Pitoco

Vejam só como são no mínimo curiosas as manifestações desta tal entidade chamada inconsciente. Primeiramente, por conta de sua pretensiosa atuação como psicanalista, este blogueiro inconstante precisa esclarecer que a história a seguir, narrada em primeira pessoa, se passou realmente com ele próprio e não com algum de seus ex-pacientes. Então, vamos lá. Nos idos de 1982, quando eu ainda confabulava com meu irmão sobre qual seria o próximo terreno baldio no qual atearíamos fogo, o cantor inglês Elton John lançava em abril daquele ano o álbum “Jump Up!”, um dos trabalhos mais insignificantes deste artista memorável. A primeira música do lado B desse disco (não consigo utilizar outro termo), música de trabalho chamada “Empty Garden”, alcançou a modesta décima terceira colocação nas paradas norte-americanas. Aqui no Brasil, a canção não desfrutou melhor popularidade, mas eu a conhecia bem porque naquela época longínqua músicas tocadas e repetidas em estações de rádio FM também me atraíam, além da piromania. Desinteressado por assuntos afeitos ao intelecto, eu sequer havia iniciado meus estudos de inglês e, portanto, a letra poética composta por Bernie Taupin, musicada por Elton John, significava para mim nada além da forma pela qual a voz marcante do cantor podia participar da melodia, que é belíssima. Mas, os anos se passaram e “Empty Garden” ficou lá para trás, injusta vítima do esquecimento. Dito isso, passo a relatar agora eventos ocorridos no importante ano de 2015, ano que, já um pouco mais conhecedor da língua inglesa e também empregado numa repartição pública, decidi não dividir meus exíguos 30 dias de férias para poder gozá-los (excelente termo) integralmente no município paulista denominado Campos do Jordão, aquele mesmo local onde a pungente burguesia paulistana adora erigir casas de inverno e desfilar freneticamente com suas felpudas roupas de frio, quase sempre destinadas a temperaturas bem abaixo de zero. Ciente da incompatibilidade entre o show desse público aristocrata e minhas posses comparativamente diminutas, resolvi enfurnar-me num modesto hotel um pouco mais afastado para ali contemplar a natureza e seus fenômenos, que naquele mês de junho brindaram a nós turistas com a inconveniência de chuvas torrenciais. Num raro dia de estiagem, o sol tênue me animou e também uma efusiva família judaica composta por casal e três filhos pequenos, cujo quarto era contíguo ao meu, quando então decidimos em conjunto passear pelas extensas dependências do hotel, que incluía, além de piscinas e quadras poliesportivas, um mini zoológico, principal motivação do passeio. As crianças já estavam mais que ansiosas de curiosidade para ver os bichinhos, e eu também; afinal de contas, qual seria a variedade de espécies animais mantidas pelo hotel? Após uma longa caminhada, chegamos esbaforidos ao nosso destino, onde nos receberam o capataz mantenedor do local e seu cachorro, que atendia pelo nome de Pitoco.  As crianças se apaixonaram de imediato pelo mini zoo, cujos animais, devo confessor, não me empolgaram: entre enjaulados e soltos, havia galinhas, perus, pavões, patos, coelhos, ovelhas, cabras e até porquinhos da índia, em suma, nada que caracterizasse o zoológico que eu vinha concebendo na cabeça ao longo do trajeto até ali. Esperava ver animais típicos da fauna brasileira: onças, lobos, micos, antas, tamanduás, tatus, tucanos (os honestos), araras, etc… Assim, decepcionado e acabrunhado, resolvi descansar num banquinho próximo e colocar-me novamente em estado contemplativo, apesar do ruidoso frenesi infantil. Foi quando o cachorro Pitoco, da raça Border Collie, preocupou-se com aquela minha reclusão e resolveu, por algum motivo desconhecido, deixar temporariamente a companhia do dono para vir lá de longe se deitar aos meus pés. Visivelmente emocionado e desconcertado com aquela atenção inesperada, retribuí passeando longamente minhas mãos por seu pêlo vasto e negro. Lá pelas tantas, Pitoco se entediou, saiu correndo para longe, mas logo depois voltou trazendo uma pedra na boca e a depositando em meus pés. Considerei aquilo um presente do cãozinho e guardei a pedra no bolso. Ele então correu novamente e trouxe outra pedra até os meus pés. Fiz a mesma coisa: guardei-a no bolso. Um dos judeuzinhos, meu vizinho de quarto, que de longe vinha observando a cena, disse: “Não tio, ele quer brincar, ele quer que você jogue a pedra pra ele ir buscar!” Dito e feito, e assim nós dois, após este esclarecimento, brincamos por um bom tempo: eu jogando a pedrinha e Pitoco trazendo-a de volta para mim. Na hora de ir embora, não deu vontade de ir, mas como nós dois já sabíamos, tudo o que é bom acaba, inclusive a infância. Na noite estrelada daquele dia, não tive vontade de prosseguir minha tradução de Shakespeare, que eu havia iniciado poucos dias antes, e o cansaço do passeio me fez dormir mais cedo que o usual. Não me surpreendeu a manhã seguinte ter amanhecido chuvosa, mas sim aquela melodia ressoando insistentemente em minha mente perturbada: era “Empty Garden”, que há trinta anos eu não ouvia. A fixação da melodia foi tamanha que num dado momento ocorreu-me tentar finalmente entender a letra. Reproduzo a seguir apenas o refrão e aproveito para declarar meu amor aos Border Collies. Hoje, brinco diariamente com um deles e agradeço à essa raça de cães por ter me escolhido.

