascem. Não é, papai? – perguntou ansiosamente o menino a fim de amenizar a crueza da conversa.
– Correto, meu filho. Isso também é verdade. Sabia que nascem mais pessoas do que morrem?
– Sério? – perguntou a menina.
– Sim.
– Ufa!! – proferiu o menino aliviado. Depois de alguns segundos, ele retomou com nova pergunta:
– E de onde viemos?
– Dos macacos há muito…
– Isso a gente já sabe! – interpelou a menina – Ele tá perguntando como que a gente foi criado, como que a gente se formou.
– Isso! – confirmou o menino – Tô perguntando como é que a gente nasce.
– Vocês nasceram da mamãe! – tentou escapulir o pai.
– Não, papai!!! – disseram os dois em uníssono.
– Você não entende não, seu bobo? – ralhou o menino – A gente quer saber como é que a gente foi criado, como é que a mamãe ficou grávida. Captou?
– Captei. – disse resignadamente o pai – Foi assim: o papai colocou uma sementinha dele para se juntar com uma sementinha da mamãe, e a partir daí cada um de vocês se formaram.
– Papai, e de onde vocês tiraram essas sementinhas? Em que lugar elas se encontraram? – perguntou, intrigado, o menino.
– Olha, já estamos chegando em casa! Depois a gente continua essa conversa. – disse o pai visivelmente incomodado.
– Papai, por que você não quer mais conversar? Por acaso essas sementinhas tem alguma coisa a ver com a vagina? – perguntou a menina.
– Tem.
– Eu sabia! – gritou ela animadamente.
– Papai, também tem a ver com o pinto? – perguntou o menino, enciumado.
– Sim, gente, tem a ver com o pinto e com a vagina. – respondeu nervosamente o pai em tom conclusivo. Incansáveis e novamente em uníssono, começaram:
– Papai, e como foi que você colocou…
– Assunto encerrado!!!

Namoradinha

maosdadas– Papai, eu estou namorando. – disse o menino de sete anos.
– Nossa! Quem é ela, meu filho? – perguntou o pai assustado.
– Uma menina lá da minha sala.
– Ela é bonita?
– Não, papai. Ela é linda!
– Qual o nome dessa namorada tão linda?
– É Júlia.
– Bonito nome! Mas, diz pra mim: como é esse namoro?
– A gente fica de mãos dadas o tempo todo.
– Ah…Que bom! Parabéns pela sua primeira namoradinha, meu filho!
– Primeira? Mês passado eu tava com a Camila.

Troca

menorahApós assistir a um filme sobre a paixão de Cristo, o menino judeu pergunta:
– Papai, Jesus era um dos nossos?
– Sim, meu filho.
– Quem eram aqueles homens que trocaram ele por um ladrão? Palestinos?
– Não, meu filho. Eles eram dos nossos também.
– Por que fizeram isso?
– Não sei, mas Jesus disse que era preciso que fosse crucificado.
– Para quê?
– Para que acreditassem nele.
– E funcionou?
– Sem dúvida! Daí surgiram os cristãos.
– Então nós ajudamos a criar o Cristianismo?
– De uma certa forma, sim.
– Nossa!!
– Como se sente?
– Orgulhoso!

Uma carta ao Lance

(English Version)

