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Posts com Tag ‘cavalo’

Expansão

quatro– Trouxe o filme? – perguntou ele.
– Aqui está. Finalmente ficou disponível. – disse ela.
– Creio que houve algum engano.
– Qual?
– Combinamos assistir a um filme adulto.
– Pois você o está segurando!
– Mas há um cavalo na capa do DVD!
– Você sabe que repudio a mesmice. Faz-se necessário expandir nossas fronteiras.
– Tal expansão precisa necessariamente abarcar outras espécies do reino animal?
– O preconceito é sempre maléfico: dificulta novas ideias.
– Veja esta foto aqui na sinopse. Pergunto eu: qual proveito poderíamos tirar de uma mulher manipulando a glande de um rocinante?
– Se você observar esta outra foto aqui, verá que ela o cavalga adereçada apenas com botas, esporas e chicote.
– O que intenta?
– Imitá-los.
– Ainda não conhecia este seu lado cruel.
– Eis a expansão à qual me referia.
– Uma vez que me colocasse na posição de um quadrúpede, você precisaria ser muito, muito sensata.
– O que temeria? As esporadas ou as chicotadas?
– Ambas e mais ainda a combinação chicote e posição “de quatro”.
– Como assim?
– Em virtude dessa tua ânsia por novas ideias, teria receio que fosse acometida pelo impulso masculino de preencher orifícios.

Judah

Quando ainda existíamos como família, cultivávamos certos hábitos, certos costumes. Um deles era assistir ao épico Ben-Hur de William Wyler, lançado em 1959 e vencedor de 11 Oscar. O costume começou com o advento do VHS e da minha animada disposição para gravar o filme. Lembro-me de passar mais de quatro horas em frente à TV, tenso, atento aos intervalos comerciais repentinos, para que pudessem ser devidamente removidos e a gravação ficasse sem acréscimos indesejados ou cortes adicionais aos que a Rede Globo já fazia. Ao término da epopeia, aliviado e satisfeito, colei cuidadosamente os adesivos na fita para identificá-la, quebrei a lingueta que permitia a gravação e guardei o fruto do meu árduo trabalho em lugar seguro. A partir daí, com a “posse” do filme, passamos a usufruir dele, ao longo dos anos, numa frequência sistemática; melhor dizendo, obsessiva. Acabamos descobrindo que a penosa história do príncipe judeu Judah Ben-Hur (Charlton Heston) não combinava muito bem com o período de carnaval seguido da Quaresma. Nessa época do ano, o filme não tem o mesmo vigor de outros períodos: o sofrimento daquela família judaica, digna representante do povo escolhido por Deus, soa melodramática e não comove; o vilão romano Messala (Stephen Boyd) não provoca ódio avassalador; a condenação do príncipe da Casa de Hur às galés não insufla o desejo de vingança; os trejeitos do sheik Ilberin (Hugh Griffith) não são tão cômicos; a famosa sequência da corrida de bigas perde muito do seu suspense; a cura miraculosa de Mirian (Martha Scott) e Tirzah (Cathy O’Donnell) não se configura tão redentora; a beleza da escrava Esther (Haya Harareet) deixa de ser estonteante. Constatamos, por um procedimento quase científico, que entre os festejos religiosos distribuídos ao longo do ano, o filme se enquadra melhor na semana do Natal, quando todos os seus efeitos ficam sublimados. O fato de termos assistido inúmeras vezes ao filme e conseguido decorar a sequência completa da longa história, os nomes de todos as personagens, incluindo os dos cavalos do herói, e as nuances de cada um dos diálogos, nos deu a segurança para propalar a seguinte recomendação: o filme Ben-Hur deve ser evitado na Quaresma, ter sua sinopse lida na Semana Santa e seus 212 minutos apreciados no período do Advento.