Sete

sevenHá muito, muito tempo, numa de minhas frequentes visitas solitárias ao cinema, tive o prazer de assistir ao filme Se7en – Os Sete Crimes Capitais (Se7en), do diretor David Fincher. Estrelada por Morgan Freeman e Brad Pitt nos papéis de investigadores de polícia, a película (a mídia ainda era essa em 1995) conta a história de um serial killer – interpretado pelo ator Kevin Spacey, em sua melhor atuação até o momento – cujo modus operandi se inspira nos chamados sete pecados capitais: Gula, Avareza, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça e Vaidade. A dupla de investigadores é então encarregada de descobrir o paradeiro do assassino e capturá-lo. Assim descrito, com a prudência de não revelá-lo aos que ainda não assistiram, o filme parece banal, soando como um história policial previsível, como mais um produto padronizado da indústria cinematográfica norte-americana. Confesso que em relação à sétima arte, sou alguém de difícil satisfação e convencimento: não é muito comum que eu considere uma história filmada tão nobre quanto uma história escrita. Entretanto, no caso de Se7en, minhas resistências caem por terra e me acorre a necessidade de ser justo, de ser honesto, de afirmar categoricamente que esse filme é um autêntico trabalho artístico, uma obra-prima. Em sua trilha sonora, há uma famosa peça do indescritível compositor Johann Sebastian Bach, e são citados no transcorrer da história os célebres autores Dante Alighieri e John Milton. Não posso dizer que Se7en tenha influenciado minha admiração atual por Bach e Dante, mas é curioso assistir ao filme hoje e perceber que eu já havia tomado conhecimento dessas duas personalidades, as quais, anos mais tarde, seriam parte integrante de minha estante pretensiosa: por algum motivo, a modesta coleção de Bach e A Divina Comédia estão dispostas bem próximas. Alguns dias atrás, recebi o livro John Milton: The Complete English Poems – coleção de poemas do poeta inglês John Milton, lançado pela cuidadosa editora inglesa Everyman’s Library – e o coloquei perto dos demais. Porém, antes disso, como acontece com qualquer livro recém-chegado aos meus domínios, interrompo qualquer outra ocupação a fim de folheá-lo. Chamou-me a atenção um pequeno grande poema dedicado à Shakespeare. Ainda com as fortes lembranças do filme e empolgado com minhas aventuras no campo da tradução, resolvi então me atrever a verter para o Português os versos rimados desse texto, intitulado On Shakespeare, apresentado no menu Trabalhos, Tradução, submenu John Milton. Na tradução possível das rimas, procurei manter, apesar de minhas pobres experiências poéticas, a nobreza e a altivez do texto original.

Rhode Island

vacaConsidero a maioria esmagadora das comédias protagonizadas pelo ator Jim Carrey  entre medianas e péssimas. Nesses filmes torpes, o comediante canadense abusa de suas momices infames para tentar deixar sua marca, seja ela positiva ou não: isso pouco importa. Ao arsenal de bestialidades do qual Carrey dispõe freneticamente, acrescentam-se roteiros medíocres e disformes, peculiares aos pastelões da indústria cinematográfica hollywoodiana. Entretanto, nem tudo é um desastre na débil comicidade do ator: lembro-me de uma cerimônia de premiação do Oscar onde, num dado momento, ele se coloca de costas para a plateia, se curva, direcionando sua região anal ao microfone, e pratica uma espécie de ventriloquia com as nádegas. Ainda não houve um discurso que tenha sido mais representativo do evento, mais apropriado para essa festa ignóbil que é o Oscar. Claro está que o sucesso alcançado por Jim Carrey minora significativamente a legitimidade de minhas críticas: o ator é considerado uma estrela da sétima arte e boa parte do dito mundo civilizado o conhece e admira. Confesso, encabulado, que há um único um filme que me faz sentir parte desse rebanho: Eu, Eu Mesmo e Irene (Me, Myself and Irene), dos nada ortodoxos Bobby e Peter Farrelly. A história narra a trajetória de um policial do estado americano de Rhode Island, interpretado por Carrey e suas palermices, desde a absoluta humilhação que sofre, passando por uma esquizofrenia caricata até o tradicional final feliz. No papel da mocinha Irene, par romântico do policial, atua a esquisita René Zellweger, que nos idos do ano 2000 ainda não fora vítima de seus atuais cacoetes faciais e exibia alguns traços de beleza juvenil. Além das belas paisagens, também me atrai a criativa trilha sonora, cujo ponto alto é a música The World Ain’t Slowin’ Down do cantor folk Ellis Paul. Por diversas vezes, tentei empreender esforços para entender as causas dessa minha vontade reiterada de assistir ao filme e rir de suas pieguices, a fonte desse meu incansável apreço; algo definitivamente meu, que não é compartilhado e nem encontra eco nas pessoas mais próximas.

