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Posts da categoria ‘Paternidade’

Alívio


O pai costumava andar de cueca pela casa. Certo dia, a filha pré-adolescente pergunta:
– Papai, você gostaria de ter um pinto maior?
– Filha…. Estou satisfeito com o que tenho! Afinal, consegui fabricar você e seu irmãozinho.
– Pois o meu homem vai ter um pinto bem grande.
– Filha…. Tamanho não é documento!  – alertou a mãe assustada.
– Ufa! Ainda bem! – exultou o filho caçula.

Novidades

tappt1O casal de irmãos estava animadíssimo com sua primeira viagem intercontinental: eles atravessariam o Atlântico partindo da terra do carnaval rumo à terra do fado a bordo de um Airbus A330, essa “aeronave supergigante”, segundo a empolgada avaliação do menino, o mais novo. Contribuía muito para a excitação que lhes inundava a origem lusitana da companhia aérea e não se cansavam de dizer a todo momento para quem quisesse ouvir: “Papai! Mamãe! Vocês têm razão! São estrangeiros que falam nossa língua!”. Os pais, constrangidos com aquele ruidoso e incansável entusiasmo, repreendiam-nos com veemência, mas o silêncio dos pimpolhos era apenas momentâneo. Já sobrevoavam o citado oceano, três horas após o início da viagem, quando a mãe iniciou um sono merecido e o pai observou os filhos, sentados em poltronas contíguas, deliberando freneticamente, num preocupante volume baixo, assunto que ele não conseguiu discernir. A matéria discutida pelos pequeninos não pôde ser apurada porque, naquele exato momento, o pai notou a milagrosa extinção da volumosa e impaciente fila que havia se formado em direção ao banheiro do avião; oportunidade rara para que ele pudesse proceder a um serviço cujo resultado o aliviaria de suas incômodas cólicas. Como era significativa a distância do banheiro – o oásis no qual se aliviaria – até sua poltrona, ele resolveu investigar o assunto que os dois pequenos tanto conversavam depois de sua importante empreitada. Terminada gloriosamente essa obra inenarrável, o pai, assim que sai do banheiro, vê as crianças em pé sobre suas poltronas e as ouve, daquela distância, em alto e bom som. O menino esbravejou: “Papai! Aquela história que você contou pra gente é mentira! Isso é muito feio!”. A menina completou franzindo a testa: “É mesmo, papai! Muito feio! Até agora a gente não viu nenhuma portuguesa de bigode!”.

