Opiniões

FreudHá uma importante informação que o Extrato omitiu num post anterior, no qual divulga o trabalho intitulado A Mente Deformável: ele foi apresentado também como parte do processo avaliativo de um curso no qual este perturbado blogueiro esteve matriculado ao longo deste ano – eis uma das razões de por que o Extrato não foi muito abastecido em 2015. Tendo sido efusivamente enaltecido por seu avaliador, A Mente Deformável pediu, ou melhor, exigiu uma complementação; que também foi requerida explicitamente pelo próprio avaliador. Inflado por esse raro elogio a um produto seu, esta minha mente perturbada resolveu prontamente atender à tal requisição e tratou de apresentar a dita continuação como parte de um novo ciclo avaliativo do curso. Ocorreu que o segundo avaliador, diferente do primeiro, incomodou-se com o caráter propositivo da continuação, sem falar em sua notória impaciência para retornar ao primeiro trabalho e coletar os conceitos fundamentais que no segundo foram livre e abundantemente utilizados. O resultado foi um conjunto significativo de problemas levantados e uma avaliação mediana. Devo confessar que nesses dois eventos, tive a rara oportunidade de poder refletir e mesclar opiniões antagônicas num contexto praticamente idêntico, dada a similaridade dos trabalhos: um é a simples continuação do outro. Descartados os extremos, a euforia do primeiro avaliador e o preconceito do segundo, pude decidir com maior convicção pela continuidade futura das irreverentes ideias propositivas que me aventurei a colocar no papel, levando em conta os efetivos pontos de melhoria levantados pelos eminentes professores. Apresento então aqui no Extrato, no menu “Trabalhos”, “Psicanálise”, “Artigos Ingênuos” o texto intitulado Topografia da Mente Deformável, a necessária continuação do primeiro. Agradeço, desde já, eventuais comentários dos interessados.

Distância

sigmund-freudCreio que seria de bom tom e uma demonstração de respeito aos pouquíssimos leitores deste blog justificar a longa ausência de seu autor. Ocorreu que, sob o domínio da avidez peculiar à esta minha mente perturbada, estive imerso em extensos estudos psicanalíticos após adquirir, com certo esforço econômico-financeiro, a coleção completa do turrão Sigmund Freud. Confesso que foi bastante laborioso o processo de seleção que estabeleci para eleger a melhor versão – que satisfizesse meus peculiares parâmetros – do estilo simples e ao mesmo tempo refinado do pai da Psicanálise. A primeira e portanto clássica edição brasileira das obras, publicadas pela editora carioca Imago, eu descartei de imediato por se tratar de uma tradução para o Português – tradução abundante em equívocos crassos e impropriedades – do texto em inglês vertido do alemão pelo eminente tradutor britânico James Strachey e sua equipe. Pensei então em colocar meu inglês rústico à prova comprometendo-me com o desafio de ler a famosa Standard Edition de Strachey. Antes porém, procedi à seguinte estratégia: desconhecedor total e absoluto que sou do Alemão, tomei diversos excertos originais nesse idioma submetendo-os à canhestra tradução do Google Translator,  e depois comparei os resultados com as respectivas traduções presentes na Standard Edition. A intenção era avaliar se a distância da tradução em relação à versão literal é aquela necessária apenas para tornar o texto compreensível na língua destino. Constatei estupefato que a nobre Standard Edition inglesa é uma obra não-livremente inspirada, mas ainda assim inspirada, nos escritos de Freud: a distância entre o literal e o traduzido é tamanha que me atrevo a qualificar o trabalho de Strachey como uma adaptação. Entretanto, dessa adaptação aproveitam-se os textos introdutórios e as notas do tradutor, que apresentam inúmeras referências cruzadas, importantíssimas para um estudante bisonho como eu. Adotando um nível de exigência bem mais elevado que minhas pretensões, terminei por descartar também a versão inglesa e passei a avaliar a incompleta versão da famosa editora brasileira Companhia das Letras. Liderada pelo germanista Paulo César de Souza, o texto freudiano dessa nova versão vem traduzido direto do Alemão; e muito bem traduzido, por sinal. O mesmo exercício que fiz para a edição Standard inglesa, fiz para a tradução do citado germanista, e acabei observando uma distância bastante pequena entre o literal e o traduzido. No entanto, ocorreu que além de ser uma obra em construção, a coleção da Companhia das Letras decidiu, por alguma razão, desconsiderar a valiosa contribuição de Strachey; algo que nem mesmo as editoras alemãs fizeram: elas incluem em suas edições, já há algum tempo, os textos informativos do tradutor inglês. Assim, restou-me como última opção a versão em castelhano da editora Amorrortu, traduzida direto do alemão, ao longo de quatro anos, pelo filósofo argentino José Luis Etcheverry (1942-2000). Nesse trabalho, a distância entre o literal e o traduzido é um pouco maior quando comparada com a da versão de Paulo César de Souza, mas ainda assim absolutamente aceitável. Ademais, a editora Amorrortu designou tradutores específicos para trabalhar em verter do inglês o texto de Strachey, harmonizando-o com a tradução de Etcheverry, de tal sorte que o trabalho como um todo resultou primoroso. Encomendada da livraria argentina Paidos, ainda com o dólar na saudosa cotação de R$2,50, a coleção com os vinte e cinco volumes das Obras Completas de Sigmund Freud chegou após sete longos dias de espera, quando imediatamente comecei a selecionar os textos para meus estudos. Deles resultou um pequeno e pretensioso artigo intitulado A Mente Deformável que já está disponível no menu Psicanálise, submenu Artigos Ingênuos. Aguardo os tão almejados comentários e contribuições dos eventuais interessados.

