Distância

sigmund-freudCreio que seria de bom tom e uma demonstração de respeito aos pouquíssimos leitores deste blog justificar a longa ausência de seu autor. Ocorreu que, sob o domínio da avidez peculiar à esta minha mente perturbada, estive imerso em extensos estudos psicanalíticos após adquirir, com certo esforço econômico-financeiro, a coleção completa do turrão Sigmund Freud. Confesso que foi bastante laborioso o processo de seleção que estabeleci para eleger a melhor versão – que satisfizesse meus peculiares parâmetros – do estilo simples e ao mesmo tempo refinado do pai da Psicanálise. A primeira e portanto clássica edição brasileira das obras, publicadas pela editora carioca Imago, eu descartei de imediato por se tratar de uma tradução para o Português – tradução abundante em equívocos crassos e impropriedades – do texto em inglês vertido do alemão pelo eminente tradutor britânico James Strachey e sua equipe. Pensei então em colocar meu inglês rústico à prova comprometendo-me com o desafio de ler a famosa Standard Edition de Strachey. Antes porém, procedi à seguinte estratégia: desconhecedor total e absoluto que sou do Alemão, tomei diversos excertos originais nesse idioma submetendo-os à canhestra tradução do Google Translator,  e depois comparei os resultados com as respectivas traduções presentes na Standard Edition. A intenção era avaliar se a distância da tradução em relação à versão literal é aquela necessária apenas para tornar o texto compreensível na língua destino. Constatei estupefato que a nobre Standard Edition inglesa é uma obra não-livremente inspirada, mas ainda assim inspirada, nos escritos de Freud: a distância entre o literal e o traduzido é tamanha que me atrevo a qualificar o trabalho de Strachey como uma adaptação. Entretanto, dessa adaptação aproveitam-se os textos introdutórios e as notas do tradutor, que apresentam inúmeras referências cruzadas, importantíssimas para um estudante bisonho como eu. Adotando um nível de exigência bem mais elevado que minhas pretensões, terminei por descartar também a versão inglesa e passei a avaliar a incompleta versão da famosa editora brasileira Companhia das Letras. Liderada pelo germanista Paulo César de Souza, o texto freudiano dessa nova versão vem traduzido direto do Alemão; e muito bem traduzido, por sinal. O mesmo exercício que fiz para a edição Standard inglesa, fiz para a tradução do citado germanista, e acabei observando uma distância bastante pequena entre o literal e o traduzido. No entanto, ocorreu que além de ser uma obra em construção, a coleção da Companhia das Letras decidiu, por alguma razão, desconsiderar a valiosa contribuição de Strachey; algo que nem mesmo as editoras alemãs fizeram: elas incluem em suas edições, já há algum tempo, os textos informativos do tradutor inglês. Assim, restou-me como última opção a versão em castelhano da editora Amorrortu, traduzida direto do alemão, ao longo de quatro anos, pelo filósofo argentino José Luis Etcheverry (1942-2000). Nesse trabalho, a distância entre o literal e o traduzido é um pouco maior quando comparada com a da versão de Paulo César de Souza, mas ainda assim absolutamente aceitável. Ademais, a editora Amorrortu designou tradutores específicos para trabalhar em verter do inglês o texto de Strachey, harmonizando-o com a tradução de Etcheverry, de tal sorte que o trabalho como um todo resultou primoroso. Encomendada da livraria argentina Paidos, ainda com o dólar na saudosa cotação de R$2,50, a coleção com os vinte e cinco volumes das Obras Completas de Sigmund Freud chegou após sete longos dias de espera, quando imediatamente comecei a selecionar os textos para meus estudos. Deles resultou um pequeno e pretensioso artigo intitulado A Mente Deformável que já está disponível no menu Psicanálise, submenu Artigos Ingênuos. Aguardo os tão almejados comentários e contribuições dos eventuais interessados.