Querido Lance,

Entre as pessoas com as quais eu costumo conversar aqui, há um tal Machado. Outro dia, revelei a ele a ansiedade que me aflige quando penso na incerteza do meu destino, quando vagueio pelos caminhos desse lugar estranho e agradável, belo e incompreensível, calmo e misterioso. Meu atencioso confidente argumentou que é inútil tentar desvendar o mistério, essa estrutura de duas faces, onde coabitam vida e morte.
– Estivemos de um lado, agora estamos do outro. – disse ele.
– E então? O que vai acontecer comigo nesse lado? – perguntei.
– Você tinha essa resposta quando estava lá?
– Eu só sabia da morte.
– Pois aqui nos retiraram até essa certeza.
Devo confessar que tais conversas me trouxeram um pouco de conforto e paciência para essas longas horas de espera. Quando não estou com ele, caminho sozinho, cabisbaixo, refletindo intensamente sobre a estrada tortuosa que trilhei na minha primeira etapa, no primeiro lado do mistério, segundo o meu amigo. Por algum motivo que sinceramente desconheço, adquiri nesse lugar uma certa clarividência sobre mim, sobre a forma como costumo me relacionar com o que está ao redor. Embora essa nova característica tenha me colocado a par das minhas limitações, próprias de alguém que olha apenas para si, ainda me é difícil ficar em paz comigo mesmo. Dessa inquietude, nasceram arrependimentos sinceros, não daqueles que sufocam, que nos obrigam a pedir desculpas desesperadamente, mas que me fizeram olhar para trás e enxergar que, mesmo dominado por aquela triste ignorância, eu poderia ter agido diferente, poderia ter dado ouvidos à voz interior que me sugeria um outro rumo, um outro destino e que, hoje, me acusa. Em relação a você, ao pequeníssimo tempo que vivemos juntos, há muito desse incômodo sentimento de perda, de ter valorado o efêmero, de ter desprezado o amor sincero, de ter passado mais tempo comigo mesmo, cego e surdo à realidade, blasfemando contra a inesperada condição de pai. Para a minha grata surpresa, nesse lugar bastante diferente do paraíso e do inferno que concebemos em vida, tenho vivenciado essa dor de uma maneira tranquila e compreensiva; algo que meu amigo Machado qualificou como maturidade. Ele me assegurou que eu estava pronto para aquilo que viria: deu-me um lápis, uma borracha e duas folhas brancas, sem pauta, sem restrições. “Seria bom que escrevesse para ele”, disse o meu amigo.
Lance, não é minha intenção tentar mudar sua opinião a meu respeito: primeiro, porque acredito que esteja correta e, segundo, porque ainda age nessa minha mente atordoada uma significativa quantidade de orgulho. Gostaria apenas de revelar minhas impressões sobre o que tem acontecido com você nesses últimos meses. Uma diferença brutal entre o meu mundo e o seu é a possibilidade de podermos assistir, eu e essa legião de almas andarilhas, por breves momentos, o que acontece aí do outro lado. Vou começar dizendo do enorme orgulho paternal que me invadiu quando assisti a entrevista, e em especial a motivação para tê-la concedido. Penso na enorme coragem que teve para revelar a sua face sombria, própria de todos nós, àquela astuta entrevistadora, que menosprezou quase tudo que você disse. Penso na angústia que lhe acometeu ao perceber que invadira espaços, que ultrapassara fronteiras, que desqualificara cinicamente a honestidade de seus acusadores, que se aproveitara, de uma maneira vil, da inocência de seus defensores. Penso na sua dificuldade em preservar quem feriu e ao mesmo tempo escancarar-se, diante de uma câmera de TV, à paladina dos bons costumes. Penso na sua sinceridade ao dizer dos impulsos que lhe fizeram tomar rumos auto-destrutivos, de que eles ainda estão presentes, contra os quais você vem travando, no divã de um analista, incessante batalha para tentar domá-los. Penso no prazer que tem pela sua profissão, na ânsia de dar um novo sentido a ela, voltando a competir honestamente. Penso em como ainda é duro consigo mesmo: marcou-me o momento no qual qualificou egoísta sua intenção de se valer da entrevista também para tentar retornar ao trabalho, para exprimir sua indignação contra ao que chamou apropriadamente de “pena de morte”. Há egoísmo nesse interesse tanto quanto há na sua vontade de pedir perdão: o ser humano é egoísta; pensa primeiro em si e depois nos outros; somos assim. Temos o hábito de rotular, de enquadrar, de definir, simplificar tanto coisas quanto pessoas, porque alguém, um dia, julgou mais fácil analisar grupos do que indivíduos. Doutrinados nessa atitude cômoda ao longo da vida, não temos a percepção de que cada um é único e passamos, na maior parte do tempo, a qualificar os outros: alguns, como a sua entrevistadora, o fazem de maneira profissional.