Tortura

narcDevo dizer que não é muito fácil para nós narcisistas – daquela espécie que se considera, além de belo e magnânimo, uma profícua fonte de inspiração para toda a humanidade -, revelar, sem o mais leve traço de constrangimento, as verdadeiras fontes do nosso insípido saber, de nossas parcas habilidades; problemas constrangedores que procuramos encobrir deliberadamente com uma aura de autenticidade. Assim, dissimulando heroicamente o que é de fato mera reprodução, procuramos impressionar os de espírito influenciável ou então, pelo menos, intelectos mais modestos. Dentre as pessoas que elegemos como vítimas, há sempre aquelas que nos contrariam, quando não se deixam iludir por nossas qualidades fabricadas, por nosso assédio eloquente, formatado num discurso sofisticado e numa considerável dose de auto suficiência; faculdade indispensável aos que dispõem do comportamento narcisístico como recurso para amenizar suas enormes dificuldades no campo afetivo. O narcisismo, após proporcionar os primeiros prazeres a quem o pratica eficientemente, entranha-se de maneira indelével até as camadas mais profundas do aparato psíquico e ali se instala em caráter permanente. Nesse estado, as frustrações deixam de ser fenômenos típicos da vida humana e se tornam ameaças de um mundo hostil, arquitetado para destruir esta estrutura ímpar e maravilhosa que é o ego narcisista. Essa sensível intolerância aos dissabores que rotineiramente assolam as pessoas, aliada a uma pungente necessidade de aprovação, torna a vida do narcisista, na maioria das vezes, um constante desafio, uma batalha ininterrupta. Assim, para nós, a arte de viver significa, em última instância, guerrear: nesse combate, nossos melhores aliados são aqueles que nos admiram, que acreditam em nossos disparates; nossos piores oponentes são justamente outros narcisistas. Sim, pensando e agindo apenas em causa própria, é impossível aos narcisistas estruturarem-se em qualquer espécie de comunidade, uma vez que o fundamental num agrupamento uno de seres humanos, onde impera a colaboração, é o reconhecimento do outro como uma entidade dotada de valor intrínseco, liberdade e autonomia. Em nossa visão distorcida, esse outro divide-se em dois tipos apenas: os que nos adulam e os que nos ofendem; em outras palavras, todo aquele que não está a meu favor, está contra mim; se não é meu amigo, é meu inimigo. Conviver, então, transforma-se em algo bastante extenuante ou, em termos mais modernos, estressante: se estamos numa guerra, se a qualquer momento iremos encontrar a figura de um adversário ou a de um aliado, precisamos estar constantemente preparados para defender e atacar; algo que exige um nível mínimo de adrenalina na corrente sanguínea, um mínimo de tensão no sistema nervoso. Imersos nesse ambiente adverso, perturbados por esse estado de alerta, alguns narcisistas sucumbem; em particular, aqueles psicologicamente mais frágeis, para os quais a perene atmosfera de conflito e a profunda ansiedade que os acomete significam tortura. Para esses derrotados, a grave crise que os assaltou, que os derrubou, é uma excelente oportunidade para lançar um novo olhar para si mesmo, agora com olhos menos fantasiosos, mais sinceros, buscando o autoconhecimento, a auto responsabilidade, a tolerância para consigo.  A esses prisioneiros da vida ficcional que fabricaram resta tomar ciência – com ajuda profissional, se preciso for – da realidade, das idiossincrasias genuínas da natureza humana.

