Culpa

Syd BarretNão me considero um admirador inveterado do trabalho da banda Pink Floyd, uma vez que aprecio apenas uma pequena parte de seu extenso repertório, distribuído por 14 álbuns de estúdio e inumeráveis compilações “caça-níqueis”. O grupo inglês da cidade de Cambridge, fundado originalmente pelo baixista Roger Waters e pelo baterista Nick Mason, teve diversas formações no início da carreira até finalmente estabilizar-se, quando assinou contrato com a gravadora EMI. Nessa época, além de Waters e Mason, faziam parte do conjunto o tecladista Richard Wright e o guitarrista Syd Barret. Por conta da enorme habilidade em seu instrumento e uma profícua criatividade musical, Barret, amigo de infância de Waters e um ano mais novo que ele, acabou se tornando o principal compositor da banda: dentre as onze músicas presentes no excelente primeiro álbum The Piper At The Gates of Dawn (1967), Barret assina sozinho oito delas e as demais, participa da composição. Os colegas do grupo e pessoas próximas a ele, como seu aluno de guitarra David Gilmour, já haviam se acostumado com seu jeito insociável e seu temperamento oscilante, sem falar nos episódios, cada vez mais frequentes, em que fazia ou falava coisas absolutamente sem sentido. Esse comportamento excêntrico agudizou-se sobremaneira pelo consumo do chamado ácido lisérgico ou LSD; prática que não era privilégio apenas de Barret, mas da maioria esmagadora dos roqueiros psicodélicos da época. A predisposição do guitarrista ao desequilíbrio mental aliada ao seu vício tornou-se um problema quando começou a interferir nos relacionamentos profissionais do grupo com terceiros: entrevistas, compromissos e outras obrigações eram sistematicamente prejudicados pelos desatinos de Barret. A coisa degringolou quando o roqueiro deixou de colaborar no processo criativo da banda; fato que passou a comprometer também seu relacionamento com os outros membros. Foi por essa época também que Barret, apelidado Crazy Diamond, encarcerou a namorada num dos quartos de seu apartamento por três dias, alimentando-a nesse período, com biscoitos que jogava por debaixo da porta. Nos shows do grupo, ele sequer se dava ao trabalho de cantar ou tocar seu instrumento, sendo muitas vezes substituído por seu pupilo Gilmour. Certa vez, no carro que costumava pegar cada um dos músicos antes dos shows, alguém disse: “Vamos pegar o Syd?”. Alguém respondeu: “Pra mim ele não faz falta!”. Outros disseram: “Pra mim também não!”. Dentre esses outros, estava também Gilmour, que a partir daí foi efetivado na banda; evento que facilitou a expulsão de Barret – já considerado um doido varrido – em dezembro de 1967, quando não lhe foram dadas maiores satisfações. Algum tempo depois, Waters e Gilmour, arrependidos pela forma que baniram o colega, resolveram visitar Garret na casa de sua mãe, onde havia buscado refúgio. Quando os viu, a Sra. Barret disse: “Ele não quer ver vocês! Ele está muito, muito triste! O que vocês fizeram com o meu filho não se faz!”. Os dois tanto insistiram que acabaram por restabelecer o contato, mas a saúde mental do amigo já estava bastante precária. Alguém então teve a ideia de solicitar a ajuda do eminente psicanalista escocês Ronald Laing, que deu seu veredicto: “O problema dele é incurável”. Desde então e durante todo o tempo em que esteve ativo, o grupo Pink Floyd carregou esse peso, essa culpa, enquanto Syd Barret manteve-se recluso na casa materna, praticando a pintura, arte que tanto amava, a fotografia, jardinando flores e visitando museus até sua morte em 2006. Para o deleite dos apreciadores de rock, dentre os quais me incluo, a carga emocional de toda essa história foi lindamente expressa no álbum Wish You Were Here (1975), o melhor da carreira do Pink Floyd, avaliado ao final do post. Nas últimas sessões de gravação desse disco (eu ainda uso essa terminologia), Barret apareceu inesperadamente nos estúdios da EMI na Abbey Road: estava pálido, barrigudo, careca, sem sobrancelhas, desleixado. Quando o grupo finalmente o reconheceu, Waters e Gilmour, aos prantos, foram cumprimentá-lo.
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Ingratidão

