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Posts da categoria ‘Literatura’

Sol Morrente

Sol MorrenteO senhor faz favor de mangar de mim não. Só porque tenho essa mania, cria do destemor com a vontade, de mostrar pra Ele que eu posso? Não é pra me desculpar, só pra explicar: sucede que o viver meu depende de arremedar um vivente ou não-vivente valoroso, desses que Deus fez com capricho. Se fala, arremedo. Se canta, arremedo. Se dança, arremedo. Se faz música, arremedo. Se toca instrumento, arremedo. Se aprende, arremedo. Se ensina, arremedo. Se lê, arremedo. Se conta história, arremedo. Arremedo até as manias: mania de arremedar manias. Faço isso desde muito menino. Juro pro senhor: não é fruto do meu querer, que até se acanha disso. Quando acontece, já aconteceu, e o depois… bão, o depois eu termino depois, que a vergonha é doída por demais. Mas, azarento que sou, outra vontade-sem-medo nasce, e a vergonha do antes descansa, pra’tormentar o depois. O senhor escute: dia desses tive um sonho, que eu tinha raízes nos pés, que essas raízes eram longas, que essas longas fincavam em tronco grosso de árvore, que essa árvore que eu sugava vivia numa vereda, que essa vereda tinha um rio, que esse rio era o Urucuia, e o resto… cerrado. Meu avô, pai de mamãe, que Deus o tenha, também criava manias: livros, a dele. O senhor sabe do poente desta nossa terra, não sabe? Bonito que só ele. Pois foi justo mirando nosso sol morrente quando me veio um estalo, desses que dá arrepio no espinhaço: o tal sonho vinha de um livro da pobre estante de meu avô, livro que li as primeiras linhas, preguiçoso que eu era; livro escrito por não-vivente valoroso. Ora essa! Pois agora eu arremedava até em sonho, entrando na história do contador, grudado numa árvore sua. Nasceu daí uma nova vontade-sem-medo, feito um corisco; vontade de me aproveitar da história, de brincar com ela, de fazer ela minha, só um pouquinho… Deus me perdoe, Deus me perdoe, mas nessas horas fico muito cheio de mim, que até me basto, que de uma planta parasita me transformo num ramo, da mesma árvore. Fico tão cheio de mim, mas tão cheio de mim, que consigo olhar pro céu, pro céu deste cerrado sem-fim, e gritar: “Tá vendo! Esse teu desvaloroso filho vivente também pode, também pode!”.

– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas… Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte.. (“Grande Sertão: Veredas”, João Guimarães Rosa)

’Tisnothing. Shots you heard came not from men fighting, no. God forbid. I aimed at trees in the backyard, by the brook’s lowest part. Just to hit the target. Everyday I do this, I enjoy it; since tender youth. Then, they came to call me. ‘Cause of a calf: a white calf, deformed, eyes that are not – never seen -; and with the muzzle of a dog. They told me; didn’t sight it myself. Born flawed, despite its swollen lips, it seemed smiling like a person. Face of human, face of dog: it was the devil – they determined so. Stupid folk. They killed it. I don’t know who its owner was. They came to borrow my guns, I lent. I am not delirious. You sir, laughing those laughters… Look: when it’s a real shot, first the dogs start barking, immediately – after then, we see if there are any corpses. Be patient sir, this is the sertão. Some people do not want it to be: the sertão is located across the inner meadows, they say, end of course, high lands, and beyond Urucuia River. Bullshit. So, to Corinto and Curvelo, is this very here not called sertão? Ah, it is bigger! This is sertão: it’s the place where the grazing grass has no end; where someone travels thirty, forty-five miles, without meeting a single resident’s house; and where de criminal carries his own cross, far away from the authorities’ burden. The Urucuia comes from the west mounts. But today, on its both sides, everything grows – wealthy big farms, profitable pasture herbs, the river’s ebbs; plantations crossing forests, trees with a thick trunk, even virgin ones can be found there. The state of Minas Gerais runs around; and its fields are interminable. But, in the end, everyone believes in what they want to, as you know: tomayto or tomahto, is just a matter of choice… The sertão is everywhere. (“Backwoods”, Eu)

