Exigências

toadUma das características mais peculiares da música pop é sua capacidade para se instalar confortavelmente na memória dita retentiva e ali, independente se quem a ouviu gostou ou não, manifestar-se numa periodicidade incontrolável até que outra espécie de pensamento fixo a substitua. A longevidade de sua reincidência em algumas dessas mentes doentias é proporcional à qualidade da melodia, uma vez que a profundidade das letras não é objeto de preocupação, sequer remota, por parte dos compositores pop. Contribui também para a frequência dessa repetição o quanto a música empolga esses apreciadores, digamos, mais exigentes, que valorizam, conscientemente ou não, a tal excelência melódica . Para eles, a instrumentação deve ser simples, mas não simplória; o ritmo precisa ser bem marcado, contundente, dotado de uma certa imprevisibilidade; a harmonia do refrão tem que distingui-lo do restante da música, sem contudo destacar-se exageradamente. Ávidos consumidores de pop têm uma predileção especial para ouvir essas canções pegajosas quando enfrentam sua rotina diária ou quando partem numa viagem, tornando-as a trilha sonora que embala seus afazeres. Inúmeras bandas produzem esse tipo de música, mas há uma delas, estadunidense, chamada Toad The Wet Sprocket, cujo repertório muito me agrada, embora eu ainda não saiba por quê. Formado na Califórnia em 1986 pelos guitarristas Glen Phillips e Todd Nichols, pelo baixista Dean Dinning e o baterista Randy Guss, o grupo iniciou a carreira com o cuidadoso disco Bread And Circus em 1989, interrompendo os trabalhos em 1998, um ano após o lançamento do ótimo Coil. Phillips partiu para uma medíocre carreira solo e os demais membros caíram no ostracismo. Em 2013, por razões financeiras, creio eu, resolveram retomar a banda, buscando senão o sucesso que nunca tiveram, pelo menos recuperar um pouco das pequenas glórias do passado, como os hits dos bons discos Pale(1990) e Fear(1991). Ao ouvir o trabalho que marca o retorno da banda, New Constellation(2013), devo admitir que os músicos capricharam, compondo o melhor disco de suas carreiras: embora não se ouça nada de revolucionário, o álbum é simples e sincero; do qual se depreende o cuidado, o esmero em cada canção e também uma certa maturidade, especialmente de Phillips, o principal compositor. A seguir, apresento minha avaliação das músicas, com destaque especial para a tocante The Moment: 

Culpa

Syd BarretNão me considero um admirador inveterado do trabalho da banda Pink Floyd, uma vez que aprecio apenas uma pequena parte de seu extenso repertório, distribuído por 14 álbuns de estúdio e inumeráveis compilações “caça-níqueis”. O grupo inglês da cidade de Cambridge, fundado originalmente pelo baixista Roger Waters e pelo baterista Nick Mason, teve diversas formações no início da carreira até finalmente estabilizar-se, quando assinou contrato com a gravadora EMI. Nessa época, além de Waters e Mason, faziam parte do conjunto o tecladista Richard Wright e o guitarrista Syd Barret. Por conta da enorme habilidade em seu instrumento e uma profícua criatividade musical, Barret, amigo de infância de Waters e um ano mais novo que ele, acabou se tornando o principal compositor da banda: dentre as onze músicas presentes no excelente primeiro álbum The