Moribundo

ricardop
Não seria correto dizer que o texto a seguir signifique uma retomada da produção outrora publicada em meus saudosos tempos de blogueiro ávido por reconhecimento; mas igualmente impreciso seria afirmar categoricamente que o Extrato está morto. Assim, ocorre-me que o laudo mais adequado para a real situação deste blog classificaria-o como agonizante e a causa mais provável para essa agonia, que não luta nem pela vida e muito menos pela morte, seja um completo desinteresse pelo tal reconhecimento. Aqueles afeitos a palavras mais médicas diriam que o quadro é estável, sem sinais evidentes de alteração. Mas se não é intenção do texto iniciar uma nova fase, fazer o blog retomar sua vida plena, o que deseja afinal o autor deste post? Respondo: divulgar um custoso trabalho, já que os canais com maior poder de divulgação – e também de satisfação para este modesto escritor – não têm interesse em fazê-lo. Então vamos lá. Neste ano de 2016, menos conturbado que revelador, ano em que desisti da república federativa do brasil, tornando-me parte integrante e definitiva daquele grupo de brasileiros que consideram esse país uma merda ou uma merda irremediável, para quem aprecia os pleonasmos enfáticos; então, neste ano de 2016, comemora-se, ou melhor, reverencia-se, os quatrocentos anos da morte de William Shakespeare. Devo confessar que antes desses eventos que buscaram mostrar à esta geração bem informada, e mal formada, a atualidade e genialidade do escritor inglês, eu era um ignorante quase completo em relação a ele e seus escritos; digo “quase” porque eu já havia lido Hamlet e Macbeth, sem dar o devido valor a essas obras monumentais. Durante uma conversa muito pouco superficial, um amigo chamou-me a atenção para as idiossincrasias desta minha mente perturbada através da figura de um personagem chamado Ricardo Terceiro, da peça homônima escrita por Shakespeare em 1592. Num primeiro momento, decepcionei-me ao saber da absoluta falta de originalidade das minhas questões mais perturbadoras porque, segundo meu cultíssimo amigo, elas já foram muito bem retratadas 424 anos atrás. De decepções desse tipo costuma acorrer-me a curiosidade: corri então até minha estante pretensiosa, no local onde repousa aquilo que eu acreditava ser a coleção completa das obras de William Shakespeare em português, publicada pela editora Nova Aguilar, traduzida pela renomada crítica de teatro Barbaba Heliodora. Qual não foi minha surpresa ao constatar a ausência da peça Ricardo Terceiro nos dois volumes que com tanta dificuldade eu havia adquirido, neste país feito mais de homens que de livros. Informa a primeira página do segundo volume que o terceiro volume, das peças históricas, o que me falta e também às livrarias, está no prelo, ou seja, em fase final de publicação. E assim ele está desde 2009: no prelo. Para instigar ainda mais minha angustiante curiosidade, a obra Ricardo Terceiro, entre outras consideradas históricas, está obviamente presente nesse terceiro volume ainda não publicado. Diante dessa dura realidade, ocorreu-me três alternativas: a) esperar a editora Nova Aguilar, comprada há dois anos, lançar num futuro indefinido a coleção com os três volumes; b) ler o que há disponível: livro de bolso da editora L± c) ler a peça em inglês; d) ler a peça em inglês e também preencher a lacuna de não se encontrar uma boa tradução da obra para o português. A impaciência descartou a opção “a”, o respeito próprio descartou a “b”, a disposição considerou a “c” e a onipotência decidiu-se pela “d”. Assim, após oito meses de intenso e prazeroso trabalho, e após o previsível desprezo da indústria editorial, entrego a este blog moribundo a tradução de Ricardo Terceiro num português despreocupado em ser atual, em ser moderno, palatável, coloquial. Como é de praxe, o trabalho está livremente disponível para download no menu Trabalhos, Tradução, William Shakespeare. Até onde sei, e não foi rápida e superficial minha pesquisa, esta tradução para o português que aqui publico é a melhor hoje disponível.

