Extrato do Miolo

Função

Aprendi  o conceito de função na antiga e saudosa oitava série. A professora de matemática desenhou dois conjuntos, relacionou os elementos de um com os elementos do outro por meio de setas e disse: “Estão vendo essas setas? Isso é uma função”. Todo o meu ensino superior de engenharia não corrigiu esse fundamento desvirtuado,  apenas o varreu para debaixo do tapete: lecionar conceitos atrapalha o pragmatismo de um curso tecnológico. Há alguns anos, quando folheava as primeiras páginas do livro Non Linear Problems of Elasticity, de Stuart Antman, percebi a falha em meu conceito. Resolvi, então, investigar o que é de fato uma função e descobri que não se trata de uma seta, mas que é um par: um conjunto e uma regra. Considerando que D é um conjunto e f uma regra, então o parzinho (D,f) é uma função se para qualquer elemento d de D existir o valor f(d). Enfatizando um pouco mais a forma do conceito, (D,f) é chamado função quando

d\mapsto f(d)\,,\, \forall d\in D\,.

A regra f nada mais é do que a especificação de como serão associados valores aos elementos do conjunto D, chamado domínio da função. Por exemplo, se tal especificação for quadrática, dado o domínio \mathbb{R} dos reais, então a descrição de f é

  f(x)=ax^2+bx+c\,,\, a\neq 0\,,

onde a,b,c \in \mathbb{R} e x, denominada variável ou argumento da regra, é um símbolo que representa um elemento do domínio; no caso, um número real. Tivesse eu essa breve informação, algo simples até para alguém que considera Matemática um obstáculo a ser transposto, não teria me assustado com as explicações do eminente professor Antman.

Tango


Local: Tango La Ventana (Buenos Aires)
Equipamento: Nikon D300S com objetiva Nikkor 28-80mm
Exposição: abertura f/3.5, velocidade 1/10s e ISO1600
Pós processamento: Apple Aperture 3

Placebo

Meu avô, exímio troçador, contou que numa sexta-feira bastante desanimada, um colega
de trabalho esbravejou na repartição:
– Que diabos! Essa dor de cabeça me incomoda todo o dia; o dia inteiro.
– Pois eu sei de um remédio muito bom. É tiro e queda! – anunciou meu avô.
– Então me fala qual é compadre!
– Chama Regulador Xavier.
– E isso é bom mesmo?
– Nunca ouviu falar nesse remédio? – perguntou meu avô, surpreso.
– Não!
– Pois é o único que resolve! Toma uma colherada à noite: hoje, amanhã e depois.
Diante da prescrição tão segura e do silêncio circunspecto dos demais colegas, o rapaz animou-se com o tratamento, dizendo que o seguiria à risca. Na segunda, veio ao meu avô:
– Compadre, vim aqui te agradecer. Estou bem melhor.
– Fico satisfeito, compadre.
– Só uma coisinha: ontem à noite, depois da última colherada, minha mulher me perguntou por que raios eu estava tomando remédio pra regras. Ocorreu-me então ler a bula e vi que não havia menção alguma à dor de cabeça. O compadre sabia disso?
– Compadre, presta atenção: remédio bom  é remédio que cura. Curou?
– Curou!
Depois disso, a repartição não resistiu e caiu na gargalhada.

Raridade

Alguém me disse que Nelson Rodrigues disse que nem toda mulher gosta de apanhar, apenas as normais. Refletindo, cá com meus botões, sobre essa frase um tanto quanto polêmica, cheguei à seguinte conclusão: se a afirmação do grande dramaturgo for realmente verdadeira, esse traço masoquista  feminino é um comportamento raro, dada a incontestável raridade do fenômeno “mulher normal”.

Mentiroso

A menina pergunta ao pai:
– Papai, compra pra mim o Lego Friends?
– Que Lego é esse, filha?
– É um Lego só pra meninas. Tem várias coleções.
– Tá certo. Qual delas você quer?
– Pode ser todas.
– Nossa! Todas não dá. Lego é um brinquedo muito, muito caro.
– Caro? Deixa de ser mentiroso, Papai! Como é que pode ser caro um brinquedo que vem todo desmontado?