Moribundo

ricardop
Não seria correto dizer que o texto a seguir signifique uma retomada da produção outrora publicada em meus saudosos tempos de blogueiro ávido por reconhecimento; mas igualmente impreciso seria afirmar categoricamente que o Extrato está morto. Assim, ocorre-me que o laudo mais adequado para a real situação deste blog classificaria-o como agonizante e a causa mais provável para essa agonia, que não luta nem pela vida e muito menos pela morte, seja um completo desinteresse pelo tal reconhecimento. Aqueles afeitos a palavras mais médicas diriam que o quadro é estável, sem sinais evidentes de alteração. Mas se não é intenção do texto iniciar uma nova fase, fazer o blog retomar sua vida plena, o que deseja afinal o autor deste post? Respondo: divulgar um custoso trabalho, já que os canais com maior poder de divulgação – e também de satisfação para este modesto escritor – não têm interesse em fazê-lo. Então vamos lá. Neste ano de 2016, menos conturbado que revelador, ano em que desisti da república federativa do brasil, tornando-me parte integrante e definitiva daquele grupo de brasileiros que consideram esse país uma merda ou uma merda irremediável, para quem aprecia os pleonasmos enfáticos; então, neste ano de 2016, comemora-se, ou melhor, reverencia-se, os quatrocentos anos da morte de William Shakespeare. Devo confessar que antes desses eventos que buscaram mostrar à esta geração bem informada, e mal formada, a atualidade e genialidade do escritor inglês, eu era um ignorante quase completo em relação a ele e seus escritos; digo “quase” porque eu já havia lido Hamlet e Macbeth, sem dar o devido valor a essas obras monumentais. Durante uma conversa muito pouco superficial, um amigo chamou-me a atenção para as idiossincrasias desta minha mente perturbada através da figura de um personagem chamado Ricardo Terceiro, da peça homônima escrita por Shakespeare em 1592. Num primeiro momento, decepcionei-me ao saber da absoluta falta de originalidade das minhas questões mais perturbadoras porque, segundo meu cultíssimo amigo, elas já foram muito bem retratadas 424 anos atrás. De decepções desse tipo costuma acorrer-me a curiosidade: corri então até minha estante pretensiosa, no local onde repousa aquilo que eu acreditava ser a coleção completa das obras de William Shakespeare em português, publicada pela editora Nova Aguilar, traduzida pela renomada crítica de teatro Barbaba Heliodora. Qual não foi minha surpresa ao constatar a ausência da peça Ricardo Terceiro nos dois volumes que com tanta dificuldade eu havia adquirido, neste país feito mais de homens que de livros. Informa a primeira página do segundo volume que o terceiro volume, das peças históricas, o que me falta e também às livrarias, está no prelo, ou seja, em fase final de publicação. E assim ele está desde 2009: no prelo. Para instigar ainda mais minha angustiante curiosidade, a obra Ricardo Terceiro, entre outras consideradas históricas, está obviamente presente nesse terceiro volume ainda não publicado. Diante dessa dura realidade, ocorreu-me três alternativas: a) esperar a editora Nova Aguilar, comprada há dois anos, lançar num futuro indefinido a coleção com os três volumes; b) ler o que há disponível: livro de bolso da editora L± c) ler a peça em inglês; d) ler a peça em inglês e também preencher a lacuna de não se encontrar uma boa tradução da obra para o português. A impaciência descartou a opção “a”, o respeito próprio descartou a “b”, a disposição considerou a “c” e a onipotência decidiu-se pela “d”. Assim, após oito meses de intenso e prazeroso trabalho, e após o previsível desprezo da indústria editorial, entrego a este blog moribundo a tradução de Ricardo Terceiro num português despreocupado em ser atual, em ser moderno, palatável, coloquial. Como é de praxe, o trabalho está livremente disponível para download no menu Trabalhos, Tradução, William Shakespeare. Até onde sei, e não foi rápida e superficial minha pesquisa, esta tradução para o português que aqui publico é a melhor hoje disponível.

Interpretação

pevearO laureado tradutor norte-americano Richard Pevear, célebre por verter para o inglês clássicos da literatura russa em parceira com sua dedicada esposa Larissa Volokhonsky, também russa, disse certa vez que traduzir é fundamentalmente interpretar. Tal qual o ofício de ator, o tradutor elabora a partir do texto original o seu entendimento particular, a sua visão da obra e os transcreve ao seu público-leitor. Nesse ato de interpretação, o tradutor deve buscar aquilo que acredita ser a versão mais próxima possível de um obra imaginária, escrita pelo próprio autor na língua-destino. Na prática, o casal Pevear & Volokhonsky, ao assimilarem um texto de Dostoiévski, por exemplo, procuram reproduzir em palavras tudo aquilo que absorveram, como se Dostoiévski fossem, um Dostoiévski tão fluente na língua inglesa quanto na russa. Por mais interessante e criativa que se considere essa abordagem do trabalho de tradução, devo dizer que discordo respeitosamente do eminente tradutor quando ele reduz traduzir a interpretar, quando considera que a instância final da tradução é a interpretação. Acredito que a segunda seja condição necessária, mas não suficiente para a primeira, pois junto com o interpretar, deve estar presente, com o mesmo nível de importância, o analisar: a incorporação imaginária de um autor não deve se sobrepor à capacidade analítica da pessoa do tradutor, do seu senso de realidade. Quero dizer que, no ato de verter, existe o autor interpretado, ficcional, obra do inconsciente mas há também o tradutor real, sua consciência, apta a raciocinar, a tomar decisões e inibir, se for necessário, eventuais impropriedades geradas no imaginário. Neste ponto, a similaridade com a dinâmica psíquica apregoada pela Psicanálise é evidente, mas devo confessar que não foi essa minha intenção, pelo menos a consciente. De qualquer forma, eu entendo as coisas assim: uma vez apreendido o seu contexto, não há muita margem interpretativa para verter para o português, por exemplo, uma frase como “I’m hungry!”; e não é a simplicidade dessa exclamação que reduz as possibilidades para a tal interpretação, mas sua proximidade estrutural com o português “Estou faminto!”. Em circunstâncias mais complexas que esse exemplo simplório, essa proximidade precisa ser avaliada pela faculdade analítica do tradutor, utilizando todo o seu vocabulário da língua destino. Por causa disso, considero um bom tradutor aquele que conhece bem a língua origem e muitíssimo bem a língua destino, pois é justamente essa última que ele pode manipular. Em termos genéricos, eu acredito que a utilização da capacidade interpretativa cresce, sem prejuízo de outros fatores, com as diferenças estruturais das línguas origem e destino: entre o russo e o inglês, por exemplo, as distâncias são grandes, bem maiores que as distâncias existentes entre o inglês e as línguas latinas. Eis por que o nosso felizardo tradutor Richard Pevear – residente em Paris, casado com uma Mystery_of_Marie_Rogetliterata russa, bem pago e premiado por suas traduções (que puta inveja a minha!) – considera tão intensamente o ato da interpretação. Para conferir qualidade ao seu trabalho, ele, com razão, precisa interpretar os autores das obras russas que traduz; muito mais do que este blogueiro metido a sabichão – bisonho tradutor brasileiro, ignorado pelas editoras – ao verter para o português textos como os do grande Edgar Allan Poe. Por falar nisso, após um esforço hercúleo das minhas pífia capacidade interpretativa e razoável capacidade analítica, disponibilizei no menu “Trabalhos/Tradução”, submenu Edgar Allan Poe, a versão para o português de mais um conto, o segundo, da chamada trilogia Dupin, intitulado O Mistério de Marie Rogêt; agora, só falta um para completar Os Três Contos do Cavalheiro Auguste Dupin!! Como é peculiar aqui no Extrato, seu autor não é nada modesto e anuncia, desde já, que conseguiu produzir a melhor tradução desse conto para a língua portuguesa.

