Helicoide

Golpe militarHá 51 anos, no dia 13 de março do conturbado ano de 1964, foi realizado um comício na estação ferroviária Central do Brasil, no Rio de Janeiro, cidade onde se localizava a capital dos outrora Estados Unidos do Brasil. Ali discursaram animadamente o governador eleito do Rio Grande do Sul Leonel Brizola e o então Presidente João Goulart para uma empolgada plateia composta por cerca de 150.000 pessoas. No evento, conhecido como Comício da Central, Goulart, eleito vice na chapa do presidente Jânio Quadros com 6 milhões de votos e alçado à presidência por conta da renúncia do titular, anunciou aos presentes aquilo que chamou de reformas de base; estratégia que, segundo ele, iria resolver as dificuldades econômicas pelas quais o país atravessava, entre elas a tão pavorosa inflação. O pacote de medidas, arquitetado pelo eminente Ministro do Planejamento Celso Furtado e outros célebres da época, incluía, dentre diversas medidas, o seguinte: reforma agrária, que promoveria a democratização da terra, expropriando áreas rurais inexploradas ou contrárias à função social da propriedade; reforma educacional, que aplicaria o Método Paulo Freire nas escolas; reforma Fiscal, que limitaria a remessa de lucros ao exterior por empresas multinacionais e criaria o imposto sobre grandes fortunas; reforma eleitoral, que promoveria a liberdade política, medida que legalizaria o Partido Comunista Brasileiro; reforma urbana, que racionalizaria o uso das áreas urbanas; reforma bancária, que ampliaria o crédito aos produtores rurais; reforma energética, que colocaria sob controle do estado as principais refinarias de petróleo do país. Seis dias após esse anúncio, no dia 19 de março, a Campanha da Mulher pela Democracia, a União Cívica Feminina, a Sociedade Rural Brasileira, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, a Igreja Católica, setores da imprensa e políticos tradicionalistas organizaram na cidade de São Paulo, com o apoio do então governador Ademar de Barros, uma manifestação intitulada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, cujo principal objetivo era rechaçar as medidas divulgadas pelo governo federal sob o argumento de que atentavam contra à moral, aos bons costumes e principalmente contra à propriedade privada; ideia que esses ímpares representantes da burguesia paulistana, porta-voz da brasileira, logo qualificaram como ameaça comunista. Segundo as estatísticas oficiais do governo estadual que apoiava o movimento, o evento reuniu cerca de 800.000 pessoas das classes média e alta, entre elas celebridades como a faceira Hebe Camargo. Contra a tal ameaça comunista, que a plutocracia paulista logo conseguiu personificar na pessoa do presidente João Goulart, discursaram nervosamente diversos políticos de direta, incluindo o patético deputado federal Plínio Salgado, nosso Hitler tupiniquim. No dia 31 de março, Goulart é deposto por um golpe militar que há muito vinha amadurecendo dentro dos quartéis, mas que, até aquele momento, não se concretizara por falta de apoio civil. Naquele ambiente de descontentamento, as camadas mais abastadas da sociedade propiciaram o vigoroso apoio que os generais amotinados precisavam; algo que constituiu o principal sustentáculo para o sucesso do golpe e da futura ditadura militar. No dia 2 de abril, novamente na cidade do Rio de Janeiro, a Assembleia de Deus, a Associação Cristã de Moços, a Associação de Pais e Mestres, a Campanha da Mulher pela Democracia, a Congregação de Belém, a Cruz Vermelha Brasileira, a Falange Patriótica, o Grupo de Ex-Combatentes da FEB, a Sociedade Cristo Redentor, a Imprensa, celebridades e outros reacionários congêneres organizaram uma nova Marcha da Família com Deus pela Liberdade, apelidada naquele dia de “Marcha da Vitória”, com o evidente objetivo de comemorar o triunfo do bem sobre o mal, o êxito da revolta militar sobre a ameaça vermelha à sacrossanta propriedade privada. A esses setores que apoiaram integralmente o golpe, pouco importava a ditadura que já mostrava seus claros contornos; era tempo de celebrar, de louvar a Deus, a retirada de Goulart e sua gangue, a limpeza feita no governo, maculado por essa gonorreia juvenil – segundo denominação do soturno Roberto Campos – chamada comunismo. Anos mais tarde, no dia 15 de março de 2015, setores ligados a imprensa, grupos de jovens de classes mais abastadas como o Movimento Brasil Livre, partidos políticos neoliberais, entidades de extrema direita, empresários, artistas globais, socialites, celebridades, entre outras coletividades do gênero organizaram manifestações simultâneas – em tempos de Internet, isso é fácil de fazer – em várias cidades do país. Na ruidosa pauta de suas reclamações, os hipócritas gritavam palavras de ordem contra a corrupção e o comunismo, os mais sinceros pediam o impeachment da presidenta Dilma Roussef, reeleita democraticamente seis meses atrás por 54 milhões de eleitores, e a saída do seu Partido dos Trabalhadores dos escalões mais altos do governo. Em diversas capitais, manifestaram-se livremente grupos organizados pró-intervencionismo militar; pessoas convencidas de que os problemas do país ainda poderão resolvidos sob a tutela da “inteligência” de generais. O que é isso afinal? Repetição pura e simples? Respondo: não, para mim isso é o ciclo histórico. A História não se repete, mas seus temas fundamentais permanecem e se apresentam, de tempos em tempos, diferentes, expandidos, intensificados. Por isso, o movimento cíclico da História não é circular, mas helicoidal. Sua trajetória temporal de eventos ascende em intensidade e amplia-se em extensão. No caso das manifestações atuais, por conta da falta de provas para justificar um impeachment da presidenta Dilma e da impossibilidade legal de se retirar um partido inteiro do poder, concluo que pouco interessa à elite manifestante e às pobres almas que ela doutrinou para fazer o devido volume nas ruas, como também pouco interessava aos retos manifestantes das marchas de 1964, qualquer tipo de estabilidade democrática; o importante é expurgar, detergir, desinfectar o governo, por algum meio, democrático ou não, de qualquer grupo que atente contra seus interesses particulares, que diminua seus privilégios, que tome o seu lugar na prática da corrupção intervencaoMilitar que assola todos os níveis do governo brasileiro há pelo menos um século. As marchas de 1964 e as que se iniciaram ontem, dia 15 de março, são manifestações do incômodo alijamento político percebido por setores que detêm o poder econômico, para os quais monarquia, democracia, ditadura ou qualquer outro regime político são válidos desde que não comprometam seus intentos velados de concentrar riqueza e poder.

