Variações

Reza a lenda que o Conde Hermann Carl von Keyserlingk(1696-1764) da cidade alemã de Dresden solicitou ao grande Johann Sebastian Bach(1685-1750) que compusesse um conjunto de peças para que seu cravista particular Johann Gottlieb Goldberg(1727-1756) – um inconteste virtuose em seu instrumento – pudesse interpretá-las. Tais composições deveriam mesclar vivacidade com suavidade a fim de aplacar as enormes angústias do Conde em suas noites de insônia. Desse singelo pedido, ainda segundo a lenda, surgiu o que se apelidou posteriormente de Variações de Goldberg, título consagrado até os dias de hoje. O professor da Universidade de Harvard Christoph Wolff(1940), em sua monumental biografia (não autorizada) de Bach considera bastante improvável a veracidade  dessa história, uma vez que as peças não contém dedicatória; algo incompatível com a praxe dos compositores do século XVIII quando lhes era requisitado algum trabalho. Além disso, essas variações foram publicadas em 1741, compondo a última parte de uma coleção de trabalhos intitulada Clavier-Übung (A Prática do Teclado), ano em que Goldberg era apenas um adolescente de quatorze anos. Das inúmeras interpretações disponíveis para essa obra-prima da música clássica ocidental, a qual considero dotada de caráter divino, ouvi um conjunto significativo delas, e devo dizer que justamente a mais aclamada, a mais disponível, me pareceu a pior. Digo “pareceu” porque não quero deixar a impressão que sou alguma espécie de crítico especializado ou expert, mas apenas um ouvinte atento, para o qual música é coisa séria, algo muito além de um simples entretenimento, de uma mera trilha sonora que embala o quotidiano da vida: especialmente em relação às Variações, talvez ocorra comigo algo parecido com a intensidade das impressões de Tolstói diante da Sonata para Violino No. 9 de Beethoven. Assim, ao dedicar tempo exclusivo a diversas interpretações das Variações de Goldberg, cheguei a algumas conclusões, de leigo; resultado do atrevimento que me é peculiar. Então, vamos a elas. Começo pela renomada performance do eminente pianista canadense Glenn Gould(1932-1982) fazendo minhas as palavras do excelente cravista Scott Ross: “Ele nunca soube o que é a música de Bach!”. O insociável e excêntrico Gould, que cantarolava enquanto tocava – um pesadelo para os engenheiros de gravação –  jamais apresentou interpretações das peças de Bach, mas versões, traduções canhestras daquelas que teve a ousadia de tocar, com as quais alcançou o estrelato. Nas Variações, não foi diferente; mas há um consolo: ele se saiu bem pior ao tocar O Cravo Bem Temperado.  A interpretação do cravista norte-americano Scott Ross(1951-1989) – magnífico intérprete das obras de Couperin – é ótima, apesar de um pequena impropriedade na Aria inicial e do andamento um pouquinho acelerado para o meu gosto; andamento adequado para Couperin, mas não tanto para as Variações. Apesar disso, percebe-se que Ross, vítima do vírus da Aids em 1989, conhece o que toca e respeita o compositor, buscando atingir o que acredita ser a correta interpretação das peças. A graciosa pianista Angela Hewitt(1958), também canadense, confere às Variações um toque feminino, delicado, quase maternal. Com uma técnica precisa, sem absolutamente ser monótona, Hewitt parece querer ninar em seus braços o insone Conde von Keyserlingk. O andamento me parece mais lento que o ideal, embora isso não tire a força da interpretação. A elogiada performance da pianista russa Tatiana Nikolayeva(1924-1993) é tecnicamente perfeita, irretocável, mas sua abordagem é fria, apática, monótona e, por isso, não empolga. Quando ouvi a performance do húngaro András Schiff(1953), acreditei ser ela a definitiva, uma vez que me agradara mais do que as outras. Embora a gravação que adquiri seja antiga e, portanto, sem o vigor sonoro das atuais, a perspectiva de Schiff, o cuidadoso intérprete, compatibilizou-se plenamente com a minha, o ouvinte impertinente. Quanto às Variações executadas pelas mãos do famoso pianista novaiorquino Murray Perahia(1947), sinto-me na obrigação de contar uma pequena história: no ano de 1990, Perahia sofreu um pequeno corte no polegar da mão direita que infeccionou. Por alguma razão, os antibióticos tradicionais não exterminaram as bactérias e medicamentos  bem mais fortes foram necessários. Como efeito colateral desse tratamento agressivo, o pianista adquiriu um problema ósseo na mão direita, causando-lhe reincidentes inflamações e um longo afastamento do piano. Após esse período, retomou a prática de seu instrumento e, por alguma razão, durante a longa recuperação, encontrou ânimo apenas para tocar Bach. Recuperado, resolveu homenagear esse compositor, ao qual nunca dera a devida atenção, com uma série de trabalhos; dentre eles, as Variações de Goldberg. Sobre esse trabalho, não quero dizer muito para evitar cair em clichês, mas apenas informar que fiz questão de adquirir o disco e colocá-lo em minha estante pretensiosa. Tão emociante e sublime quanto a performance de Perahia é a do regente e cravista inglês Richard Egarr(1963). Se me fosse dada a cruel opção de escolher entre essas duas obras, eu escolheria Egarr, não por considerá-la uma interpretação melhor, mas pelos quatorze canons adicionais presentes no álbum do cravista inglês. Em 1974, foi descoberta na França, escondida numa biblioteca particular, uma cópia impressa das Variações de Goldberg, na qual haviam partituras apensadas manualmente, escritas de próprio punho por Bach, conforme constatado pelos especialistas. Esse acréscimo, totalizando quatorze peças, foi apelidado Canons de Goldberg, e são justamente eles que sucedem as Variações na gravação de Egarr: um dos poucos trabalhos disponíveis que incluem as duas obras. As músicas, gravadas em Amsterdã, foram captadas de um cravo holandês, dentro de uma igreja batista. O som é vigoroso, límpido, definido e a performance, primorosa. Para as composições que requerem mais de um cravo (peças à quatro mãos), foi utilizado um recurso chamado “overdub”, onde são gravadas faixas sonoras adicionais às já anteriormente gravadas; recurso que a música popular utiliza desde a década de 60 e que, nesse caso particular, considero plenamente aceitável: evidência clara de que estou perdendo algumas intransigências. A seguir, apresento a capa desse álbum sem as costumeiras notas arrogantes que costumo colocar em cada uma das músicas: quando se refere à Bach, esse tipo de avaliação é absolutamente descabida.egarrVariations

