Seu Tupi

pontingFingerNa segunda metade da saudosa e desinibida década de setenta, morávamos nós numa cidade litorânea, período em que meu pai era empregado de uma enorme repartição pública, ligada ao governo local. Em um dado momento de sua carreira, convidaram-no para assumir um posto mais alto, cujo acréscimo pecuniário era obviamente menor que o acréscimo das responsabilidades. Aceito prontamente o convite, uma vez que a situação econômico-financeira da família não era das melhores, meu pai passou a se envolver com problemas maiores e mais importantes. Certa vez, a fim de resolver um deles, ele precisou sair de sua mesa e se deslocar até um outro setor longínquo da repartição. Ainda animado pela promoção – inconteste reconhecimento de seus esforços -, ele caminhava rapidamente por um corredor extenso para diligenciar a solução do tal problema, quando reconheceu ao longe um colega que vinha em sentido contrário. À medida que se aproximavam, meu pai ia se esforçando para tentar lembrar o nome do sujeito, quando finalmente, à poucos metros de se encontrarem, ele conseguiu: chamava-se Alceu Tupinambá Neto ou Seu Tupi, para os mais próximos. Embora não tivesse muito contato com Seu Tupi, dada a distância física e organogramática dos setores respectivos, meu pai resolveu chamar o colega por sua alcunha ao cumprimentá-lo efusivamente; algo que aparentemente não incomodou Seu Tupi. Entabularam então aquele tipo de colóquio cortês, obrigatório e superficial, que versa sobre temas amenos seguido de uma rápida despedida, pois Seu Tupi também estava apressado. Quando retomou seu caminho, meu pai, visivelmente preocupado, pensou consigo: “Espero nunca encontrar Seu Tupi fora do trabalho, porque se isso acontecer e os meninos estiverem comigo, o Renato vai aprontar das suas!”. Eram duas as razões fundamentais da aflição de meu pobre pai: uma de cunho estético e outra de caráter comportamental. A primeira relacionava-se ao fato indiscutível de que a Natureza privara Seu Tupi do mais remoto traço de beleza fisionômica e, por isso, da possibilidade muitas vezes conveniente de se passar despercebido: mirrado e corcunda, com as orelhas generosas sustentando pesados óculos de míope, sua figura remetia à uma caricatura circense. Devo dizer que, desde tenra idade, tenho uma curiosidade quase incontrolável pelos assuntos ditos reservados e foi ela que me fez ouvir não muito claramente, enquanto brincava, meu pai comentar sobre Seu Tupi algo do tipo: “Ele é mais feio do que bater em mãe”. A segunda razão diz respeito à índole nada retraída de um dos meus irmãos mais novos: o “Renato” supracitado. Segundo de uma prole considerada numerosa para os padrões atuais, Renato, por suas peripécias, sempre demandou de meus pais esforços disciplinares mais enérgicos do que dispendiam com o restante dos filhos. Por alguma razão, eu sempre o admirei por isso e considero, até hoje, uma de suas obras-primas a depilação do rabo de um cachorro, que costumava perambular por nossa rua, com a lâmina de barbear do pai; que a continuou utilizando depois, sem, é claro, ter sido informado do fato. Diante da dificuldade em educar criaturinhas dessa espécie, meu pai sempre conservava o hábito de levar as maiores, meu irmão e eu, para caminhar na calçada da praia. Adorávamos esses passeios dominicais porque nos sentíamos mais soltos e a liberdade, para dois traquinas como nós, de seis e oito anos à época, significava uma tranquilidade rara e revigorante para o pai. Numa dessas tardes, após caminharmos um certo tempo, ele nos ordenou que ficássemos mais próximos dele e, à princípio, não entendemos muito bem o motivo. Ao nos aproximarmos, ele olhou severamente para o meu irmão e disse: “Você vai se comportar, ouviu? Vai se comportar!”.  Espantados com aquela repreensão gratuita, notamos que o pai observava fixamente algo mais adiante quando também voltamos nosso olhar para onde estava o dele. Imerso no ar quente que subia da calçada, uma figura inusitada apareceu: com o peito desnudo e trajando um desconcertante calção de banho, Seu Tupi caminhava em nossa direção e nos deteve a atenção desde o momento em que o vimos. Num absoluto silêncio, nós dois acompanhamos sua aproximação e também os cumprimentos inevitáveis, desses que os adultos se vêm obrigados a travar por pura e completa formalidade. Iniciaram timidamente uma conversa, quando pouco tempo depois o pai sentiu que meu irmão lhe puxava as calças com insistência. Fingindo não perceber, o pai prosseguiu com sua fala exagerada no intuito de chamar para si toda a atenção do colega, mas sem muito sucesso. Seu Tupi, incomodado com a inquietação da criança, pediu educadamente ao seu interlocutor oportunidade para que ela se pronunciasse. Meu pai tentou, a todo custo, dissuadir Seu Tupi de tal concessão, mas o colega de trabalho insistiu com veemência. Nesse momento, vi então que Renato adquirira os mesmos trejeitos de alguém hipnotizado, tal era a feição de espanto que exibia. Ele então apontou o dedo indicador para Seu Tupi e anunciou nervosamente: “Nossa, papai! Como é que pode? Ele fala! Ele fala!”.