1 x 7

alemanha Certa vez alguém muito importante me disse que o psicanalista francês Jacques Lacan interrompia imediatamente a sessão quando seu paciente, de alguma forma, alcançava o tão almejado insight; espécie de clarividência que o indivíduo logra por si só, não com total autonomia, pois esse momento de lucidez repentina é também influenciado pelas circunstâncias externas, seja por um bom trabalho psicológico ou algum evento singular, que não se dá necessariamente no consultório de um analista. Assim, o fenômeno do insight não é privilégio de analisandos, mas de todo aquele que, num dado instante, se percebe desvelado. No caso de seus pacientes, Lacan pedia a eles que voltassem para casa a fim de ruminar, de refletir sobre o fato recém descoberto, avaliando sua importância na busca do tão almejado autoconhecimento. Não é de se esperar que tais tipos de revelações sejam sempre prazerosas; algumas delas podem ensejar na pessoa manifestações de rejeição, ansiedade, ódio, medo, entre outras. No dia de ontem, 8 de julho de 2014, milhões de brasileiros assistiram estupefatos a um insight coletivo da jovem seleção brasileira de futebol, e também de seu treinador (não tão jovem assim), manifestado num contundente ataque de pânico; evento que provoca as mais diferentes reações extremadas: entre elas, a paralisia. Aos vinte e três minutos do primeiro tempo da semifinal Brasil e Alemanha pela Copa do Mundo de futebol, quando os excelentes futebolistas germânicos marcaram seu segundo gol, o time brasileiro ficou entorpecido ao conseguir enxergar, ao constatar de forma inequívoca sua enorme debilidade técnica; debilidade essa que os resultados positivos conseguidos aos trancos e barrancos ao longo da competição haviam ajudado a acobertar, a esconder do público menos observador e também da própria equipe. Os três gols alemães que se sucederam, dos vinte e quatro aos vinte e nove minutos, demonstraram o caráter traumático que assumiu a tal paralisia, pois até mesmo a fraca estrutura tática que apresentara nos outros jogos o time perdeu. E perdeu porque também ficou evidente para todos, até para o mais distraído dos espectadores, a absoluta fragilidade emocional de nossos púberes jogadores que, como tais, passaram a apresentar um autêntico futebol de juvenis: ingênuo e canhestro. Derrotada de forma surpreendente e vexatória (Brasil 1 x Alemanha 7), num verdadeiro jogo-treino para seu adversário, esta bisonha seleção brasileira conseguiu algo que parecia impossível: finalmente, a sempre rancorosa torcida brasileira deixará em paz os agora valorosos vice-campeões de 1950. Segundo o Dr. Sigmund Freud, quando um evento traumático não afeta o que se denomina estrutura nuclear do carácter, há chances reais de que o trauma seja superado, supondo-se um paciente adequadamente orientado. Diante dessa hipótese – eu diria, animadora, por conta das trágicas circunstâncias -, acredito, sem muita convicção, que ainda reste algum fiapo de esperança à esta traumatizada seleção brasileira de futebol na sua dificílima busca por um insípido terceiro lugar, seja qual for o adversário; tal busca será muito difícil pois a equipe precisará superar a si própria.