Laicismo

privatariaEnvolto no pandemônio que se formou à época do lançamento do livro A Privataria Tucana, corri para a livraria a fim de tentar garantir o meu exemplar. Atiçou meus ânimos revoltosos a total indisponibilidade da obra polêmica; fato que por si só já considerei uma censura, uma ação reacionária da classe dominante. Imaginei-me então um membro do proletariado, marchando numa coluna, armado com foice e martelo, pronto para aniquilar, a qualquer custo, a burguesia opressora. Liguei diversas vezes para a maior livraria da América Latina e proferia impropérios indignados aos funcionários ao receber uma resposta negativa: “Isso é coisa do Serra!”, eu gritava. Finalmente o livro chegou e toda aquela revolta dissipou-se como que por encanto, a tal ponto que desapareceu até o interesse pela leitura daquele compêndio de “revelações bombásticas”, conforme foi propagandeado. O tempo passou e um dia desses, ao zapear no controle da TV, deparei-me com a inconfundível figura de José Serra enaltecendo sua competência como administrador público e o legado virtuoso que seu partido havia deixado para o Brasil. Após essas enfáticas palavras, invadiram-me as imagens alternadas da coluna, da marcha, da burguesia opressora, do martelo e, com mais frequência, da foice afiada. Fui da sala ao escritório num piscar de olhos e tão logo encontrei aquela obra jornalística repousando na estante, iniciei a leitura. Respaldado por uma quantidade significativa de documentos, o livro – bem escrito, por sinal – narra os meandros das intrincadas peripécias de José Serra e sua turma para enviar ao exterior e principalmente trazer de lá dinheiro de origem obscura. Entre os asseclas de Serra, atuam ativamente na quadrilha sua filha, seu genro e um espanhol que ele chama de primo. Sob a égide “intelectual” de um sujeito chamado Ricardo Sérgio de Oliveira, vulgo Mr. Big, os larápios dançaram e rolaram na era das privatizações FHCianas, após a qual todos coincidentemente ficaram mais ricos e o estado brasileiro 2,5 bilhões de reais mais pobre. Sutis como um elefante num apartamento, os ladinos deixaram enormes rastros, dada a certeza de sua impunidade: afinal de contas, durante os oito anos de tucanato no poder, o poderoso chefão foi um dos FHC Boy (terminologia do irritadiço Ciro Gomes). Segundo o livro, tais rastros podem ser facilmente detectados em cartórios, tribunais e em documentos, resultados de investigações policiais aqui e no exterior. Há também a história de como a patota liderada por Antônio Palocci (ou Palofi) sabotou a campanha de reeleição da candidata de seu próprio partido, a máscula Dilma do dissimulado PT. O autor do livro, que atende pelo nome de Amaury Ribeiro Jr., não é aquele colunista social abjeto, mas um jornalista investigativo que já trabalhou nas principais mídias impressas do país e que, atualmente, presta seus serviços na rede televisiva do polêmico Bispo Edir Macedo, cujas artimanhas sagazes certamente não serão investigadas por nenhum de seus funcionários. Após terminar minha leitura, resolvi procurar na internet alguma declaração de Amaury Jr., o roliço, e acabei encontrando uma patética entrevista concedida ao seu colega de firma, o espalhafatoso Paulo Henrique Amorim, que faz uso de sua voz fanhosa irritante para promover efusivamente o livro. Nos raros momentos em que o entrevistador deixou o entrevistado falar, pude relembrar com saudosismo o sotaque característico de um velho capataz da fazenda do meu tio que, tal qual Amaury na entrevista, tinha enormes dificuldades com a pronúncia correta de diversos vocábulos, incluindo o traiçoeiro “problema”, com todas as suas nuances fonéticas. Diante disso tudo, acorreu-me novamente, agora de forma constrangedora, a imagem do proletariado que luta contra o imperialismo, do trabalhador que combate o capitalista, do sindicalista de língua de presa que aponta o megafone para o ouvido do patrão, enfim toda essa atmosfera pseudo-revolucionária. Por alguma razão, constatei surpreso, que além de nunca ter conseguido me enquadrar no polo reacionário, também não consigo mais fazê-lo no subversivo. Percebi-me avesso a extremos e adepto ferrenho do laicismo político-ideológico; posição bastante conveniente para alguém cujo hábito de criticar é antes de tudo um imenso prazer.

