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Posts da categoria ‘Literatura’

Salmo Quarenta

livroDe vez em quando, ocorre-me tentar imprimir uma certa profundidade rebuscada nos meus escritos. O fim último e velado desse exibicionismo sóbrio é que o leitor perceba no texto os sinais do meu esforço e, assim, me dê algum crédito. Foi exatamente essa a intenção do conto “Salmo Quarenta”, adicionado aos meus Contos Ingênuos.

Dona Marta

livroNão são muito raros os períodos em que me dedico obsessivamente a uma certa atividade ou pensamento. Atualmente, atravesso um deles e o alvo, desta vez, é colocar no papel, da melhor maneira que for possível à minha parca capacidade literária, essas histórias mirabolantes que ficam perambulando pela minha cabeça. Com tal intuito, escrevi as agruras da pitoresca Dona Marta, protagonista de mais um conto que acresci aos meus Contos Ingênuos.

Coexistência

escritoDe vez em quando, no intuito de contar histórias um pouco mais longas, ocorre-me escrever além da conta. Tenho dúvidas se essa postura prolixa é uma demanda da história em si ou de alguma necessidade interna. De qualquer forma, embora o processo seja prazeroso, sinto-me aliviado com o seu término e, na maioria das vezes, decepcionado com o resultado: o estilo fica pobre, infantil e a história, ingênua. Assim, o desapontamento e a tranquilidade, em quantidades proporcionais, coexistem pacificamente nesta minha mente perturbada; algo inviável em outros campos que me atrevo a invadir. Confesso que, em tempos passados, eu esconderia o rascunho constrangedor no fundo de uma gaveta, sob livros mais pesados, longe de olhos estranhos e também dos meus. Entretanto, venho atravessando uma fase de sonhos intranquilos, nos quais me vejo obrigado a menores acanhamento e rigidez. Deles não resultou Metamorfose alguma, apenas a decisão de publicar esses contos ingênuos na área “Trabalhos”, submenu “Literatura”, mais adequada do que a página inicial para conteúdos menos nobres e mais volumosos.

Anões

condenado

Não é raro passear por essa minha mente conturbada a ideia de que originalidade é uma abstração. Se tal observação estiver errada, então o termo não se refere a uma concepção plenamente nova, mas à síntese bem estruturada, com eventuais novidades, de um apanhando de outras concepções relacionadas, obtidas dessa mesma forma. Assim, concordo, sem aceitação dogmática, com o filósofo do século XII Bernard de Chartres: “…somos como anões empoleirados em ombros de gigantes; assim conseguimos ver mais longe do que eles”.  Essa frase, reiteradamente utilizada por Sir Isaac Newton em seus escritos, traduz muito bem o que viria a ocorrer na prática científica ao longo dos séculos seguintes: o próprio Newton se valeu do trabalho incansável do astrônomo dinamarquês Tycho Brahe para formular suas três leis; para a Teoria da Relatividade Especial, Albert Einstein se apoiou intensamente na complicada matemática do polímata francês Henri Poincaré e até o turrão Sigmund Freud revelou textualmente que a famosa estrutura psíquica denominada “Id” foi uma contribuição do médico alemão Georg Groddeck. Nestes últimos anos, têm me atraído a generosa beleza da Arte e suas manifestações, particularmente a Literatura. Embrenhado em minhas leituras ininterruptas, qual não foi minha surpresa quando percebi que também nesse campo os anões e gigantes do filósofo medieval trabalham em cooperação mútua. Apresento aqui um modesto exemplo dessa minha constatação; algo que seguramente já deve ter sido observado por algum especialista no assunto. Segundo o acadêmico da Universidade de Princeton Joseph Frank, no seu renomado livro Dostoevsky: The Seeds of Revolt, 1821-1849, o célebre Fiódor Mikhailovich Dostoiévski era um ardoroso fã do não menos célebre autor francês Victor-Marie Hugo. Como sou relativamente cético às chamadas “coincidências cósmicas”, não tenho a menor dúvida de que o escritor russo – jovem à época que conheceu a literatura francesa – leu a passagem a seguir, escrita por seu ídolo, e a guardou consigo até 1865, quando, por algum motivo, ela o inspirou.

“Disse a mim mesmo:
– Já que tenho os meios para escrever, por que não o faria? Mas escrever o quê? Preso entre quatro muralhas de pedra nua e fria, sem liberdade para meus passos, sem horizonte para meus olhos, tendo por única distração ficar mecanicamente ocupado o dia inteiro a seguir a marcha lenta desse quadrado esbranquiçado que o postigo de minha porta recorta sobre a parede escura e, como dizia há pouco, totalmente a sós com uma ideia, uma ideia de crime e castigo, de assassínio e de morte, pode alguém como eu ter algo a dizer? E o que encontraria em meu cérebro maculado e vazio que valha a pena ser escrito?”