35

Muito mais do que em religião, eu acredito em Deus. A ideia de uma criatura sem um criador me é, no mínimo, descabida. Ele existe sim e se manifesta: mostra-nos o feio e o belo, nos agrada e nos perturba, define o espaço, molda a matéria. Não é Pai, porque brinca como uma criança. Não é Filho, porque não merece cuidados. Não é Espírito, porque é concreto. O que é afinal? Não sei. O que sei é que ele gosta de música: dispôs do talento de Sylvius Leopold Weiss e escreveu a Sonata 35 para alaúde.

Receituário

O “psicanalista selvagem” Georg Groddeck, já citado aqui no Extrato, disse que dor lombar em mulheres é manifestação somática de insatisfação sexual; resultado de uma espécie de revolta do id. Ele explica que a região é responsável pelo principal movimento do prazer feminino, o vai e vem que define o cavalgar da mulher no homem. Eis um exercício que deveria fazer parte integrante do receituário fisioterapêutico: tanto elas, amazonas, como nós, mangas-largas marchadores, seguiríamos o tratamento com afinco.

Enurese

O menininho Sigmund Freud, ao ser repreendido pelo pai por ter feito xixi na cama, esbravejou: “Quando eu crescer, vou comprar pra você a melhor cama da cidade!”. No gênio, o mal da arrogância é pecado original; no idiota, mortal.

Questão

Quando adolescente, recebi as seguintes instruções sobre sexo: “Você vai ler um livro e tomar muito cuidado com masturbação, porque a prática  excessiva compromete o sistema nervoso central”. A conversa familiar sobre este polêmico campo da vida humana resumiu-se a isso. Pouco tempo depois, me foi entregue  A Nossa Vida Sexual, do médico ginecologista alemão Fritz Kahn (foto). A instrutiva conversa deixou marcas profundas e ultimamente tem me assombrado a seguinte questão: será que meu problema de insônia é realmente psicológico?

Vozes

Este instrumento tem os mecanismos de um cravo, mas a acústica de um alaúde. Daí o nome cravo-alaúde; considerado o instrumento perdido da música barroca. Entre os oito cravos listados no espólio do grande Johann Sebastian Bach, havia um deste tipo. Embora as peças do catálogo oficial de Bach BWV995-998, 1006a, entre outras, indiquem o alaúde como instrumentação, alguns acreditam que foram compostas, na verdade, para o cravo-alaúde. No frigir dos ovos, são vozes diferentes que cantam a beleza divina, inerente a essas peças.

Bem-aventurados

O sempre inspirado psiquiatra alemão Georg Groddeck, no seu O Livro dIsso, conclui que o segundo mandamento do Novo Testamento “…Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12,31) é a revelação de que o narcisismo, para o cristão, não é pecado, mas uma base de comparação. Então, bem-aventurados nós, os ensimesmados.

Constatação

Eu ouvia Beatles quando ouvi falar de Smiths. Como minhas ideias fixas eram bem mais acentuadas naquela época, não houve espaço para o grupo de Manchester. Descobri mais tarde, quando o grupo já havia se separado, o álbum The Queen Is Dead e constatei a existência de vida inteligente no Rock, além de Lennon & McCartney. Abaixo, as notas são minhas: adoro fazer isso.

Minha Resposta

Uma das personagens do livro Trópico de Câncer, de Henry Miller, pergunta: “Existe algo mais perfeito do que O Eterno Marido, de Dostoiévski?”. Minha resposta: “Até agora, não!”.

Cosseno

Voltando a falar de forma e conteúdo, não consigo enxergar o significado da expressão à esquerda antes da sua beleza estética. A forma da linguagem vem primeiro, depois seu conteúdo: a soma dos infinitos valores da função cosseno avalidada entre 0 e π/2. Mais interessante do que uma soma com infinitos termos resultar o valor finito 1 é a maneira pela qual ela é expressa. Matemática é antes forma e depois conteúdo.

Primeiro

Isso sempre acontece: quando começo algo, preocupo-me primeiro com a forma e depois com o  conteúdo.  A tendência é esgotá-la, cansar-me dela, e aí arranjar disposição para tratar dele. Fazer ambos caminharem juntos é difícil. Por isso, neste primeiro post, não tenho muito a dizer além de “Olá!”.