Toscano

canario-belgaNo dia 5 de Julho de 1982, eu acabara de completar dez anos, idade em que o futebol para a maioria esmagadora dos brasileirinhos daquela época longínqua significava muito mais do que uma mera modalidade esportiva. Nesse dia inesquecível, foi disputada a partida Brasil x Itália pela terceira rodada da segunda fase da Copa do Mundo de Futebol, cujo país-sede era a Espanha. Eufórico com as quatro espetaculares vitórias brasileiras até ali, sem dizer do título de campeão brasileiro conquistado pelo meu Flamengo no glorioso mês de abril daquele ano sobre o truculento Grêmio, em pleno estádio Olímpico, comecei assistindo a partida absolutamente contaminado pelo clima de otimismo que se disseminara após nossa impecável vitória sobre a odiosa Argentina. Diante da fraquíssima campanha italiana na copa, dizia-se despudoramente por aqui: “Vai ser moleza! A Itália é freguês!”. Durante o jogo, aconteceu que a providência divina resolveu ser bastante benevolente com um certo toscano nascido na província do Prato em 1956. Recém egresso de um banimento de dois anos do futebol por envolvimento em escândalo de venda de jogos, massacrado pelos jornalistas esportivos de seus país e ridicularizado por sua torcida, o jogador Paolo Rossi, o tal toscano, foi um atacante convocado de última hora, para participar da Copa da Espanha, pelo destemido técnico Enzo Bearzot: único ser humano italiano da época que, em pleno exercício de suas faculdades mentais, acreditava numa possível contribuição desse futebolista, cujos preparos físico e técnico se encontravam bastante defasados em relação aos do restante da equipe. Por conta disso, Rossi foi escalado apenas no quarto jogo da esquadra azurra na competição, quando ela bateu a Argentina por dois a um, com gols de Tardelli e Cabrini. Repetiu-se sua escalação no jogo seguinte, o supracitado, contra o Brasil, quando aos cinco minutos do primeiro tempo, Rossi marca seu primeiro gol na copa, abrindo o placar da partida ao cabecear, livre de marcação, uma bola cruzada pelo lateral-esquerdo Cabrini. O time brasileiro buscou então o empate; score que lhe garantiria o prosseguimento na competição e a consequente eliminação da Itália. Assim o fez a seleção canarinho logo em seguida ao gol italiano, aos doze minutos, numa jogada espetacular de Zico, driblando seu adversário e assistindo Sócrates na área, que chutou uma bola rasteira, entre a trave esquerda e o excelente arqueiro italiano Dino Zoff. Rossi não se deixou abater e, oportunista, roubando a bola de um canhestro recuo feito por Toninho Cerezo para a intermediária defensiva do Brasil, partiu livre em direção à área e fuzilou o medíocre goleiro Valdir Peres aos vinte e cinco minutos de jogo. Assim, a Itália terminou o primeiro tempo na frente, mostrando – de maneira bastante contundente – ao time e à torcida brasileiros que venderia muito, muito cara a sua eventual eliminação. O segundo tempo iniciou nervoso até os treze minutos, quando Júnior avança da lateral esquerda para a intermediária italiana e percebe Falcão livre de marcação na entrada da grande área. O volante brasileiro conduz a bola para a esquerda, procurando uma brecha para o chute, e finalmente dispara a bola direto para o gol. Lembro-me que nesse momento, comecei a chorar num misto de alegria e desespero; naquela época, o futebol ainda me despertava essas reações apaixonadas. Pela comemoração emocionada de Falcão, percebi claramente que havíamos desrespeitado nosso adversário e que o empate apenas equilibrava as duas forças em campo, não garantido absolutamente vantagem alguma. Tal clarividência confirmou-se aos vinte e nove minutos numa bola de escanteio, cruzada bem aberta na área brasileira, e desviada por Rossi, livre de marcação, após uma tentativa de chute de fora da área, que foi direto para o fundo das redes brasileiras. Rossi e sua Itália estavam novamente na frente e assim permaneceram até o final da partida, sob os olhares de um público estupefato e o corre-corre desarticulado de uma seleção brasileira que parecia indignada com a determinação de seu oponente. Após essa partida, o futebol nunca mais foi o mesmo para mim: de alguma forma, ficaram cicatrizes, lembranças amargas de uma certeza frustrada e também um certo senso de auto preservação, advindo da percepção – rudimentar à época e que hoje se sedimentou – de que é bem mais saudável encarar o futebol como de fato uma mera competição esportiva. Durante muito tempo, acalentou-me o patético discurso de que a seleção brasileira era a melhor equipe da Copa de 82, mas que infelizmente o melhor nem sempre vence. Ao escrever este texto, constatei que tal falácia busca amenizar as dores do derrotado, pois no caso da Copa da Espanha, não foi bem isso que aconteceu. Nas fases