1 x 7

alemanha Certa vez alguém muito importante me disse que o psicanalista francês Jacques Lacan interrompia imediatamente a sessão quando seu paciente, de alguma forma, alcançava o tão almejado insight; espécie de clarividência que o indivíduo logra por si só, não com total autonomia, pois esse momento de lucidez repentina é também influenciado pelas circunstâncias externas, seja por um bom trabalho psicológico ou algum evento singular, que não se dá necessariamente no consultório de um analista. Assim, o fenômeno do insight não é privilégio de analisandos, mas de todo aquele que, num dado instante, se percebe desvelado. No caso de seus pacientes, Lacan pedia a eles que voltassem para casa a fim de ruminar, de refletir sobre o fato recém descoberto, avaliando sua importância na busca do tão almejado autoconhecimento. Não é de se esperar que tais tipos de revelações sejam sempre prazerosas; algumas delas podem ensejar na pessoa manifestações de rejeição, ansiedade, ódio, medo, entre outras. No dia de ontem, 8 de julho de 2014, milhões de brasileiros assistiram estupefatos a um insight coletivo da jovem seleção brasileira de futebol, e também de seu treinador (não tão jovem assim), manifestado num contundente ataque de pânico; evento que provoca as mais diferentes reações extremadas: entre elas, a paralisia. Aos vinte e três minutos do primeiro tempo da semifinal Brasil e Alemanha pela Copa do Mundo de futebol, quando os excelentes futebolistas germânicos marcaram seu segundo gol, o time brasileiro ficou entorpecido ao conseguir enxergar, ao constatar de forma inequívoca sua enorme debilidade técnica; debilidade essa que os resultados positivos conseguidos aos trancos e barrancos ao longo da competição haviam ajudado a acobertar, a esconder do público menos observador e também da própria equipe. Os três gols alemães que se sucederam, dos vinte e quatro aos vinte e nove minutos, demonstraram o caráter traumático que assumiu a tal paralisia, pois até mesmo a fraca estrutura tática que apresentara nos outros jogos o time perdeu. E perdeu porque também ficou evidente para todos, até para o mais distraído dos espectadores, a absoluta fragilidade emocional de nossos púberes jogadores que, como tais, passaram a apresentar um autêntico futebol de juvenis: ingênuo e canhestro. Derrotada de forma surpreendente e vexatória (Brasil 1 x Alemanha 7), num verdadeiro jogo-treino para seu adversário, esta bisonha seleção brasileira conseguiu algo que parecia impossível: finalmente, a sempre rancorosa torcida brasileira deixará em paz os agora valorosos vice-campeões de 1950. Segundo o Dr. Sigmund Freud, quando um evento traumático não afeta o que se denomina estrutura nuclear do carácter, há chances reais de que o trauma seja superado, supondo-se um paciente adequadamente orientado. Diante dessa hipótese – eu diria, animadora, por conta das trágicas circunstâncias -, acredito, sem muita convicção, que ainda reste algum fiapo de esperança à esta traumatizada seleção brasileira de futebol na sua dificílima busca por um insípido terceiro lugar, seja qual for o adversário; tal busca será muito difícil pois a equipe precisará superar a si própria.