Casas de Verão

sheepA Etologia nos ensina que certas espécies de animais têm a invejável capacidade de se ausentar do mundo exterior, recolhendo-se em suas cavernas acolhedoras para assim iniciar um prolongado estado letárgico, período em que seu metabolismo cai drasticamente. Em outras palavras, trata-se de um sono longo e profundo, cujo objetivo é garantir a própria sobrevivência e por conseguinte a de sua espécie, seja evitando a hostilidade do clima ou dos implacáveis inimigos predadores. Quando querem evitar o frio intenso, diz-se que esses animais hibernam; quando evitam o calor tórrido, diz-se que entram em estivação. Dentre aqueles que hibernam, os mais notórios são os da espécie Ursus Maritimus – vulgo urso polar – enquanto a estivação é bem exemplificada pelo comportamento dos moluscos pulmonados – os singelos caracóis. Nos anais da Ciência, não há registro de seres da espécie Homo Sapiens Sapiens hibernando ou estivando. A razão mais difundida é a seguinte: esses animais “evoluíram’’ de macacos africanos habitantes de regiões onde as temperaturas não eram extremas; fato que tornou absolutamente desnecessário o citado estado letárgico. Entretanto, com a vênia devida aos nobres homens da Ciência, quero contestar essa explicação simplificada afirmando categoricamente que no mesmo intuito de se proteger de um ambiente de extrema hostilidade, o homem também é capaz de se amodorrar por longos períodos, juntando-se à turma dos ursos e caracóis. A fim de balizar essa contundência, quero revelar em primeira mão que as manifestações orgânicas deste blogueiro – indigno representante da tal espécie Homo Sapiens Sapiens – julgaram, em determinado momento, um ambiente altamente hostil aquele que se estabeleceu na última eleição presidencial brasileira e assim resolveram colocá-lo numa espécie de alienação profunda, período em que sua parca vontade de interação com o mundo exterior hibernou; ou melhor, estivou, porque o aborrecido escrevinhador que traça estas linhas prefere o frio ao calor. Nesses modos, ficou ele durante muito tempo com seus livros e seus estudos; imerso no fantástico mundo da Literatura, perdido nos intrincados caminhos da Psicanálise. Se isso tudo o satisfazia, o que o motivou então a sair da toca? O que o tirou do seu conforto e o fez enfrentar a dura realidade de um novo governo Dilma, de uma velha oposição liderada por Aécio, da imprensa “livre’’ que antecipa edições de revista e esculhamba a religião dos outros, do terrorismo em nome de Deus, da falta de água, da falta de luz, da falta do Chavez (o mexicano), das redações do Enem, da superexposição de alguém queimado vivo? Respondo: a vontade incontrolável de tecer comentários sobre um certo livro, uma obra prima. Começo então dizendo que, certo dia, ocorreu-me a ideia de reler um dos notáveis romances da chamada Literatura Brasileira: Vidas Secas (1938), do turrão Graciliano Ramos (1892-1953). Esse eminente escritor nordestino, que nunca conheceu os escritos de Marcel Proust por não admitir ler veados (terminologia dele), é um dos expoentes do chamado romance regionalista, tão exaltado por professores e intelectuais de esquerda. Ao terminar o livro, concluí que um pouco de Proust não teria feito mal algum ao homofóbico autor alagoano: num estilo simplório e maçante, ele narra as previsíveis desventuras de uma família de retirantes, formada por um homem obstinado, uma cachorra, uma mulher insatisfeita e seus filhos maltratados. Devo dizer, entretanto, que o tema levantado pelo desinteressante Vidas Secas é para mim bastante atrativo: a exemplar tenacidade do homem rústico, alheio, por desinformação ou repúdio, à alta instabilidade do mundo urbano. Procurando, ou melhor dizendo, fuçando pela incrível Internet algum outro romance regionalista notável, deparei-me com o título Gente Independente, do autor islandês Halldór Kiljan Laxness (1902-1998), AR-703019967merecidamente laureado com o prêmio Nobel de Literatura em 1955. Resolvi então adquiri-lo de imediato, uma vez que há ainda exemplares disponíveis em Português, lançados pela editora Globo. Aconteceu que comprei o livro sem folheá-lo antecipadamente, na sortida Lojas Americanas, e fui descobrir que se trata da tradução de uma tradução somente após abrir a encomenda. Como não me agrada ser duplamente ludibriado, uma vez que, segundo os italianos, “Traduttore, Traditore” (Tradutor, Traidor), adquiri a tradução inglesa Independent People (1946), sobre a qual a citada edição brasileira se baseou. Depois de uma angustiante espera, o livro finalmente chegou e ao tentar ler suas primeira páginas, percebi que meu inglês presunçoso não alcançaria os termos pouco convencionais utilizados pelo tradutor John Thompson. Se o tema que procurava era obstinação, adotei-o para minha procura e decidi só desistir da obra caso não houvesse outras traduções em inglês ou em português. Para a minha enorme satisfação, a editora lisboeta Cavalo De Ferro publicou em 2007 uma edição de Gente Independente, vertida com precisão para o português, direto do islandês, pela islandesa Guðlaug Rún Margeirsdóttir, tradutora que fixou moradia na cidade portuguesa da Figueira da Foz. Tão logo o livro chegou, após uma eternidade é claro, iniciei a prazerosa leitura que infelizmente terminou uns poucos dias atrás. Digo infelizmente porque Gente Independente, lançado no período de 1934 a 1935 em dois volumes, é o tipo de obra prima que, logo em seus primeiros capítulos, invade irremediavelmente a vida de quem a lê. Tal qual Vidas Secas, o livro também trata de um homem obstinado, uma cachorra, mulheres insatisfeitas e filhos maltratados. Diferente da obra brasileira, esse romance épico islandês traz, no estilo e no conteúdo, a preocupação de um escritor que busca retratar seus personagens muito além dos rótulos, dos estereótipos ou das posições ideológicas; eles não são apenas obstinados, apenas infelizes, apenas maltratados, rudes, humilhados: o protagonista Guðbjartur Jónsson, por exemplo, é alguém que não é possível qualificar, alguém indecifrável, quase real; sua filha Ásta Sóllilja carrega, num tom magistralmente poético, os dramas típicos da menina, da irmã mais velha, da mãe, da esposa, daquela que se põe a servir e a cuidar. Por detestar sinopses reveladoras, concluo dizendo que a história se passa no ambiente rural islandês, onde vivem camponeses e senhores de terra: os primeiros, trabalham de sol a sol, mesmo quando ele não aparece, e os últimos, auferem os dividendos. Nesse contexto, o protagonista busca colocar-se como alguém incompatível com esses dois grupos, alguém que insiste em se autodenominar independente. Alguns entusiastas dessa obra, os mais exaltados, afirmam sem muita relutância, que para a maioria daqueles que a lerem, ela seguramente figurará entre as “top ten” de suas vidas. Muito embora esses tipos de ranking não me impressionem e até denigram previamente uma obra ainda não conhecida, devo confessar aqui no Extrato, onde busco não seguir a trilha da manada, que me tornei mais um neste rebanho de leitores inebriados por essa belíssima história, mais um naquela malhada diligentemente velada por Bjartur de Casas de Verão.

