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Posts da categoria ‘Música’

Aprendiz

JanaEis uma pequena grande peça de Béla BartókDance in Canon Form (Mikrokosmos nº 31), gravada e tocada, de maneira rudimentar, por um aprendiz medíocre: eu

Engenheiro

Christ Church Organ

Confesso que não conheço muito bem o trabalho de todos os grandes compostiores de música clássica e, portanto, não seria prudente comparar a obra do único que conheço, Johann Sebastian Bach, com os trabalhos dos demais. Entretanto, a vantagem de se alimentar um blog como o Extrato, desprovido de qualquer cunho jornalístico, é poder negligenciar alguns aspectos desinteressantes da realidade e da prudência. Segue então a afirmativa imprudente desse leigo apreciador de música clássica: Johann Sebastian Bach é o maior de todos os músicos ocidentais, o mais completo; aquele que, como outros grandes músicos, dominava completamente a arte da composição e era um virtuoso no teclado, mas que, diferente deles, dominava também a arte da manufatura do seu instrumento. Segundo o biógrafo Christoph Wolff, em seu Johann Sebastian Bach: The Learned Musician, Bach sabia muito de Engenharia Mecânica, conhecimento adquirido na prática e que o aplicava quando contratado para projetar órgãos de igreja ou para certificá-los. O biógrafo conta que as igrejas da região da Turíngia, interior da Alemanha, onde Bach nasceu, viveu e morreu, quando terminavam a construção ou a reforma de seus órgãos, não permitiam que ninguém chegasse perto do instrumento antes da avaliação do compositor de Eisenach. Havia uma espécie de “Certificação Bach de Qualidade”, selo que atestava se o instrumento atendia aos rigorosos requisitos do músico-engenheiro. Ainda hoje, existem registros  dos laudos que Bach emitia, dos quais pode-se inferir que ele tinha o costume de abrir o órgão, avaliar minuciosamente a montagem dos mecanismos, os materiais utilizados, tanto os metais quanto as madeiras, e conferir também sua precisão sonora, afinando-o se necessário. Quando percebia algum problema, incluia ressalvas no laudo, onde descrevia instruções técnicas para quem fosse proceder à devida correção. Bach era muito bem pago por esses freelances, algo que o ajudava a complementar o orçamento doméstico, sempre insuficiente para sustentar a numerosa família. Ao ler toda essa história no livro, senti, pela primeira vez desde que entrei na faculdade, um orgulho enorme da minha formação. Parafusos, porcas, engrenagens, arruelas, pregos, hastes, os materiais e suas resistências tiveram, algum dia, nas mãos de um gênio, um destino nobre. Confesso que, em outros tempos, essa habilidade bachiana pouco conhecida teria me provocado uma enorme inveja, mas surpreendentemente ensejou um profundo respeito a mim mesmo, à minha escolha imatura, ao meu esforço ingênuo, à antiga crença pueril de que, na vida, toma-se rumos certos ou errados. Tomei o meu e, por algum motivo, não consigo mais classificá-lo nessa abordagem binária do mundo.

Tensão

A banda de formação mais recente que fecha, em definitivo e com grande estilo, o seleto conjunto de grupos de rock dos quais sou ardoroso fã de rock chama-se Radiohead. Não me recordo ao certo como fiquei sabendo de sua existência: seria de algum ranking das grandes obras do rock? de alguma recomendação do meu irmão? de alguma reportagem? de alguma crítica? Não sei. Creio que a origem se perdeu nesse labirinto que está se tornando a minha memória. Certas lembranças, contudo, ainda não se esconderam e estão de tal forma disponíveis que ainda é possível revivê-las: hoje, ao ouvir a primeira faixa do álbum The Bends (1995), me pego reflexivo, intrigado, como na primeira vez. Indago reiteradamente a mim mesmo que sentimento é esse que aparece junto com os acordes ao final do segundo verso: angústia? medo? desespero? ansiedade? Cada um ou todos eles misturados não conseguem definir adequadamente o rápido e intenso estado de tensão que me invade. A reação que me acomete é repetir essa passagem algumas vezes, sem esperar o término da música; algo que faço sempre que me proponho a revisitar o álbum. A partir daí, dessa espécie de masturbação, sinto-me preparado para ouvir as doze músicas completas; e elas, incansáveis, sempre se reapresentam marcantes, intrigantes.

