Abissal

cardosoNão é incomum que eu navegue pelo Extrato sem considerá-lo sério, austero e portanto, para os padrões atuais, enfadonho. Sua linguagem é rebuscada e a preocupação com a estética, excessiva. Os temas são geralmente elevados e a aversão pelo superficial é notória. Entretanto, o autor percebe que essa rigidez formal reflete apenas parte de sua personalidade, que está calcada não só naquilo que é profundo, mas também, em menor intensidade, no frívolo. Assim, neste post, atrevo-me a falar sobre aquilo que para mim é o ápice da superfluidade: celebridades. Então vamos lá. Um dia desses, vagando pelo incrível youtube, deparei-me com uma entrevista no programa denominado Na Moral, da Rede Globo, que, embora realizada há mais de um ano, não impediu que eu me pronunciasse, ainda que tão tardiamente: confesso que assuntos televisivos não me provocam necessidade alguma por atualização. A entrevista, conduzida pelo repórter-pseudo-poeta Pedro Bial, apresentador do programa, teve a participação do esquálido Pedro Cardoso, ator contratado da Globo, e de um fotógrafo paparazzi. Assistindo ao programa pela primeira e única vez, notei que sua dinâmica parecia ser a de incitar a polêmica: o assunto era a indústria das celebridades, defendida pelo fotógrafo e atacada pelo ator serelepe, efusivamente anunciado como sendo o inimigo número 1 dos paparazzi. Parecendo estar possuído pelo espírito de algum tagarela assanhadinho, provavelmente o do Clóvis Bornay, Pedro Cardoso iniciou a entrevista desferindo contra a profissão de seu oponente um arsenal de injúrias pré-formatadas, enquanto saracoteava pelo palco, constrangendo o entrevistador e dificultando o enquadramento das câmeras. Nesses ânimos e embasado numa autêntica filosofia de botequim, o ator argumentava que o problema fundamental não está no paparazzi em si, mas naquele que consome seus produtos, na mídia perversa e dominadora que alimenta uma indústria de ilusão. Declarou, como em todo bom discurso demagógico, que a vontade das pessoas em conhecê-lo é a mesma que ele tem em conhecê-las e, portanto, isso deveria impedir que sua privacidade fosse violada por terceiros, uma vez que ele não é diferente de ninguém. O fotógrafo teve pouquíssimas oportunidades para falar, mas, ao final e inesperadamente, revelou que o seu maior consumidor é a própria Globo, patroa dos dois Pedros e dona do programa. Diante dessa revelação, a consternação foi geral: Cardoso abateu-se como um anêmico e o canastrão Bial, que parece ter finalmente se convencido de que em mulher não se bate, pelo menos não nas circunstâncias em que uma de suas namoradas diz ter sido agredida, tratou logo de encerrar a entrevista pedindo socorro à boazuda Dira Paes, estranha partícipe do programa e cujo comentário final não me atrevo, por razões de assepsia, a citar aqui. Que o eminente ator não é diferente de ninguém, todos nós o sabemos, incluindo a mídia perversa que paga o seu salário, os paparazzi bisbilhoteiros e o público que deseja saber de sua vida. Ele se esquece entretanto que desde tempos imemoriais, as pessoas dotadas de alguma notoriedade, embora iguais a todas as outras, não conseguem e nunca conseguirão gozar de sua intimidade como qualquer anônimo. É no mínimo ingênuo querer acreditar que um notório artista conseguirá um dia ir a uma padaria, a um shopping, a uma farmácia, sem ser interpelado por alguém, sem ter sua intimidade violada em algum nível; algo impossível, uma vez que o sucesso nessa atividade está alicerçado inexoravelmente na notoriedade, no reconhecimento de um público. Um artista sem público não é artista. Os paparazzi e outros congêneres são, eventualmente, uma consequência dessa relação essencial, um de seus subprodutos. Se levarmos a sério as declarações de Cardoso no programa – algo que admito difícil de fazer – o ator demonstra sua abissal imaturidade, pelo menos no que diz respeito à sua profissão: ele deseja que ela seja desprovida de frustrações; tal qual um menino birrento, ele quer porque quer que as chatices de seu quotidiano de ator desapareçam, em particular os paparazzi. Todo o palavrório bem decorado que preparou acoberta o seguinte: ele ainda não sabe lidar com o fato incontestável de que a vida, em quaisquer de suas áreas, é feita mais de frustrações que de sucessos. Se o intelecto do ator dispor de alguma capacidade reflexiva, ele deve ter notado, após a entrevista, o ridículo de sua “atuação” e, ao tentar falar do tema numa próxima oportunidade, vai precisar optar entre revelar sua total incapacidade para conversar honesta e civilizadamente sobre a incômoda verdade de ser ele mais uma banal celebridade ou conceber um personagem sofisticado, com um discurso ainda mais hipócrita que o seu na entrevista, mas que dê a ele uma falsa sensação de segurança em relação aos dissabores do inesperado, daquilo que teima em não aceitar.