Exemplar 162

ledoIvoEm meio ao frenesi futebolístico provocado pela Copa Do Mundo em mais um magnífico mês de junho, resolvi, um dia destes, largar um pouco os livros e zapear pela TV atrevendo-me a conferir a programação de alguns canais alheios à cobertura da citada competição esportiva. Quando me coloco a mudar freneticamente de canais televisivos, nunca procuro algo específico, mas qualquer imagem que, durante o intervalo de tempo de um segundo que separa uma mudança da outra, me chame a atenção. Nesse dia ao qual me referi, interrompeu-me a figura terna e agradável do saudoso poeta alagoano Lêdo Ivo, com seu jeito simples e preciso de falar, sem rodeios, inconfundível. Eu já havia gostado muito de assistir a uma entrevista desse valoroso imortal da Academia Brasileira de Letras concedida ao jornalista Geneton Moraes Neto, quando contou, risonho e descontraído, algumas histórias de sua convivência com outros famosos escritores: revelou que Guimarães Rosa, por exemplo, era um sujeito muito pouco modesto pois se julgava, sem o menor pudor, o melhor escritor da língua portuguesa de todos os tempos; disse também que era Rosa quem escrevia os press-releases de seus próprios livros, quando os elevava à condição de obras-primas, trabalhos inigualáveis na literatura mundial. Nesse segundo programa que comecei a assistir, mais uma biografia que uma entrevista, Ivo contou sobre suas origens humildes em Maceió e que ele desde cedo já se imaginava um escritor, mesmo vivendo numa cidade sem bibliotecas à época. Sobre outros escritores, revelou que sempre foi muito próximo a Graciliano Ramos e que esse o influenciou quando resolveu definir seu estilo, refratário ao movimento modernista de 1922: Ramos considerava os modernistas nada além de um bando de homossexuais assanhadiços. Entremeando esses causos, vários sonetos do poeta eram recitados, e devo confessar que, mesmo sendo um amante mais da prosa que da poesia, apreciei deveras os cuidadosos versos do autor alagoano. No intuito de melhor conhecer sua obra e também para saciar temporariamente minha ânsia por livros, resolvi encomendar por uma famosa livraria virtual o título Poesia Completa 1940-2004, da Editora Topbooks. Transcorridos os intermináveis dez dias para a entrega, tal qual um menino que recebe um presente há muito desejado, fui invadido por uma satisfação inenarrável ao abrir o livro e descobrir que meu exemplar, composto em papel de alta gramatura, é o centésimo sexagésimo segundo de uma edição com apenas duzentos exemplares e que, surpreendentemente, está autografado. Repito: autografado. Não, não se trata de uma assinatura psicografada: Lêdo Ivo, falecido em 2012, assinou os duzentos exemplares ainda em vida. Orgulhoso, estou com o meu aqui perfeitamente perfilado em minha estante pretensiosa; creio que restem apenas trinta e oito ou menos na Editora. A propósito, já li algumas páginas dessa obra e transcrevo a seguir um dos poemas que mais apreciei.

O TODO E A PARTE

Uma parte visível.
A outra parte escondida.
Assim me divido
no jogo da vida.

Assim me divido,
me somo e me subtraio.
Uma parte é do relâmpago
e a outra parte é do raio.

Sou dia e sou noite,
a certeza e o talvez
atrás da montanha.

Só ganho quando perco.
Só perco quando ganho.
Estou desperto e sonho.

(Curral de Peixe, 1991-1995)

Combray

combrayO paciente leitor deste blog deve ter percebido que seu autor não demonstra primor na faculdade da maturidade quando, em certos textos, ele revela seus desejos mais infactíveis. No campo da literatura, por exemplo, já foi citada, mais de uma vez, a sua pungente vontade de ler absolutamente tudo de todos os autores que admira. O blogueiro pensa contrabalançar essa tendência com um patético discurso racional, buscando demonstrar a si próprio a total impossibilidade de seus sonhos. Ultimamente, ele tem percebido que essas tentativas de auto convencimento são inócuas, uma vez que os desejos pueris sempre voltam e alguns deles, com a disposição típica de uma criança inquieta. Por conta disso e em nome da honestidade, fundamento daquilo que se conhece por paz interior, este escrevinhador de posts pretensiosos resolveu considerar sua inconteste imaturidade no campo literário como parte integrante do muito que lê e principalmente do pouco que escreve. Assim, neste contexto menos rigoroso, ele se atreveu a realizar um desses seus sonhos ingênuos: traduzir, da forma mais fiel possível ao original, sem perder a fluência do Português, as primeiras e inesquecíveis frases da obra “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust. Explico, desde já, que tal sonho é de fato ingênuo porque o pretenso tradutor não conhece patavina de Francês, língua materna de Proust e na qual esse romance, considerado o maior do século XX, foi escrito. Apresenta-se a seguir o original de Proust e ao final o atrevimento desse tradutor bisonho. Antes porém, para que o leitor julgue a qualidade de seu pequenino trabalho, ele cita outras versões já consagradas.

Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Parfois, à peine ma bougie éteinte, mes yeux se fermaient si vite que je n’avais pas le temps de me dire: “Je m’endors.” Et, une demi-heure après, la pensée qu’il était temps de chercher le sommeil m’éveillait; je voulais poser le volume que je croyais avoir dans les mains et souffler ma lumière; je n’avais pas cessé en dormant de faire des réflexions sur ce que je venais de lire, mais ces réflexions avaient pris un tour un peu particulier; il me semblait que j’étais moi-même ce dont parlait l’ouvrage: une église, un quatuor, la rivalité de François Ier et de Charles-Quint. (“Du côté de chez Swann”, Marcel Proust)

Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Adormeço”. E, meia hora depois, despertava-me a ideia de que já era tempo de procurar dormir; queria largar o volume que imaginava ter ainda nas mãos e soprar a vela; durante o sono, não havia cessado de refletir sobre o que acabara de ler, mas essas reflexões tinham assumido uma feição um tanto particular; parecia-me que eu era o assunto de que tratava o livro: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V. (“No Caminho de Swann”, Mario Quintana)

Durante muito tempo fui para a cama cedo. Por vezes, mal apagava a vela, os olhos fechavam-se-me tão depressa que não tinha tempo de pensar: “Vou adormecer.” E, meia hora depois, era acordado pela ideia de que era de tempo de conciliar o sono; queria poisar o volume que julgava ter nas mãos e soprar a chama de luz; dormira, e não parara de reflectir sobre o que acabara de ler, mas tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto especial; parecia-me que era de mim mesmo que a obra falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V. (“O Lado de Swann”, Pedro Tamen)

Durante muito tempo, deitava-me cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Vou dormir”. E, meia hora depois, a idéia de que já era tempo de conciliar o sono me despertava: queria deixar o livro que julgava ainda ter nas mãos e assoprar a vela; dormindo, não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, porém tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto singular; parecia-me que era de mim mesmo que o livro falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade de Francisco I e Carlos V. (“No Caminho de Swann”, Fernando Py)

Durante muito tempo, eu ia para cama cedo. Por vezes, à vela quase apagada, meus olhos fechavam-se tão rapidamente que não tinha tempo de dizer a mim mesmo: “Adormeço”. E, meia hora depois, o pensamento de que já era tempo de buscar o sono me despertava; queria largar o volume que acreditava ter nas mãos e soprar a luz da vela; adormecido, eu não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, mas tais reflexões tinham tomado um rumo um tanto peculiar; parecia-me que o livro falava sobre mim mesmo: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V. (“Rumo à Casa de Swann”, Eu)

O Porvir

faltam4diasSegundo a tabela de mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em 2012, o homem brasileiro com a idade de quarenta anos em 2010 viverá, em média, até os 75,1 anos e aquele com os mesmos quarenta em 2011 viverá até os 75,3. Fazendo-se um extrapolação linear desse crescimento, uma vez que o IBGE ainda não divulgou os dados do ano passado, o homem de quarenta em 2012 viverá 75,5 anos. Atualmente, isso significa que um ser humano do sexo masculino, nascido no Brasil em 1972, desfrutando, na sua plenitude, da complicada idade do lobo, tem pela frente 45,6% de sua vida. Portanto, esses primatas, dotados de sofisticado raciocínio lógico e de um polegar opositor, já usufruíram mais da metade de sua história no planeta Terra. Ao subconjunto deles, composto por amantes da Literatura, do qual faço parte integrante, restam-lhe menos de 34,5 anos de leitura, uma vez que nem mesmo o leitor mais desocupado consegue ler ininterruptamente. Consideremos que esses tais aficionados lerão, em média, três horas por dia durante trinta anos. Há, portanto, uma janela de tempo de 4 anos para leitura ininterrupta. Em um romance, há em média 120.000 palavras. Assim, esses ávidos leitores, hoje quarentões, lendo uma média de 170 palavras por minuto, consumirão, até se tornarem setuagenários, por volta de 3.000 romances. Caso haja, dentre os indivíduos citados, alguns deles cujas quantidades de títulos ainda por ler em suas bibliotecas particulares já tenham ultrapassado o correspondente à esse número, eles precisarão começar a fazer escolhas cruéis, ou então se fiar na teoria de vidas futuras que reencarnam: interessante perspectiva que ensejaria a prática da leitura por um mesmo espírito – é apenas através dele que se absorve Literatura – até o fim dos tempos. Embora altamente impreciso, o resultado de toda essa aritmética tranquilizou-me sobremaneira, pois, sendo um cético contumaz à teimosa reincidência da alma à vida terrestre, constatei satisfeito que, nas condições da previsão do IBGE, terei tempo de sobra para apreciar minha humilde biblioteca no seu volume atual e também continuar adquirindo compulsivamente mais livros, com a possibilidade real de conseguir lê-los. Alguns diriam que essa minha tranquilidade diante de tão débeis suposições é descabida, sendo fruto de arrogância, de prepotência, uma vez que o futuro e a onipotência à Deus pertencem. Os religiosos mais extremistas diriam que é pecado venial porque tal sensação de segurança, embora inconsciente, é como querer se igualar ao Todo-Poderoso; cogitariam a hipótese de que eu, imerso nessa autoconfiança profana, poderia ser acometido por uma síncope letal a qualquer momento, até mesmo durante minhas leituras. Sou obrigado a concordar, em certa medida, com a ideia do pedantismo; talvez seja isto mesmo: lá no fundo de minha mente perturbada, agrada-me a ilusão de ser o dono do meu futuro. À superfície, tenho plena consciência de que o porvir é praticamente incontrolável; digo “praticamente” porque há algumas certezas: na hipótese da tal síncope durante a leitura, por exemplo, é absolutamente certo que eu não estaria segurando um livro do “blue eyes” Chico Buarque de Hollanda – “escritor” que precisa estar em Paris para se inspirar -, nem do imortal Paulo Coelho – considerado persona non grata à feira literária de Frankfurt 2013 – e de outros congêneres.