1975

O compositor Roberto Carlos faleceu em dezembro de 1979, após lançar o seu vigésimo primeiro álbum. Desde então, restou apenas um cantor, um intérprete de suas glórias passadas, uma inserção na programação natalina da Rede Globo.  A morte foi acobertada pelos mais próximos: o cantor, a emissora e até o “amigo de tantos caminhos e tantas jornadas”. A estratégia, dali em diante, seria ludibriar o público, através da intensa promoção televisiva e da transformação do popular em popularesco, a fim de retirar-lhe a mais remota lembrança do compositor falecido. Roberto Carlos Braga, o cantor, passou então a viver do sucesso do saudoso compositor, passou a plagiar canções de compositores desconhecidos, a enaltecer a vida dos caminhoneiros, a tentar nos incutir a ideia de que as gorduchinhas, as nanicas e as coroas são sensuais e atraentes, passou a expor indiscriminadamente sua religiosidade de ocasião e a praticar outras babaquices do gênero. Muitos caíram nessa artimanha, talvez a maioria; não eu: vi e vejo, a medida que o tempo passa e a rabugice me domina, cada vez mais nítida a descontinuidade, ocorrida no início dos anos 80, na obra daquele que alguns ainda se atrevem a chamar de “Rei”. Seu reinado, para mim, findou-se após o álbum Roberto Carlos (Na Paz Do Seu Sorriso) . Como “súdito”, fico até aí; fico com as músicas que costumava ouvir domingo, bem cedinho, no rádio. Naquela época longínqua, como não tínhamos os álbuns, ou os “discos”, as canções estavam dispersas, eram entidades autônomas que não faziam parte de um trabalho. Hoje, uma outra era na indústria fonográfica e na minha capacidade financeira, tenho condições de avaliar com um pouco mais de propriedade as músicas do compositor, no contexto de seus discos. Recentemente, ocorreu-me fazer tal análise e o trabalho de 1975, Roberto Carlos (Além do Horizonte), revelou-se excelente.

Zuído

Padeço de um mal denominado tinido, nome técnico para zumbido no ouvido. Trata-se de um ruído, ou zuído, de alta frequência; aquele mesmo que nos acompanha quando saímos de um lugar onde havia música alta. A intensidade sonora de ambientes inóspitos, como a de uma boate, por exemplo, fatigam os sensores ciliares do ouvido, responsáveis por converter a onda sonora em sinal elétrico e emiti-lo ao cérebro. O zuído, consequência desse cansaço ciliar, cessa após uma boa dormida, a não ser que o tempo e a intensidade sonora aos quais o ouvido foi submetido tenham sido tamanhos que a fadiga atingiu o nível de dano irreversível, adequadamente chamado trauma acústico. Nesse caso, como é o meu, o impertinente som “fininho” permanece ligado dia e noite, faça chuva ou faça sol, aqui ou na China. O ambiente inóspito que causou o meu trauma foi um fone de ouvido plugado a um iPod, emitindo o som filtrado e artificialmente turbinado do mp3, a 50% do volume máximo. O fato aconteceu após ouvir, a alguns anos atrás, o bom álbum Inside In/Inside Out, do grupo The Kooks. Graças a esse malfadado evento, desisti completamente do mp3 e dos fones de ouvido. De qualquer maneira, segue minha avaliação do álbum.

35

Muito mais do que em religião, eu acredito em Deus. A ideia de uma criatura sem um criador me é, no mínimo, descabida. Ele existe sim e se manifesta: mostra-nos o feio e o belo, nos agrada e nos perturba, define o espaço, molda a matéria. Não é Pai, porque brinca como uma criança. Não é Filho, porque não merece cuidados. Não é Espírito, porque é concreto. O que é afinal? Não sei. O que sei é que ele gosta de música: dispôs do talento de Sylvius Leopold Weiss e escreveu a Sonata 35 para alaúde.

Vozes

Este instrumento tem os mecanismos de um cravo, mas a acústica de um alaúde. Daí o nome cravo-alaúde; considerado o instrumento perdido da música barroca. Entre os oito cravos listados no espólio do grande Johann Sebastian Bach, havia um deste tipo. Embora as peças do catálogo oficial de Bach BWV995-998, 1006a, entre outras, indiquem o alaúde como instrumentação, alguns acreditam que foram compostas, na verdade, para o cravo-alaúde. No frigir dos ovos, são vozes diferentes que cantam a beleza divina, inerente a essas peças.

Constatação

Eu ouvia Beatles quando ouvi falar de Smiths. Como minhas ideias fixas eram bem mais acentuadas naquela época, não houve espaço para o grupo de Manchester. Descobri mais tarde, quando o grupo já havia se separado, o álbum The Queen Is Dead e constatei a existência de vida inteligente no Rock, além de Lennon & McCartney. Abaixo, as notas são minhas: adoro fazer isso.