Seu Tupi

pontingFingerNa segunda metade da saudosa e desinibida década de setenta, morávamos nós numa cidade litorânea, período em que meu pai era empregado de uma enorme repartição pública, ligada ao governo local. Em um dado momento de sua carreira, convidaram-no para assumir um posto mais alto, cujo acréscimo pecuniário era obviamente menor que o acréscimo das responsabilidades. Aceito prontamente o convite, uma vez que a situação econômico-financeira da família não era das melhores, meu pai passou a se envolver com problemas maiores e mais importantes. Certa vez, a fim de resolver um deles, ele precisou sair de sua mesa e se deslocar até um outro setor longínquo da repartição. Ainda animado pela promoção – inconteste reconhecimento de seus esforços -, ele caminhava rapidamente por um corredor extenso para diligenciar a solução do tal problema, quando reconheceu ao longe um colega que vinha em sentido contrário. À medida que se aproximavam, meu pai ia se esforçando para tentar lembrar o nome do sujeito, quando finalmente, à poucos metros de se encontrarem, ele conseguiu: chamava-se Alceu Tupinambá Neto ou Seu Tupi, para os mais próximos. Embora não tivesse muito contato com Seu Tupi, dada a distância física e organogramática dos setores respectivos, meu pai resolveu chamar o colega por sua alcunha ao cumprimentá-lo efusivamente; algo que aparentemente não incomodou Seu Tupi. Entabularam então aquele tipo de colóquio cortês, obrigatório e superficial, que versa sobre temas amenos seguido de uma rápida despedida, pois Seu Tupi também estava apressado. Quando retomou seu caminho, meu pai, visivelmente preocupado, pensou consigo: “Espero nunca encontrar Seu Tupi fora do trabalho, porque se isso acontecer e os meninos estiverem comigo, o Renato vai aprontar das suas!”. Eram duas as razões fundamentais da aflição de meu pobre pai: uma de cunho estético e outra de caráter comportamental. A primeira relacionava-se ao fato indiscutível de que a Natureza privara Seu Tupi do mais remoto traço de beleza fisionômica e, por isso, da possibilidade muitas vezes conveniente de se passar despercebido: mirrado e corcunda, com as orelhas generosas sustentando pesados óculos de míope, sua figura remetia à uma caricatura circense. Devo dizer que, desde tenra idade, tenho uma curiosidade quase incontrolável pelos assuntos ditos reservados e foi ela que me fez ouvir não muito claramente, enquanto brincava, meu pai comentar sobre Seu Tupi algo do tipo: “Ele é mais feio do que bater em mãe”. A segunda razão diz respeito à índole nada retraída de um dos meus irmãos mais novos: o “Renato” supracitado. Segundo de uma prole considerada numerosa para os padrões atuais, Renato, por suas peripécias, sempre demandou de meus pais esforços disciplinares mais enérgicos do que dispendiam com o restante dos filhos. Por alguma razão, eu sempre o admirei por isso e considero, até hoje, uma de suas obras-primas a depilação do rabo de um cachorro, que costumava perambular por nossa rua, com a lâmina de barbear do pai; que a continuou utilizando depois, sem, é claro, ter sido informado do fato. Diante da dificuldade em educar criaturinhas dessa espécie, meu pai sempre conservava o hábito de levar as maiores, meu irmão e eu, para caminhar na calçada da praia. Adorávamos esses passeios dominicais porque nos sentíamos mais soltos e a liberdade, para dois traquinas como nós, de seis e oito anos à época, significava uma tranquilidade rara e revigorante para o pai. Numa dessas tardes, após caminharmos um certo tempo, ele nos ordenou que ficássemos mais próximos dele e, à princípio, não entendemos muito bem o motivo. Ao nos aproximarmos, ele olhou severamente para o meu irmão e disse: “Você vai se comportar, ouviu? Vai se comportar!”.  Espantados com aquela repreensão gratuita, notamos que o pai observava fixamente algo mais adiante quando também voltamos nosso olhar para onde estava o dele. Imerso no ar quente que subia da calçada, uma figura inusitada apareceu: com o peito desnudo e trajando um desconcertante calção de banho, Seu Tupi caminhava em nossa direção e nos deteve a atenção desde o momento em que o vimos. Num absoluto silêncio, nós dois acompanhamos sua aproximação e também os cumprimentos inevitáveis, desses que os adultos se vêm obrigados a travar por pura e completa formalidade. Iniciaram timidamente uma conversa, quando pouco tempo depois o pai sentiu que meu irmão lhe puxava as calças com insistência. Fingindo não perceber, o pai prosseguiu com sua fala exagerada no intuito de chamar para si toda a atenção do colega, mas sem muito sucesso. Seu Tupi, incomodado com a inquietação da criança, pediu educadamente ao seu interlocutor oportunidade para que ela se pronunciasse. Meu pai tentou, a todo custo, dissuadir Seu Tupi de tal concessão, mas o colega de trabalho insistiu com veemência. Nesse momento, vi então que Renato adquirira os mesmos trejeitos de alguém hipnotizado, tal era a feição de espanto que exibia. Ele então apontou o dedo indicador para Seu Tupi e anunciou nervosamente: “Nossa, papai! Como é que pode? Ele fala! Ele fala!”.

Aniversário

balloons_and_confettiHá um ano, nascia este filho de minhas entranhas: o Extrato do Miolo. Das ideias iniciais, algumas ainda permanecem e outras tantas se agregaram. Agradeço aos leitores a atenção e o tempo que dispensaram a estes meus escritos pretensiosos. Obrigado.

Uníssono

children-with-question-markNuma rua que ladeava o cemitério da cidade, passavam de carro o pai com o casal de filhos, quando o menino perguntou:
– Papai, quando a gente morre e enterram, o que acontece com o corpo?
– Uns bichos que vivem no fundo da terra comem a carne e os ossos que sobram, depois de muito tempo, viram pó.
– Todo dia alguém morre, papai? – perguntou a menina assustada.
– A cada minuto muitas e muitas pessoas morrem, minha filha.
– Mas também muitas pessoas nascem. Não é, papai? – perguntou ansiosamente o menino a fim de amenizar a crueza da conversa.
– Correto, meu filho. Isso também é verdade. Sabia que nascem mais pessoas do que morrem?
– Sério? – perguntou a menina.
– Sim.
– Ufa!! – proferiu o menino aliviado. Depois de alguns segundos, ele retomou com nova pergunta:
– E de onde viemos?
– Dos macacos há muito…
– Isso a gente já sabe! – interpelou a menina – Ele tá perguntando como que a gente foi criado, como que a gente se formou.
– Isso! – confirmou o menino – Tô perguntando como é que a gente nasce.
– Vocês nasceram da mamãe! – tentou escapulir o pai.
– Não, papai!!! – disseram os dois em uníssono.
– Você não entende não, seu bobo? – ralhou o menino – A gente quer saber como é que a gente foi criado, como é que a mamãe ficou grávida. Captou?
– Captei. – disse resignadamente o pai – Foi assim: o papai colocou uma sementinha dele para se juntar com uma sementinha da mamãe, e a partir daí cada um de vocês se formaram.
– Papai, e de onde vocês tiraram essas sementinhas? Em que lugar elas se encontraram? – perguntou, intrigado, o menino.
– Olha, já estamos chegando em casa! Depois a gente continua essa conversa. – disse o pai visivelmente incomodado.
– Papai, por que você não quer mais conversar? Por acaso essas sementinhas tem alguma coisa a ver com a vagina? – perguntou a menina.
– Tem.
– Eu sabia! – gritou ela animadamente.
– Papai, também tem a ver com o pinto? – perguntou o menino, enciumado.
– Sim, gente, tem a ver com o pinto e com a vagina. – respondeu nervosamente o pai em tom conclusivo. Incansáveis e novamente em uníssono, começaram:
– Papai, e como foi que você colocou…
– Assunto encerrado!!!

