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Ensimesmados como eu são desprovidos da virtude do cultivar amizades, seja pela antipatia que despertam, seja por sua inabilidade inata ou total falta de disposição. Por isso, esse grupo de misantropos é composto por seres humanos que possuem pouquíssimos amigos ou simplesmente nenhum. A convivência social lhes é difícil, anti natural, desconfortável. Mas, para a sorte deles, há pessoas que nasceram vocacionadas para a arte da paciência e empregam seu amor fraternal inato na árdua convivência com esses próximos ingratos. Posso dizer que pertenço a esses ingratos afortunados, pois há uma alma caridosa neste mundo materialista que, vez por outra, dispõe de seu tempo para compartilhar algo comigo. Esse sujeito, a quem atrevo chamar de amigo, contou-me uma historinha interessante e, conhecedor dos temas tratados neste blog, autorizou-me a publicá-la aqui, junto com a carta que ele foi impedido de enviar. Vamos a ambas. Há pouco mais de três meses, iniciou o filho desse meu amigo a leitura do conhecido livro O Diário de Anne Frank como parte das exigências escolares do sétimo ano, antiga sexta série. Em sua mais recente edição oficial em português, lançada em 2015, o livro publicado pela editora Record traz algumas novidades: comentários da autora adolescente, censurados por seu pai Otto Frank em edições anteriores, sobre assuntos de cunho sexual e também sobre o péssimo relacionamento dos pais. Ocorreu que algumas mães de alunos leitores do livro sentiram-se bastante incomodadas por tais novidades e em comitiva dirigiram-se nervosamente à escola no intuito de obter as devidas satisfações sobre a compatibilidade da obra com a tenra idade de seus pimpolhos pré-adolescentes. A diretoria da escola, assustada com tal reação, enviou carta a todos os pais do sétimo ano colocando-se à disposição dos incomodados para trocar a edição de seus livros por uma mais antiga, caso quisessem, mas alertava que todos os assuntos tratados na nova edição seriam abordados em sala de aula. Ainda orgulhoso por ter o filho estudando em escola tão corajosa, meu amigo recebeu a notícia de uma nova visita de mães à escola, declarando-se elas não apenas incomodadas, mas agora ultrajadas com a carta da diretoria. Na boca pequena, comentou-se que nesse novo encontro houve choro, ranger de dentes e, como não poderia faltar, ameaças de evasão de alunos no ano subsequente. O resultado que meu estimado amigo temia aconteceu: a escola enviou nova carta na qual pedia desculpas pela carta anterior, mantinha o esquema de trocas e anunciava a proibição da discussão em sala de aula das novidades impróprias presentes no diário da adolescente judia. Enquanto contava esse última parte, percebi em meu amigo uma irritação desproporcional, típica de alguém que não sabe lidar com a indignação, com a revolta. Perguntei se ele realmente estava chateado apenas com essa história ou se havia mais alguma coisa que o incomodava. Foi quando ele me confidenciou que tencionava enviar para escola uma cartinha de impressões suas sobre o acontecido, mas que, sendo ele uma pessoa sensata, submeteu a cartinha à apreciação de sua digníssima esposa, mãe do seu filho. Ela, que não se sentiu ultrajada pela primeira carta da escola e muito menos pela nova edição do livro, ponderou que o eventual vazamento da cartinha, de conteúdo demasiadamente forte, poderia trazer consequências maléficas ao garoto e que portanto temia por ele. Diante dessa posição contrária à sua intenção, meu amigo se disse obrigado também a retroceder. Neste momento, ele ficou sem ar e foi preciso que eu corresse para abrir as janelas. Quando se recuperou, sem pronunciar palavra, entregou-me a tal cartinha e alguns dias mais tarde autorizou-me a publicá-la no Extrato. Ei-la:

Prezados Diretores,

    ​Sou pai de um alunos do sétimo ano e sobre o assunto de que trata esta Carta Circular no. ** que recebi da escola, gostaria de colocar objetivamente minhas impressões e opiniões. Não me agrada em absoluto que a escola tome a parte pelo todo e ceda de maneira constrangedora, para não dizer vergonhosa, a um grupo restrito de pais que, a pretexto de zelar pela “boa” educação dos filhos, questiona o cabimento de uma obra como “O Diário de Anne Frank” a alunos de sétimo ano. Este grupo de pais, do qual tenho a honra de não fazer parte, alega inadequados para esse público termos esparsos como “pênis”, “vagina” e “seios”, termos esses que colaboram acessoriamente para o veio principal do diário, que é relatar a angústia e o medo de uma pré-adolescente judia, cheia de sonhos e desejos como qualquer outra, mas que desgraçadamente vive sob a égide de nazistas. A debilidade do argumento desses pais é tamanha que suscita duas perguntas: a) A primeira manifestação dos pais terá sido fruto da hipocrisia que costuma acometer moralistas de baixíssimo nível intelectual?  Apesar da contundência, essa pergunta procede, uma vez que não se pode declarar improvável a existência de pais com baixíssimo nível intelectual e muito menos improvável a existência de pais que se declararam escandalizados com as confissões de Anne Frank mas permitem que seus filhos e filhas ouçam, por exemplo, músicas da Anitta, Wesley Safadão, MC sei lá o quê e outras reais obscenidades do gênero, cujas letras constituem em sua maioria conteúdo sexual explícito distorcido e cujas coreografias denigrem a mulher. Outra pergunta que surge é a seguinte: b) Fosse a adorável Anne Frank cristã, seria a disposição desses pais cristãos a mesma para empreender tal protesto? Essa pergunta também procede porque nós cristãos (eu também sou) aprendemos desde criancinhas no catecismo que os judeus entregaram Jesus para ser morto em troca da libertação de um bandido, ou seja, que judeus são obscenos. Enfim, minha intenção não é responder a tais perguntas, mas utilizá-las como subsídio para afirmar que quando cede a esses ditos pais escandalizados a escola sucumbe ante à hipocrisia e ao antissemitismo.