Piper At The Gates of Dawn (1967), Barret assina sozinho oito delas e as demais, participa da composição. Os colegas do grupo e pessoas próximas a ele, como seu aluno de guitarra David Gilmour, já haviam se acostumado com seu jeito insociável e seu temperamento oscilante, sem falar nos episódios, cada vez mais frequentes, em que fazia ou falava coisas absolutamente sem sentido. Esse comportamento excêntrico agudizou-se sobremaneira pelo consumo do chamado ácido lisérgico ou LSD; prática que não era privilégio apenas de Barret, mas da maioria esmagadora dos roqueiros psicodélicos da época. A predisposição do guitarrista ao desequilíbrio mental aliada ao seu vício tornou-se um problema quando começou a interferir nos relacionamentos profissionais do grupo com terceiros: entrevistas, compromissos e outras obrigações eram sistematicamente prejudicados pelos desatinos de Barret. A coisa degringolou quando o roqueiro deixou de colaborar no processo criativo da banda; fato que passou a comprometer também seu relacionamento com os outros membros. Foi por essa época também que Barret, apelidado Crazy Diamond, encarcerou a namorada num dos quartos de seu apartamento por três dias, alimentando-a nesse período, com biscoitos que jogava por debaixo da porta. Nos shows do grupo, ele sequer se dava ao trabalho de cantar ou tocar seu instrumento, sendo muitas vezes substituído por seu pupilo Gilmour. Certa vez, no carro que costumava pegar cada um dos músicos antes dos shows, alguém disse: “Vamos pegar o Syd?”. Alguém respondeu: “Pra mim ele não faz falta!”. Outros disseram: “Pra mim também não!”. Dentre esses outros, estava também Gilmour, que a partir daí foi efetivado na banda; evento que facilitou a expulsão de Barret – já considerado um doido varrido – em dezembro de 1967, quando não lhe foram dadas maiores satisfações. Algum tempo depois, Waters e Gilmour, arrependidos pela forma que baniram o colega, resolveram visitar Garret na casa de sua mãe, onde havia buscado refúgio. Quando os viu, a Sra. Barret disse: “Ele não quer ver vocês! Ele está muito, muito triste! O que vocês fizeram com o meu filho não se faz!”. Os dois tanto insistiram que acabaram por restabelecer o contato, mas a saúde mental do amigo já estava bastante precária. Alguém então teve a ideia de solicitar a ajuda do eminente psicanalista escocês Ronald Laing, que deu seu veredicto: “O problema dele é incurável”. Desde então e durante todo o tempo em que esteve ativo, o grupo Pink Floyd carregou esse peso, essa culpa, enquanto Syd Barret manteve-se recluso na casa materna, praticando a pintura, arte que tanto amava, a fotografia, jardinando flores e visitando museus até sua morte em 2006. Para o deleite dos apreciadores de rock, dentre os quais me incluo, a carga emocional de toda essa história foi lindamente expressa no álbum Wish You Were Here (1975), o melhor da carreira do Pink Floyd, avaliado ao final do post. Nas últimas sessões de gravação desse disco (eu ainda uso essa terminologia), Barret apareceu inesperadamente nos estúdios da EMI na Abbey Road: estava pálido, barrigudo, careca, sem sobrancelhas, desleixado. Quando o grupo finalmente o reconheceu, Waters e Gilmour, aos prantos, foram cumprimentá-lo.
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Variações