Namoradinha

maosdadas– Papai, eu estou namorando. – disse o menino de sete anos.
– Nossa! Quem é ela, meu filho? – perguntou o pai assustado.
– Uma menina lá da minha sala.
– Ela é bonita?
– Não, papai. Ela é linda!
– Qual o nome dessa namorada tão linda?
– É Júlia.
– Bonito nome! Mas, diz pra mim: como é esse namoro?
– A gente fica de mãos dadas o tempo todo.
– Ah…Que bom! Parabéns pela sua primeira namoradinha, meu filho!
– Primeira? Mês passado eu tava com a Camila.

Troca

menorahApós assistir a um filme sobre a paixão de Cristo, o menino judeu pergunta:
– Papai, Jesus era um dos nossos?
– Sim, meu filho.
– Quem eram aqueles homens que trocaram ele por um ladrão? Palestinos?
– Não, meu filho. Eles eram dos nossos também.
– Por que fizeram isso?
– Não sei, mas Jesus disse que era preciso que fosse crucificado.
– Para quê?
– Para que acreditassem nele.
– E funcionou?
– Sem dúvida! Daí surgiram os cristãos.
– Então nós ajudamos a criar o Cristianismo?
– De uma certa forma, sim.
– Nossa!!
– Como se sente?
– Orgulhoso!

Dever de casa

camaraAo chegar em casa, o pai vê no telefone o registro de uma ligação para um número desconhecido. De lá do escritório, pergunta:
– Quem foi que usou o telefone?
– Fui eu, papai. – responde a filha de nove anos.
– Que número é este que você ligou?
– Liguei para a Câmara dos Deputados.
– Para quê? – pergunta o pai surpreso e indignado.
– Eu li nessa cartilha aqui que ligando pra esse telefone a gente pode sugerir leis. – argumenta a filha, mostrando ao pai a página com os contatos da casa legislativa.
– Que lei você quer que eles façam?
– Uma lei proibindo o dever de casa. – diz a menina, franzindo a testa.
– E o que eles te disseram?
– Eu não consegui falar.
– O que aconteceu?
– Apareceu a voz de uma moça dizendo umas informações. Papai, pelo que ela disse, eles só trabalham 3 dias na semana. É verdade?
– Isso mesmo…Tá chateada?
– Vou ter que mudar minha sugestão, mas fiquei animada!
– Animada? Por quê?
– Não vou pedir pra proibir todos os dias; só de quarta até sexta. Assim eles vão aceitar!

A letter to Lance

(Versão em Português)