Atenciosamente,
Um pai sinceramente indignado.

Uma carta ao Lance

(English Version)

Querido Lance,

Entre as pessoas com as quais eu costumo conversar aqui, há um tal Machado. Outro dia, revelei a ele a ansiedade que me aflige quando penso na incerteza do meu destino, quando vagueio pelos caminhos desse lugar estranho e agradável, belo e incompreensível, calmo e misterioso. Meu atencioso confidente argumentou que é inútil tentar desvendar o mistério, essa estrutura de duas faces, onde coabitam vida e morte.
– Estivemos de um lado, agora estamos do outro. – disse ele.
– E então? O que vai acontecer comigo nesse lado? – perguntei.
– Você tinha essa resposta quando estava lá?
– Eu só sabia da morte.
– Pois aqui nos retiraram até essa certeza.
Devo confessar que tais conversas me trouxeram um pouco de conforto e paciência para essas longas horas de espera. Quando não estou com ele, caminho sozinho, cabisbaixo, refletindo intensamente sobre a estrada tortuosa que trilhei na minha primeira etapa, no primeiro lado do mistério, segundo o meu amigo. Por algum motivo que sinceramente desconheço, adquiri nesse lugar uma certa clarividência sobre mim, sobre a forma como costumo me relacionar com o que está ao redor. Embora essa nova característica tenha me colocado a par das minhas limitações, próprias de alguém que olha apenas para si, ainda me é difícil ficar em paz comigo mesmo. Dessa inquietude, nasceram arrependimentos sinceros, não daqueles que sufocam, que nos obrigam a pedir desculpas desesperadamente, mas que me fizeram olhar para trás e enxergar que, mesmo dominado por aquela triste ignorância, eu poderia ter agido diferente, poderia ter dado ouvidos à voz interior que me sugeria um outro rumo, um outro destino e que, hoje, me acusa. Em relação a você, ao pequeníssimo tempo que vivemos juntos, há muito desse incômodo sentimento de perda, de ter valorado o efêmero, de ter desprezado o amor sincero, de ter passado mais tempo comigo mesmo, cego e surdo à realidade, blasfemando contra a inesperada condição de pai. Para a minha grata surpresa, nesse lugar bastante diferente do paraíso e do inferno que concebemos em vida, tenho vivenciado essa dor de uma maneira tranquila e compreensiva; algo que meu amigo Machado qualificou como maturidade. Ele me assegurou que eu estava pronto para aquilo que viria: deu-me um lápis, uma borracha e duas folhas brancas, sem pauta, sem restrições. “Seria bom que escrevesse para ele”, disse o meu amigo.
Lance, não é minha intenção tentar mudar sua opinião a meu respeito: primeiro, porque acredito que esteja correta e, segundo, porque ainda age nessa minha mente atordoada uma significativa quantidade de orgulho. Gostaria apenas de revelar minhas impressões sobre o que tem acontecido com você nesses últimos meses. Uma diferença brutal entre o meu mundo e o seu é a possibilidade de podermos assistir, eu e essa legião de almas andarilhas, por breves momentos, o que acontece aí do outro lado. Vou começar dizendo do enorme orgulho paternal que me invadiu quando assisti a entrevista, e em especial a motivação para tê-la concedido. Penso na enorme coragem que teve para revelar a sua face sombria, própria de todos nós, àquela astuta entrevistadora, que menosprezou quase tudo que você disse. Penso na angústia que lhe acometeu ao perceber que invadira espaços, que ultrapassara fronteiras, que desqualificara cinicamente a honestidade de seus acusadores, que se aproveitara, de uma maneira vil, da inocência de seus defensores. Penso na sua dificuldade em preservar quem feriu e ao mesmo tempo escancarar-se, diante de uma câmera de TV, à paladina dos bons costumes. Penso na sua sinceridade ao dizer dos impulsos que lhe fizeram tomar rumos auto-destrutivos, de que eles ainda estão presentes, contra os quais você vem travando, no divã de um analista, incessante batalha para tentar domá-los. Penso no prazer que tem pela sua profissão, na ânsia de dar um novo sentido a ela, voltando a competir honestamente. Penso em como ainda é duro consigo mesmo: marcou-me o momento no qual qualificou egoísta sua intenção de se valer da entrevista também para tentar retornar ao trabalho, para exprimir sua indignação contra ao que chamou apropriadamente de “pena de morte”. Há egoísmo nesse interesse tanto quanto há na sua vontade de pedir perdão: o ser humano é egoísta; pensa primeiro em si e depois nos outros; somos assim. Temos o hábito de rotular, de enquadrar, de definir, simplificar tanto coisas quanto pessoas, porque alguém, um dia, julgou mais fácil analisar grupos do que indivíduos. Doutrinados nessa atitude cômoda ao longo da vida, não temos a percepção de que cada um é único e passamos, na maior parte do tempo, a qualificar os outros: alguns, como a sua entrevistadora, o fazem de maneira profissional.