Plantonista

Constituição FederalO artigo 13 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, nos seus inciso VIII e parágrafo único, reza que é uma atribuição do presidente do STF ou do seu vice-presidente atuar como plantonista durante o abundoso recesso judiciário. Assim, o presidente pop star Joaquim Barbosa – alçado, pela imprensa marrom, a novo expoente da afrodescendência nacional – não admitiu repassar ao seu suplente, após um 2012 de “cansaço e dor”, particularmente no nervo ciático, esse nobre ofício temporário de plantonista e resolveu cumprir sua atribuição regimental. De posse dessa informação, na segunda-feira, dia 17/12/2012, o roliço Procurador Roberto Gurgel retirou seu pedido, feito ao STF, para a prisão imediata dos quadrilheiros do mensalão, entre eles os deputados João Paulo Cunha, Valdemar Costa Neto e Pedro Henry: todos réus condenados na apoteótica e ainda inacabada Ação Penal 470. Se não o fizesse, acreditava haver fortíssima chance de que o pleno do STF rejeitasse o seu pleito, eivado de inconstitucionalidade, já que a Constituição instrui no seu artigo 15, inciso III, que só podem ser cassados os parlamentares que tiverem sentença condenatória transitada em julgado, condição que inviabiliza a imediata prisão dos deputados mafiosos; condição essa que Gurgel e qualquer advogado bisonho sabem, que qualquer jurista, minimamente isento, minimamente desprovido de onipotência e onisciência, não interpreta, dada a clareza do texto. Um dos votos que Gurgel acreditava ser destoante do pleno e da Carta Magna, cada vez mais violada e desprestigiada, seria o do irritadiço presidente da Suprema Corte brasileira: hipótese que se alinha com o histórico de seus posicionamentos; afinal de contas, foi justamente esse arrogante comportamento demagógico que o conduziu ao estrelato. No dia 19/12/2012, logo após o término da patética sessão na qual o STF se despediu do ano de 2012 e entrou em recesso, Gurgel reapresentou seu pedido de prisão imediata dos réus, momento em que não mais poderia ser apreciado por todos os ministros, apenas pelo plantonista. Esse, por sua vez, com o sarcasmo que lhe é peculiar, anunciou, em alto e bom som, que não exitaria em proferir uma decisão monocrática. E assim o fez, há meia hora atrás. Para minha grata surpresa, Barbosa, talvez dominado por um raro espírito filial de submissão (algo que cogito com certa incredulidade), ao negar o pedido do Procurador-Geral, frustou meus sombrios prognósticos de nova afronta à “Mater Legis”, assumindo, nesse episódio, o posto de guardião “de facto” da Constituição da República Federativa do Brasil.

Adolescente

Existem alguns temas com os quais não me relaciono como um sujeito adulto: Política é um deles. Neste estado, imaturo, vejo as coisas de forma passional, raivosa. Tal qual um torcedor corintiano, a irracionalidade me invade e meu discurso fica pobre. Eis um exemplo: hoje, vejo o poder político no Brasil polarizado, disputado por duas organizações criminosas que, para atingir seus objetivos, precisam conquistar um prostíbulo. O PT, sem líder definido no momento, pois Zé Dirceu foi oficialmente declarado criminoso, e o PSDB, liderado, por enquanto, pelo criminoso extra-oficial Zé Serra, devem brigar pelas carícias do PMDB. Das duas organizações, aquela que melhor trocar favores com as funcionárias do bordel tem praticamente garantida a presidência do país.

Plágio

A dentuça criatura não é o político e mafioso José Serra. Trata-se de Nosferatu, personagem principal do filme alemão Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens (1922), cujo roteiro é uma adaptação “samsungiana” de Drácula, de Bram Stoker. A família do escritor irlandês processou os produtores do filme e, tal qual a Apple, ganhou.

Aqui, a foto mostra que eventuais confusões entre o tucano paulista e o plágio hematófago são compreensíveis.