Dear Lance,

Around here, among the people to whom I use to chat, there’s this man called Machado. One of these days, I revealed to him the anxiety that grieves me when I think of the uncertainty about my destiny, when I wander through the pathways of this place, this strange and pleasant place, lovely and inscrutable, calm and mysterious. My caring confidant argued that it’s useless to try to unveil the mystery, this two-sided structure, where life and death cohabit.
– We were once on that side, now we are on the other. – he said.
– And then? What will happen to me on this side? – I asked.
– Did you have an answer for this question when you were there?
– I knew about death only.
– Well, here they decided to take this kind of certainty from us.
I must confess that these conversations brought me a little confort and patience for the long hours of waiting. When I’m not with him, I’m alone, crestfallen, sorely reflecting about the winding road I’ve chosen to track on my first stage, on the first side of the mystery, according to my friend.
For some reason I truly don’t know, I have acquired in this place a sort of discernment about myself, about the way that I usually relate to the world around me. Although this new feature have made me conscious of my limitations, typical limitations of people who lay down eyes only on themselves, it is still very hard to be at peace with myself. From this constant uneasiness, honest regrets have emerged, not the kind of regrets that smother us, that impel us to desperately ask for apologies, but regrets that made me look back e see that, even though I was dominated by a sad ignorance, I could have behaved differently, I could have heard that inner voice suggesting me another way, another destiny; the same voice that, nowadays, accuses me. Concerning to you, to the tiny period of time we’ve lived together, there is this sense of loss, of having valued the ephemeral, of having despised a true love, of having spent a useless time thinking about myself, deaf and blind to reality, damning the unexpected position of father. To my pleasant surprise, in this very place, quite differente from the conceived usual images of heaven and hell, I have experienced all this pain in a very smooth and kind way. My friend Machado called this reaction of mine as maturity. He assured me that I was ready for a next step: he gave a pencil, an eraser, two sheets of white paper and no restrictions. “It would be good if you wrote him a letter”, my friend said.
Lance, it is not my intention to try to change your opinion about me: first, because I believe you’re right and second, because in my stunned mind there’s still a significant amount of pride. I’d like to reveal my impressions about what’s been happening to you during these last months. A brutal difference between my world and yours is that we, this legion of rambler souls, can watch for brief moments what happens on the oher side. I’ll start by telling you how fatherly proud I became after watching the interview, specially when you talked about the reasons that motivated you to be interviewed. I think of your tremendous courage to reveal your dark side – a side that we all have – to that shrewd interviewer who despised almost every word you said. I think of the terrible anguish you might have felt when you realized that you had crossed borders, that you had cynically disqualified the honesty of your accusers and token advantage of the naivety of your defensors. I think of the trouble you had in preserving those people you hurt and, at the sime time, to open yourself widely in front of a TV camera to that morality paladin. I think of your sincerity when you talked about the impulses that led you to a self-destruction behavior, that they are still present, against which you’ve been fighting, on an analyst’s couch, and trying to tame them. I think of the joy that you feel for your job, of your wish to find a new sense to it and to compete again, honestly.  I think of how hard you are on yourself: there was this moment when you classified as egoistical your intention to take advantage of the interview to get your job back, to express your revolt against what you called a “death penalty”. There is egotism in this interest as much as there is egotism in asking for apologies: man is egoistic, he sees himself first and then the others. We are used to label, to frame, to define people and things, because somebody somewhere once thought that it was easier to analyze groups instead of individuals. Indoctrinated in this confortable attitude, we lose the perception that each one is one e we spend most of the time trying to classify other people: some of us, like your interviewer, do it professionally.
Lance, please, let me be daring: allow me to defend you. You don’t need it, I know, beacuse you’ve became extremely courageous: a characteristic that you did not inherite from my DNA. In this rare opportunity that was given to me, I need to egotistically take, at least once, a paternal attitude. As the liar cyclist is already being adequately sacrificed, I want to defend Lance the human being, wishful of reparation, of asking for apologies. I want to defend Lance the working man, father of five, husband, cancer survivor, the lonely son, fatherless, fatherless, fatherless…Let me talk about the hypocrisy of the “American Way of Life”, of the cheap and pernicious moralism that pervades the so called american public opinion, which the famous host Oprah Winfrey is one of its mouths, one of its icons. Always noisy and hysterical, the audience of your interviewer is always thirsty for a show, for a spectacle, for a circus of horrors, if possible, in which the beauty and the beast dance, also the saint and the profaine, the gooddy and the baddy, the jerk and the humanitarian. She needs to see you and the world through this binary vision that divides everything in right or wrong, good or bad, beacuse, this way, any history becomes more understandable, more palatable to the mob. When the wily interviewer repeatedly criticized your back cynicism exhibiting old interviews, she barely could hide her own cynicism, undoubtedly clear in her face, in her grimace of distrust. But it is not only about this oportunistic hypocrisy that I want to defend you from: the american society, with its strange sense of justice, that points you the finger is the same society that refuses to sign international protocols for the reduction of toxic emission, is the same society responsible for this economic world crisis, is the same society that usurps autonomous countries, that makes and finances wars, that supports millitary coups, that tolerates indiscriminant gun sales. Why this very society that astonishedly accepted the government outright lies for invading Iraq does not understand your lies? Why did this society decide to banish again a fatherless that desperately needed, at any cost, to prove to some father figure that he could win, that he could be an autonomous person, wealthy, suscessfull? Why? Because you frustrated the collective narcisism, Lance. You frustrated the infallibility of the north-american man: this naive conception that deceives us since we were kids. You revealed yourself a human being, fragile, made of flesh and blood; a reality that your idolaters were not prepared for. In this concrete form, I see you more clearly, I feel you more adult, more concious of your self and the reality of the world.
Here, while I’m writing, I sense the vibration, the traffic of all these desperate beings, this shapeless bodies searching the inconceivable, this opaque eyes exploring the void, hopeful for concrete news, for a tiny little trace of certainty about their destiny. I must say that I’m a little more calm to face all this doudts: we truly believed that, in this pleasant place, they would give us peace, but I begin to realize that things do not function here this way. I guess we’ll begin a new process, slow and dificult, which we don’t have any clue about. When I think of this anxiety that infects us, I remember the advice they gave you: “Truth will set you free”. What truth is that, Lance? Where is it? I can’t find an answer and also nobody else here. What we have here, what we get in this new world is the ability to deprive a little more from ourselves, to understand a little more accurately what sorrounds us: the immaterial and the concrete. Yes, Lance, I thank them for not taking the matter away from this new universe, this touchable mass, limited in time and space. That’s why we still can exchange greetings, still can hug each other, kiss each other. They also did not deprive us from the use of objects: they are everywhere, at our disposal. Some days ago, I rode a fast bike and dreamt of you.