Complemento

Um adolescente na primeira metade da década de 80 minimamente integrado à vida social não ficou imune à exótica figura denominada Michael Jackson. Esquálido e excêntrico, o finado cantor norte americano, egresso do grupo The Jackson 5, no qual dividia o palco com os irmãos, assombrou o mercado fonográfico com o lançamento de Thriller, o sexto álbum de sua carreira solo. Com produção do ex-comedor de ratos Quincy Jones, o trabalho tem o estilo Rhythm & Blues com enfoque bastante pop; mistura inebriante que seduziu três quartos da adolescência do dito mundo civilizado. Um recurso que se revelou fundamental para esse nível de contaminação das mentes juvenis foi o lançamento dos tais vídeos promocionais das músicas, recém batizados, à época, de “video-clips”. O franzino Michael, dotado de uma assexualidade serelepe, era dado a excessos e não poupou dispêndios financeiros para promover o hit Thriller, música que dava nome ao “disco” (eu ainda uso essa terminologia). O vídeo de 13 minutos e 43 segundos, recheado com cenas patéticas de terror, peculiares aos filmes C, foi dirigido pelo diretor, também de nível C, John Landis e finalizado, de maneira apoteótica, pelas gargalhadas sinistras do não menos sinistro Vincent Price, cujo nome sequer constou nos créditos finais. A empreitada que custou US$500.000 – um desbunde em 1983 – alçou o sucesso do álbum e do semi-negro Michael à estratosfera, eternizando-o no mundo pitoresco da música pop.  Alguns críticos mais animadinhos elegeram recentemente esse video-clip como o melhor, o mais influente da história; algo contra o qual gostaria de me opor. Qual o propósito de um video-clip, além do comercial? Acredito que seja o de acrescentar algo à canção que está promovendo, seja no âmbito do conteúdo, no âmbito da forma ou em ambos: a música pop pós-década de 80 parece que precisa desse acréscimo, desse complemento. Assim, quero dizer que o filme de John Landis, protagonizado pelo zumbi dançante Michael Jackson, falha nesses propósitos, pois além de ser desprovido de qualquer conteúdo, não conseguiu acrescentar absolutamente nada à forma, apenas enfraquecê-la. Como um experiente fã de pop e apreciador de vídeo-clips, não me lembro de um vídeo melhor do que o da música Here It Goes Again, do grupo norte-americano OK Go: são 2 minutos e 59 segundos, sem cortes, nos quais os integrantes da banda executam malabarismos coreografados sobre esteiras ergométricas; algo que demandou dezessete tentativas até que conseguissem. A música ganhou minha atenção e milhões de acessos no YouTube por conta do seu video-clip, do formato inesquecível que deu à ela. Tenho a impressão que para promover a música pop desses novos tempos, há que se dispor menos do ridículo, como em Thriller, e mais de espetáculos circenses.