eliminatórias, onde o perdedor volta para casa, a Itália superou seus adversários de maneira incontestável e contra seleções consideradas tecnicamente superiores: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha Ocidental. Depois do jogo contra o Brasil, Paolo Rossi, nosso carrasco de Sarriá, que virou titular absoluto, marcou os dois gols da Itália contra a Polônia e mais um na final; tentos que lhe garantiram a artilharia da competição, pela qual recebeu a chuteira de ouro e também o título de melhor jogador. Concluo, de certa forma surpreso, que a melhor seleção da Copa do Mundo de 1982 na Espanha foi a campeã Itália porque soube vencer quando precisou vencer. De lá para cá, outras copas sucederam e o Brasil pode acrescentar mais dois títulos mundiais ao seu glorioso currículo futebolístico; mas devo dizer que nenhum evento no futebol após essa terrível derrota para a Itália me trouxe tantos ensinamentos. Hoje, assistindo a mais uma copa, desta vez em meu país, é interessante observar, com os devidos distanciamento e discernimento que faltaram àquelas lágrimas abundantes nos meus ingênuos dez anos de idade, as reações dos que optaram por ficar mais profundamente envolvidos: os oportunistas badernam nas ruas; os sindicalistas fazem greve; os argentinos ridicularizam a cerimônia de abertura; os perdedores chamam a copa de circo; a sempre gentil torcida paulistana manda em uníssono a Presidenta da República tomar no cu (afinal de contas, se hostilizar os negros é um direito legítimo, por que não a presidenta?); os covardes se escondem; Galvão Bueno continua esbravejando seus disparates popularescos; a oposição diz que o juiz japonês roubou e a situação, que compensou; Scolari finalmente aprendeu a dissimular também sua truculência enquanto os saudosistas da crônica esportiva tupiniquim espinafram a jovem seleção brasileira, apesar de mais uma vitória em copas do mundo. De minha parte, esta copa será uma ótima oportunidade e motivação para me reunir com os poucos amigos e familiares, desfrutando o divertimento dessas horas raras e, acessoriamente, torcendo em conjunto pelo Brasil.

À Mesa

chalaQuando Helinho chegou em casa com o canudo debaixo do braço, Dona V* sentiu um misto de orgulho e alívio. Inquieta, pensou consigo: “Quem sabe agora, longe das más influências acadêmicas, esse menino se emenda”. Para receber o filho bacharel, ela havia preparado, entre outros quitutes, um delicioso challah, a guloseima preferida do pimpolho, seguindo uma velha receita de seus antepassados judeus. Diante daquela mesa que sustentava inúmeros quitutes, Helinho empolgou-se e, tendo um generoso naco do citado pão divino – ou melhor dizendo, “pão apetitoso”, pois Helinho não crê em certos termos – a saracotear pela boca, anunciou:
– Mamãe, agora, após tantos anos de estudos, período dos mais profícuos em minha longa jornada discente, vou poder aplicar os conhecimentos adquiridos com a ajuda de tão nobres e eminentes mestres “uspianos”, sem falar nos valorosos pensadores, sobre cujas ideias construí as minhas. E tudo isso, Mamãe, veja bem! Tudo isso sem prejuízo de minha autonomia, de minha emancipação intelectual. Finalmente, praticarei esta ciência maravilhosa, que mudou radicalmente minha vida, lançando a luz inefável da consciência crítica aos quatro cantos deste nosso imenso país assolado pela ignorância, pela alienação, pela corrupção, pela mediocridade e tantas outras mazelas provocadas pelo subdesenvolvimento político, social, econômico, artístico, cultural e educacional… Cof, cof, cof… Advogarei com fervor as causas de minhas convicções, defenderei a liberdade do pensamento, questionarei os dogmas, insurgir-me-ei contra qualquer tipo de censura, polemizarei com o establishment reacionário, apontarei a idiotia do esquerdismo xiita, rechaçarei a tirania moral dos setores escravizantes da sociedade… Cof, cof….
Naquele momento, a mãe então o acudiu, batendo-lhe nas costas, rogando que interrompesse o arsenal de palavras sofisticadas que dissera, pois receava que pudesse se engasgar e também para evitar que seu discurso descambasse para um tema que havia sido razão de divergência entre os dois. Angustiada, ela ainda guardava em seu infinito coração de mãe cada palavra que Helinho proferiu alguns anos antes, sentado naquela mesma mesa, onde anunciou sua descrença inexorável em Deus:
– Eu li Schopenhauer, Mamãe! Li Nietzsche! Senti-me livre ao descobrir o mal causado pela repressão religiosa, que estreita e circunscreve a capacidade do agir, do pensar, do discernir, do raciocinar. Deus é uma ficção, Mamãe! Um artifício! Um subterfúgio! Louvo esta ciência eminentemente humana que me concedeu a clarividência, louvo estes autores iluminados, gênios do pensamento, ápice e glória de tudo o que se chama conhecimento.