Sete

sevenHá muito, muito tempo, numa de minhas frequentes visitas solitárias ao cinema, tive o prazer de assistir ao filme Se7en – Os Sete Crimes Capitais (Se7en), do diretor David Fincher. Estrelada por Morgan Freeman e Brad Pitt nos papéis de investigadores de polícia, a película (a mídia ainda era essa em 1995) conta a história de um serial killer – interpretado pelo ator Kevin Spacey, em sua melhor atuação até o momento – cujo modus operandi se inspira nos chamados sete pecados capitais: Gula, Avareza, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça e Vaidade. A dupla de investigadores é então encarregada de descobrir o paradeiro do assassino e capturá-lo. Assim descrito, com a prudência de não revelá-lo aos que ainda não assistiram, o filme parece banal, soando como um história policial previsível, como mais um produto padronizado da indústria cinematográfica norte-americana. Confesso que em relação à sétima arte, sou alguém de difícil satisfação e convencimento: não é muito comum que eu considere uma história filmada tão nobre quanto uma história escrita. Entretanto, no caso de Se7en, minhas resistências caem por terra e me acorre a necessidade de ser justo, de ser honesto, de afirmar categoricamente que esse filme é um autêntico trabalho artístico, uma obra-prima. Em sua trilha sonora, há uma famosa peça do indescritível compositor Johann Sebastian Bach, e são citados no transcorrer da história os célebres autores Dante Alighieri e John Milton. Não posso dizer que Se7en tenha influenciado minha admiração atual por Bach e Dante, mas é curioso assistir ao filme hoje e perceber que eu já havia tomado conhecimento dessas duas personalidades, as quais, anos mais tarde, seriam parte integrante de minha estante pretensiosa: por algum motivo, a modesta coleção de Bach e A Divina Comédia estão dispostas bem próximas. Alguns dias atrás, recebi o livro John Milton: The Complete English Poems – coleção de poemas do poeta inglês John Milton, lançado pela cuidadosa editora inglesa Everyman’s Library – e o coloquei perto dos demais. Porém, antes disso, como acontece com qualquer livro recém-chegado aos meus domínios, interrompo qualquer outra ocupação a fim de folheá-lo. Chamou-me a atenção um pequeno grande poema dedicado à Shakespeare. Ainda com as fortes lembranças do filme e empolgado com minhas aventuras no campo da tradução, resolvi então me atrever a verter para o Português os versos rimados desse texto, intitulado On Shakespeare, apresentado no menu Trabalhos, Tradução, submenu John Milton. Na tradução possível das rimas, procurei manter, apesar de minhas pobres experiências poéticas, a nobreza e a altivez do texto original.

Respeito

dupinDescobri a maioria dos autores que hoje me são familiares remexendo estantes de livros. Além de minha curiosidade congênita pela matéria, esse bisbilhotar tinha raízes na vontade de explorar o desconhecido, na procura por respostas, na busca por tesouros escondidos; ocupações essas que, vez por outra, tomavam horas de meus finais de semana, ou, dependendo da época, das minhas férias. Hoje percebo que a estante mais divertida, aquela que mais tive prazer em desbravar foi a da casa de meu avô; algo que costumava fazer nos dias mais frios, cinzentos e chuvosos de minha cidade natal. Ali, enfurnado dentro de casa, na pequena sala de estar, eu primeiro corria os olhos pelas prateleiras abertas da estante e depois abria as portas de sua parte inferior, onde havia uma imensidão de títulos empilhados desordenadamente; confusão que, ao invés de desestimular a procura, atiçava ainda mais o meu interesse. Conforme já citei em post anterior, numa dessas incursões pelo desconhecido, chamou-me a atenção um livro de capa sombria, amedrontadora, própria das histórias de horror, exibindo uma espécie de macaco gigantesco, com uma mansão decrépita em segundo plano, desenhados de maneira rudimentar, quase ingênua, mas compatível com o preço e a qualidade da edição. Tratava-se de um compêndio de contos do escritor norte americano Edgar Allan Poe (1809-1849) cuja capa ilustrava um deles, intitulado pelo tradutor Os Crimes da Rua Morgue. Talvez esse autor tenha sido o primeiro a compor o conjunto de artistas que admiro e, por conta disso, hoje ele não poderia faltar na minha biblioteca pretensiosa. O livro e as lembranças daquele tempo incitaram sonhos intranquilos, que numa noite tórrida me fizeram acordar com as antigas imagens do conto, ainda indefinidas. Resolvi então relê-lo a fim de aliviar o incômodo e também para poder reviver aquele tempo, aquelas horas à estante do meu saudoso avô, alguém que descobri recentemente ser também um bibliófilo. A péssima tradução que há muito repousava em minha estante impediu que eu prosseguisse e, ato contínuo, suscitou um encadeamento de ideias: primeiro, resolvi buscar traduções mais recentes e constatei que eram igualmente ruins; depois, apesar do meu parco conhecimento de Inglês, decidi ler o conto no original, mas isso não aplacou algo ainda indefinível que me inquietava; após algum tempo perscrutando os recessos de minha mente perturbada, percebi que eu desejava, na verdade, corrigir certas faltas cometidas, reparar culpas desconfortáveis, escondidas desde a morte de meu avô; culpas que, sem motivo aparente, emergiram. Diante dessa clarividência e desejoso de lhe agradecer pelos momentos inesquecíveis à sua estante, ocorreu-me traduzir o conto; mas traduzi-lo da maneira que o texto e seu autor merecem: com respeito. Após um longo tempo de labuta e animado por ter finalmente superado este desafio de verter para o Português um escrito do admirável Edgar Allan Poe, resolvi impor-me mais um, ainda não iniciado: traduzir, além desse, os outros dois textos com o mesmo protagonista. Assim, publico aqui no Extrato mais uma obra em construção, disponível no menu Tradução, submenu Edgar Allan Poe, chamada Os Contos do Monsieur C. Auguste Dupin, onde o primeiro deles, por mim intitulado Os Assassinatos na Rue Morgue, está finalizado. Por conta de minhas pesquisas e de uma absoluta falta de modéstia que frequentemente me acomete, trata-se, até o presente momento, da melhor tradução desse conto para a língua portuguesa.