Chumbo

PigIndigno representante da chamada geração X, este humilde blogueiro veio mundo, contrariado e literalmente à fórceps, não sem razão, na fase áurea da ditadura militar, período em que o general gaúcho Emílio Garrastazu Médici prestava seus serviços no posto de presidente do Brasil, nação recém batizada República Federativa do Brasil. Eleito indiretamente numa sessão conjunta do Congresso Nacional, reaberto para o pleito, o presidente Emílio Médici – que preferiu ser chamado assim para evitar velhas rimas infames com o incomum “Garrastazu” – havia sido o “candidato” indicado pelos “três patetas”. Essa alcunha carinhosa foi conferida pelo saudoso Ulysses Guimarães aos membros da junta militar que precisou governar o país de setembro à outubro de 1969 devido ao AVC (vulgo derrame cerebral) do hipertenso Marechal Artur da Costa e Silva, célebre presidente que detestava livros, mas não as revistas de palavras cruzadas da Ediouro: na cerimônia de sua posse, momentos antes de receber a faixa do seu antecessor Humberto de Alencar Castello Branco – ou Tamanco, para os mais chegados -, Costa e Silva pediu ao cerimonial que esperasse um pouco porque estava prestes a terminar uma cruzada complicada. Nasci portanto na época conhecida atualmente como Os Anos de Chumbo, pois o destemido presidente Médici ou Milito, como era conhecido na boca pequena militar, foi um violento defensor da chamada ordem sistêmica revolucionária, combatendo com rigor incansável aqueles que acreditava desejosos de subvertê-la, seja direta ou indiretamente. Para tal, dispôs convenientemente das prerrogativas que lhe assegurava o famigerado Ato Institucional Número 5, instituído por seu antecessor e concebido alguns anos antes por Júlio de Mesquita Filho, dono do diário paulistano O Estado de S. Paulo, com a balizada colaboração do jurista “uspiano” Vicente Ráo. Com esse expediente legal e outros de cunho, digamos, pouco ortodoxos, Milito deflagrou uma verdadeira guerra aos antigos subversores ainda não capturados pelas garras afiadas do regime militar e também rechaçou com vigor qualquer ato que atentasse, no julgamento dos oligofrênicos agentes do DOPS, contra a paz pública e a segurança nacional. Assim, enquanto minha santa mãezinha se desdobrava para limpar incansavelmente meus glúteos da inevitável sujeira provocada pela imaturidade esfincteriana típica de qualquer bebê, a polícia de Milito, não menos infatigável que mamãe e não menos despreparada que um esfíncter infantil, lançava mão dos meios contundentes que livremente dispunha para limpar as ruas dos asquerosos comunistas, que tanto ameaçavam a estabilidade institucional. Por outro lado, enquanto mamãe procurava, sem muito sucesso, me fazer repousar, a polícia de Milito era bem mais eficiente em colocar seus prisioneiros para dormir, muitos deles em caráter permanente. Sobre esses desafortunados que nunca mais acordaram, a notícia oficial, quando havia, qualificava-os como suicidas; aliás, “nunca dantes na história deste país”, a polícia teve uma habilidade tão grande para encarcerar meliantes vocacionados para o suicídio. Também era de caráter oficial que não havia tortura, que o SNI só grampeava gente suspeita, que Milito era o guardião da democracia, que o regime já estava buscando a abertura política, que o Brasil era o país que ia pra frente, que a Transamazônica promoveria a integração do Norte brasileiro e tantas outras propagandas enganosas, cujo objetivo final era mostrar que apesar do constante perigo vermelho, o país progredia a olhos vistos após a revolução (eles não gostavam do termo “golpe”). Entretanto, ocorreu que a rebeldia juvenil dos filhos da elite – a mesma elite que louvou aos céus a ascensão de Tamanco após a deposição do presidente-latifundiário-comunista e comedor de vedetes João Goulart – resolveu afrontar seus pais menos com sexo, drogas e rock and roll do que com ideias libertárias. Não se pode dizer que esses rebeldes, a maioria estudantes, fossem daqueles do tipo “sem causa”, como o Marlon Brando no filme, uma vez que hastearam a bandeira da liberdade irrestrita de expressão, contrapondo-se ao regime conservador e a tudo o que ele significava: o poder parental. Dotado da ignorância típica de qualquer pai severo e truculento, o governo aceitou a provocação de seus filhos desobedientes e dispôs energicamente de suas armas, aquelas mesmas que utilizava contra os tais vermelhos. A partir daí, a coisa mudou de figura, e a intelectualidade pequeno-burguesa das principais capitais do país começou a não gostar do regime que até então sustentara. Sentado no colo de minha mãe, devidamente protegido com fraldas, pude assistir, algumas vezes, em nossa pequena televisão, às aparições de um velho altivo e taciturno, cujo nome fiquei sabendo mais tarde, já no final de seu governo: Geisel. Foi ele, o Alemão, o General Ernesto Beckmann Geisel, sucessor de Milito, quem resolveu dar cabo do mostrengo que ele próprio e o “cerebral” Golbery do Couto e Silva ajudaram a criar, o tal regime revolucionário de 64, que finalmente pôde ser qualificado como ditadura. Aliás, foi após essa tal abertura que, em nossas reuniões de família, certas coisas puderam ser ditas mais tranquilamente, como aquela piadinha que meu tio não se cansava de contar. Ele perguntava: “Qual é menor chiqueiro do mundo?”. Nós, pré-adolescentes, já sabíamos de cor a resposta, mas sempre entrávamos na brincadeira. “É a farda!”, respondíamos. “Por quê?”, ele perguntava. Nós em uníssono retrucávamos: “Porque só cabe um porco!”; e todos caíamos numa sonora gargalhada subversiva.