Dona V*, que após tais palavras receava ouvir uma tediosa ode à Filosofia, sentiu-se derrotada e procurou convencer o filho, numa longa e cansativa discussão, de que talvez fosse possível conciliar a opção profissional com a crença no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob ou, pelo menos, na figura de um criador. Lá pelas tantas, quando percebeu a inutilidade de seus argumentos ante à intransigência do filho, resignou-se como toda mãe dedicada, vítima do tal amor incondicional. Recobrada dessas amargas lembranças e no intuito de dar um novo rumo à conversa que estavam tendo em companhia do canudo, a mãe perguntou:
– Tem alguma estratégia para levar a cabo todos esses planos profissionais?
– Pois é, Mamãe. Eu tava aqui pensando se o Papá conseguiria conversar com o Seu Frias para me arranjar uma vaguinha lá na Folha.
E assim se fez: Helinho tornou-se funcionário deste eminente diário paulistano. Ali, numa ascensão meteórica, dada a sua inteligência de asquenaze – inteligência que ele acredita ser geneticamente superior a de qualquer muçulmano – e uma profunda habilidade com as palavras, tornou-se aquilo que o jornalismo denomina colunista e dos mais renomados, daqueles qualificados pelos desavisados como polêmicos. Certo dia, novamente sentado à farta mesa de sua mãe, onde devorava um indescritível kugel de cenoura, Helinho foi submetido a um colóquio indigesto. Um considerável pedaço da guloseima atravessava o canal esofágico do colunista rumo ao seu estômago vazio quando, com aquela ternura própria de mãe, Dona V* disse:
– Meu filho, eu li aquele seu artigo sobre manifestações racistas.
– Mamãe, já pedi para que a senhora não leia o que escrevo. Fico encabulado! Constrangido!
– Mas meu filho, você é muito bom! Gosto de suas opiniões e do jeito que escreve!
– Obrigado, mamãe! Desculpe! Mas então? Gostou?
– O artigo está bem escrito, como sempre. Mas, você não acha que extrapolou um pouco?
– Não me preocupo muito com isso, Mamãe. Dentro do limite da responsabilidade, escrevo o que penso.
– Preocupo-me com você, meu filho. Receio que esse seu limite esteja excessivamente amplo. Lembra daquele artigo da Demografia do Nobel?
– Sim.
– Aquilo ali soou mal, meu filho! Chamaram de preconceito científico!
– Mamãe, eu apresentei números. Números são números: uma das ferramentas fundamentais do raciocínio lógico.
– Filho, você acredita que raciocinou da mesma forma no artigo do racismo?
– Não com números, mas com John Stuart Mill.
– Você acha que numa livre manifestação de ideias sobre esse tema, aqui no Brasil, os atores teriam poderes proporcionais?
– Sim!
– Vamos supor então um grande apresentador de TV ou qualquer bom comunicador declarando abertamente que não gosta dos negros.
– Já imaginei.
– Você acha que haveriam forças, forças emanadas de uma minoria negra, para lutar em pé de igualdade com o comunicador?
– Sim!
– Aqui no Brasil?
– Sim!
– Não minta, meu filho. Você não acredita nessa proporcionalidade!
– Como assim, Mamãe? Se digo que acredito é porque acredito.
– No artigo do Pastor e os Gays, você diz que o pastor Silas Malafaia não deveria se pronunciar quanto à cura gay.
– Eu disse que ele não deve se pronunciar na condição de psicólogo.
– Então na condição de pastor, ele pode?
– Sim!
– Usando seus programas de TV, seus programas de rádio, seus panfletos, suas revistas, seus CD’s, seus DVD’s, sua igreja?
– Humm… É….
– Você não acredita no que escreveu, meu filho! Se acreditasse, não lhe pareceria muito sensato mandar um pastor homofóbico calar a boca e, meses depois, pregar liberdade de expressão para milhares de racistas.
–  Mamãe, insinua que sou preconceituoso em relação aos negros?
– Não, meu filho. Desconheço as causas dessa diferenciação que você fez. Mas, de alguma forma, eu lamento ter te tirado da psicanálise. Talvez você mesmo já soubesse a reposta.