O Gigante

ChapeuNos meus longínquos tempos de criança, ele me parecia um verdadeiro gigante: para erguer meu olhar até seu rosto, eu precisava inclinar bastante a cabeça para trás. Dessa visão de menino, surgia uma boa dose de medo, pois não se tratava de alguém dado a muitas conversas, a muitas interações. Em meio ao silêncio que o envolvia, conservava sempre um semblante circunspecto, e seu jeito fechado impingia-lhe, vez por outra, as feições da severidade. Ele não era, em absoluto, violento; nunca o enxerguei como alguém que eu desejasse manter distância, que eu preferisse não encontrar. É curioso perceber agora aquele medo que jamais engendrou o repúdio. Algumas vezes, meus irmãos e eu, seus netos que moravam na capital, nos atrevíamos, sem o menor pudor, a escalá-lo quando estava distraído ou a pular em seu colo enquanto descansava no sofá. Por algum motivo, entendíamos que sua reação impaciente àquela efusividade ruidosa era apenas aparente; nos parecia claro que reagia assim não porque se incomodava com nossas brincadeiras, mas consigo mesmo; por querer retribuir e não saber como fazê-lo. Assim, na expectativa de repetir esse assédio, ficávamos ansiosos à janela, naqueles finais de tarde chuvosos, esperando-o chegar do trabalho. Quando ele apontava na esquina da rua, vinha a passos firmes, rápidos, carregando seus pertences e um chapéu marrom muito bem cuidado, simples e limpo. Da parcela visível do cabelo, notava-se que ele os alisava com óleo e esse esmero ele tinha também ao se vestir: sapato preto lustrado; calça com três pregas, modesta, limpa, cinto à altura do umbigo, chaveiro, relógio de bolso, camisa social sem manga, de algodão, lisa, impecável. Não era incomum que chegasse de caminhão, o mesmo que o conduzira, junto com o motorista e outros colegas, ao longo do dia de trabalho. Ficávamos animados com essa chegada diferente e ao vê-lo descendo da carroceria, corríamos para recebê-lo. Ao longo dos anos, amenizou-se toda aquela seriedade que o caracterizava e assim, nesses modos menos taciturnos, ele costuma me acorrer à lembrança: seu sorriso incontido, seus gestos singulares, sua robustez, a voz altiva, as mãos grossas do capinar, a pele alva extensamente castigada pelo sol, o invejável azul saturado dos olhos e um contemplar discreto, na maioria das vezes, à janela, fitando o infinito. Amante da boa música caipira, dessas que não se fazem mais, ele tinha sempre por perto um radinho de pilha, que costumeiramente ligava ao ir para cama e ao acordar de madrugada, quando partia para mais um dia de trabalho. Conservava prazeres singelos, nunca dispondo de tempo e muito menos de dinheiro para gozá-los: findo seus anos de serviço, quando poderia dispor de seu merecido descanso, a doença o levou pouco tempo depois. De seus objetos, restou quase nada para lembrá-lo; entretanto, com o avançar implacável da idade, está ficando cada vez menos imprescindível estimular minhas recordações, principalmente das pessoas queridas, pela via material. Confesso que ela ainda me é importante, mas, hoje em dia, as histórias que ouço sobre elas são tão ou mais encantadoras do que o tangível. Há pouco tempo, num bate papo casual com minha mãe, falávamos sobre a prática da leitura e eu recordava o quanto gostava de ler estando na casa de meu avô, onde havia uma pequenina estante, abarrotada com livrinhos, dos mais variados tipos e qualidades. Ela me contou que, restrito por apertadíssimos limites financeiros, meu avô se permitia uma única extravagância: livros. Eis o único item que ele admitia estourar o orçamento. Essa novidade não me saiu mais da cabeça e as recordações desse tempo, quando eu vasculhava aquela estante maravilhosa à procura do desconhecido, se aprofundaram. Certa noite, acordei com a imagem de um daqueles livros, que trazia à capa uma mansão sinistra. Corri então em direção à minha estante, peguei um título e o folheei até encontrar um conto. Decidi então relê-lo, pois as reminiscências da história ainda estavam vivas, fortemente associadas ao livro da estantezinha do meu avô. Poucas linhas à frente, interrompi a leitura; temi que aquela tradução ignóbil maculasse as circunstâncias maravilhosas com as quais minha mente perturbada envolvera a obra. Passou-me então pela cabeça lê-la no original em inglês, mas essa ideia foi atropelada por outra, ansiosa em prestar um pequeno tributo à esse homem que, no evento de sua morte, recebeu do neto mais velho a crueldade da ausência e da desconsideração. Então, traduzi esse conto, escrito em 1841, para o português, na tentativa de reparar o irreparável: um erro do passado. Muito em breve, publicarei essa tradução, essa homenagem, aqui no Extrato.