Extraído de “O Último Dia de um Condenado” (1829)
Victor Hugo

Luz

luzNoiteNaquele mar aprazível,
Flutuei incontido
Sorvi o fluido adocicado,
Sob cálidas melodias

Embalo rítmico e grave,
O coração benfazejo
fez-se um hostil imperador
ante minha débil resistência

Reticente, arrisquei
revelar-lhe o ódio,
Chorar-lhe o medo,
Chamá-lo morte

Na dor lancinante,
Acelereou-se o passo
Do crânio e seu martírio
emergiu a lágrima,

O fulgor da noite.

(Após A Gota de Chuva de Frédéric Chopin)

Discordâncias

Basic-EconomicsAcredito que esta seja a primeira vez que leio um livro técnico do qual discordo quase completamente. Devo dizer que essa novidade é uma experiência ímpar: acostumado com livros de matemática, onde há muito pouco do que se discordar, vejo como um progresso da minha débil autenticidade confrontar a  pequena coleção de opiniões próprias que disponho com a sapiência de um acadêmico da Universidade de Stanford. O título do livro é Basic Economics: a common sense guide to the Economy, escrito pelo economista americano Thomas Sowell, fervoroso adepto do chamado livre mercado. O autor prega que um mercado só é livre quando não há intervenção de espécie alguma no mecanismo de preços; mecanismo esse que, regido pelas leis da oferta e da demanda, confere o devido valor a cada produto ou serviço comercializado, resolvendo, de maneira definitiva, o problema econômico: a correta alocação dos escassos recursos disponíveis para uma determinada sociedade. A partir dessa verdade, que coloca repetidamente ao longo do texto, Sowell defende com unhas e dentes que o tal mecanismo é algo perfeito e, portanto, intocável; que qualquer tentativa de regrá-lo provocará privilégios e desigualdades; que, diferentemente da lei da gravidade, a flutuação livre dos preços, fundamento do Capitalismo, não pode ser desafiada; que eventuais regramentos infratores desse dogma divino podem colocar, em última instância, uma nação inteira em crise recessiva. Aguardo, com certa incredulidade, o redentor capítulo do livro onde o autor pousará os pés no chão e apresentará exceções à sua abstração. Por enquanto, flutuando em seu mundo fictício, Sowell insiste em afirmar que cartéis e monopólios são fenômenos raros; que o cidadão pode facilmente substituir o alho pelo bugalho, evitando submeter-se a um produtor único; que agências reguladoras são sempre maléficas; que ganância e Capitalismo são incompatíveis; que competência administrativa é a única causa do sucesso das grandes corporações; que a prática do “dumping” é algo intrínseco aos processos do mercado e estimulante da concorrência; que falências e quebradeiras generalizadas produzem efeitos saneadores, revigorantes e outras impropriedades do gênero. Apoio minhas discordâncias não no meu conhecimento de Economia, que é pobre, como os países do terceiro mundo, mas no dia a dia do mundo real, na existência da OPEP, no serpear dos lobistas pelos corredores do poder, no envolvimento de grandes empresas como a IBM em escândalos de corrupção, na crise econômica mundial de 2008 e o consequente recrudescimento da regulação pelos Bancos Centrais, bem como outros fatos concretos que se opõem à etérea teoria do nobre professor de Stanford. Se o homem não dispõe de pudor para desequilibrar os ecossistemas da Terra, algo que os americanos sabem fazer como ninguém, por que haveria de tê-lo para controlar um mero construto da mente humana, o mercado? Não vejo o livre mercado que o dr Sowell tanto defende como uma força natural intocável ou como um mandamento religioso, ao qual devemos nos submeter passiva e obedientemente; não é algo isento de distorções e problemas. Em prol do ser humano, há que se preservar racionalmente seus muitos benefícios e aliviar seus muitos malefícios, interferindo direta e deliberadamente nos seus movimentos. Apesar dessas dissonâncias, confesso que estou gostando do livro, porque me instiga o confronto, o embate de ideias; ações para as quais preciso sair do meu conforto e da minha alienação; para as quais preciso estudar e me informar. Lendo textos como o do dr Sowell, percebo cada vez mais clara a desnecessidade de me posicionar ideologicamente, muito embora alguns encarem isso como “ficar em cima do muro”. Para esses, cuja ânsia por rotular é algo fisiológico, digo então que sou um anarquista de extrema direita.

Veredicto

Eu estava na quarta série primária e a professora de Português, tia Ângela, fazia parte daquele grupo de pessoas que me intimidavam. Eu ainda tinha destas coisas naquela época: temor de autoridades, principalmente quando eram rigorosas. Lembro-me de ficar amedrontado na aula em que tia Ângela informou sobre o livro que precisaríamos ler, objeto de avaliação da famigerada “ficha literária”. Esse era o apelido sofisticado que se dava para uma prova sobre os dados da história e sua “correta” interpretação. Havia uma delas por semestre e, naquela aula, fomos informados que seríamos avaliados quanto à leitura da obra teatral Auto da Compadecida, do turrão Ariano Suassuna. Ao chegar em casa, informei, ansioso, sobre a premência na compra do livro: era necessário começar a ler o quanto antes, pois eu já sabia da minha dificuldade no ramo da interpretação de textos. De posse da obra, iniciei imediatamente os esforços que resultaram, até a data da prova, em duas leituras completas e várias outras que cobriam trechos específicos da história. Na véspera da ficha literária, fiz uma revisão geral e constatei, segundo minha avaliação, que estava pronto para o que desse e viesse, que me tornara um especialista nas aventuras e desventuras de João Grilo. Como já mencionei aqui no Extrato, padeço de problemas crônicos com expectativas positivas, desde tenra idade. Teimosas, elas sempre rejeitaram a materialização; comportamento que não foi diferente com a expectativa do sucesso na ficha. Quando recebi a nota, um rubro e odioso “4”, enxerguei-me o único condenado naquele julgamento da história: o Salvador de Suassuna havia sido misericordioso com todos, exceto comigo. Creio que tenha sido esse veredicto injusto que, desde então, me impede de ler o renomado autor paraibano.