Eddie Gunderson
(1953-2012)

Uma carta ao Lance

(English Version)

Querido Lance,

Entre as pessoas com as quais eu costumo conversar aqui, há um tal Machado. Outro dia, revelei a ele a ansiedade que me aflige quando penso na incerteza do meu destino, quando vagueio pelos caminhos desse lugar estranho e agradável, belo e incompreensível, calmo e misterioso. Meu atencioso confidente argumentou que é inútil tentar desvendar o mistério, essa estrutura de duas faces, onde coabitam vida e morte.
– Estivemos de um lado, agora estamos do outro. – disse ele.
– E então? O que vai acontecer comigo nesse lado? – perguntei.
– Você tinha essa resposta quando estava lá?
– Eu só sabia da morte.
– Pois aqui nos retiraram até essa certeza.
Devo confessar que tais conversas me trouxeram um pouco de conforto e paciência para essas longas horas de espera. Quando não estou com ele, caminho sozinho, cabisbaixo, refletindo intensamente sobre a estrada tortuosa que trilhei na minha primeira etapa, no primeiro lado do mistério, segundo o meu amigo. Por algum motivo que sinceramente desconheço, adquiri nesse lugar uma certa clarividência sobre mim, sobre a forma como costumo me relacionar com o que está ao redor. Embora essa nova característica tenha me colocado a par das minhas limitações, próprias de alguém que olha apenas para si, ainda me é difícil ficar em paz comigo mesmo. Dessa inquietude, nasceram arrependimentos sinceros, não daqueles que sufocam, que nos obrigam a pedir desculpas desesperadamente, mas que me fizeram olhar para trás e enxergar que, mesmo dominado por aquela triste ignorância, eu poderia ter agido diferente, poderia ter dado ouvidos à voz interior que me sugeria um outro rumo, um outro destino e que, hoje, me acusa. Em relação a você, ao pequeníssimo tempo que vivemos juntos, há muito desse incômodo sentimento de perda, de ter valorado o efêmero, de ter desprezado o amor sincero, de ter passado mais tempo comigo mesmo, cego e surdo à realidade, blasfemando contra a inesperada condição de pai. Para a minha grata surpresa, nesse lugar bastante diferente do paraíso e do inferno que concebemos em vida, tenho vivenciado essa dor de uma maneira tranquila e compreensiva; algo que meu amigo Machado qualificou como maturidade. Ele me assegurou que eu estava pronto para aquilo que viria: deu-me um lápis, uma borracha e duas folhas brancas, sem pauta, sem restrições. “Seria bom que escrevesse para ele”, disse o meu amigo.
Lance, não é minha intenção tentar mudar sua opinião a meu respeito: primeiro, porque acredito que esteja correta e, segundo, porque ainda age nessa minha mente atordoada uma significativa quantidade de orgulho. Gostaria apenas de revelar minhas impressões sobre o que tem acontecido com você nesses últimos meses. Uma diferença brutal entre o meu mundo e o seu é a possibilidade de podermos assistir, eu e essa legião de almas andarilhas, por breves momentos, o que acontece aí do outro lado. Vou começar dizendo do enorme orgulho paternal que me invadiu quando assisti a entrevista, e em especial a motivação para tê-la concedido. Penso na enorme coragem que teve para revelar a sua face sombria, própria de todos nós, àquela astuta entrevistadora, que menosprezou quase tudo que você disse. Penso na angústia que lhe acometeu ao perceber que invadira espaços, que ultrapassara fronteiras, que desqualificara cinicamente a honestidade de seus acusadores, que se aproveitara, de uma maneira vil, da inocência de seus defensores. Penso na sua dificuldade em preservar quem feriu e ao mesmo tempo escancarar-se, diante de uma câmera de TV, à paladina dos bons costumes. Penso na sua sinceridade ao dizer dos impulsos que lhe fizeram tomar rumos auto-destrutivos, de que eles ainda estão presentes, contra os quais você vem travando, no divã de um analista, incessante batalha para tentar domá-los. Penso no prazer que tem pela sua profissão, na ânsia de dar um novo sentido a ela, voltando a competir honestamente. Penso em como ainda é duro consigo mesmo: marcou-me o momento no qual qualificou egoísta sua intenção de se valer da entrevista também para tentar retornar ao trabalho, para exprimir sua indignação contra ao que chamou apropriadamente de “pena de morte”. Há egoísmo nesse interesse tanto quanto há na sua vontade de pedir perdão: o ser humano é egoísta; pensa primeiro em si e depois nos outros; somos assim. Temos o hábito de rotular, de enquadrar, de definir, simplificar tanto coisas quanto pessoas, porque alguém, um dia, julgou mais fácil analisar grupos do que indivíduos. Doutrinados nessa atitude cômoda ao longo da vida, não temos a percepção de que cada um é único e passamos, na maior parte do tempo, a qualificar os outros: alguns, como a sua entrevistadora, o fazem de maneira profissional.