Recolhimento

pilhaRevistasPor muito pouco, ganha-se um apelido. Na saudosa época de faculdade, eu tive o meu. A razão revelo-a aqui e somente agora, quando se encontra um pouco mais consolidada minha reputação. Convidaram-me para uma destas festas ignóbeis que somente alunos de engenharia conseguem promover. Nessa agitada reunião, ocorrida numa república masculina e portanto pestilenta, era possível observar o ser humano em seus modos mais primitivos: bebida, Bob Marley, palavrões, churrasco, piadas de baixo nível, gargalhadas,  arrotos, maconha, ruídos de flatulências, Raul Seixas e uma completa desobediência à Lei do Silêncio. O que definitivamente não havia eram mulheres, pelo menos durante grande parte da festa; algo que me agastava deveras, uma vez que a presença feminina ser-me-ia muito mais interessante e proveitosa que as demais atrações. Em um determinado momento, o pessoal ficou entediado tanto quanto eu, quando então alguém lançou a ideia de juntarmos forças para nos divertirmos a custa de um colega. Nosso ataque à vítima foi fulminante, não havendo tempo e nem meios para que o colega reagisse à investida de vinte marmanjos: nós então o despimos e o lançamos à rua, apenas vestido com suas meias brancas, trancando em seguida a porta da casa. O gélido junho de Uberlândia aliado à presença de um vizinho que assistia circunspecto àquela cena dantesca tornaram os gritos do colega ainda mais desesperados e o espetáculo que havíamos concebido ainda mais divertido. Para ele, foram cinco longos minutos de tortura, e para nós, de gargalhadas ininterruptas. Após o evento, a turma acabou se animando novamente, e tendo o colega recuperado suas vestes, não mais o vimos no recinto da festa. A fim de reincidir nas gargalhadas, fiquei relembrando a cena durante algum tempo, mas logo voltei ao desapontamento inicial. Comecei então a perambular pelos cômodos da república, indo parar na sala de estar, defronte a uma torre, a uma pilha de revistas eróticas exibindo os mais variados níveis do explícito: pronto, a festa acabava de adquirir um novo significado, uma nova dimensão. Sentei ali mesmo, pondo-me a folhear atentamente, página após página, revista após revista,  todo aquele conteúdo profano. Eu já estava no final da pilha e ainda não havia percebido que me encontrava completamente circundado pela numerosa quantidade de exemplares já vistos, todos espalhados, cobrindo o chão da sala. Foi assim, nadando nesse mar de perversão, que três colegas recém chegados me encontraram, acompanhados de suas delicadas e cândidas namoradas, ao adentrarem o mesmo recinto onde eu estava. As mais variadas versões dessa história correram pelo campus, cada qual com o seu traço pitoresco, mas nenhuma correspondente à verdade. Sentindo-me exposto, recolhi-me, frequentando a escola durante o tempo estritamente necessário. Semanas mais tarde, julgando o assunto encerrado, eu caminhava absorto em direção à biblioteca quando uma colega me interpelou com um sorriso no rosto: “É você que é o ‘mão na massa’?”. À princípio, não entendi a pergunta e por isso nada respondi, mas logo me ocorreu a necessidade de um novo recolhimento.