Você

Você lê um livro que te impressiona porque diz muita coisa a seu respeito;
Você tem vontade que outros o leiam porque deseja que tenham a mesma experiência;
Você se embaraça ao indicá-lo aos amigos porque ele é escrito em inglês;
Você procura uma versão do livro em português porque o autor é o famoso Erich Fromm;
Você se decepciona enormemente porque inexiste tradução para o seu idioma;
Você tem uma grande ideia porque certos desafios o instigam;
Você começa a verter o livro para o português porque acredita na sua capacidade;
Você termina orgulhoso seu trabalho porque ele não foi nada fácil;
Você o submete a diversas editoras porque almeja recompensa mínima por seu esforço;
Você constata o total desinteresse delas porque o livro não vende fácil;
Você se emputece consigo mesmo por ter dispendido precioso tempo em vão;
Você ignora esse trabalho por um tempo porque precisa evitar a frustração;
Você pensa naqueles para os quais indicou o livro porque nunca o verão nas livrarias;
Você resolve disponibilizar o livro no seu blog porque tem arroubos raros de despojamento;
Você coloca o livro na área Trabalhos/Tradução porque quer se mostrar organizado;
Você se sente livre porque só agora dá um fim ao que se propôs.

Discordâncias

Basic-EconomicsAcredito que esta seja a primeira vez que leio um livro técnico do qual discordo quase completamente. Devo dizer que essa novidade é uma experiência ímpar: acostumado com livros de matemática, onde há muito pouco do que se discordar, vejo como um progresso da minha débil autenticidade confrontar a  pequena coleção de opiniões próprias que disponho com a sapiência de um acadêmico da Universidade de Stanford. O título do livro é Basic Economics: a common sense guide to the Economy, escrito pelo economista americano Thomas Sowell, fervoroso adepto do chamado livre mercado. O autor prega que um mercado só é livre quando não há intervenção de espécie alguma no mecanismo de preços; mecanismo esse que, regido pelas leis da oferta e da demanda, confere o devido valor a cada produto ou serviço comercializado, resolvendo, de maneira definitiva, o problema econômico: a correta alocação dos escassos recursos disponíveis para uma determinada sociedade. A partir dessa verdade, que coloca repetidamente ao longo do texto, Sowell defende com unhas e dentes que o tal mecanismo é algo perfeito e, portanto, intocável; que qualquer tentativa de regrá-lo provocará privilégios e desigualdades; que, diferentemente da lei da gravidade, a flutuação livre dos preços, fundamento do Capitalismo, não pode ser desafiada; que eventuais regramentos infratores desse dogma divino podem colocar, em última instância, uma nação inteira em crise recessiva. Aguardo, com certa incredulidade, o redentor capítulo do livro onde o autor pousará os pés no chão e apresentará exceções à sua abstração. Por enquanto, flutuando em seu mundo fictício, Sowell insiste em afirmar que cartéis e monopólios são fenômenos raros; que o cidadão pode facilmente substituir o alho pelo bugalho, evitando submeter-se a um produtor único; que agências reguladoras são sempre maléficas; que ganância e Capitalismo são incompatíveis; que competência administrativa é a única causa do sucesso das grandes corporações; que a prática do “dumping” é algo intrínseco aos processos do mercado e estimulante da concorrência; que falências e quebradeiras generalizadas produzem efeitos saneadores, revigorantes e outras impropriedades do gênero. Apoio minhas discordâncias não no meu conhecimento de Economia, que é pobre, como os países do terceiro mundo, mas no dia a dia do mundo real, na existência da OPEP, no serpear dos lobistas pelos corredores do poder, no envolvimento de grandes empresas como a IBM em escândalos de corrupção, na crise econômica mundial de 2008 e o consequente recrudescimento da regulação pelos Bancos Centrais, bem como outros fatos concretos que se opõem à etérea teoria do nobre professor de Stanford. Se o homem não dispõe de pudor para desequilibrar os ecossistemas da Terra, algo que os americanos sabem fazer como ninguém, por que haveria de tê-lo para controlar um mero construto da mente humana, o mercado? Não vejo o livre mercado que o dr Sowell tanto defende como uma força natural intocável ou como um mandamento religioso, ao qual devemos nos submeter passiva e obedientemente; não é algo isento de distorções e problemas. Em prol do ser humano, há que se preservar racionalmente seus muitos benefícios e aliviar seus muitos malefícios, interferindo direta e deliberadamente nos seus movimentos. Apesar dessas dissonâncias, confesso que estou gostando do livro, porque me instiga o confronto, o embate de ideias; ações para as quais preciso sair do meu conforto e da minha alienação; para as quais preciso estudar e me informar. Lendo textos como o do dr Sowell, percebo cada vez mais clara a desnecessidade de me posicionar ideologicamente, muito embora alguns encarem isso como “ficar em cima do muro”. Para esses, cuja ânsia por rotular é algo fisiológico, digo então que sou um anarquista de extrema direita.