Criador

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Das pessoas mais próximas a mim, há algumas que se auto intitulam “ateus” e suspeito que ainda devam existir outras que dificilmente se disporão a fazê-lo, protegendo-se num discreto silêncio. Admiro profundamente a coragem das primeiras, pois ao falarem de sua descrença em Deus, envoltas numa evidente consternação, num visível embaraço, revelam – na maioria das vezes, inadvertidamente – o mais recôndito, o mais íntimo de si mesmas. Após muito chafurdar em minhas leituras psicanalíticas, descobri que esse tal embaraço do descrente não resulta apenas do receio de se colocar num grupo minoritário, sob o risco real de sofrer alguma espécie de preconceito, de julgamento, de repúdio pela maioria religiosa. Tenho para mim que o homem é, por natureza, um ser adorador: quando pequenino, adora a mãe; ao tomar plena consciência de sua individualidade física, passa a adorar a si próprio e assim, ao longo de sua vida, cumula-se de ídolos, desses objetos materiais ou imateriais que incessantemente venera. Nesse contexto, porque rejeita a concepção de um ídolo-criador, onisciente e onipresente, ou seja, de Deus, não se pode afirmar que o ateu não seja um idólatra: tal qual o crente, ele também elege para si um inumerável conjunto de ídolos particulares. Se ateus e crentes são igualmente adoradores natos, por que discordam em relação à existência de Deus? Acredito que a ideia desse ídolo-criador está intimamente relacionada com a figura materna, com aquela que cria e nutre. A crença em Deus é um desdobramento do processo de relacionamento com a mãe, do amor e ódio que se tem por ela: o ser humano que termina se afeiçoando pelo poder materno, crê na criação e, em determinado momento, transfere tal afeição para o poder de um Criador, tornando-se um crente. O ateu, por sua vez, decidiu se rebelar contra esse poder num dado período da vida e assim permaneceu, de tal forma que, para ele, acreditar em Deus e venerá-lo significa subjugar-se eternamente à mãe. Acredito ser mais natural que o homem estime o poder materno ao invés de repudiá-lo, porque assim estrutura todo um aparato afetivo que muito lhe ajudará no instinto inato de criar, cuidar e proteger sua prole. Portanto, a consternação de quem se denomina ateu é a consternação daquele que, mesmo de forma difusa e desintencional, revela ao mundo os problemas profundos que carrega em relação à sua figura materna. Essas minhas elucubrações nada originais tiveram origem num texto do psicanalista selvagem Georg Groddeck, um de meus ídolos. Reproduzo a seguir um pequeno trecho.

“A mãe, o amor à mãe e o ódio à mãe, tudo dá aos seres humanos, inclusive o Deus… Quem se denomina ateu ou convence os demais a chamarem-no assim, só está tentando evitar um nome, porque gostaria de negar sua infância e porque nele se enfrentam diretamente o ódio e o amor à mãe. Por querer fugir a autoridade do complexo materno, encobre esse fragmento de divindade com trapos e palavras, de modo a acreditar que não mais o vê. Tornou-se portanto parcialmente cego… Com a ajuda da psicanálise, é possível provar que quem nega friamente ou passionalmente a divindade, trava uma luta pessoal contra a mãe, algo que nada tem a ver com a sede de verdade…”

Extraído do artigo Sobre o Isso em “Estudos Psicanalíticos Sobre Psicossomática” (2011), p. 46, Editora Perspectiva,
Georg Walther  Groddeck