Reza a lenda que o Conde Hermann Carl von Keyserlingk(1696-1764) da cidade alemã de Dresden solicitou ao grande Johann Sebastian Bach(1685-1750) que compusesse um conjunto de peças para que seu cravista particular Johann Gottlieb Goldberg(1727-1756) – um inconteste virtuose em seu instrumento – pudesse interpretá-las. Tais composições deveriam mesclar vivacidade com suavidade a fim de aplacar as enormes angústias do Conde em suas noites de insônia. Desse singelo pedido, ainda segundo a lenda, surgiu o que se apelidou posteriormente de Variações de Goldberg, título consagrado até os dias de hoje. O professor da Universidade de Harvard Christoph Wolff(1940), em sua monumental biografia (não autorizada) de Bach considera bastante improvável a veracidade  dessa história, uma vez que as peças não contém dedicatória; algo incompatível com a praxe dos compositores do século XVIII quando lhes era requisitado algum trabalho. Além disso, essas variações foram publicadas em 1741, compondo a última parte de uma coleção de trabalhos intitulada Clavier-Übung (A Prática do Teclado), ano em que Goldberg era apenas um adolescente de quatorze anos. Das inúmeras interpretações disponíveis para essa obra-prima da música clássica ocidental, a qual considero dotada de caráter divino, ouvi um conjunto significativo delas, e devo dizer que justamente a mais aclamada, a mais disponível, me pareceu a pior. Digo “pareceu” porque não quero deixar a impressão que sou alguma espécie de crítico especializado ou expert, mas apenas um ouvinte atento, para o qual música é coisa séria, algo muito além de um simples entretenimento, de uma mera trilha sonora que embala o quotidiano da vida: especialmente em relação às Variações, talvez ocorra comigo algo parecido com a intensidade das impressões de Tolstói diante da Sonata para Violino No. 9 de Beethoven. Assim, ao dedicar tempo exclusivo a diversas interpretações das Variações de Goldberg, cheguei a algumas conclusões, de leigo; resultado do atrevimento que me é peculiar. Então, vamos a elas. Começo pela renomada performance do eminente pianista canadense Glenn Gould(1932-1982) fazendo minhas as palavras do excelente cravista Scott Ross: “Ele nunca soube o que é a música de Bach!”. O insociável e excêntrico Gould, que cantarolava enquanto tocava – um pesadelo para os engenheiros de gravação –  jamais apresentou interpretações das peças de Bach, mas versões, traduções canhestras daquelas que teve a ousadia de tocar, com as quais alcançou o estrelato. Nas Variações, não foi diferente; mas há um consolo: ele se saiu bem pior ao tocar O Cravo Bem Temperado.  A interpretação do cravista norte-americano Scott Ross(1951-1989) – magnífico intérprete das obras de Couperin – é ótima, apesar de um pequena impropriedade na Aria inicial e do andamento um pouquinho acelerado para o meu gosto; andamento adequado para Couperin, mas não tanto para as Variações. Apesar disso, percebe-se que Ross, vítima do vírus da Aids em 1989, conhece o que toca e respeita o compositor, buscando atingir o que acredita ser a correta interpretação das peças. A graciosa pianista Angela Hewitt(1958), também canadense, confere às Variações um toque feminino, delicado, quase maternal. Com uma técnica precisa, sem absolutamente ser monótona, Hewitt parece querer ninar em seus braços o insone Conde von Keyserlingk. O andamento me parece mais lento que o ideal, embora isso não tire a força da interpretação. A elogiada performance da pianista russa Tatiana Nikolayeva(1924-1993) é tecnicamente perfeita, irretocável, mas sua abordagem é fria, apática, monótona e, por isso, não empolga. Quando ouvi a performance do húngaro András Schiff(1953), acreditei ser ela a definitiva, uma vez que me agradara mais do que as outras. Embora a gravação que adquiri seja antiga e, portanto, sem o vigor sonoro das atuais, a perspectiva de Schiff, o cuidadoso intérprete, compatibilizou-se plenamente com a minha, o ouvinte impertinente. Quanto às Variações executadas pelas mãos do famoso pianista novaiorquino Murray Perahia(1947), sinto-me na obrigação de contar uma pequena história: no ano de 1990, Perahia sofreu um pequeno corte no polegar da mão direita que infeccionou. Por alguma razão, os antibióticos tradicionais não exterminaram as bactérias e medicamentos  bem mais fortes foram necessários. Como efeito colateral desse tratamento agressivo, o pianista adquiriu um problema ósseo na mão direita, causando-lhe reincidentes inflamações e um longo afastamento do piano. Após esse período, retomou a prática de seu instrumento e, por alguma razão, durante a longa recuperação, encontrou ânimo apenas para tocar Bach. Recuperado, resolveu homenagear esse compositor, ao qual nunca dera a devida atenção, com uma série de trabalhos; dentre eles, as Variações de Goldberg. Sobre esse trabalho, não quero dizer muito para evitar cair em clichês, mas apenas informar que fiz questão de adquirir o disco e colocá-lo em minha estante pretensiosa. Tão emociante e sublime quanto a performance de Perahia é a do regente e cravista inglês Richard Egarr(1963). Se me fosse dada a cruel opção de escolher entre essas duas obras, eu escolheria Egarr, não por considerá-la uma interpretação melhor, mas pelos quatorze canons adicionais presentes no álbum do cravista inglês. Em 1974, foi descoberta na França, escondida numa biblioteca particular, uma cópia impressa das Variações de Goldberg, na qual haviam partituras apensadas manualmente, escritas de próprio punho por Bach, conforme constatado pelos especialistas. Esse acréscimo, totalizando quatorze peças, foi apelidado Canons de Goldberg, e são justamente eles que sucedem as Variações na gravação de Egarr: um dos poucos trabalhos disponíveis que incluem as duas obras. As músicas, gravadas em Amsterdã, foram captadas de um cravo holandês, dentro de uma igreja batista. O som é vigoroso, límpido, definido e a performance, primorosa. Para as composições que requerem mais de um cravo (peças à quatro mãos), foi utilizado um recurso chamado “overdub”, onde são gravadas faixas sonoras adicionais às já anteriormente gravadas; recurso que a música popular utiliza desde a década de 60 e que, nesse caso particular, considero plenamente aceitável: evidência clara de que estou perdendo algumas intransigências. A seguir, apresento a capa desse álbum sem as costumeiras notas arrogantes que costumo colocar em cada uma das músicas: quando se refere à Bach, esse tipo de avaliação é absolutamente descabida.egarrVariations