Engenheiro

Christ Church Organ

Confesso que não conheço muito bem o trabalho de todos os grandes compostiores de música clássica e, portanto, não seria prudente comparar a obra do único que conheço, Johann Sebastian Bach, com os trabalhos dos demais. Entretanto, a vantagem de se alimentar um blog como o Extrato, desprovido de qualquer cunho jornalístico, é poder negligenciar alguns aspectos desinteressantes da realidade e da prudência. Segue então a afirmativa imprudente desse leigo apreciador de música clássica: Johann Sebastian Bach é o maior de todos os músicos ocidentais, o mais completo; aquele que, como outros grandes músicos, dominava completamente a arte da composição e era um virtuoso no teclado, mas que, diferente deles, dominava também a arte da manufatura do seu instrumento. Segundo o biógrafo Christoph Wolff, em seu Johann Sebastian Bach: The Learned Musician, Bach sabia muito de Engenharia Mecânica, conhecimento adquirido na prática e que o aplicava quando contratado para projetar órgãos de igreja ou para certificá-los. O biógrafo conta que as igrejas da região da Turíngia, interior da Alemanha, onde Bach nasceu, viveu e morreu, quando terminavam a construção ou a reforma de seus órgãos, não permitiam que ninguém chegasse perto do instrumento antes da avaliação do compositor de Eisenach. Havia uma espécie de “Certificação Bach de Qualidade”, selo que atestava se o instrumento atendia aos rigorosos requisitos do músico-engenheiro. Ainda hoje, existem registros  dos laudos que Bach emitia, dos quais pode-se inferir que ele tinha o costume de abrir o órgão, avaliar minuciosamente a montagem dos mecanismos, os materiais utilizados, tanto os metais quanto as madeiras, e conferir também sua precisão sonora, afinando-o se necessário. Quando percebia algum problema, incluia ressalvas no laudo, onde descrevia instruções técnicas para quem fosse proceder à devida correção. Bach era muito bem pago por esses freelances, algo que o ajudava a complementar o orçamento doméstico, sempre insuficiente para sustentar a numerosa família. Ao ler toda essa história no livro, senti, pela primeira vez desde que entrei na faculdade, um orgulho enorme da minha formação. Parafusos, porcas, engrenagens, arruelas, pregos, hastes, os materiais e suas resistências tiveram, algum dia, nas mãos de um gênio, um destino nobre. Confesso que, em outros tempos, essa habilidade bachiana pouco conhecida teria me provocado uma enorme inveja, mas surpreendentemente ensejou um profundo respeito a mim mesmo, à minha escolha imatura, ao meu esforço ingênuo, à antiga crença pueril de que, na vida, toma-se rumos certos ou errados. Tomei o meu e, por algum motivo, não consigo mais classificá-lo nessa abordagem binária do mundo.