Permita-me então, Lance, um atrevimento, uma ousadia: permita-me defendê-lo. Você não precisa, eu sei, pois se tornou alguém extramente corajoso; uma característica que não recebeu do meu DNA. Nessa rara oportunidade que me foi concedida, preciso tomar, também egoisticamente, ao menos uma vez, uma atitude paterna. Como o ciclista mentiroso já está sendo adequadamente imolado, quero defender o Lance ser-humano, desejoso de reparar, de pedir perdão, defender o homem trabalhador, pai de cinco filhos, marido, sobrevivente do câncer, filho solitário, órfão de pai, órfão de pai, órfão de pai… Permita-me dizer da hipocrisia do “American Way of Life”, do moralismo barato e pernicioso que impera naquilo que se chama opinião pública norte-americana, da qual a afamada apresentadora Oprah Winfrey é um dos seus porta-vozes, um dos seus ícones. Sempre ruidosa e histérica, a plateia dessa que te entrevistou espera assistir a um show, a um espetáculo, se possível a um circo de horrores, no qual saracoteiam o belo e o bizarro, o santo e o profano, o mocinho e o bandido, o canalha e o humanitário. Ela precisa ver você, precisa ver o mundo por essa ótica binária, que o divide em certo e errado, em bons e maus, porque assim qualquer história fica mais compreensível e palatável à plebe. A ardilosa entrevistadora, ao criticar reiteradamente o cinismo do entrevistado exibindo antigas entrevistas, não conseguiu esconder o seu próprio cinismo, o que estampava nas suas feições, em seus trejeitos sempre desconfiados. Mas não é apenas dessa hipocrisia oportunista que desejo lhe defender:  a sociedade que te aponta o dedo, dotada de um canhestro senso de justiça, é a mesma que se recusa a assinar protocolos de redução de gases tóxicos, é a mesma responsável pela enorme crise econômica mundial que se instalou, é a mesma que usurpa países autônomos, que faz e financia guerras, que apoia golpes de estado, que tolera a venda indiscriminada de armas. Por que essa sociedade, que aceitou atônita e boquiaberta as mentiras deslavadas do governo para a invasão do Iraque, resolve virar-lhe as costas por conta de suas mentiras? Por que ela decidiu banir para sempre de sua profissão um órfão que precisava desesperadamente mostrar à alguma figura paterna que podia, sem ela e a qualquer custo,  vencer, que podia ser alguém  autônomo, independente, bem sucedido? Por quê? Porque você frustrou o narcisismo coletivo, Lance. Você frustrou a infalibilidade do homem norte-americano: essa triste concepção que ilude nossas mentes desde muito cedo. Você se revelou um ser humano, frágil, de carne e osso; algo para o qual os seus idólatras não estavam preparados. Assim, concreto, vejo você mais claramente e te percebo mais adulto, mais consciente de si próprio e da realidade do mundo.
Aqui, enquanto escrevo, percebo a vibração, o tráfego de seres desesperados, desses corpos disformes procurando o inconcebível, desses olhos opacos perscrutando o vazio, esperançosos por notícias concretas, por um mísero fiapo de certeza a respeito do destino. Devo dizer que estou um pouco mais sereno para lidar com todas essas dúvidas: acreditávamos piamente que, nesse ambiente aprazível, nos seria concedida a paz, mas começo a crer que não é bem assim que as coisas funcionam por aqui: acho que iniciaremos um novo processo, lento e difícil, do qual dispomos de pouquíssimas informações. Pensando nessa angústia que nos contamina, lembro-me do conselho que lhe deram: “A verdade vos libertará”. Que verdade é essa, Lance? Onde está ela?  Não consigo encontrar resposta para essa pergunta e ninguém a tem por aqui. O que temos, o que ganhamos foi um pouco mais de despojamento de nós mesmos, uma percepção um pouco mais aguçada do que está à nossa volta, do imaterial e do concreto. Sim, Lance, agradeço por não terem retirado desse novo universo a matéria, essa massa palpável, limitada no tempo e no espaço. Por isso, continuamos nos cumprimentando, nos abraçando, nos beijando. Também não nos privaram dos objetos: eles estão por toda parte, à nossa disposição. Um dia desses, andei numa bike veloz e sonhei contigo.