Engenheiro

Christ Church Organ

Confesso que não conheço muito bem o trabalho de todos os grandes compostiores de música clássica e, portanto, não seria prudente comparar a obra do único que conheço, Johann Sebastian Bach, com os trabalhos dos demais. Entretanto, a vantagem de se alimentar um blog como o Extrato, desprovido de qualquer cunho jornalístico, é poder negligenciar alguns aspectos desinteressantes da realidade e da prudência. Segue então a afirmativa imprudente desse leigo apreciador de música clássica: Johann Sebastian Bach é o maior de todos os músicos ocidentais, o mais completo; aquele que, como outros grandes músicos, dominava completamente a arte da composição e era um virtuoso no teclado, mas que, diferente deles, dominava também a arte da manufatura do seu instrumento. Segundo o biógrafo Christoph Wolff, em seu Johann Sebastian Bach: The Learned Musician, Bach sabia muito de Engenharia Mecânica, conhecimento adquirido na prática e que o aplicava quando contratado para projetar órgãos de igreja ou para certificá-los. O biógrafo conta que as igrejas da região da Turíngia, interior da Alemanha, onde Bach nasceu, viveu e morreu, quando terminavam a construção ou a reforma de seus órgãos, não permitiam que ninguém chegasse perto do instrumento antes da avaliação do compositor de Eisenach. Havia uma espécie de “Certificação Bach de Qualidade”, selo que atestava se o instrumento atendia aos rigorosos requisitos do músico-engenheiro. Ainda hoje, existem registros  dos laudos que Bach emitia, dos quais pode-se inferir que ele tinha o costume de abrir o órgão, avaliar minuciosamente a montagem dos mecanismos, os materiais utilizados, tanto os metais quanto as madeiras, e conferir também sua precisão sonora, afinando-o se necessário. Quando percebia algum problema, incluia ressalvas no laudo, onde descrevia instruções técnicas para quem fosse proceder à devida correção. Bach era muito bem pago por esses freelances, algo que o ajudava a complementar o orçamento doméstico, sempre insuficiente para sustentar a numerosa família. Ao ler toda essa história no livro, senti, pela primeira vez desde que entrei na faculdade, um orgulho enorme da minha formação. Parafusos, porcas, engrenagens, arruelas, pregos, hastes, os materiais e suas resistências tiveram, algum dia, nas mãos de um gênio, um destino nobre. Confesso que, em outros tempos, essa habilidade bachiana pouco conhecida teria me provocado uma enorme inveja, mas surpreendentemente ensejou um profundo respeito a mim mesmo, à minha escolha imatura, ao meu esforço ingênuo, à antiga crença pueril de que, na vida, toma-se rumos certos ou errados. Tomei o meu e, por algum motivo, não consigo mais classificá-lo nessa abordagem binária do mundo.

1975

O compositor Roberto Carlos faleceu em dezembro de 1979, após lançar o seu vigésimo primeiro álbum. Desde então, restou apenas um cantor, um intérprete de suas glórias passadas, uma inserção na programação natalina da Rede Globo.  A morte foi acobertada pelos mais próximos: o cantor, a emissora e até o “amigo de tantos caminhos e tantas jornadas”. A estratégia, dali em diante, seria ludibriar o público, através da intensa promoção televisiva e da transformação do popular em popularesco, a fim de retirar-lhe a mais remota lembrança do compositor falecido. Roberto Carlos Braga, o cantor, passou então a viver do sucesso do saudoso compositor, passou a plagiar canções de compositores desconhecidos, a enaltecer a vida dos caminhoneiros, a tentar nos incutir a ideia de que as gorduchinhas, as nanicas e as coroas são sensuais e atraentes, passou a expor indiscriminadamente sua religiosidade de ocasião e a praticar outras babaquices do gênero. Muitos caíram nessa artimanha, talvez a maioria; não eu: vi e vejo, a medida que o tempo passa e a rabugice me domina, cada vez mais nítida a descontinuidade, ocorrida no início dos anos 80, na obra daquele que alguns ainda se atrevem a chamar de “Rei”. Seu reinado, para mim, findou-se após o álbum Roberto Carlos (Na Paz Do Seu Sorriso) . Como “súdito”, fico até aí; fico com as músicas que costumava ouvir domingo, bem cedinho, no rádio. Naquela época longínqua, como não tínhamos os álbuns, ou os “discos”, as canções estavam dispersas, eram entidades autônomas que não faziam parte de um trabalho. Hoje, uma outra era na indústria fonográfica e na minha capacidade financeira, tenho condições de avaliar com um pouco mais de propriedade as músicas do compositor, no contexto de seus discos. Recentemente, ocorreu-me fazer tal análise e o trabalho de 1975, Roberto Carlos (Além do Horizonte), revelou-se excelente.

Vozes

Este instrumento tem os mecanismos de um cravo, mas a acústica de um alaúde. Daí o nome cravo-alaúde; considerado o instrumento perdido da música barroca. Entre os oito cravos listados no espólio do grande Johann Sebastian Bach, havia um deste tipo. Embora as peças do catálogo oficial de Bach BWV995-998, 1006a, entre outras, indiquem o alaúde como instrumentação, alguns acreditam que foram compostas, na verdade, para o cravo-alaúde. No frigir dos ovos, são vozes diferentes que cantam a beleza divina, inerente a essas peças.