Salmo Quarenta

livroDe vez em quando, ocorre-me tentar imprimir uma certa profundidade rebuscada nos meus escritos. O fim último e velado desse exibicionismo sóbrio é que o leitor perceba no texto os sinais do meu esforço e, assim, me dê algum crédito. Foi exatamente essa a intenção do conto “Salmo Quarenta”, adicionado aos meus Contos Ingênuos.

Engenheiro

Christ Church Organ

Confesso que não conheço muito bem o trabalho de todos os grandes compostiores de música clássica e, portanto, não seria prudente comparar a obra do único que conheço, Johann Sebastian Bach, com os trabalhos dos demais. Entretanto, a vantagem de se alimentar um blog como o Extrato, desprovido de qualquer cunho jornalístico, é poder negligenciar alguns aspectos desinteressantes da realidade e da prudência. Segue então a afirmativa imprudente desse leigo apreciador de música clássica: Johann Sebastian Bach é o maior de todos os músicos ocidentais, o mais completo; aquele que, como outros grandes músicos, dominava completamente a arte da composição e era um virtuoso no teclado, mas que, diferente deles, dominava também a arte da manufatura do seu instrumento. Segundo o biógrafo Christoph Wolff, em seu Johann Sebastian Bach: The Learned Musician, Bach sabia muito de Engenharia Mecânica, conhecimento adquirido na prática e que o aplicava quando contratado para projetar órgãos de igreja ou para certificá-los. O biógrafo conta que as igrejas da região da Turíngia, interior da Alemanha, onde Bach nasceu, viveu e morreu, quando terminavam a construção ou a reforma de seus órgãos, não permitiam que ninguém chegasse perto do instrumento antes da avaliação do compositor de Eisenach. Havia uma espécie de “Certificação Bach de Qualidade”, selo que atestava se o instrumento atendia aos rigorosos requisitos do músico-engenheiro. Ainda hoje, existem registros  dos laudos que Bach emitia, dos quais pode-se inferir que ele tinha o costume de abrir o órgão, avaliar minuciosamente a montagem dos mecanismos, os materiais utilizados, tanto os metais quanto as madeiras, e conferir também sua precisão sonora, afinando-o se necessário. Quando percebia algum problema, incluia ressalvas no laudo, onde descrevia instruções técnicas para quem fosse proceder à devida correção. Bach era muito bem pago por esses freelances, algo que o ajudava a complementar o orçamento doméstico, sempre insuficiente para sustentar a numerosa família. Ao ler toda essa história no livro, senti, pela primeira vez desde que entrei na faculdade, um orgulho enorme da minha formação. Parafusos, porcas, engrenagens, arruelas, pregos, hastes, os materiais e suas resistências tiveram, algum dia, nas mãos de um gênio, um destino nobre. Confesso que, em outros tempos, essa habilidade bachiana pouco conhecida teria me provocado uma enorme inveja, mas surpreendentemente ensejou um profundo respeito a mim mesmo, à minha escolha imatura, ao meu esforço ingênuo, à antiga crença pueril de que, na vida, toma-se rumos certos ou errados. Tomei o meu e, por algum motivo, não consigo mais classificá-lo nessa abordagem binária do mundo.

Davos-Platz

Desde que me entendo por gente, gosto de livros. A leitura veio bem depois; primeiro, atraiu-me o objeto livro: a capa, o papel, a fonte, o cheiro, a textura, o folhear. Quando pequeno, eu costumava passar um bom tempo admirando a imponente estante da sala, preenchida parcialmente pelos livros técnicos do meu pai. A forma pela qual ele os distribuia era regular e padronizada: assunto, autor, do exemplar mais alto para o mais baixo. Se algum deles estivesse disposto fora do padrão, eu mesmo o consertava. Ao  longo do tempo, foram chegando os romances da minha mãe, assinante do Círculo do Livro, e a área desocupada  da estante encheu-se gradativamente de cor, ganhou finalmente vida. Por alguma razão, não era necessário padronizá-la como a seção técnica, e o móvel, agora inteiro e equilibrado, revelou-se perfeito. Gigantesco para a minha estatura de menino, eu conservava um respeito quase religioso por ele, pelo incomensurável esforço humano sustentado nas suas prateleiras de madeira: quanto trabalho, quanto tempo, quanto escrever e reescrever para produzir aquela quantidade infindável de páginas. Havia um livro específico que me chamava mais a atenção do que os outros: volumoso, bem costurado, com capa dura, papel branco, letras pequenas, cheiro de novinho e delicioso de folhear. Na sobrecapa, havia uma foto intrigante de um castelo ao pôr do sol e acima de suas torres, lia-se: A Montanha MágicaThomas Mann. A partir desse livro e das reminiscências daquele tempo, ocorreu-me, recentemente, acrescentar àquela atração sensorial infantil, que nunca arrefeceu, o interesse pela Literatura. Iniciei escalando a Montanha até chegar ao sanatório de Davos-Platz, só para ver como era, e junto com Hans Castorp, prolonguei deliberadamente minha estada.