Inocência

– Assisti ao filme. – disse ela.cinema2
– Ao “50 tons de cinza”? – perguntou ele.
– Exatamente.
– Qual seu veredicto?
– Constrangedor, tal qual o livro.
– Pela ousadia?
– Não, pela inocência.
– Inocência?? Esperava então pornografia?
– No mínimo!
– Muitas gostaram das cenas com a protagonista vendada.
– Puro clichê.
– Nada de aproveitável então?
– Apenas uma coisa.
– Qual?
– O filme está para sair de cartaz.
– Concordo. Eis um grande benefício.
– Não é isso. A sala do cinema estava vazia.
– Não entendi.
– Amanhã você vai comigo.
– Quer assistir novamente?
– Tecnicamente não.
– Por quê?
– Vamos eu de minissaia e você de jeans stretch.
– Quer atentar contra o pudor?
– E também contra a inocência.

Interrupção

drakroom– Ouvi dizer sobre um novo ranking de fantasias femininas. – disse ele.
– Também ouvi, mas não sei do conteúdo. – disse ela.
– Falaram-me apenas da número 1.
– E qual é?
– Cópula com um estranho, com um completo desconhecido.
– Hum…
– Concorda ou discorda?
– No âmbito de minhas preferências, discordo.
– Qual seria sua predileta?
– Algo ainda mais impessoal que um estranho.
– Animais?
– Não, eles têm identidade.
– Objetos?
– Lugar-comum.
– Então o quê?
– Às vezes, imagino um quarto bem escuro e me vejo sozinha na cama, dormindo.
– Nem é preciso dizer que seu sono é interrompido?!
– Exato, interrompido por mãos que rasgam minhas roupas de baixo.
– Você se assusta?
– Sim, mas sou receptiva. Depois, uma língua me percorre e me estimula.
– Como reage?
– Mantenho os olhos fechados. Quieta, pressinto que não precisarei fazer muito.
– Fica passiva?
– No ótimo sentido do termo.
– Entendo…
– A seguir, uma boca suga avidamente minhas costas.
– E então?
– Enquanto dentes mordem minha nuca, sou invadida inescrupulosamente.
– E como termina?
– Volto a ficar sozinha na cama e caio num profundo sono angelical.
– Justo: depois do amor, o descanso…
– Nada disso! Durmo na intenção de que tudo se repita.

Hiato

Cha_de_bebe– Você já retirou o preservativo? – perguntou ela.
– Ainda não! Mas, cheio como está, convém substituí-lo. – respondeu ele.
– Não me refiro à continuarmos; apenas quero confirmar uma suspeita.
– Qual suspeita?
– Se ultrapassamos a resistência do látex.
– … Vejo aqui sua suspeita mais do que confirmada: a borracha estraçalhou-se.
– Julguei tal ruptura tão logo notei a excessiva humidade.
– Tranquiliza-me o fato de sermos duplamente precavidos.
– O que quer dizer?
– Da minha parte, preservativo; da sua, dispositivo intrauterino.
– Não comentei com você sobre o hiato?
– Qual hiato?
– A boa prática ginecológica recomenda que, de tempos em tempos, as usuárias de contraceptivos como esse promovam um hiato em seu uso.
– Imagino então que esteja nesse hiato?!
– Exatamente nele.
– Entendo. Saberia dizer se está fértil?
– Não.
– Entendo. Já recebeu aquela visita?
– Estou deveras irregular.
– Entendo. Estamos então à mercê da Mãe-Natureza?!
– Acredito que sim.
– Entendo… Bem, vamos aguardar. Desespero prévio só atrapalha.
– Concordo.
– Ademais, fertilização assim, num único deslize, é um fenômeno muito raro.
– Sem dúvida!
– Mudemos de assunto. Temos algum compromisso para esse domingo?
– Um chá de bebê.

Patente

capitao– Estou no carro e acabei da sair de uma blitz. – disse ela ao telefone celular.
– Foi parada? – perguntou ele.
– Acintosamente.
– Viram algum problema?
– Não, mas algo inusitado ocorreu.
– O que houve?
– Impressionou-me deveras a vigorosa figura do policial.
– Eu desconhecia essa tua fantasia.
– Também eu.
– O que a atraiu especificamente?
– Altura e músculos.
– Eis uma composição que me é inalcançável.
– Sei disso. Ainda prefiro tipos mais cerebrais.
– Sorte a minha!
– A tal imagem, entretanto, atiçou-me fisicamente.
– Posso eu ajudá-la de alguma forma?
– Hoje à noite, empreenderemos uma ação policial.
– Com qual patente devo me paramentar? De Capitão?
– Não, com a patente de Cabo.
– Por que tão baixa?
– Quem se vestirá de capitã serei eu.

Iniciação

nine– Ainda se lembra de sua primeira experiência? – perguntou ela.
– Sexual? – perguntou ele.
– Pelo que acabamos de fazer, não me ocorreria outro tema.
– Eu tinha dezoito anos.
– Tão tarde assim?
– Pois é… Perda efetiva de virgindade, somente nessa época.
– Como assim?
– Fui iniciado na matéria aos nove.
– Já posso imaginar quem foi a professora.
– Sério?
– Seria uma prima mais velha?
– Exato! Como soube?
– Aos onze, tive priminhos de nove.

Hora Extra

box– Há tempos não brincamos no sofá da sala. – disse ela.
– É verdade! – disse ele.
– Não podemos deixar certos hábitos esmorecerem.
– Sem dúvida! Deixamos mais algum além do sofá?
– Sim, o de tomar banho juntos.
– Tem razão! Confesso que prefiro muito mais esse.
– Por quê?
– Água quente me favorece a vasodilatação.
– Que tal revisitarmos esses dois hábitos de uma vez?
– Haverá intervalo?
– Pode ser…
– Nesse sábado?
– Não. Agora.
– Após um dia extenuante de trabalho?
– Exato. Algum problema?
– Nenhum, mas o banho precisará ficar no segundo tempo.

12 horas

aviao– Está frio! Por que resolveu viajar de saia? – perguntou ele.
– Ela viabilizará a execução de um plano – respondeu ela.
– Estaria eu incluso?
– Completamente.
– Já imagino o que seja, mas posso perguntar onde e quando?
– No avião. Começaremos logo após apagarem o sinal de atar o cintos.
– Devo informá-la que teremos assentos contíguos aos nossos.
– Disporemos do banheiro.
– Bem pensado! Mas o que você quis dizer com “começaremos”?
– A ação se repetirá pelo menos umas três vezes.
– Não acha que desconfiarão ao entrarmos tantas vezes juntos?
– Sem a desconfiança de terceiros, a empreitada perde o sentido.
– Entendo…Pretende gritar?
– Ainda não me decidi, mas há uma forte possibilidade.
– Entendo… Acho que serão 12 horas nada monótonas.
– Você terá certeza quando eu lhe contar o restante do plano.
– Entendo…