Sermão

montanhaCaros irmãos, gostaria de discorrer brevemente sobre o despojar-se: tema bastante recorrente não só no ideário Católico, mas também no religioso de uma forma geral. O assunto – espécie de cliché teológico – também é tratado pelas crenças orientais, sendo um dos fundamentos da doutrina budista, que prega o desapego às coisas materiais e aos prazeres mundanos em prol da pureza da alma. O Hinduísmo rejeita veementemente o apego material e o considera um entrave ao exercício da espiritualidade. Em nossa Bíblia cristã, há diversas passagens pregando a precedência da alma sobre às efemeridades da vida. Em Mateus 5,3-12, ensina-nos Cristo as nove bem-aventuranças e, logo na primeira, ele trata do assunto: “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o reino do céu”. No capítulo anterior, o evangelista escreve que o tentador, ao oferecer à Jesus poder e glória sobre todos os reinos do mundo em troca de submissão, recebe a seguinte resposta: “Vai-te, Satanás; pois está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto'”. Mais à frente, no capítulo 16, o mesmo Mateus apresenta uma exortação do Mestre aos seus discípulos: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser preservar sua vida, irá perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa, este a preservará. Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a vida?” Percebe-se, portanto, um certo nível de incompatibilidade entre espiritualidade e materialidade, no qual o ser contrapõe-se ao ter. A alma associa-se ao eterno enquanto a matéria ao perecível: “Não ajunteis tesouros na terra, onde traça e ferrugem os consomem, e os ladrões invadem e roubam; mas ajuntai tesouros no céu…” (Mt 6,19-20). Nesse contexto, a mim me parece que despojar significa libertar-se de tudo o que é passageiro, de tudo o que não é eterno. Diante da concepção de que somos formados por um corpo e uma alma, o conjunto das coisas efêmeras, no qual se incluem os construtos humanos e naturais, também abarca o corpo limitado, a carne. A busca pelo despojar-se é, em última instância, a busca pelo aprimoramento da alma, da nossa parcela que cremos ser eterna. Assim, minoramos a angústia da morte; o repúdio, o medo que ela nos causa: desapegar-se do finito é aceitá-lo. Renunciar é aprender sabiamente a morrer. Eis então que venho enaltecer a decisão de Vossa Santidade o Papa Demissionário Bento XVI; alguém que, nesses tempos de insaciáveis fome e sede de poder, abdicou, nos últimos anos de vida que lhe restam, do posto de substituto de São Pedro. Com a saúde debilitada, rejeitou a ideia de definhar em público, de ser admirado menos por suas obras e mais por sua senilidade. Perderá ainda o posto de Cardeal e voltará a ser o Bispo Joseph Aloisius Ratzinger, um fã de Mozart. Viverá recluso num convento, em meio aos livros, orando, estudando, lendo e escrevendo; ações em prol das quais vale a pena sua renúncia, pois são formas dignas, honestas de despojamento, do saber morrer.

Barney

Consegui dar boas risadas no divertido Roma Com Amor (To Rome With Love) de Woody Allen. Não sou fã ardoroso do cineasta nova-iorquino, mas alguns de seus filmes são realmente inesquecíveis para mim, principalmente os menos famosos e, dentre eles, os que me fazem sorrir. Confesso que o riso não me é difícil: algumas vezes, ele aparece quase como uma reação, um reflexo ao evento engraçado, que necessita ser apreciado; em outras, como fruto de uma débil elaboração, sensivelmente atrasado em relação ao que o estimulou. Pode acontecer também que esses dois tipos de riso se sucedam e assim, em certos casos, o fenômeno cômico se perpetua, reaparecendo como imagens projetadas por alguma região da mente ansiosa por esse tipo de prazer. Atrai-me, quase sempre, o absurdo, o grotesco, a caricatura e talvez seja por isso que algumas das histórias do filme – como a do agente funerário elevado à condição de tenor por um produtor de espetáculos não convencionais – me pareçam tão engraçadas. Ao assistir a cena do cantor de banheiro entrando no palco dentro de um box improvisado, debaixo de um chuveiro, gargalhei efusivamente e senti enorme prazer em poder reviver aquela cena inusitada. Lembrei-me imediatamente de um desenho dos Flintstones ao qual assisti ainda quando criança, cujo título em inglês é Flintstones Canaries. O episódio, apresentado ao público americano em 1963, mostra o vizinho e fiel amigo de Fred, Barney Rubble, se apresentando no palco dentro de uma banheira, já que não conseguia a mesma performance vocal fora dela, como o agente funerário de Woody Allen. De alguma forma, fico grato à essa coincidência (alguns argumentam que foi plágio), porque pude revisitar um momento alegre da infância, obscurecido por tantos outros que o sucederam ao longo dos anos. Depois de matutar sobre a similaridade das minhas reações diante dessas duas histórias também similares, tão distantes uma da outra no tempo, percebi que certos comportamentos emotivos não são adquiridos, mas gerados, como uma parte orgânica, dentro do seio materno. Porque são intrínsecos, tais comportamentos nos definem e podem até mudar um pouco com a idade, mas estarão sempre presentes, até o fim.