Permita-me então, Lance, um atrevimento, uma ousadia: permita-me defendê-lo. Você não precisa, eu sei, pois se tornou alguém extramente corajoso; uma característica que não recebeu do meu DNA. Nessa rara oportunidade que me foi concedida, preciso tomar, também egoisticamente, ao menos uma vez, uma atitude paterna. Como o ciclista mentiroso já está sendo adequadamente imolado, quero defender o Lance ser-humano, desejoso de reparar, de pedir perdão, defender o homem trabalhador, pai de cinco filhos, marido, sobrevivente do câncer, filho solitário, órfão de pai, órfão de pai, órfão de pai… Permita-me dizer da hipocrisia do “American Way of Life”, do moralismo barato e pernicioso que impera naquilo que se chama opinião pública norte-americana, da qual a afamada apresentadora Oprah Winfrey é um dos seus porta-vozes, um dos seus ícones. Sempre ruidosa e histérica, a plateia dessa que te entrevistou espera assistir a um show, a um espetáculo, se possível a um circo de horrores, no qual saracoteiam o belo e o bizarro, o santo e o profano, o mocinho e o bandido, o canalha e o humanitário. Ela precisa ver você, precisa ver o mundo por essa ótica binária, que o divide em certo e errado, em bons e maus, porque assim qualquer história fica mais compreensível e palatável à plebe. A ardilosa entrevistadora, ao criticar reiteradamente o cinismo do entrevistado exibindo antigas entrevistas, não conseguiu esconder o seu próprio cinismo, o que estampava nas suas feições, em seus trejeitos sempre desconfiados. Mas não é apenas dessa hipocrisia oportunista que desejo lhe defender:  a sociedade que te aponta o dedo, dotada de um canhestro senso de justiça, é a mesma que se recusa a assinar protocolos de redução de gases tóxicos, é a mesma responsável pela enorme crise econômica mundial que se instalou, é a mesma que usurpa países autônomos, que faz e financia guerras, que apoia golpes de estado, que tolera a venda indiscriminada de armas. Por que essa sociedade, que aceitou atônita e boquiaberta as mentiras deslavadas do governo para a invasão do Iraque, resolve virar-lhe as costas por conta de suas mentiras? Por que ela decidiu banir para sempre de sua profissão um órfão que precisava desesperadamente mostrar à alguma figura paterna que podia, sem ela e a qualquer custo,  vencer, que podia ser alguém  autônomo, independente, bem sucedido? Por quê? Porque você frustrou o narcisismo coletivo, Lance. Você frustrou a infalibilidade do homem norte-americano: essa triste concepção que ilude nossas mentes desde muito cedo. Você se revelou um ser humano, frágil, de carne e osso; algo para o qual os seus idólatras não estavam preparados. Assim, concreto, vejo você mais claramente e te percebo mais adulto, mais consciente de si próprio e da realidade do mundo.
Aqui, enquanto escrevo, percebo a vibração, o tráfego de seres desesperados, desses corpos disformes procurando o inconcebível, desses olhos opacos perscrutando o vazio, esperançosos por notícias concretas, por um mísero fiapo de certeza a respeito do destino. Devo dizer que estou um pouco mais sereno para lidar com todas essas dúvidas: acreditávamos piamente que, nesse ambiente aprazível, nos seria concedida a paz, mas começo a crer que não é bem assim que as coisas funcionam por aqui: acho que iniciaremos um novo processo, lento e difícil, do qual dispomos de pouquíssimas informações. Pensando nessa angústia que nos contamina, lembro-me do conselho que lhe deram: “A verdade vos libertará”. Que verdade é essa, Lance? Onde está ela?  Não consigo encontrar resposta para essa pergunta e ninguém a tem por aqui. O que temos, o que ganhamos foi um pouco mais de despojamento de nós mesmos, uma percepção um pouco mais aguçada do que está à nossa volta, do imaterial e do concreto. Sim, Lance, agradeço por não terem retirado desse novo universo a matéria, essa massa palpável, limitada no tempo e no espaço. Por isso, continuamos nos cumprimentando, nos abraçando, nos beijando. Também não nos privaram dos objetos: eles estão por toda parte, à nossa disposição. Um dia desses, andei numa bike veloz e sonhei contigo.