Eddie Gunderson
(1953-2012)

Ingratidão

B-52

Ao terminar um curso de verão em Seattle, promovido pela Unidade de Dinâmica Estrutural (UDE) da Boeing, o aluno Ray William Clough estava bastante decepcionado: o modelo matemático que concebera para o problema que lhe foi proposto apresentou resultados desanimadores quando comparados com os dados experimentais. Tratava-se das propriedades vibratórias de asas do tipo delta (foto), simuladas em laboratório como barras engastadas, anguladas a 45 graus. Ele havia representado esse tipo especial de asa como uma estrutura treliçada, estratégia adotada para a análise aeroelástica de asas convencionais. Talvez um fracasso não fosse sua expectativa para o término curso, ao qual fora assistir para se inteirar das últimas novidades do cálculo estrutural na indústria da aviação. O programa das aulas incluía basicamente as técnicas de análise estrutural mais avançadas, utilizadas na Boeing, para o projeto de componentes aeronáuticos: asas, especificamente. O autor de tais técnicas,  engenheiro-chefe da UDE e professor do curso Jonathan Turner, propunha a cada um dos alunos um problema real da Boeing para que fosse desenvolvido, a partir do conteúdo teórico do curso. Como eram desconhecidas da comunidade acadêmica da época, as eficientes ideias de Turner atraíram a atenção de alguns pesquisadores, que se matriculavam no curso, ministrado todo o verão. Assim, no verão do ano de 1952, estava lá o desanimado Ray Clough, professor novato de Engenharia Civil da Universidade da California em Berkeley. Diante do fracasso da solução que arduamente concebera, Clough deu-se por vencido e, ao despedir-se de Turner, ficou patente para o mestre o desapontamento do aluno. O Engenheiro sugeriu ao acadêmico que retornasse no verão seguinte para continuar o trabalho; ideia que foi aceita de imediato. Ao retomar os trabalhos no verão de 1953, Clough recebeu a seguinte sugestão de Turner: “Ao invés de utilizar uma treliça bidimensional, montada com barras, modele a estrutura com placas, interconectando-as pelos seus vértices.” A partir dessa ideia, Clough estudou placas – que passou a denominar elementos – de formato triangular e retangular. O modelo mostrou-se muito mais simples com elementos triangulares do que com os retangulares e os resultados obtidos foram excelentes. O professor de Berkeley percebeu também que a diminuição do tamanho das placas, que promovia o aumento do número de elementos, tornava os resultados do modelo mais próximos dos valores experimentais. Assim, com a técnica apreendida e bem sucedida, Clough e outro célebres alunos de Turner, disseminaram a ideia no meio acadêmico, que lhe deu a devida a atenção somente dez anos mais tarde. Batizada por Clough de Método dos Elementos Finitos, a técnica de Jonathan Turner ganhou notoriedade e aplicação generalizada, a um ponto tal que os matemáticos, eternos adoradores do abstrato, se interessaram, construindo todo uma teoria a partir dela. Com o tempo, o FEM (Finite Element Method) ganhou fundamentos algébricos complexos, quando lhe arranjaram outros pais: alguns deles, verdadeiros padrastos. Em meus estudos, fui vítima de um desses últimos e, apenas recentemente, descobri em quem posso confiar. Tomei gosto justamente pela teoria matemática do Método – filha ingrata e desnaturada do seu verdadeiro genitor – cujo formato sofisticado é simplesmente maravilhoso, para o qual dedicarei, em breve, uma nota anunciando novo estudo.