Barney

Consegui dar boas risadas no divertido Roma Com Amor (To Rome With Love) de Woody Allen. Não sou fã ardoroso do cineasta nova-iorquino, mas alguns de seus filmes são realmente inesquecíveis para mim, principalmente os menos famosos e, dentre eles, os que me fazem sorrir. Confesso que o riso não me é difícil: algumas vezes, ele aparece quase como uma reação, um reflexo ao evento engraçado, que necessita ser apreciado; em outras, como fruto de uma débil elaboração, sensivelmente atrasado em relação ao que o estimulou. Pode acontecer também que esses dois tipos de riso se sucedam e assim, em certos casos, o fenômeno cômico se perpetua, reaparecendo como imagens projetadas por alguma região da mente ansiosa por esse tipo de prazer. Atrai-me, quase sempre, o absurdo, o grotesco, a caricatura e talvez seja por isso que algumas das histórias do filme – como a do agente funerário elevado à condição de tenor por um produtor de espetáculos não convencionais – me pareçam tão engraçadas. Ao assistir a cena do cantor de banheiro entrando no palco dentro de um box improvisado, debaixo de um chuveiro, gargalhei efusivamente e senti enorme prazer em poder reviver aquela cena inusitada. Lembrei-me imediatamente de um desenho dos Flintstones ao qual assisti ainda quando criança, cujo título em inglês é Flintstones Canaries. O episódio, apresentado ao público americano em 1963, mostra o vizinho e fiel amigo de Fred, Barney Rubble, se apresentando no palco dentro de uma banheira, já que não conseguia a mesma performance vocal fora dela, como o agente funerário de Woody Allen. De alguma forma, fico grato à essa coincidência (alguns argumentam que foi plágio), porque pude revisitar um momento alegre da infância, obscurecido por tantos outros que o sucederam ao longo dos anos. Depois de matutar sobre a similaridade das minhas reações diante dessas duas histórias também similares, tão distantes uma da outra no tempo, percebi que certos comportamentos emotivos não são adquiridos, mas gerados, como uma parte orgânica, dentro do seio materno. Porque são intrínsecos, tais comportamentos nos definem e podem até mudar um pouco com a idade, mas estarão sempre presentes, até o fim.

Classificação

Before SunriseOs filmes que são classificados como “Comédia Romântica” não fazem muito o meu estilo. Houve uma época na qual o gênero não tinha o menor pudor de exibir seu viés melífluo, ignorando a inteligência do espectador com histórias românticas pobres e folhetinescas, no pior sentido do termo. Eu não me ruborizava tanto quanto hoje ao assistir aqueles finais felizes ignóbeis: tratava-se de um mal necessário para conquistar a moça, ainda colega, sentada na cadeira ao lado, no cinema. Confortava-me o fato dela não perceber o meu constrangimento diante das cenas melodramáticas, expressão que ficava camuflada pelo escurinho da sala de projeção. Ajudava também minha facilidade para fabricar gargalhadas que acompanhavam, com um atraso imperceptível, as da plateia eufórica. Ao final do canhestro espetáculo cinematográfico, ocorria a parte mais difícil: comentar com ela o filme. A condição fundamental que deveria ser mantida durante essa conversa sensível era não deixar transparecer o meu caráter pouco romântico. Se ele fosse remotamente percebido, haveria uma forte possibilidade de que meu espírito crítico ficasse exposto; algo completamente inútil e improdutivo quando se está na fase da conquista. Minha resposta padrão para a pergunta “Gostou do filme?” era “Gostei. O filme é engraçado, divertido e ao mesmo tempo profundo.” Embora a autenticidade ficasse profundamente abalada por comentários desse tipo, minhas segundas intenções justificavam tais falsidades. No entanto, algumas vezes, eu ia ao cinema sozinho, autêntico e autônomo, nessas salas que exibem filmes chamados “cult”, ambiente para o qual eu não levava minhas “colegas”, mas que me dava a devida segurança de não ser submetido às babaquices das histórias melosas. Nessa situação, eu não me importava com o que iria assistir e fazia questão de entrar na sala sem saber do título do filme  e muito menos de sua sinopse. Foi assim que assisti Antes do Amanhecer (Before Sunrise) de Richard Linklater, estrelado por Julie Delpy e Ethan Hawke. Encerrado o filme, estava eu completamente apaixonado por Viena e pela atriz parisiense. Ao sair da sala, aproximei-me do poster de divulgação do filme e pareceu-me errada sua classificação: comédia romântica.  Anos mais tarde, comprei o DVD e após me encantar novamente com aquela noite vienense, percebi-me equivocado e, de certa forma,  preconceituoso.

