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Posts com Tag ‘fã’

Sermão

montanhaCaros irmãos, gostaria de discorrer brevemente sobre o despojar-se: tema bastante recorrente não só no ideário Católico, mas também no religioso de uma forma geral. O assunto – espécie de cliché teológico – também é tratado pelas crenças orientais, sendo um dos fundamentos da doutrina budista, que prega o desapego às coisas materiais e aos prazeres mundanos em prol da pureza da alma. O Hinduísmo rejeita veementemente o apego material e o considera um entrave ao exercício da espiritualidade. Em nossa Bíblia cristã, há diversas passagens pregando a precedência da alma sobre às efemeridades da vida. Em Mateus 5,3-12, ensina-nos Cristo as nove bem-aventuranças e, logo na primeira, ele trata do assunto: “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o reino do céu”. No capítulo anterior, o evangelista escreve que o tentador, ao oferecer à Jesus poder e glória sobre todos os reinos do mundo em troca de submissão, recebe a seguinte resposta: “Vai-te, Satanás; pois está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto'”. Mais à frente, no capítulo 16, o mesmo Mateus apresenta uma exortação do Mestre aos seus discípulos: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser preservar sua vida, irá perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa, este a preservará. Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a vida?” Percebe-se, portanto, um certo nível de incompatibilidade entre espiritualidade e materialidade, no qual o ser contrapõe-se ao ter. A alma associa-se ao eterno enquanto a matéria ao perecível: “Não ajunteis tesouros na terra, onde traça e ferrugem os consomem, e os ladrões invadem e roubam; mas ajuntai tesouros no céu…” (Mt 6,19-20). Nesse contexto, a mim me parece que despojar significa libertar-se de tudo o que é passageiro, de tudo o que não é eterno. Diante da concepção de que somos formados por um corpo e uma alma, o conjunto das coisas efêmeras, no qual se incluem os construtos humanos e naturais, também abarca o corpo limitado, a carne. A busca pelo despojar-se é, em última instância, a busca pelo aprimoramento da alma, da nossa parcela que cremos ser eterna. Assim, minoramos a angústia da morte; o repúdio, o medo que ela nos causa: desapegar-se do finito é aceitá-lo. Renunciar é aprender sabiamente a morrer. Eis então que venho enaltecer a decisão de Vossa Santidade o Papa Demissionário Bento XVI; alguém que, nesses tempos de insaciáveis fome e sede de poder, abdicou, nos últimos anos de vida que lhe restam, do posto de substituto de São Pedro. Com a saúde debilitada, rejeitou a ideia de definhar em público, de ser admirado menos por suas obras e mais por sua senilidade. Perderá ainda o posto de Cardeal e voltará a ser o Bispo Joseph Aloisius Ratzinger, um fã de Mozart. Viverá recluso num convento, em meio aos livros, orando, estudando, lendo e escrevendo; ações em prol das quais vale a pena sua renúncia, pois são formas dignas, honestas de despojamento, do saber morrer.

Inflexão

Ultimamente, tenho vivenciado certos eventos que me indicam, de uma forma sutil, que estou ficando velho ou, pelo menos, ultrapassado. Um dia desses, voltando para casa, vi duas meninas – acredito com cerca de 16 anos – com dificuldades para recolocar a corrente na coroa de uma bicicleta. Ofereci ajuda e após o término do serviço, recebi um “Obrigado, Tio!”. Permaneci ali, parado, e enquanto elas se afastavam alegremente, refleti sobre aquele agradecimento inesperado. Lembrei-me quando, meses antes, entrei na seção de cd’s de uma loja e indaguei de uma jovem funcionária se eles tinham alguma coisa do Morrissey. Atordoada, ela me perguntou: “Quéimm??”. Esses dois acontecimentos, aliados a outros de menor intensidade, ainda não tinham sido suficientes para confirmar minhas suspeitas, até esse último final de semana, quando a certeza me ocorreu. Estava eu numa festa para adolescentes onde, entre outras atrações ruidosas, shows de música “teen” eram projetados. Entre eles, houve um que causou frisson na garotada e curioso como sou, fui lá pra ver. Bom, parafraseando o irritadiço Caetano Veloso, pensei comigo: “Ainda não havia para mim Lady Gaga. A tua mais mais completa tradução.” Diferente de outros expoentes do mundo pop, a excêntrica Lady, canhestra e disforme, não conseguiu  que a pirotecnia daquele espetáculo amenizasse sua falta de talento, a pobreza de sua performance. Dotada de um tagarelice ímpar, cacoete que a fazia vomitar frases desconexas intermináveis antes de cada uma das “músicas”, a moça revelou-se entediante, chata, um pé no saco. A mim, um fã de pop, seu formato artístico não me empolgou, não me cativou; sequer me interessou, pois retirou-lhe toda a beleza, até sua débil sensualidade. Trata-se, portanto, de mais um produto mal acabado da indústria do entretenimento. A contraposição entre minha conclusão rabugenta e o clima de euforia que se estabeleceu na festa explicitou um fato inexorável: não sou mais adaptável a novas gerações. Dobrei, portanto, o Cabo da Boa Esperança. Atravessei, de modo irreversível, a inflexão geométrica.