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Posts com Tag ‘desafio’

Respeito

dupinDescobri a maioria dos autores que hoje me são familiares remexendo estantes de livros. Além de minha curiosidade congênita pela matéria, esse bisbilhotar tinha raízes na vontade de explorar o desconhecido, na procura por respostas, na busca por tesouros escondidos; ocupações essas que, vez por outra, tomavam horas de meus finais de semana, ou, dependendo da época, das minhas férias. Hoje percebo que a estante mais divertida, aquela que mais tive prazer em desbravar foi a da casa de meu avô; algo que costumava fazer nos dias mais frios, cinzentos e chuvosos de minha cidade natal. Ali, enfurnado dentro de casa, na pequena sala de estar, eu primeiro corria os olhos pelas prateleiras abertas da estante e depois abria as portas de sua parte inferior, onde havia uma imensidão de títulos empilhados desordenadamente; confusão que, ao invés de desestimular a procura, atiçava ainda mais o meu interesse. Conforme já citei em post anterior, numa dessas incursões pelo desconhecido, chamou-me a atenção um livro de capa sombria, amedrontadora, própria das histórias de horror, exibindo uma espécie de macaco gigantesco, com uma mansão decrépita em segundo plano, desenhados de maneira rudimentar, quase ingênua, mas compatível com o preço e a qualidade da edição. Tratava-se de um compêndio de contos do escritor norte americano Edgar Allan Poe (1809-1849) cuja capa ilustrava um deles, intitulado pelo tradutor Os Crimes da Rua Morgue. Talvez esse autor tenha sido o primeiro a compor o conjunto de artistas que admiro e, por conta disso, hoje ele não poderia faltar na minha biblioteca pretensiosa. O livro e as lembranças daquele tempo incitaram sonhos intranquilos, que numa noite tórrida me fizeram acordar com as antigas imagens do conto, ainda indefinidas. Resolvi então relê-lo a fim de aliviar o incômodo e também para poder reviver aquele tempo, aquelas horas à estante do meu saudoso avô, alguém que descobri recentemente ser também um bibliófilo. A péssima tradução que há muito repousava em minha estante impediu que eu prosseguisse e, ato contínuo, suscitou um encadeamento de ideias: primeiro, resolvi buscar traduções mais recentes e constatei que eram igualmente ruins; depois, apesar do meu parco conhecimento de Inglês, decidi ler o conto no original, mas isso não aplacou algo ainda indefinível que me inquietava; após algum tempo perscrutando os recessos de minha mente perturbada, percebi que eu desejava, na verdade, corrigir certas faltas cometidas, reparar culpas desconfortáveis, escondidas desde a morte de meu avô; culpas que, sem motivo aparente, emergiram. Diante dessa clarividência e desejoso de lhe agradecer pelos momentos inesquecíveis à sua estante, ocorreu-me traduzir o conto; mas traduzi-lo da maneira que o texto e seu autor merecem: com respeito. Após um longo tempo de labuta e animado por ter finalmente superado este desafio de verter para o Português um escrito do admirável Edgar Allan Poe, resolvi impor-me mais um, ainda não iniciado: traduzir, além desse, os outros dois textos com o mesmo protagonista. Assim, publico aqui no Extrato mais uma obra em construção, disponível no menu Tradução, submenu Edgar Allan Poe, chamada Os Contos do Monsieur C. Auguste Dupin, onde o primeiro deles, por mim intitulado Os Assassinatos na Rue Morgue, está finalizado. Por conta de minhas pesquisas e de uma absoluta falta de modéstia que frequentemente me acomete, trata-se, até o presente momento, da melhor tradução desse conto para a língua portuguesa.

Você

Você lê um livro que te impressiona porque diz muita coisa a seu respeito;
Você tem vontade que outros o leiam porque deseja que tenham a mesma experiência;
Você se embaraça ao indicá-lo aos amigos porque ele é escrito em inglês;
Você procura uma versão do livro em português porque o autor é o famoso Erich Fromm;
Você se decepciona enormemente porque inexiste tradução para o seu idioma;
Você tem uma grande ideia porque certos desafios o instigam;
Você começa a verter o livro para o português porque acredita na sua capacidade;
Você termina orgulhoso seu trabalho porque ele não foi nada fácil;
Você o submete a diversas editoras porque almeja recompensa mínima por seu esforço;
Você constata o total desinteresse delas porque o livro não vende fácil;
Você se emputece consigo mesmo por ter dispendido precioso tempo em vão;
Você ignora esse trabalho por um tempo porque precisa evitar a frustração;
Você pensa naqueles para os quais indicou o livro porque nunca o verão nas livrarias;
Você resolve disponibilizar o livro no seu blog porque tem arroubos raros de despojamento;
Você coloca o livro na área Trabalhos/Tradução porque quer se mostrar organizado;
Você se sente livre porque só agora dá um fim ao que se propôs.

