Recolhimento

pilhaRevistasPor muito pouco, ganha-se um apelido. Na saudosa época de faculdade, eu tive o meu. A razão revelo-a aqui e somente agora, quando se encontra um pouco mais consolidada minha reputação. Convidaram-me para uma destas festas ignóbeis que somente alunos de engenharia conseguem promover. Nessa agitada reunião, ocorrida numa república masculina e portanto pestilenta, era possível observar o ser humano em seus modos mais primitivos: bebida, Bob Marley, palavrões, churrasco, piadas de baixo nível, gargalhadas,  arrotos, maconha, ruídos de flatulências, Raul Seixas e uma completa desobediência à Lei do Silêncio. O que definitivamente não havia eram mulheres, pelo menos durante grande parte da festa; algo que me agastava deveras, uma vez que a presença feminina ser-me-ia muito mais interessante e proveitosa que as demais atrações. Em um determinado momento, o pessoal ficou entediado tanto quanto eu, quando então alguém lançou a ideia de juntarmos forças para nos divertirmos a custa de um colega. Nosso ataque à vítima foi fulminante, não havendo tempo e nem meios para que o colega reagisse à investida de vinte marmanjos: nós então o despimos e o lançamos à rua, apenas vestido com suas meias brancas, trancando em seguida a porta da casa. O gélido junho de Uberlândia aliado à presença de um vizinho que assistia circunspecto àquela cena dantesca tornaram os gritos do colega ainda mais desesperados e o espetáculo que havíamos concebido ainda mais divertido. Para ele, foram cinco longos minutos de tortura, e para nós, de gargalhadas ininterruptas. Após o evento, a turma acabou se animando novamente, e tendo o colega recuperado suas vestes, não mais o vimos no recinto da festa. A fim de reincidir nas gargalhadas, fiquei relembrando a cena durante algum tempo, mas logo voltei ao desapontamento inicial. Comecei então a perambular pelos cômodos da república, indo parar na sala de estar, defronte a uma torre, a uma pilha de revistas eróticas exibindo os mais variados níveis do explícito: pronto, a festa acabava de adquirir um novo significado, uma nova dimensão. Sentei ali mesmo, pondo-me a folhear atentamente, página após página, revista após revista,  todo aquele conteúdo profano. Eu já estava no final da pilha e ainda não havia percebido que me encontrava completamente circundado pela numerosa quantidade de exemplares já vistos, todos espalhados, cobrindo o chão da sala. Foi assim, nadando nesse mar de perversão, que três colegas recém chegados me encontraram, acompanhados de suas delicadas e cândidas namoradas, ao adentrarem o mesmo recinto onde eu estava. As mais variadas versões dessa história correram pelo campus, cada qual com o seu traço pitoresco, mas nenhuma correspondente à verdade. Sentindo-me exposto, recolhi-me, frequentando a escola durante o tempo estritamente necessário. Semanas mais tarde, julgando o assunto encerrado, eu caminhava absorto em direção à biblioteca quando uma colega me interpelou com um sorriso no rosto: “É você que é o ‘mão na massa’?”. À princípio, não entendi a pergunta e por isso nada respondi, mas logo me ocorreu a necessidade de um novo recolhimento.

Rhode Island

vacaConsidero a maioria esmagadora das comédias protagonizadas pelo ator Jim Carrey  entre medianas e péssimas. Nesses filmes torpes, o comediante canadense abusa de suas momices infames para tentar deixar sua marca, seja ela positiva ou não: isso pouco importa. Ao arsenal de bestialidades do qual Carrey dispõe freneticamente, acrescentam-se roteiros medíocres e disformes, peculiares aos pastelões da indústria cinematográfica hollywoodiana. Entretanto, nem tudo é um desastre na débil comicidade do ator: lembro-me de uma cerimônia de premiação do Oscar onde, num dado momento, ele se coloca de costas para a plateia, se curva, direcionando sua região anal ao microfone, e pratica uma espécie de ventriloquia com as nádegas. Ainda não houve um discurso que tenha sido mais representativo do evento, mais apropriado para essa festa ignóbil que é o Oscar. Claro está que o sucesso alcançado por Jim Carrey minora significativamente a legitimidade de minhas críticas: o ator é considerado uma estrela da sétima arte e boa parte do dito mundo civilizado o conhece e admira. Confesso, encabulado, que há um único um filme que me faz sentir parte desse rebanho: Eu, Eu Mesmo e Irene (Me, Myself and Irene), dos nada ortodoxos Bobby e Peter Farrelly. A história narra a trajetória de um policial do estado americano de Rhode Island, interpretado por Carrey e suas palermices, desde a absoluta humilhação que sofre, passando por uma esquizofrenia caricata até o tradicional final feliz. No papel da mocinha Irene, par romântico do policial, atua a esquisita René Zellweger, que nos idos do ano 2000 ainda não fora vítima de seus atuais cacoetes faciais e exibia alguns traços de beleza juvenil. Além das belas paisagens, também me atrai a criativa trilha sonora, cujo ponto alto é a música The World Ain’t Slowin’ Down do cantor folk Ellis Paul. Por diversas vezes, tentei empreender esforços para entender as causas dessa minha vontade reiterada de assistir ao filme e rir de suas pieguices, a fonte desse meu incansável apreço; algo definitivamente meu, que não é compartilhado e nem encontra eco nas pessoas mais próximas.