And I’ve been knocking, but no one answers
And I’ve been knocking, most of the day
Oh, and I’ve been calling: Hey, hey, Johnny!
Can’t you come out to play?

Embarque

CCR 1970Segundo o dicionário da língua portuguesa Aulete Digital, o termo “férias” refere-se aos dias consecutivos de descanso para trabalhadores e estudantes após um período anual ou semestral de atividades. Logo, o préstimo regular de meus modestos serviços à repartição pública obrigada a me empregar, por conta de aprovação em concurso, qualifica-me no primeiro grupo, o dos trabalhadores. Entretanto, devido à elevada inquietude desta minha mente perturbada, ser um trabalhador não é algo que me deixe satisfeito; na maioria das vezes, as atividades laborais repetitivas e a convivência forçada com outros trabalhadores colaboram sensivelmente para agudizar a tal perturbação. Não, não se trata de uma preferência contundente pela vagabundagem – essa também me ocorre às vezes, embora numa frequência menor -, mas de algo que remete à insuficiência: ser um trabalhador, no estrito sentido do termo, não me é suficiente. A complementação – que infelizmente não envolve percepção pecuniária – ocorre quando disponho das poucas horas de sobra para me dedicar à Literatura e ao estudo de outros temas de igual valor, única e exclusivamente dependentes do meu interesse. Por conta desse esforço específico, vejo-me também um estudante, certamente de caráter informal, mas ainda assim um estudante, na completa acepção da palavra. Informalidade, nesse caso, refere-se a liberdade e não a descompromisso. Portanto, sendo eu um trabalhor-estudante, pois a citada definição do dicionário se cala a respeito dos aspectos formais, declaro-me, sem o menor constrangimento, duplamente merecedor de férias: esse tão almejado e invejado período de descontração. Gostaria então de compartilhar com os pouquíssimos mas fiéis leitores deste blog, invejosos ou não, um único momento de minhas tão merecidas férias, gozadas (excelente termo!) no ano que passou. Estendido na confortável cadeira de um certo aeroporto canadense, estava eu a observar os preparativos que se realizavam no avião que me conduziria até meu destino, quando das caixas de som no teto da sala de embarque emanou uma belíssima música que me era desconhecida, executada num estilo bastante singular por uma banda de rock conhecida, mas cujo nome, à princípio, não consegui recordar. Após um certo tempo, lembrei-me de uma música que remetia muito à que tocava, tanto pela forma quanto pelo conteúdo: Have You Ever Seen The Rain? Pensei então lá com meus botões – relaxados por conta das férias – que se a música a embalar os passageiros naquela sala de embarque também fosse do “Creedence Clearwater Revival”, eu iria precisar conhecer mais detalhadamente o trabalho do grupo. Pois dito e feito; descobri que ambas as canções foram compostas por John Fogerty, o vocalista e líder do “Creedence”, ou CCR, para os íntimos. Ei-la então, a inesquecível música Who’ll Stop The Rain, e uma foto despretensiosa de tudo o que eu assistia:
espera