Croquete

CanudoNo intuito de honrar gloriosamente o título adquirido após quatro anos de labuta, o Doutor resolveu se embrenhar no árduo exercício do magistério. Afinal de contas, o nobre canudo tinha sido emitido, pública e gratuitamente, por uma universidade federal, fato que acreditou suscitar em sua alma pouco dadivosa sentimentos de gratidão. Tomado por um ânimo incomum para empreitadas tão pouco lucrativas, resolveu dedicar-se de corpo e alma, subtraindo tempo da convivência com os filhos para recordar assuntos antigos, já que sua ideia seria ministrar aulas na graduação. Empregado, durante o dia, numa repartição pública, o único turno que lhe sobrava era o noturno, horário em que sua mulher trabalhava e a babá procedia à rotina das crianças. Comprou livros, preparou aulas e criou expectativas; queria dar um enfoque novo ao ensino da disciplina que se especializara. Após essa preparação intensa, procurou uma faculdade, submeteu-lhe o currículo, sendo aceito de imediato: “Profissionais dispostos a ministrar esta disciplina, como o senhor, são raros; a gente vai te pegar nem que for no laço!”, disse efusivamente o coordenador do curso. O Doutor, então, acertou os horários das aulas com a faculdade e passou a aguardar ansiosamente o início do semestre seguinte. Fez planos de alimentar uma caderneta de poupança com o singelo acréscimo pecuniário que teria e, orgulhoso, acresceu antecipadamente ao currículo a experiência vindoura: era uma nova carreira que para ele se iniciava, novos horizontes, novos desafios. Certo dia, quando estava imerso em seus estudos, a babá dos filhos trouxe-lhe um pratinho com diversos salgadinhos: “Aqui, Doutor. São pro senhor. Minha mãe que fez.”, disse animadamente a garota. Ele experimentou e teceu elogios rasgados àqueles quitutes feitos com tanto esmero e sabor. O croquete, particularmente, tinha um paladar inigualável: “É a especialidade da mamãe”, disse ela. Nos dias que se sucederam, naquele mesmo horário, os salgadinhos eram servidos e deliciosamente saboreados pelo futuro professor. Ao final de uma semana, junto com os salgadinhos, a babá solicitou um minuto da sua atenção: “Seu Doutor, minha mãe resolveu montar um negócio. Lá onde eu moro, tem muitos bares e o meu tio que gosta de uma cerveja disse que eles não vendem croquetes que prestem. Mamãe então resolver aproveitar essa chance porque, como o senhor mesmo sabe, essa é a especialidade dela. Fez alguns para um dos botecos e vendeu tudo. Fez para outros e vendeu tudo. Os pedidos são tantos que ela não está dando conta do serviço. Disse que vai precisar da minha ajuda e como não posso deixar ela na mão, deixar ela perder essa chance, vou ter que sair. Quero pedir minhas contas”. Um silêncio sepulcral separou o fim desse pedido e o início de uma profunda cólera que sufocou o nobre Doutor: desprovido de babá, quem iria tomar conta dos filhos quando estivesse nas aulas, exercendo a sua porção altruísta? Foram necessários alguns dias para minorar aquele ódio mortal que o fizera proferir, internamente, palavrões que nem ele próprio sabia que conhecia. Houve então espaço, ainda que pequeno, para uma breve reflexão e o Doutor se deu conta que não havia sido honesto consigo mesmo: tudo aquilo que fizera e que faria não era altruísmo, mas pura insuflação de ego, como acontecera na sua especialização apoteótica. Foi preciso que o destino preferisse o croquete ao canudo para que ele tirasse, por breves momentos, os olhos daquela imagem fictícia de si mesmo e reparasse um pouquinho mais nos filhos.