B-52

Ao terminar um curso de verão em Seattle, promovido pela Unidade de Dinâmica Estrutural (UDE) da Boeing, o aluno Ray William Clough estava bastante decepcionado: o modelo matemático que concebera para o problema que lhe foi proposto apresentou resultados desanimadores quando comparados com os dados experimentais. Tratava-se das propriedades vibratórias de asas do tipo delta (foto), simuladas em laboratório como barras engastadas, anguladas a 45 graus. Ele havia representado esse tipo especial de asa como uma estrutura treliçada, estratégia adotada para a análise aeroelástica de asas convencionais. Talvez um fracasso não fosse sua expectativa para o término curso, ao qual fora assistir para se inteirar das últimas novidades do cálculo estrutural na indústria da aviação. O programa das aulas incluía basicamente as técnicas de análise estrutural mais avançadas, utilizadas na Boeing, para o projeto de componentes aeronáuticos: asas, especificamente. O autor de tais técnicas,  engenheiro-chefe da UDE e professor do curso Jonathan Turner, propunha a cada um dos alunos um problema real da Boeing para que fosse desenvolvido, a partir do conteúdo teórico do curso. Como eram desconhecidas da comunidade acadêmica da época, as eficientes ideias de Turner atraíram a atenção de alguns pesquisadores, que se matriculavam no curso, ministrado todo o verão. Assim, no verão do ano de 1952, estava lá o desanimado Ray Clough, professor novato de Engenharia Civil da Universidade da California em Berkeley. Diante do fracasso da solução que arduamente concebera, Clough deu-se por vencido e, ao despedir-se de Turner, ficou patente para o mestre o desapontamento do aluno. O Engenheiro sugeriu ao acadêmico que retornasse no verão seguinte para continuar o trabalho; ideia que foi aceita de imediato. Ao retomar os trabalhos no verão de 1953, Clough recebeu a seguinte sugestão de Turner: “Ao invés de utilizar uma treliça bidimensional, montada com barras, modele a estrutura com placas, interconectando-as pelos seus vértices.” A partir dessa ideia, Clough estudou placas – que passou a denominar elementos – de formato triangular e retangular. O modelo mostrou-se muito mais simples com elementos triangulares do que com os retangulares e os resultados obtidos foram excelentes. O professor de Berkeley percebeu também que a diminuição do tamanho das placas, que promovia o aumento do número de elementos, tornava os resultados do modelo mais próximos dos valores experimentais. Assim, com a técnica apreendida e bem sucedida, Clough e outro célebres alunos de Turner, disseminaram a ideia no meio acadêmico, que lhe deu a devida a atenção somente dez anos mais tarde. Batizada por Clough de Método dos Elementos Finitos, a técnica de Jonathan Turner ganhou notoriedade e aplicação generalizada, a um ponto tal que os matemáticos, eternos adoradores do abstrato, se interessaram, construindo todo uma teoria a partir dela. Com o tempo, o FEM (Finite Element Method) ganhou fundamentos algébricos complexos, quando lhe arranjaram outros pais: alguns deles, verdadeiros padrastos. Em meus estudos, fui vítima de um desses últimos e, apenas recentemente, descobri em quem posso confiar. Tomei gosto justamente pela teoria matemática do Método – filha ingrata e desnaturada do seu verdadeiro genitor – cujo formato sofisticado é simplesmente maravilhoso, para o qual dedicarei, em breve, uma nota anunciando novo estudo.

Orgone

Numa de minhas intrépidas incursões ao mundo da literatura psicanalítica, deparei-me com uma figura curiosa: Wilhelm Reich. Austríaco da cidade de Dobzau, o rapaz era um aluno carente da faculdade de medicina da Universidade de Vienna quando se encontrou pela primeira vez com o compatriota Sigmund Freud. Pediu ao mestre indicações bibliográficas sobre sexologia e, conversa vai, conversa vem, conseguiu impressionar tanto o já renomado psicanalista que esse lhe encaminhou alguns pacientes, fato que inaugurou sua carreira, antes mesmo de se tornar médico. Dedicou-se com tal entusiasmo ao seu primeiro paciente, uma jovem de dezenove anos, que o caso profissional tornou-se amoroso; deslize não muito incomum cometido pelos terapeutas inexperientes daquele tempo. Após a morte da moça, ocorrida no apartamento onde se encontravam, Reich prosseguiu com seus estudos e suas publicações, cujo enfoque principal era a neurose e suas possíveis causas. Cada vez mais influente, conseguiu fundar diversas clínicas que prestavam gratuitamente aconselhamento sexual para classe operária alemã; algo que causou grande repercussão na época. Polêmico, diante de casos difíceis, costumava usar técnicas muito pouco ortodoxas em suas sessões: colocava o paciente nu e o “massageva” em pontos específicos, no intuito de “dissolver” sua rigidez e trazer à tona lembranças reprimidas, causadas por acontecimentos traumáticos. Acreditava piamente no poder terapêutico do orgasmo, evento que, experienciado adequadamente, conduziria o ser humano não apenas ao mero relaxamento muscular, mas à expansão psíquica e à sublimação espiritual. Em seus escritos, considerava esse poder orgástico uma energia vital, autônoma, onipresente, física como o calor e a luz. Relatou que tal energia, a qual batizou com o nome de Orgone, é visível e sua cor varia nos tons do azul, chegando a afirmar categoricamente que o fenômeno da aurora boreal é uma de suas manifestações. Já residente nos Estados Unidos, Reich decidiu construir um dispositivo, uma cápsula fechada, similar às gaiolas de Faraday, cujo objetivo seria captar essa energia cósmica, transferindo-a ao paciente, devidamente acomodado dentro da cápsula. Dentre os diversos benefícios propagandeados, o dispositivo teria  a propriedade de curar tanto doenças psíquicas, como a neurose, quanto orgânicas, como o câncer. Após a venda de algumas unidades do produto, denominado Acumulador de Orgone, o órgão regulador americano “Food and Drug Administration” (FDA) embargou sua comercialização. Um inspetor constatou que, durante a vigência do embargo, uma unidade do dispositivo foi vendida, fato que tornou o psicanalista réu em processo judicial impetrado pelo órgão. Em 7 de março de 1956, Reich foi condenado a dois anos de prisão e seu colaborador a um ano. Após inúmeros recursos e diversos pedidos de clemência às autoridades, incluindo o futuro presidente Edgar Hoover, diretor do FBI na época, Reich foi conduzido à prisão federal Danbury em março de 1957 e, logo depois, transferido para a prisão federal de Lewisburg. Em 24 de março daquele mesmo ano, quando completou 60 anos, escreveu ao filho adolescente: “Pete, estou calmo, ciente dos meus pensamentos e praticando Matemática a maior parte do tempo…Não se preocupe muito comigo, embora eu sinta que algo vai acontecer… Sei, filho, que você é uma pessoa descente e forte. Nesse mundo tumultuado, vejo agora que um garoto da sua idade deve viver intensamente, a seu modo, o que a vida lhe oferecer, deve digeri-la sem contrair, por assim dizer, uma ‘dor de barriga’, sem se desviar do caminho correto da verdade, da realidade, do honestidade, do jogo limpo…” Anos mais tarde, o filho revelou que visitou o pai muitas vezes na prisão e, em todas  elas, Reich chorava copiosamente. Em 22 de outubro, enviou carta ao filho informando que provavelmente seria solto em 10 de novembro, data que cumpriria um terço da pena em regime fechado, e combinou com o menino um almoço de comemoração no restaurante que sempre frequentavam. Em 3 de novembro, Wilhelm Reich foi encontrado morto em sua cela, completamente vestido, mas com os pés descalços.