Davos-Platz

Desde que me entendo por gente, gosto de livros. A leitura veio bem depois; primeiro, atraiu-me o objeto livro: a capa, o papel, a fonte, o cheiro, a textura, o folhear. Quando pequeno, eu costumava passar um bom tempo admirando a imponente estante da sala, preenchida parcialmente pelos livros técnicos do meu pai. A forma pela qual ele os distribuia era regular e padronizada: assunto, autor, do exemplar mais alto para o mais baixo. Se algum deles estivesse disposto fora do padrão, eu mesmo o consertava. Ao  longo do tempo, foram chegando os romances da minha mãe, assinante do Círculo do Livro, e a área desocupada  da estante encheu-se gradativamente de cor, ganhou finalmente vida. Por alguma razão, não era necessário padronizá-la como a seção técnica, e o móvel, agora inteiro e equilibrado, revelou-se perfeito. Gigantesco para a minha estatura de menino, eu conservava um respeito quase religioso por ele, pelo incomensurável esforço humano sustentado nas suas prateleiras de madeira: quanto trabalho, quanto tempo, quanto escrever e reescrever para produzir aquela quantidade infindável de páginas. Havia um livro específico que me chamava mais a atenção do que os outros: volumoso, bem costurado, com capa dura, papel branco, letras pequenas, cheiro de novinho e delicioso de folhear. Na sobrecapa, havia uma foto intrigante de um castelo ao pôr do sol e acima de suas torres, lia-se: A Montanha MágicaThomas Mann. A partir desse livro e das reminiscências daquele tempo, ocorreu-me, recentemente, acrescentar àquela atração sensorial infantil, que nunca arrefeceu, o interesse pela Literatura. Iniciei escalando a Montanha até chegar ao sanatório de Davos-Platz, só para ver como era, e junto com Hans Castorp, prolonguei deliberadamente minha estada.

Cuca

Uma vez sedimentados os tópico iniciais do Cálculo Diferencial e Integral, devidamente avaliados por  três provas ao longo do primeiro semestre, acreditava-se que estivéssemos aptos a cursar a famigerada disciplina Cálculo II, motivo de terrorismo dos colegas mais antigos, alguns deles agonizando a sua terceira reprovação. O novo curso apresentaria o domínio do Cálculo com mais dimensões: da reta passaríamos ao plano e depois ao cubo. Haviam três turmas e uma delas, a nossa, estava sob responsabilidade de uma professora, recém-chegada do seu longo curso de doutorado. À princípio, julgamo-nos afortunados, já que os trejeitos da doutora, franzina e quase delicada, não nos provocara maiores temores. Lembro-me de alguém dizer: “Vai ser moleza!”. Naquela época, ainda éramos moleques que apelidavam os outros: entre nós, passamos a chamar a doutora pela alcunha de Cuca, personagem célebre do preconceituoso Monteiro Lobato no seu Sítio do Picapau Amarelo. O formato e a tintura capilares daquela que achávamos inofensiva lembravam quase que imediatamente a horrenda figura do seriado da Rede Globo. O problema de se criar uma expectativa positiva e acreditar piamente nela é que o destino raramente a confirma, rejeitando-a parcial ou totalmente. Quis o nosso destino optar pela rejeição total e a Cuca, de vítima de nosso escárnio, transformou-se em bruxa sádica, comedora de criancinhas. Aquela mulher frágil adquiriu, como o Cálculo, outras dimensões. Para não sermos devorados, tivemos que nos privar ainda mais do sono para então suar sangue nas derivadas parciais, nas integrais duplas, triplas, de superfície, no Teorema de Green, etc… Ao final do curso, aprovado e pensativo, tive vontade de transcrever o soneto abaixo, na página em branco anterior a contracapa do livro texto O Cálculo com Geometria Analítica Vol. II, de Louis Leithold.

Soneto XXXII

Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.

Fazia, de papel, toda uma armada;
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada…

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel, são como aqueles,
perfeitamente, exatamente iguais…

– Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!
 

Guilherme de Almeida (Nós, 1917)

Minha Resposta

Uma das personagens do livro Trópico de Câncer, de Henry Miller, pergunta: “Existe algo mais perfeito do que O Eterno Marido, de Dostoiévski?”. Minha resposta: “Até agora, não!”.