13.500Hz

hi-res-musicLembro-me que num post bastante antigo, publicado numa época em que este blog ainda conseguia atrair a atenção de alguns poucos leitores mais pacientes, divulguei consternado uma condição que me acompanha ainda hoje, denominada tecnicamente acufeno, mais popularmente apelidada de zumbido ou zuído. No meu caso, trata-se de uma percepção auditiva, sem estímulo externo, que se manifesta por meio de um sinal acústico cuja frequência orbita em torno de 13.500Hz. O ruído se assemelha ao de um assobio bem fininho, quase no limite do agudo, e essa situação seria relativamente suportável não fosse o silvo implacavelmente persistente: eu desconheço o silêncio, por exemplo, no prelúdio do sono, quando os volumes do ambiente estão baixos. A única variação no citado barulho ocorre em sua amplitude, ou seja no volume do assobio: uma boa noite de sono, esporte e gingko-biloba diminuem o volume; mas cansaço, álcool, açúcar, cafeína, música, travesseiro alto e antibióticos aumentam. Entre aquele post longínquo e este, tenho notado os itens elevadores do volume mais contundentes que os diminuidores, e o efeito cumulativo têm sido a notável degradação de minha capacidade auditiva, particularmente no ouvido direito. Devo dizer que abdicar dos estimuladores da citada altura sonora não me causa maiores descontentamentos, exceto de um deles, música, que para mim é algo indissociável desta aventura denominada viver. Assim, privado dos demais itens maléficos, resolvi lidar com a questão da música aproveitando a oportunidade dada por nossos honoráveis médicos ao se declararem ignorantes quanto à terapêutica e às causas do problema: diante disso, eu próprio criei as minhas. Em primeiro lugar, vamos às causas. Nos últimos tempos, invadiu-me a crença de que esta minha condição foi provocada porque passei a ouvir música veiculada em arquivos digitais no formato mp3 e similares. Explico. Esses formatos de arquivos musicais digitais, dentre os quais o mp3 é o exemplo mais difundido, são classificados como lossy ou “com perdas”. Quando a música alcançou os pequenos dispositivos móveis, a necessidade por espaço foi premente, demanda que os volumosos arquivos musicais brutos não atendem. Chamo arquivo bruto aos arquivos digitais gerados por conversores analógico-digitais como um passo na longa cadeia dos processos de gravação musical. Em linhas gerais, os arquivos lossy são um subproduto desse processo de gravação, uma vez que resultam de uma rotina de filtragem, quando são retiradas dos arquivos brutos grandes parcelas de informação. Seguida dessa filtragem, que elimina pedaços considerados pelos “especialistas” como inaudíveis à percepção média, há um processo de compactação do arquivo lossy, que o torna atrativamente pequeno, cerca de cinco a dez vezes menor que os arquivos brutos. As informações num arquivo bruto extraído de CD, por exemplo, caminham num fluxo de cerca de 1000 kilobits por segundo, enquanto que nos lossy ditos de alta “qualidade” o fluxo é de 250 kilobits por segundo. Diante desse sofisticado tipo de corte ou censura, minha crença funda-se na convicção nada científica de que a música desses arquivos, por ser retalhada, é desnatural, contrafeita. Sem saber lidar com ela, o ouvido então reage, ruidoso. Voltei então aos meus velhos CD’s e já estava quase conformado com a impossibilidade de ouvir música no celular quando a comunidade audiófila, sempre refratária aos arquivos lossy, inventou a tal música de alta resolução (Hi-Res Music). O audiófilo é uma espécie de maluco para o qual a busca da perfeição sonora adquire contornos quase místicos: ele procura ouvir, através de seus requintados aparelhos de som, a voz de Deus. Indo muito além de minha demanda por qualidade de CD nos arquivos musicais digitais, a música de alta resolução dos audiófilos se baseia no fato comprovado cientificamente de que a resolução do ouvido humano é maior que a taxa de amostragem de 44.100Hz utilizada na gravação de CDs e outras mídias. Explico. O sinal analógico, contínuo, precisa ser discretizado nos zeros e uns do formato digital; e assim o conversor, para gerar o arquivo digital, amostra o sinal analógico a cada 1/44.100 segundos. Ocorre que nas frequências sonoras mais audíveis, o ouvido humano médio consegue discernir diferenças sonoras num intervalo de até 1/192000 segundos. Assim, estupefato, pude concluir que até nos arquivos brutos, há perda audível de informação. A partir daí, passei a adotar os arquivos digitais com música de alta resolução, comprimidos mas não filtrados, chamados arquivos Hi-Res lossless (sem perda), como uma alternativa aos formatos lossy. Há diversos sites que vendem músicas nesses formatos, cuja taxa de amostragem supera os 44.100Hz do CD; algo que torna o citado fluxo de informações superior aos 2000 kilobits por segundo. Surgiu então um problema: o que fazer com minha extensa coleção de CDs, todos amostrados com os míseros 44.100Hz? Novamente os audiófilos, aqueles menos ortodoxos, vieram em meu socorro com um recurso denominado upsample, que significa elevar a taxa de amostragem do CD interpolando matematicamente a informação digital. Fiz então o upsample de todos os meus CD’s, colocando-os em formato Hi-Res Lossless. Esse enorme esforço foi motivado pela percepção do menor efeito elevador do zumbido pela música de alta resolução em comparação à musica lossy: auto-sugestão? Pode ser, mas o fim alcançado justificou amplamente o meio adotado, auto-sugestivo ou não. Quanto à terapêutica que criei, prefiro não revelar os detalhes para não ser acusado de curandeirismo, ou de exercício ilegal da medicina. O que posso dizer é que há elementos da medicina caseira – garrafadas e preparados – e também terapia sonora, pela qual se acredita que ouvir sistematicamente um sinal sonoro dotado de todas as frequências do espectro audível, exceto aquela do zumbido (13.500Hz no meu caso), pode reduzir imensamente seu volume.