Brincar

Alguns dos grandes músicos só admitiam bancar o professor se o aluno já tivesse
superado, de maneira incontestável, o seu período de formação. Numa linguagem mais
popular, só aceitavam o “filé”. Um desses músicos deparou-se, certa vez, com os olhos curiosos do filho de nove anos que, acercando-se dele, o observavam trabalhar ao piano. Disse o filho: “Papai, eu também sei tocar. Deixa eu te mostrar”. O menino então fez uma baita confusão sonora com as teclas do instrumento. Após aquela exibição, o pai pensou um pouco e disse: “Acho que você gostar mais disso aqui”. Ele então posicionou o polegar direito na tecla da clave de sol e tocou sol – lá – si – dó – si – la – si – dó – ré.  Durante aquele prolongado momento, o pai distraiu-se com a dificuldade do filho que tentava aprender a sequência que ele criara, quando, enfim,  precisou retornar ao trabalho. Alguns dias depois, o garoto aproximou-se do pai, ao piano, e disse novamente:  “Papai, eu também sei tocar. Deixa eu te mostrar”. Lembrou-se, sem erro algum, daquele “sol – lá – si – dó – si – la – si – dó – ré” de dias atrás. O pai pensou um pouco e disse: “Acho que você vai gostar mais disso aqui”. Repetiu-se então aquele momento mágico entre os dois, motivado por uma outra sequência de notas. E assim, após uma série desses momentos mágicos, o músico fez o filho cantar e, ao ouvi-lo, teve a estranha recordação de uma infância que não viveu. Descobriu como era bom brincar e empolgou-se: do alto da sua estatura, escreveu 66 peças para os aprendizes.

Alucinações

Não há melhor exercício para a elevação da autoestima feminina do que transitar pelas dependências de uma faculdade de Engenharia Mecânica; melhor até do que passar por um canteiro de obras. A escassez acentuada de mulheres torna o ambiente insalubre, poluído pelo excesso dos odores produzidos pela testosterona. Há um clima de aridez, próprio das regiões desérticas, e uma paisagem repugnante, monótona e sem cor. O aluno, peregrino nessa terra seca e arenosa, quando se depara com uma moça de contornos minimamente definidos, alucina e julga ver Juliana Paes. O caminhar daquela criatura maravilhosa, que ingenua e inadvertidamente passeia pelo local, o inunda de ansiedade e estranhos fenômenos oriundos da região pélvica passam a incomodá-lo. Ele vê que outros colegas, igualmente ansiosos, começam a rodear a única fêmea-alvo da região e se irrita. Pensa em brigar pelo que já era seu, mas percebe-se um idiota, um macho desesperado numa cena selvagem do Animal Planet. Constrangido, ele recua e volta a peregrinar. Bem mais à frente, uma outra, também de contornos retilíneos,  passa por ele e se transforma repentinamente, diante de seus olhos, na Paula Fernandes.