Croquete

CanudoNo intuito de honrar gloriosamente o título adquirido após quatro anos de labuta, o Doutor resolveu se embrenhar no árduo exercício do magistério. Afinal de contas, o nobre canudo tinha sido emitido, pública e gratuitamente, por uma universidade federal, fato que acreditou suscitar em sua alma pouco dadivosa sentimentos de gratidão. Tomado por um ânimo incomum para empreitadas tão pouco lucrativas, resolveu dedicar-se de corpo e alma, subtraindo tempo da convivência com os filhos para recordar assuntos antigos, já que sua ideia seria ministrar aulas na graduação. Empregado, durante o dia, numa repartição pública, o único turno que lhe sobrava era o noturno, horário em que sua mulher trabalhava e a babá procedia à rotina das crianças. Comprou livros, preparou aulas e criou expectativas; queria dar um enfoque novo ao ensino da disciplina que se especializara. Após essa preparação intensa, procurou uma faculdade, submeteu-lhe o currículo, sendo aceito de imediato: “Profissionais dispostos a ministrar esta disciplina, como o senhor, são raros; a gente vai te pegar nem que for no laço!”, disse efusivamente o coordenador do curso. O Doutor, então, acertou os horários das aulas com a faculdade e passou a aguardar ansiosamente o início do semestre seguinte. Fez planos de alimentar uma caderneta de poupança com o singelo acréscimo pecuniário que teria e, orgulhoso, acresceu antecipadamente ao currículo a experiência vindoura: era uma nova carreira que para ele se iniciava, novos horizontes, novos desafios. Certo dia, quando estava imerso em seus estudos, a babá dos filhos trouxe-lhe um pratinho com diversos salgadinhos: “Aqui, Doutor. São pro senhor. Minha mãe que fez.”, disse animadamente a garota. Ele experimentou e teceu elogios rasgados àqueles quitutes feitos com tanto esmero e sabor. O croquete, particularmente, tinha um paladar inigualável: “É a especialidade da mamãe”, disse ela. Nos dias que se sucederam, naquele mesmo horário, os salgadinhos eram servidos e deliciosamente saboreados pelo futuro professor. Ao final de uma semana, junto com os salgadinhos, a babá solicitou um minuto da sua atenção: “Seu Doutor, minha mãe resolveu montar um negócio. Lá onde eu moro, tem muitos bares e o meu tio que gosta de uma cerveja disse que eles não vendem croquetes que prestem. Mamãe então resolver aproveitar essa chance porque, como o senhor mesmo sabe, essa é a especialidade dela. Fez alguns para um dos botecos e vendeu tudo. Fez para outros e vendeu tudo. Os pedidos são tantos que ela não está dando conta do serviço. Disse que vai precisar da minha ajuda e como não posso deixar ela na mão, deixar ela perder essa chance, vou ter que sair. Quero pedir minhas contas”. Um silêncio sepulcral separou o fim desse pedido e o início de uma profunda cólera que sufocou o nobre Doutor: desprovido de babá, quem iria tomar conta dos filhos quando estivesse nas aulas, exercendo a sua porção altruísta? Foram necessários alguns dias para minorar aquele ódio mortal que o fizera proferir, internamente, palavrões que nem ele próprio sabia que conhecia. Houve então espaço, ainda que pequeno, para uma breve reflexão e o Doutor se deu conta que não havia sido honesto consigo mesmo: tudo aquilo que fizera e que faria não era altruísmo, mas pura insuflação de ego, como acontecera na sua especialização apoteótica. Foi preciso que o destino preferisse o croquete ao canudo para que ele tirasse, por breves momentos, os olhos daquela imagem fictícia de si mesmo e reparasse um pouquinho mais nos filhos.

Almoço

– Já te falei pra não me beijar assim! -avisou a babá.
– Por que?
– Porque sempre fica roxo e o meu namorado não acredita quando eu digo que um menino de cinco anos me deu um “chupão”. Agora desce do meu colo e senta aqui pra você almoçar.
– Não quero!
– Depois você vai ficar com fome. Senta aqui… Come… Isso! Gostou do verdinho?
– Não! Eu quero leite!
– Agora é hora de almoçar! Continua comendo… Nossa, que calor! Segura a colher pra mim que eu vou tirar meu casaco.
– Aqui???
– É!
– Quer dizer que eu vou ver seus peitinhos? Oba!

Brincar

Alguns dos grandes músicos só admitiam bancar o professor se o aluno já tivesse
superado, de maneira incontestável, o seu período de formação. Numa linguagem mais
popular, só aceitavam o “filé”. Um desses músicos deparou-se, certa vez, com os olhos curiosos do filho de nove anos que, acercando-se dele, o observavam trabalhar ao piano. Disse o filho: “Papai, eu também sei tocar. Deixa eu te mostrar”. O menino então fez uma baita confusão sonora com as teclas do instrumento. Após aquela exibição, o pai pensou um pouco e disse: “Acho que você gostar mais disso aqui”. Ele então posicionou o polegar direito na tecla da clave de sol e tocou sol – lá – si – dó – si – la – si – dó – ré.  Durante aquele prolongado momento, o pai distraiu-se com a dificuldade do filho que tentava aprender a sequência que ele criara, quando, enfim,  precisou retornar ao trabalho. Alguns dias depois, o garoto aproximou-se do pai, ao piano, e disse novamente:  “Papai, eu também sei tocar. Deixa eu te mostrar”. Lembrou-se, sem erro algum, daquele “sol – lá – si – dó – si – la – si – dó – ré” de dias atrás. O pai pensou um pouco e disse: “Acho que você vai gostar mais disso aqui”. Repetiu-se então aquele momento mágico entre os dois, motivado por uma outra sequência de notas. E assim, após uma série desses momentos mágicos, o músico fez o filho cantar e, ao ouvi-lo, teve a estranha recordação de uma infância que não viveu. Descobriu como era bom brincar e empolgou-se: do alto da sua estatura, escreveu 66 peças para os aprendizes.

Mentiroso

A menina pergunta ao pai:
– Papai, compra pra mim o Lego Friends?
– Que Lego é esse, filha?
– É um Lego só pra meninas. Tem várias coleções.
– Tá certo. Qual delas você quer?
– Pode ser todas.
– Nossa! Todas não dá. Lego é um brinquedo muito, muito caro.
– Caro? Deixa de ser mentiroso, Papai! Como é que pode ser caro um brinquedo que vem todo desmontado?