Eddie Gunderson
(1953-2012)

Orgone

Numa de minhas intrépidas incursões ao mundo da literatura psicanalítica, deparei-me com uma figura curiosa: Wilhelm Reich. Austríaco da cidade de Dobzau, o rapaz era um aluno carente da faculdade de medicina da Universidade de Vienna quando se encontrou pela primeira vez com o compatriota Sigmund Freud. Pediu ao mestre indicações bibliográficas sobre sexologia e, conversa vai, conversa vem, conseguiu impressionar tanto o já renomado psicanalista que esse lhe encaminhou alguns pacientes, fato que inaugurou sua carreira, antes mesmo de se tornar médico. Dedicou-se com tal entusiasmo ao seu primeiro paciente, uma jovem de dezenove anos, que o caso profissional tornou-se amoroso; deslize não muito incomum cometido pelos terapeutas inexperientes daquele tempo. Após a morte da moça, ocorrida no apartamento onde se encontravam, Reich prosseguiu com seus estudos e suas publicações, cujo enfoque principal era a neurose e suas possíveis causas. Cada vez mais influente, conseguiu fundar diversas clínicas que prestavam gratuitamente aconselhamento sexual para classe operária alemã; algo que causou grande repercussão na época. Polêmico, diante de casos difíceis, costumava usar técnicas muito pouco ortodoxas em suas sessões: colocava o paciente nu e o “massageva” em pontos específicos, no intuito de “dissolver” sua rigidez e trazer à tona lembranças reprimidas, causadas por acontecimentos traumáticos. Acreditava piamente no poder terapêutico do orgasmo, evento que, experienciado adequadamente, conduziria o ser humano não apenas ao mero relaxamento muscular, mas à expansão psíquica e à sublimação espiritual. Em seus escritos, considerava esse poder orgástico uma energia vital, autônoma, onipresente, física como o calor e a luz. Relatou que tal energia, a qual batizou com o nome de Orgone, é visível e sua cor varia nos tons do azul, chegando a afirmar categoricamente que o fenômeno da aurora boreal é uma de suas manifestações. Já residente nos Estados Unidos, Reich decidiu construir um dispositivo, uma cápsula fechada, similar às gaiolas de Faraday, cujo objetivo seria captar essa energia cósmica, transferindo-a ao paciente, devidamente acomodado dentro da cápsula. Dentre os diversos benefícios propagandeados, o dispositivo teria  a propriedade de curar tanto doenças psíquicas, como a neurose, quanto orgânicas, como o câncer. Após a venda de algumas unidades do produto, denominado Acumulador de Orgone, o órgão regulador americano “Food and Drug Administration” (FDA) embargou sua comercialização. Um inspetor constatou que, durante a vigência do embargo, uma unidade do dispositivo foi vendida, fato que tornou o psicanalista réu em processo judicial impetrado pelo órgão. Em 7 de março de 1956, Reich foi condenado a dois anos de prisão e seu colaborador a um ano. Após inúmeros recursos e diversos pedidos de clemência às autoridades, incluindo o futuro presidente Edgar Hoover, diretor do FBI na época, Reich foi conduzido à prisão federal Danbury em março de 1957 e, logo depois, transferido para a prisão federal de Lewisburg. Em 24 de março daquele mesmo ano, quando completou 60 anos, escreveu ao filho adolescente: “Pete, estou calmo, ciente dos meus pensamentos e praticando Matemática a maior parte do tempo…Não se preocupe muito comigo, embora eu sinta que algo vai acontecer… Sei, filho, que você é uma pessoa descente e forte. Nesse mundo tumultuado, vejo agora que um garoto da sua idade deve viver intensamente, a seu modo, o que a vida lhe oferecer, deve digeri-la sem contrair, por assim dizer, uma ‘dor de barriga’, sem se desviar do caminho correto da verdade, da realidade, do honestidade, do jogo limpo…” Anos mais tarde, o filho revelou que visitou o pai muitas vezes na prisão e, em todas  elas, Reich chorava copiosamente. Em 22 de outubro, enviou carta ao filho informando que provavelmente seria solto em 10 de novembro, data que cumpriria um terço da pena em regime fechado, e combinou com o menino um almoço de comemoração no restaurante que sempre frequentavam. Em 3 de novembro, Wilhelm Reich foi encontrado morto em sua cela, completamente vestido, mas com os pés descalços.