O Empate

mara

Final de semestre na faculdade de Engenharia costuma consumir impiedosamente mentes e corpos, em especial daqueles poucos alunos mais preocupados com o bom rendimento escolar. Assim aconteceu num ordinário dezembro em Uberlândia, onde traços de um verão sufocante já se delineavam. No quarto da república insalubre que me abrigava, eu evitava a invasão dos desagradáveis insetos noturnos mantendo as venezianas fechadas, algo que me dava a devida tranquilidade para debruçar-me, na postura de um Quasímodo, sobre aqueles livros técnicos implacáveis. Nesse período, a diversão e o lazer eram absolutamente suprimidos e a máxima distração à qual me permita era ligar, durante um tempo limitado, o mini-system Pioneer que eu acabara de adquirir, cujo pagamento havia sido parcelado em doze módicas prestações. Certa vez, absorto nesse breve, porém revigorante interlúdio musical, ouço me chamarem ao telefone; algo que me causou surpresa, porque interações telefônicas sempre me foram bastante escassas, particularmente naquela longínqua época pré-celular. Do outro lado da linha, a voz suave da Cláudia – personagem de uma outra história, ocorrida anteriormente a esta, já postada aqui no Extrato – impressionava-se com o longo período de um ano e meio desde nossa última conversa.
– O que aconteceu que você resolveu ligar? – perguntei animado.
– Preciso de sua ajuda. Estou enrolada com um trabalho. Acho que você vai conseguir me salvar.
– Qual trabalho?
– O de “Máquinas Térmicas” que eu sei que você já cursou no semestre passado.
– É verdade…
– Pois é…Procurei antes o André e o Maurício, mas eles não puderam ajudar. Então estou ligando pra você.
– Cláudia, quer dizer que eu fui a sua terceira opção?
– Isso mesmo! Pode me ajudar?
Entre essa pergunta e a minha resposta final, transcorreu um curto espaço de tempo onde dois grupos de sentimentos travaram uma batalha ferrenha: de um lado, o time do “amor ao próximo”, liderado pela piedade religiosa, e do outro o do “amor próprio”, liderado pela indignação raivosa. Acabou vencendo o primeiro e minha colega de ocasião informou que no dia seguinte iria deixar o trabalho em casa a fim de que eu começasse a dar uma olhada. O problema de disputas internas como a que ocorreu em minha imatura psiquê é que sempre a parte derrotada se porta como uma má perdedora. Assim, no tapetão, o time do “amor próprio” conseguiu a anulação do primeiro litígio e partiu para o segundo com toda a agressividade que lhe é peculiar. Como nunca fui afeito a pedir opiniões a terceiros sobre minhas questões pessoais, desgastei-me sozinho durante algumas horas e finalmente percebi que não haveria um vitorioso: caracterizou-se o empate. Decidi então que faria o trabalho inteiro para ela, um trabalho medíocre, mas completo, e ao entregá-lo eu diria: “Aqui está o trabalho. Eu não gostei nem um pouco do seu oportunismo e de ter sido sua terceira opção. Peço que não me procure e nem converse comigo nunca mais.” Senti que ambas as partes ficaram satisfeitas com a virtuosa decisão e dei início ao tedioso empreendimento, única avaliação na disciplina “Máquinas Térmicas”, cujo professor alcunhávamos Maracujá, por conta de sua idade avançada. Na noite seguinte, ela me ligou para saber do progresso de minha avaliação.
– Passe aqui amanhã para pegar o trabalho. Ele já está pronto. – disse eu seriamente.
– Você já fez o trabalho? Sem mim? –  ela perguntou espantada.
– Sim. Algum problema?
– De jeito nenhum… Como posso te agradecer?
– Amanhã a gente conversa.
No outro dia, por volta das quatro da tarde, a Cláudia tocou a campainha da minha honesta república pestilenta e eu já a aguardava ansioso para desferir-lhe os golpes verbais tão bem preparados. Corri então em direção a porta e, ao abri-la, tentei iniciar a ofensa:
– Aqui está o traba….Você… tá de mini-saia!
– Ainda se lembra dela?
– De cada detalhe…
– Tá sozinho?
– Tá todo mundo em aula.
– Posso entrar?
– Por favor…

“I once had a girl or should I say she once had me”
John Lennon

Classificação

Before SunriseOs filmes que são classificados como “Comédia Romântica” não fazem muito o meu estilo. Houve uma época na qual o gênero não tinha o menor pudor de exibir seu viés melífluo, ignorando a inteligência do espectador com histórias românticas pobres e folhetinescas, no pior sentido do termo. Eu não me ruborizava tanto quanto hoje ao assistir aqueles finais felizes ignóbeis: tratava-se de um mal necessário para conquistar a moça, ainda colega, sentada na cadeira ao lado, no cinema. Confortava-me o fato dela não perceber o meu constrangimento diante das cenas melodramáticas, expressão que ficava camuflada pelo escurinho da sala de projeção. Ajudava também minha facilidade para fabricar gargalhadas que acompanhavam, com um atraso imperceptível, as da plateia eufórica. Ao final do canhestro espetáculo cinematográfico, ocorria a parte mais difícil: comentar com ela o filme. A condição fundamental que deveria ser mantida durante essa conversa sensível era não deixar transparecer o meu caráter pouco romântico. Se ele fosse remotamente percebido, haveria uma forte possibilidade de que meu espírito crítico ficasse exposto; algo completamente inútil e improdutivo quando se está na fase da conquista. Minha resposta padrão para a pergunta “Gostou do filme?” era “Gostei. O filme é engraçado, divertido e ao mesmo tempo profundo.” Embora a autenticidade ficasse profundamente abalada por comentários desse tipo, minhas segundas intenções justificavam tais falsidades. No entanto, algumas vezes, eu ia ao cinema sozinho, autêntico e autônomo, nessas salas que exibem filmes chamados “cult”, ambiente para o qual eu não levava minhas “colegas”, mas que me dava a devida segurança de não ser submetido às babaquices das histórias melosas. Nessa situação, eu não me importava com o que iria assistir e fazia questão de entrar na sala sem saber do título do filme  e muito menos de sua sinopse. Foi assim que assisti Antes do Amanhecer (Before Sunrise) de Richard Linklater, estrelado por Julie Delpy e Ethan Hawke. Encerrado o filme, estava eu completamente apaixonado por Viena e pela atriz parisiense. Ao sair da sala, aproximei-me do poster de divulgação do filme e pareceu-me errada sua classificação: comédia romântica.  Anos mais tarde, comprei o DVD e após me encantar novamente com aquela noite vienense, percebi-me equivocado e, de certa forma,  preconceituoso.