Inocência

– Assisti ao filme. – disse ela.cinema2
– Ao “50 tons de cinza”? – perguntou ele.
– Exatamente.
– Qual seu veredicto?
– Constrangedor, tal qual o livro.
– Pela ousadia?
– Não, pela inocência.
– Inocência?? Esperava então pornografia?
– No mínimo!
– Muitas gostaram das cenas com a protagonista vendada.
– Puro clichê.
– Nada de aproveitável então?
– Apenas uma coisa.
– Qual?
– O filme está para sair de cartaz.
– Concordo. Eis um grande benefício.
– Não é isso. A sala do cinema estava vazia.
– Não entendi.
– Amanhã você vai comigo.
– Quer assistir novamente?
– Tecnicamente não.
– Por quê?
– Vamos eu de minissaia e você de jeans stretch.
– Quer atentar contra o pudor?
– E também contra a inocência.

Classificação

Before SunriseOs filmes que são classificados como “Comédia Romântica” não fazem muito o meu estilo. Houve uma época na qual o gênero não tinha o menor pudor de exibir seu viés melífluo, ignorando a inteligência do espectador com histórias românticas pobres e folhetinescas, no pior sentido do termo. Eu não me ruborizava tanto quanto hoje ao assistir aqueles finais felizes ignóbeis: tratava-se de um mal necessário para conquistar a moça, ainda colega, sentada na cadeira ao lado, no cinema. Confortava-me o fato dela não perceber o meu constrangimento diante das cenas melodramáticas, expressão que ficava camuflada pelo escurinho da sala de projeção. Ajudava também minha facilidade para fabricar gargalhadas que acompanhavam, com um atraso imperceptível, as da plateia eufórica. Ao final do canhestro espetáculo cinematográfico, ocorria a parte mais difícil: comentar com ela o filme. A condição fundamental que deveria ser mantida durante essa conversa sensível era não deixar transparecer o meu caráter pouco romântico. Se ele fosse remotamente percebido, haveria uma forte possibilidade de que meu espírito crítico ficasse exposto; algo completamente inútil e improdutivo quando se está na fase da conquista. Minha resposta padrão para a pergunta “Gostou do filme?” era “Gostei. O filme é engraçado, divertido e ao mesmo tempo profundo.” Embora a autenticidade ficasse profundamente abalada por comentários desse tipo, minhas segundas intenções justificavam tais falsidades. No entanto, algumas vezes, eu ia ao cinema sozinho, autêntico e autônomo, nessas salas que exibem filmes chamados “cult”, ambiente para o qual eu não levava minhas “colegas”, mas que me dava a devida segurança de não ser submetido às babaquices das histórias melosas. Nessa situação, eu não me importava com o que iria assistir e fazia questão de entrar na sala sem saber do título do filme  e muito menos de sua sinopse. Foi assim que assisti Antes do Amanhecer (Before Sunrise) de Richard Linklater, estrelado por Julie Delpy e Ethan Hawke. Encerrado o filme, estava eu completamente apaixonado por Viena e pela atriz parisiense. Ao sair da sala, aproximei-me do poster de divulgação do filme e pareceu-me errada sua classificação: comédia romântica.  Anos mais tarde, comprei o DVD e após me encantar novamente com aquela noite vienense, percebi-me equivocado e, de certa forma,  preconceituoso.