Contragolpe

GolEu estava de férias da faculdade quando meu pai, ao telefone, perguntou: “Quer ganhar um carro?”. Até o meu animado “Sim” correram alguns minutos para a completa assimilação de todo o significado daquela pergunta, porque um carro, para mim, sempre fora um bem de terceiros, inatingível. Naquela época, meu principal objetivo material era adquirir um aparelho de som mais potente e moderno, que explorasse todas as vantagens do “Compact Disc”, novidade tecnológica que muito me interessava. Retornei das férias, orgulhoso e destemido, conduzindo um pomposo Gol AP 1.8 a álcool, ano 1985, usado, ou melhor, abusado; mas potente, uma máquina. Ao longo da viagem até Uberlândia, fui refletindo sobre os benefícios que aquele veículo me traria: haveria uma enorme vantagem competitiva para conseguir namorar a Cláudia. Poucos dias depois que cheguei, exerci minha nova condição de pretendente poderoso e convidei a gatinha para sair. Como já mencionei aqui no Extrato, eram necessários pouquíssimos atributos para se conseguir o título de “gatinha” na engenharia; no entanto, minha musa dispunha realmente de volumes proporcionais e harmonicamente dispostos, um cabelo negro liso, longo e uma voz macia. Havíamos saído algumas vezes, apenas como amigos, mas de posse daquele Gol, fui tomado por uma coragem sem precedentes e resolvi ultrapassar definitivamente o obstáculo da amizade. Meu convite foi aceito, como quase sempre acontecia, e fui pegá-la em casa, com o carro; algo que a impressionou menos do que eu imaginava. Entretanto, essa pequena decepção foi completamente superada quando me dei conta do tamanho da saia que ela trajava: sentada ali ao meu lado, no banco do passageiro, a área das pernas que estava desnuda era mais do que satisfatória; algo tão inesperado e surpreendente quanto o Gol. Depois de repetir diversas vezes o quanto estava bonita, percebi o efeito benéfico dos elogios: ela estava diferente, menos retraída, mais espontânea. Pensei então comigo: “É hoje!”. Durante o passeio, rimos e conversamos muito; bem mais do que outras vezes. Quando fui deixá-la em casa, o carro, a mini-saia e minha presunção afrouxaram-me o controle dos impulsos e tentei atacá-la nos três beijinhos de despedida. Fui contragolpeado por duas mãos no meu peito, impedindo minha investida, e uma reação indignada.
– O que você tá fazendo? – perguntou ela.
– Tentando te beijar…Eu gosto muito de você – respondi.
– Mas eu não quero nada com você. Somos apenas amigos. E tem mais: eu não gosto de ser tocada sem aviso prévio. Por que fez isso?
– Você… tá de mini-saia e eu… tô com carro.
– Tchau!
Passaram-se alguns anos até que nos falássemos de novo e outros tantos para que eu conseguisse ter uma vaga ideia das forças instintivas, minha e dela, envolvidas nesse fatídico episódio.