Waterloo

napoleaoPor algum motivo que desconheço, o tema sobre as fontes a partir das quais as grandes mentes da humanidade se inspiraram para construir seus trabalhos me fascina. Tenho enormes dificuldades em considerar qualquer criação um processo inteiramente original, inteiramente novo, fruto do inédito, daquilo que nunca fora pensado ou, em palavras mais poéticas, como algo que singrou mares nunca dantes navegados. Esse tema já foi tratado aqui no Extrato e porque é reincidente nesta minha mente assolada por ideias fixas, não me acorrem escrúpulos para repeti-lo num novo post. Então, vou falar aqui especificamente de certos questionamentos que surgiram numa de minhas leituras incansáveis. O célebre imperador francês Napoleão Bonaparte foi tomado como personagem não ficcional em dois dos mais influentes romances épicos da história da literatura ocidental: Os Miseráveis, do francês Victor-Marie Hugo, e Guerra e Paz, do russo Liev Nikoláievich Tolstói. Iniciado por volta de 1840, o primeiro foi publicado em 1862 enquanto a versão final do segundo em 1869, tendo sido iniciado em 1866. Estudiosos afirmam que Tolstói, tão fluente na língua francesa quanto na russa, inspirou-se, inclusive definindo o título de sua obra, no livro homônimo La Guerre et La Paix (Guerra e Paz) do filósofo anarquista francês Pierre-Jospeh Proudhon, publicado em 1861. Lendo avidamente o espetacular livro de Victor Hugo, no ponto em que o autor arremata sua magistral descrição da Batalha de Waterloo – no capítulo XVIII, livro I, volume II – deparei-me com o parágrafo a seguir.

Enquanto Napoleão agonizava em Longwood, os sessenta mil homens no campo de Waterloo se desintegravam tranquilamente, e um pouco de sua paz se expandiu pelo mundo. O Congresso de Viena fez os tratados de 1815, e a Europa chamou a isso de Restauração.
Eis o que é Waterloo.
Mas que importa ao infinito toda essa borrasca, toda essa nuvem, essa guerra e essa paz?

Extraído de Os Miseráveis, pp. 511-512, CosacNaify, ed. bolso, 2012
Victor Hugo

Nessa citação, encontra-se novamente os termos díspares “guerra” e “paz”. Perguntas começaram a pulular em minha cabeça quando recordei a cronologia dos fatos: por volta de 1840, Victor Hugo começa a escrever Os Miseráveis; em 1861, Proudhon lança seu Guerra e Paz; em 1862, Victor Hugo lança sua obra; em 1866, Tolstói começa a última versão do seu Guerra e Paz, publicando-o em 1869. Eis as perguntas: Será mesmo que Tolstói, à época um aristocrata rural de 34 anos, consideraria como principal fonte inspiradora o trabalho de um anarquista, de alguém contrário à propriedade privada, para o qual a guerra é algo divino? Não seria mais plausível crer que Tolstói leu Os Miseráveis e se encantou, assim como eu, com a descrição da Batalha de Waterloo? Seria absurdo afirmar que, a partir dessa admiração, tenha ocorrido ao autor russo a ideia de escrever, sob seu enfoque particular, as peripécias napoleônicas em sua pátria? Seria possível dizer que o exilado Victor Hugo, apenas um ano antes do lançamento de seu livro, tenha lido Proudhon e, por causa dele, tenha modificado o certamente já finalizado capítulo XVIII, livro I, volume II a fim de incluir “guerra” e “paz”? Racionalmente, devo dizer que qualquer resposta que se dê para as perguntas levantadas seria cogitação, imaginação, delírio. Entretanto, costumo considerar, em certas circunstâncias, o mundo ficcional tão ou mais importante que o real. Assim, como o Extrato não tem compromisso algum com a verdade, confortarei esses meus angustiantes questionamentos internos criando os seguintes fatos: “Victor Hugo não leu a Guerra e Paz do filósofo Proudhon. Na verdade, ele o detestava. Tolstói começou a ler, mas achou muito chato e não terminou. No outono de 1863, alguém lhe presenteou com uma coleção de cinco volumes, escritos em francês, intitulada Os Miseráveis. Ao terminar de ler o primeiro deles, resolveu modificar um pouco a ideia daquele romance que começara a rascunhar: ele iria ampliá-lo e incluir Napoleão”.

Você

Você lê um livro que te impressiona porque diz muita coisa a seu respeito;
Você tem vontade que outros o leiam porque deseja que tenham a mesma experiência;
Você se embaraça ao indicá-lo aos amigos porque ele é escrito em inglês;
Você procura uma versão do livro em português porque o autor é o famoso Erich Fromm;
Você se decepciona enormemente porque inexiste tradução para o seu idioma;
Você tem uma grande ideia porque certos desafios o instigam;
Você começa a verter o livro para o português porque acredita na sua capacidade;
Você termina orgulhoso seu trabalho porque ele não foi nada fácil;
Você o submete a diversas editoras porque almeja recompensa mínima por seu esforço;
Você constata o total desinteresse delas porque o livro não vende fácil;
Você se emputece consigo mesmo por ter dispendido precioso tempo em vão;
Você ignora esse trabalho por um tempo porque precisa evitar a frustração;
Você pensa naqueles para os quais indicou o livro porque nunca o verão nas livrarias;
Você resolve disponibilizar o livro no seu blog porque tem arroubos raros de despojamento;
Você coloca o livro na área Trabalhos/Tradução porque quer se mostrar organizado;
Você se sente livre porque só agora dá um fim ao que se propôs.

Fecunda Autonomia

livroTenho certos preconceitos em relação a relatos de vida, principalmente se narrados em primeira pessoa. Mesmo quando essas histórias são bem contadas, julgo-as quase todas enfadonhas, insossas. Como sou um esquisito por natureza, resolvi exercitar um pequeno relato de vida, colocando-me no pólo de quem escreve. Desse esforço, saiu “Fecunda Autonomia”, texto que acresci aos meus Contos Ingênuos.

Salmo Quarenta

livroDe vez em quando, ocorre-me tentar imprimir uma certa profundidade rebuscada nos meus escritos. O fim último e velado desse exibicionismo sóbrio é que o leitor perceba no texto os sinais do meu esforço e, assim, me dê algum crédito. Foi exatamente essa a intenção do conto “Salmo Quarenta”, adicionado aos meus Contos Ingênuos.