Judah

Quando ainda existíamos como família, cultivávamos certos hábitos, certos costumes. Um deles era assistir ao épico Ben-Hur de William Wyler, lançado em 1959 e vencedor de 11 Oscar. O costume começou com o advento do VHS e da minha animada disposição para gravar o filme. Lembro-me de passar mais de quatro horas em frente à TV, tenso, atento aos intervalos comerciais repentinos, para que pudessem ser devidamente removidos e a gravação ficasse sem acréscimos indesejados ou cortes adicionais aos que a Rede Globo já fazia. Ao término da epopeia, aliviado e satisfeito, colei cuidadosamente os adesivos na fita para identificá-la, quebrei a lingueta que permitia a gravação e guardei o fruto do meu árduo trabalho em lugar seguro. A partir daí, com a “posse” do filme, passamos a usufruir dele, ao longo dos anos, numa frequência sistemática; melhor dizendo, obsessiva. Acabamos descobrindo que a penosa história do príncipe judeu Judah Ben-Hur (Charlton Heston) não combinava muito bem com o período de carnaval seguido da Quaresma. Nessa época do ano, o filme não tem o mesmo vigor de outros períodos: o sofrimento daquela família judaica, digna representante do povo escolhido por Deus, soa melodramática e não comove; o vilão romano Messala (Stephen Boyd) não provoca ódio avassalador; a condenação do príncipe da Casa de Hur às galés não insufla o desejo de vingança; os trejeitos do sheik Ilberin (Hugh Griffith) não são tão cômicos; a famosa sequência da corrida de bigas perde muito do seu suspense; a cura miraculosa de Mirian (Martha Scott) e Tirzah (Cathy O’Donnell) não se configura tão redentora; a beleza da escrava Esther (Haya Harareet) deixa de ser estonteante. Constatamos, por um procedimento quase científico, que entre os festejos religiosos distribuídos ao longo do ano, o filme se enquadra melhor na semana do Natal, quando todos os seus efeitos ficam sublimados. O fato de termos assistido inúmeras vezes ao filme e conseguido decorar a sequência completa da longa história, os nomes de todos as personagens, incluindo os dos cavalos do herói, e as nuances de cada um dos diálogos, nos deu a segurança para propalar a seguinte recomendação: o filme Ben-Hur deve ser evitado na Quaresma, ter sua sinopse lida na Semana Santa e seus 212 minutos apreciados no período do Advento.

Wilson

Há filmes, realmente muito bons, que não me despertam a vontade de vê-los novamente. Há outros, considerados não tão bons,  que quanto mais assisto, mais eu gosto. Um exemplo desses últimos é O Náufrago (Cast Away), do diretor Robert Zemeckis. O texto se apoia em ingredientes típicos do cinema hollywoodiano: tensão amorosa, fracasso temporário, sofrimento, triunfo glorioso e final feliz. Sustentado por esses pilares nada originais, o filme narra a superação de um sujeito chamado Chuck Noland (Tom Hanks) que se vê apartado do mundo, numa pequena ilha deserta. Ali, ele experimenta suas desventuras e fabrica para si um companheiro, um confidente, alguém que o acompanha durante o período do sofrimento. Essa história, ingênua e cativante, deixa evidente a difícil luta do homem com a frustração, o medo, a solidão. Fica exposta a fragilidade humana. Costumo esquecer desse fato reiteradamente e talvez seja por isso que eu precise revisitar o filme.