Respeito

dupinDescobri a maioria dos autores que hoje me são familiares remexendo estantes de livros. Além de minha curiosidade congênita pela matéria, esse bisbilhotar tinha raízes na vontade de explorar o desconhecido, na procura por respostas, na busca por tesouros escondidos; ocupações essas que, vez por outra, tomavam horas de meus finais de semana, ou, dependendo da época, das minhas férias. Hoje percebo que a estante mais divertida, aquela que mais tive prazer em desbravar foi a da casa de meu avô; algo que costumava fazer nos dias mais frios, cinzentos e chuvosos de minha cidade natal. Ali, enfurnado dentro de casa, na pequena sala de estar, eu primeiro corria os olhos pelas prateleiras abertas da estante e depois abria as portas de sua parte inferior, onde havia uma imensidão de títulos empilhados desordenadamente; confusão que, ao invés de desestimular a procura, atiçava ainda mais o meu interesse. Conforme já citei em post anterior, numa dessas incursões pelo desconhecido, chamou-me a atenção um livro de capa sombria, amedrontadora, própria das histórias de horror, exibindo uma espécie de macaco gigantesco, com uma mansão decrépita em segundo plano, desenhados de maneira rudimentar, quase ingênua, mas compatível com o preço e a qualidade da edição. Tratava-se de um compêndio de contos do escritor norte americano Edgar Allan Poe (1809-1849) cuja capa ilustrava um deles, intitulado pelo tradutor Os Crimes da Rua Morgue. Talvez esse autor tenha sido o primeiro a compor o conjunto de artistas que admiro e, por conta disso, hoje ele não poderia faltar na minha biblioteca pretensiosa. O livro e as lembranças daquele tempo incitaram sonhos intranquilos, que numa noite tórrida me fizeram acordar com as antigas imagens do conto, ainda indefinidas. Resolvi então relê-lo a fim de aliviar o incômodo e também para poder reviver aquele tempo, aquelas horas à estante do meu saudoso avô, alguém que descobri recentemente ser também um bibliófilo. A péssima tradução que há muito repousava em minha estante impediu que eu prosseguisse e, ato contínuo, suscitou um encadeamento de ideias: primeiro, resolvi buscar traduções mais recentes e constatei que eram igualmente ruins; depois, apesar do meu parco conhecimento de Inglês, decidi ler o conto no original, mas isso não aplacou algo ainda indefinível que me inquietava; após algum tempo perscrutando os recessos de minha mente perturbada, percebi que eu desejava, na verdade, corrigir certas faltas cometidas, reparar culpas desconfortáveis, escondidas desde a morte de meu avô; culpas que, sem motivo aparente, emergiram. Diante dessa clarividência e desejoso de lhe agradecer pelos momentos inesquecíveis à sua estante, ocorreu-me traduzir o conto; mas traduzi-lo da maneira que o texto e seu autor merecem: com respeito. Após um longo tempo de labuta e animado por ter finalmente superado este desafio de verter para o Português um escrito do admirável Edgar Allan Poe, resolvi impor-me mais um, ainda não iniciado: traduzir, além desse, os outros dois textos com o mesmo protagonista. Assim, publico aqui no Extrato mais uma obra em construção, disponível no menu Tradução, submenu Edgar Allan Poe, chamada Os Contos do Monsieur C. Auguste Dupin, onde o primeiro deles, por mim intitulado Os Assassinatos na Rue Morgue, está finalizado. Por conta de minhas pesquisas e de uma absoluta falta de modéstia que frequentemente me acomete, trata-se, até o presente momento, da melhor tradução desse conto para a língua portuguesa.

Contragolpe

GolEu estava de férias da faculdade quando meu pai, ao telefone, perguntou: “Quer ganhar um carro?”. Até o meu animado “Sim” correram alguns minutos para a completa assimilação de todo o significado daquela pergunta, porque um carro, para mim, sempre fora um bem de terceiros, inatingível. Naquela época, meu principal objetivo material era adquirir um aparelho de som mais potente e moderno, que explorasse todas as vantagens do “Compact Disc”, novidade tecnológica que muito me interessava. Retornei das férias, orgulhoso e destemido, conduzindo um pomposo Gol AP 1.8 a álcool, ano 1985, usado, ou melhor, abusado; mas potente, uma máquina. Ao longo da viagem até Uberlândia, fui refletindo sobre os benefícios que aquele veículo me traria: haveria uma enorme vantagem competitiva para conseguir namorar a Cláudia. Poucos dias depois que cheguei, exerci minha nova condição de pretendente poderoso e convidei a gatinha para sair. Como já mencionei aqui no Extrato, eram necessários pouquíssimos atributos para se conseguir o título de “gatinha” na engenharia; no entanto, minha musa dispunha realmente de volumes proporcionais e harmonicamente dispostos, um cabelo negro liso, longo e uma voz macia. Havíamos saído algumas vezes, apenas como amigos, mas de posse daquele Gol, fui tomado por uma coragem sem precedentes e resolvi ultrapassar definitivamente o obstáculo da amizade. Meu convite foi aceito, como quase sempre acontecia, e fui pegá-la em casa, com o carro; algo que a impressionou menos do que eu imaginava. Entretanto, essa pequena decepção foi completamente superada quando me dei conta do tamanho da saia que ela trajava: sentada ali ao meu lado, no banco do passageiro, a área das pernas que estava desnuda era mais do que satisfatória; algo tão inesperado e surpreendente quanto o Gol. Depois de repetir diversas vezes o quanto estava bonita, percebi o efeito benéfico dos elogios: ela estava diferente, menos retraída, mais espontânea. Pensei então comigo: “É hoje!”. Durante o passeio, rimos e conversamos muito; bem mais do que outras vezes. Quando fui deixá-la em casa, o carro, a mini-saia e minha presunção afrouxaram-me o controle dos impulsos e tentei atacá-la nos três beijinhos de despedida. Fui contragolpeado por duas mãos no meu peito, impedindo minha investida, e uma reação indignada.
– O que você tá fazendo? – perguntou ela.
– Tentando te beijar…Eu gosto muito de você – respondi.
– Mas eu não quero nada com você. Somos apenas amigos. E tem mais: eu não gosto de ser tocada sem aviso prévio. Por que fez isso?
– Você… tá de mini-saia e eu… tô com carro.
– Tchau!
Passaram-se alguns anos até que nos falássemos de novo e outros tantos para que eu conseguisse ter uma vaga ideia das forças instintivas, minha e dela, envolvidas nesse fatídico episódio.