– Um filósofo não precisa de Psicanálise!!!!
– Filho, entenda! Essas suas ideias são muito bonitas, mas são fundadas apenas em teorias! O mundo real é diferente! A realidade não se submete à teoria: a realidade é a verdade!
– Mamãe, insinua que ainda sou inexperiente? Insinua que eu precise voltar ao banco da escola para aprender alguma coisa?
– Pelo contrário, meu filho! O problema é justamente este: você ainda está sentado no banco da escola! Nunca saiu dele!

Nota:
Essa pequenina obra de ficção é livremente inspirada no filósofo-jornalista-colunista ateu Hélio Schwartsman e naquilo que se pode considerar como sendo suas “ideias”.

O Porvir

faltam4diasSegundo a tabela de mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em 2012, o homem brasileiro com a idade de quarenta anos em 2010 viverá, em média, até os 75,1 anos e aquele com os mesmos quarenta em 2011 viverá até os 75,3. Fazendo-se um extrapolação linear desse crescimento, uma vez que o IBGE ainda não divulgou os dados do ano passado, o homem de quarenta em 2012 viverá 75,5 anos. Atualmente, isso significa que um ser humano do sexo masculino, nascido no Brasil em 1972, desfrutando, na sua plenitude, da complicada idade do lobo, tem pela frente 45,6% de sua vida. Portanto, esses primatas, dotados de sofisticado raciocínio lógico e de um polegar opositor, já usufruíram mais da metade de sua história no planeta Terra. Ao subconjunto deles, composto por amantes da Literatura, do qual faço parte integrante, restam-lhe menos de 34,5 anos de leitura, uma vez que nem mesmo o leitor mais desocupado consegue ler ininterruptamente. Consideremos que esses tais aficionados lerão, em média, três horas por dia durante trinta anos. Há, portanto, uma janela de tempo de 4 anos para leitura ininterrupta. Em um romance, há em média 120.000 palavras. Assim, esses ávidos leitores, hoje quarentões, lendo uma média de 170 palavras por minuto, consumirão, até se tornarem setuagenários, por volta de 3.000 romances. Caso haja, dentre os indivíduos citados, alguns deles cujas quantidades de títulos ainda por ler em suas bibliotecas particulares já tenham ultrapassado o correspondente à esse número, eles precisarão começar a fazer escolhas cruéis, ou então se fiar na teoria de vidas futuras que reencarnam: interessante perspectiva que ensejaria a prática da leitura por um mesmo espírito – é apenas através dele que se absorve Literatura – até o fim dos tempos. Embora altamente impreciso, o resultado de toda essa aritmética tranquilizou-me sobremaneira, pois, sendo um cético contumaz à teimosa reincidência da alma à vida terrestre, constatei satisfeito que, nas condições da previsão do IBGE, terei tempo de sobra para apreciar minha humilde biblioteca no seu volume atual e também continuar adquirindo compulsivamente mais livros, com a possibilidade real de conseguir lê-los. Alguns diriam que essa minha tranquilidade diante de tão débeis suposições é descabida, sendo fruto de arrogância, de prepotência, uma vez que o futuro e a onipotência à Deus pertencem. Os religiosos mais extremistas diriam que é pecado venial porque tal sensação de segurança, embora inconsciente, é como querer se igualar ao Todo-Poderoso; cogitariam a hipótese de que eu, imerso nessa autoconfiança profana, poderia ser acometido por uma síncope letal a qualquer momento, até mesmo durante minhas leituras. Sou obrigado a concordar, em certa medida, com a ideia do pedantismo; talvez seja isto mesmo: lá no fundo de minha mente perturbada, agrada-me a ilusão de ser o dono do meu futuro. À superfície, tenho plena consciência de que o porvir é praticamente incontrolável; digo “praticamente” porque há algumas certezas: na hipótese da tal síncope durante a leitura, por exemplo, é absolutamente certo que eu não estaria segurando um livro do “blue eyes” Chico Buarque de Hollanda – “escritor” que precisa estar em Paris para se inspirar -, nem do imortal Paulo Coelho – considerado persona non grata à feira literária de Frankfurt 2013 – e de outros congêneres.