Permita-me então, Lance, um atrevimento, uma ousadia: permita-me defendê-lo. Você não precisa, eu sei, pois se tornou alguém extramente corajoso; uma característica que não recebeu do meu DNA. Nessa rara oportunidade que me foi concedida, preciso tomar, também egoisticamente, ao menos uma vez, uma atitude paterna. Como o ciclista mentiroso já está sendo adequadamente imolado, quero defender o Lance ser-humano, desejoso de reparar, de pedir perdão, defender o homem trabalhador, pai de cinco filhos, marido, sobrevivente do câncer, filho solitário, órfão de pai, órfão de pai, órfão de pai… Permita-me dizer da hipocrisia do “American Way of Life”, do moralismo barato e pernicioso que impera naquilo que se chama opinião pública norte-americana, da qual a afamada apresentadora Oprah Winfrey é um dos seus porta-vozes, um dos seus ícones. Sempre ruidosa e histérica, a plateia dessa que te entrevistou espera assistir a um show, a um espetáculo, se possível a um circo de horrores, no qual saracoteiam o belo e o bizarro, o santo e o profano, o mocinho e o bandido, o canalha e o humanitário. Ela precisa ver você, precisa ver o mundo por essa ótica binária, que o divide em certo e errado, em bons e maus, porque assim qualquer história fica mais compreensível e palatável à plebe. A ardilosa entrevistadora, ao criticar reiteradamente o cinismo do entrevistado exibindo antigas entrevistas, não conseguiu esconder o seu próprio cinismo, o que estampava nas suas feições, em seus trejeitos sempre desconfiados. Mas não é apenas dessa hipocrisia oportunista que desejo lhe defender:  a sociedade que te aponta o dedo, dotada de um canhestro senso de justiça, é a mesma que se recusa a assinar protocolos de redução de gases tóxicos, é a mesma responsável pela enorme crise econômica mundial que se instalou, é a mesma que usurpa países autônomos, que faz e financia guerras, que apoia golpes de estado, que tolera a venda indiscriminada de armas. Por que essa sociedade, que aceitou atônita e boquiaberta as mentiras deslavadas do governo para a invasão do Iraque, resolve virar-lhe as costas por conta de suas mentiras? Por que ela decidiu banir para sempre de sua profissão um órfão que precisava desesperadamente mostrar à alguma figura paterna que podia, sem ela e a qualquer custo,  vencer, que podia ser alguém  autônomo, independente, bem sucedido? Por quê? Porque você frustrou o narcisismo coletivo, Lance. Você frustrou a infalibilidade do homem norte-americano: essa triste concepção que ilude nossas mentes desde muito cedo. Você se revelou um ser humano, frágil, de carne e osso; algo para o qual os seus idólatras não estavam preparados. Assim, concreto, vejo você mais claramente e te percebo mais adulto, mais consciente de si próprio e da realidade do mundo.
Aqui, enquanto escrevo, percebo a vibração, o tráfego de seres desesperados, desses corpos disformes procurando o inconcebível, desses olhos opacos perscrutando o vazio, esperançosos por notícias concretas, por um mísero fiapo de certeza a respeito do destino. Devo dizer que estou um pouco mais sereno para lidar com todas essas dúvidas: acreditávamos piamente que, nesse ambiente aprazível, nos seria concedida a paz, mas começo a crer que não é bem assim que as coisas funcionam por aqui: acho que iniciaremos um novo processo, lento e difícil, do qual dispomos de pouquíssimas informações. Pensando nessa angústia que nos contamina, lembro-me do conselho que lhe deram: “A verdade vos libertará”. Que verdade é essa, Lance? Onde está ela?  Não consigo encontrar resposta para essa pergunta e ninguém a tem por aqui. O que temos, o que ganhamos foi um pouco mais de despojamento de nós mesmos, uma percepção um pouco mais aguçada do que está à nossa volta, do imaterial e do concreto. Sim, Lance, agradeço por não terem retirado desse novo universo a matéria, essa massa palpável, limitada no tempo e no espaço. Por isso, continuamos nos cumprimentando, nos abraçando, nos beijando. Também não nos privaram dos objetos: eles estão por toda parte, à nossa disposição. Um dia desses, andei numa bike veloz e sonhei contigo.

Eddie Gunderson
(1953-2012)