Pular para o conteúdo

Posts com Tag ‘DVD’

Expansão

quatro– Trouxe o filme? – perguntou ele.
– Aqui está. Finalmente ficou disponível. – disse ela.
– Creio que houve algum engano.
– Qual?
– Combinamos assistir a um filme adulto.
– Pois você o está segurando!
– Mas há um cavalo na capa do DVD!
– Você sabe que repudio a mesmice. Faz-se necessário expandir nossas fronteiras.
– Tal expansão precisa necessariamente abarcar outras espécies do reino animal?
– O preconceito é sempre maléfico: dificulta novas ideias.
– Veja esta foto aqui na sinopse. Pergunto eu: qual proveito poderíamos tirar de uma mulher manipulando a glande de um rocinante?
– Se você observar esta outra foto aqui, verá que ela o cavalga adereçada apenas com botas, esporas e chicote.
– O que intenta?
– Imitá-los.
– Ainda não conhecia este seu lado cruel.
– Eis a expansão à qual me referia.
– Uma vez que me colocasse na posição de um quadrúpede, você precisaria ser muito, muito sensata.
– O que temeria? As esporadas ou as chicotadas?
– Ambas e mais ainda a combinação chicote e posição “de quatro”.
– Como assim?
– Em virtude dessa tua ânsia por novas ideias, teria receio que fosse acometida pelo impulso masculino de preencher orifícios.

Classificação

Before SunriseOs filmes que são classificados como “Comédia Romântica” não fazem muito o meu estilo. Houve uma época na qual o gênero não tinha o menor pudor de exibir seu viés melífluo, ignorando a inteligência do espectador com histórias românticas pobres e folhetinescas, no pior sentido do termo. Eu não me ruborizava tanto quanto hoje ao assistir aqueles finais felizes ignóbeis: tratava-se de um mal necessário para conquistar a moça, ainda colega, sentada na cadeira ao lado, no cinema. Confortava-me o fato dela não perceber o meu constrangimento diante das cenas melodramáticas, expressão que ficava camuflada pelo escurinho da sala de projeção. Ajudava também minha facilidade para fabricar gargalhadas que acompanhavam, com um atraso imperceptível, as da plateia eufórica. Ao final do canhestro espetáculo cinematográfico, ocorria a parte mais difícil: comentar com ela o filme. A condição fundamental que deveria ser mantida durante essa conversa sensível era não deixar transparecer o meu caráter pouco romântico. Se ele fosse remotamente percebido, haveria uma forte possibilidade de que meu espírito crítico ficasse exposto; algo completamente inútil e improdutivo quando se está na fase da conquista. Minha resposta padrão para a pergunta “Gostou do filme?” era “Gostei. O filme é engraçado, divertido e ao mesmo tempo profundo.” Embora a autenticidade ficasse profundamente abalada por comentários desse tipo, minhas segundas intenções justificavam tais falsidades. No entanto, algumas vezes, eu ia ao cinema sozinho, autêntico e autônomo, nessas salas que exibem filmes chamados “cult”, ambiente para o qual eu não levava minhas “colegas”, mas que me dava a devida segurança de não ser submetido às babaquices das histórias melosas. Nessa situação, eu não me importava com o que iria assistir e fazia questão de entrar na sala sem saber do título do filme  e muito menos de sua sinopse. Foi assim que assisti Antes do Amanhecer (Before Sunrise) de Richard Linklater, estrelado por Julie Delpy e Ethan Hawke. Encerrado o filme, estava eu completamente apaixonado por Viena e pela atriz parisiense. Ao sair da sala, aproximei-me do poster de divulgação do filme e pareceu-me errada sua classificação: comédia romântica.  Anos mais tarde, comprei o DVD e após me encantar novamente com aquela noite vienense, percebi-me equivocado e, de certa forma,  preconceituoso.