Veredicto

Eu estava na quarta série primária e a professora de Português, tia Ângela, fazia parte daquele grupo de pessoas que me intimidavam. Eu ainda tinha destas coisas naquela época: temor de autoridades, principalmente quando eram rigorosas. Lembro-me de ficar amedrontado na aula em que tia Ângela informou sobre o livro que precisaríamos ler, objeto de avaliação da famigerada “ficha literária”. Esse era o apelido sofisticado que se dava para uma prova sobre os dados da história e sua “correta” interpretação. Havia uma delas por semestre e, naquela aula, fomos informados que seríamos avaliados quanto à leitura da obra teatral Auto da Compadecida, do turrão Ariano Suassuna. Ao chegar em casa, informei, ansioso, sobre a premência na compra do livro: era necessário começar a ler o quanto antes, pois eu já sabia da minha dificuldade no ramo da interpretação de textos. De posse da obra, iniciei imediatamente os esforços que resultaram, até a data da prova, em duas leituras completas e várias outras que cobriam trechos específicos da história. Na véspera da ficha literária, fiz uma revisão geral e constatei, segundo minha avaliação, que estava pronto para o que desse e viesse, que me tornara um especialista nas aventuras e desventuras de João Grilo. Como já mencionei aqui no Extrato, padeço de problemas crônicos com expectativas positivas, desde tenra idade. Teimosas, elas sempre rejeitaram a materialização; comportamento que não foi diferente com a expectativa do sucesso na ficha. Quando recebi a nota, um rubro e odioso “4”, enxerguei-me o único condenado naquele julgamento da história: o Salvador de Suassuna havia sido misericordioso com todos, exceto comigo. Creio que tenha sido esse veredicto injusto que, desde então, me impede de ler o renomado autor paraibano.

Davos-Platz

Desde que me entendo por gente, gosto de livros. A leitura veio bem depois; primeiro, atraiu-me o objeto livro: a capa, o papel, a fonte, o cheiro, a textura, o folhear. Quando pequeno, eu costumava passar um bom tempo admirando a imponente estante da sala, preenchida parcialmente pelos livros técnicos do meu pai. A forma pela qual ele os distribuia era regular e padronizada: assunto, autor, do exemplar mais alto para o mais baixo. Se algum deles estivesse disposto fora do padrão, eu mesmo o consertava. Ao  longo do tempo, foram chegando os romances da minha mãe, assinante do Círculo do Livro, e a área desocupada  da estante encheu-se gradativamente de cor, ganhou finalmente vida. Por alguma razão, não era necessário padronizá-la como a seção técnica, e o móvel, agora inteiro e equilibrado, revelou-se perfeito. Gigantesco para a minha estatura de menino, eu conservava um respeito quase religioso por ele, pelo incomensurável esforço humano sustentado nas suas prateleiras de madeira: quanto trabalho, quanto tempo, quanto escrever e reescrever para produzir aquela quantidade infindável de páginas. Havia um livro específico que me chamava mais a atenção do que os outros: volumoso, bem costurado, com capa dura, papel branco, letras pequenas, cheiro de novinho e delicioso de folhear. Na sobrecapa, havia uma foto intrigante de um castelo ao pôr do sol e acima de suas torres, lia-se: A Montanha MágicaThomas Mann. A partir desse livro e das reminiscências daquele tempo, ocorreu-me, recentemente, acrescentar àquela atração sensorial infantil, que nunca arrefeceu, o interesse pela Literatura. Iniciei escalando a Montanha até chegar ao sanatório de Davos-Platz, só para ver como era, e junto com Hans Castorp, prolonguei deliberadamente minha estada.