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Posts com Tag ‘desejo’

Segredo

orificio– Gostou? – perguntou ele.
– Adorei. – respondeu ela.
– Julga anti-natural o que fizemos?
– Não. Por que a pergunta?
– Alguns creem que certos orifícios não foram concebidos para a penetração.
– Se propalam com tanta veemência, duvido muito que creiam, como você diz.
– Tem razão. São uns hipócritas!
– Mas antes, reprimidos.
– Como assim?
– Quem dita uma restrição sexual é porque deseja ardentemente descumpri-la.
– No caso dos orifícios proibidos, o desejo é de violar ou de ser violado?
– Ambos.
– Quem seria então o secreto objeto sexual? Alguma figura específica?
– Já reparou que esses tais reprimidos geralmente são racistas?

Casa

Passei a maior parte da minha vida em capitais e não seria muito acertado dizer que sou um rapaz do interior, apesar de ter nascido numa cidade onde o urbano e o rural se confundiam. Entretanto, esse pouco tempo que usufruí de minha terra natal deixaram lembranças, marcas indeléveis de uma infância alegre, momentos registrados nessas fotografias, hoje desbotadas, que reiteradamente retornam à mente e que me localizam nesse tempo bom e longínquo. As reminiscências de minhas origens não têm o tom melancólico e excessivo do saudosismo, mas resultam de saudades sinceras, de  vestígios interioranos manifestos nessa minha personalidade que, na maioria do tempo, se arroga cosmopolita. Imerso nessa época irrecuperável, não me ocorre chorar aquilo que foi perdido ou desvirtuado ao longo dos anos, mas tentar avigorar o discernimento sobre mim mesmo, promover trincas nessa máscara de altivez, ingênua e artificialmente fabricada, que acreditei indispensável para os centros cosmopolitas. Dessa busca, nem sempre bem sucedida, surge a necessidade de revisitar a terra natal na sua versão contemporânea, bem menos modesta, mas que ainda guarda traços de outros tempos, onde ainda coexistem a cidade e o campo, onde as crianças ainda brincam na rua, onde as pessoas ainda se reúnem nos finais de semana, onde se volta do trabalho para  almoçar em casa, onde os vizinhos se conhecem, onde a compra na venda é marcada na caderneta, onde as distâncias são pequenas, onde a diversão é singela, onde a vida que corre aqui nos grandes centros, lá prefere caminhar. Receio que essa ligação nunca rompida com essas origens se fundamente num desejo, dissimulado pelo arrogante homem urbano, de estar em casa, em família, de ficar junto dos meus, de vivenciar seus problemas e seus prazeres, seus sucessos e fracassos, dramas e alegrias.

CA-86

Acredito ser congênita minha tendência para ideias fixas. Na remota época de minha adolescência, as calculadoras e relógios digitais não me saiam da cabeça. Eu já tinha uma calculadora da Texas Instruments quando meu irmão ganhou de aniversário o primeiro relógio digital lá de casa: aquilo corroeu-me de inveja desde o instante em que ele o colocou no pulso. Contido e indignado, eu o ficava observando manipular os botões e informar as horas a todo momento. O tempo e outras fixações fizeram adormecer aqueles sentimentos, o desejo de substituir o relógio mecânico que pesava no meu braço por um digital. Tempos depois, quando um colega da minha antiga quinta série apareceu com aquele relógio-calculadora, percebi-me inquieto, intranquilo. Além das funções de um relógio avançado, o pequeno dispositivo, com seus vinte botões e um design magnífico, incluía os recursos da enorme calculadora que eu tinha. Lembro-me de dormir pensando naquilo e de passar horas matutando um jeito de ter aquele objeto fantástico atado ao meu pulso. Ocorreu-me então a ideia do escambo: trocaria minha coleção de discos de vinil pelo relógio. Embora a proposta não me parecesse absurda, resolvi consultar meu irmão: “Nossa! Vai dar seus dez discos? Acho que ele vai aceitar!”, disse ele. Naquele dia, partimos para a escola apreensivos, mas convictos do sucesso da troca. Não consegui esperar o intervalo do recreio e, exasperado, aproximei-me do colega lançando-lhe a proposta antes mesmo do início da aula. Ao me pedir para ver os discos, tive a certeza da troca e durante o pequeno trajeto de onde estávamos até minha mochila, houve tempo para imaginar o relógio já no meu braço e fazer planos para desvendá-lo. “Nada feito. Não gosto desses discos. Ha ha ha, alguns cantores eu nem conheço! Você não tem nada melhor não?”, perguntou ele indignado. Hoje consigo enxergar com mais clareza o que se passou comigo após aquela recusa: pior do que a decepção de ver meu plano malograr foi o constrangimento de revelar o meu desejo, a vergonha de haver proposto algo que agora me parecia ridículo, insano. Não me senti humilhado, mas um completo imbecil: as risadas irônicas do colega, corretas, evidenciavam o erro do plano. Resolvi então ser bem mais reservado com as coisas de dentro, guardar certos impulsos somente para mim; pareceu-me a alternativa mais lógica para evitar novos episódios parecidos. Acontece que, para algumas pessoas especiais, somos quase legíveis e a estratégia do esconder-se nem sempre funciona. Certa noite, acordei assustado com o ruído das sandálias do meu pai no corredor e então percebi um incômodo: aquele bem-vindo invasor havia amarrado no meu pulso esquerdo um Casio CA-86 novinho.