Sábado

De vez em quando, o pai levava os dois filhos à loja de discos para que escolhessem algum de sua preferência. Quando avisados sobre o dia do evento, os meninos se empolgavam e já começavam a pensar no que iriam escolher. Um desses eventos caiu justamente num sábado frio e chuvoso e os garotos temiam que a saída pudesse ser adiada. Quando ouviram movimentação no quarto do pai, já bem cedo, foram lá, receosos, e perguntaram carinhosamente se iriam de fato ao shopping, comprar os discos. A reposta afirmativa fez com que os dois corressem para se aprontar e depois se sentassem quietos no sofá da sala, um do lado do outro, aguardando o seu benfeitor. Tão logo ele apareceu na sala, os meninos se levantaram e, sem tomar café direito, os três partiram para iniciar aquele animado sábado musical. Ao chegar à loja, os meninos se dividiram, cada qual para a seção de seu interesse. O pai, na maioria das vezes, aproveitava o ensejo para também tentar achar algo que gostava ou pudesse vir a gostar. Enquanto os filhos procuravam, chamou-lhe a atenção, por alguma razão completamente desconhecida, uma pequena e escondida área da estante onde estavam perfilados discos de Punk Rock. Curioso, começou a passar um por um, observando o pitoresco das capas, quando, de repente, interrompe e repara demoradamente uma delas. O mais velho percebeu o espanto do pai e foi tomado por uma enorme apreensão, pois tinha sido ele quem havia indicado aquela nova loja, diferente da que costumavam frequentar. O pai então retira o disco, chama um funcionário e o mostra para ele:
– Rapaz, como vocês têm coragem de colocar um disco deste pra vender?
– Doutor, é a febre do momento!
– Se causa febre é porque transmite algum tipo de doença.
– O dr. sabia que as músicas são muito sinceras?
– Não tenho a menor dúvida! Uma delas se chama Vou Fazer Cocô! Não existe nada mais sincero do que isso!
– As letras são secas, simples e diretas. É a voz da juventude.
Nesse momento, o pai mira alternadamente a juventude estampada na cara dos filhos, já atônitos e taquicárdicos, mostra-lhes a capa do disco, apontando nervosamente o título, e de onde estava, diz a eles em volta alta: “O nome do disco é Pisando na M…! Sabem o que significam esses três pontinhos aqui? Sabem? MERDA! MERDA!”. Enquanto os funcionários gargalhavam e os meninos já davam aquele sábado como perdido, o pai resolveu esperar pela escolha dos filhos. Decidiu que não compraria nada para ele daquele antro que dava “voz à juventude”. Assim, o mais velho saiu com um álbum dos Beatles, o outro levou um do Jackson 5 e o pai deixou a loja indignado com o que é considerada a obra-prima do grupo Garotos Podres. Anos mais tarde, um dos filhos me contou que nunca mais voltaram lá.

Brincar

Alguns dos grandes músicos só admitiam bancar o professor se o aluno já tivesse
superado, de maneira incontestável, o seu período de formação. Numa linguagem mais
popular, só aceitavam o “filé”. Um desses músicos deparou-se, certa vez, com os olhos curiosos do filho de nove anos que, acercando-se dele, o observavam trabalhar ao piano. Disse o filho: “Papai, eu também sei tocar. Deixa eu te mostrar”. O menino então fez uma baita confusão sonora com as teclas do instrumento. Após aquela exibição, o pai pensou um pouco e disse: “Acho que você gostar mais disso aqui”. Ele então posicionou o polegar direito na tecla da clave de sol e tocou sol – lá – si – dó – si – la – si – dó – ré.  Durante aquele prolongado momento, o pai distraiu-se com a dificuldade do filho que tentava aprender a sequência que ele criara, quando, enfim,  precisou retornar ao trabalho. Alguns dias depois, o garoto aproximou-se do pai, ao piano, e disse novamente:  “Papai, eu também sei tocar. Deixa eu te mostrar”. Lembrou-se, sem erro algum, daquele “sol – lá – si – dó – si – la – si – dó – ré” de dias atrás. O pai pensou um pouco e disse: “Acho que você vai gostar mais disso aqui”. Repetiu-se então aquele momento mágico entre os dois, motivado por uma outra sequência de notas. E assim, após uma série desses momentos mágicos, o músico fez o filho cantar e, ao ouvi-lo, teve a estranha recordação de uma infância que não viveu. Descobriu como era bom brincar e empolgou-se: do alto da sua estatura, escreveu 66 peças para os aprendizes.

35

Muito mais do que em religião, eu acredito em Deus. A ideia de uma criatura sem um criador me é, no mínimo, descabida. Ele existe sim e se manifesta: mostra-nos o feio e o belo, nos agrada e nos perturba, define o espaço, molda a matéria. Não é Pai, porque brinca como uma criança. Não é Filho, porque não merece cuidados. Não é Espírito, porque é concreto. O que é afinal? Não sei. O que sei é que ele gosta de música: dispôs do talento de Sylvius Leopold Weiss e escreveu a Sonata 35 para alaúde.