Pular para o conteúdo

Posts da categoria ‘Abobrinha’

RSI

Para os fins deste post, o objeto sexual de um ser humano é outro ser humano sobre o qual recai o desejo de copular. Homem é o ser humano que possui genitália masculina e mulher é aquele que possui genitália feminina. O objeto sexual do homem é sempre a mulher e o da mulher, o homem; portanto, a cópula é aqui considerada uma relação heterossexual. Nesse contexto, convém salientar que não se impõe restrição alguma à prática de tal relação, onde o acoplamento das genitálias é apenas um dos possíveis exercícios sexuais.

GenerosoPrincipalFIGURA 1

O gráfico da figura 1 mostra as curvas típicas de tensão sexual do homem e da mulher, quando excitados independente e continuamente ao longo de um intervalo de tempo. A curva H mostra o comportamento da tensão masculina enquanto a curva F, o comportamento da feminina. Os pares de valores associados aos ápices das curvas definem pontos orgiásticos. A curva F exibe n pontos orgiásticos e a curva H apenas um. Os ângulos \alpha e \beta definem as declividades das tensões crescentes enquanto \alpha' e \beta' a das tensões decrescentes que precedem o término de cada uma das curvas. Tal declividade é denominada rigidez. O comportamento típico observado em cada uma das curvas revela que a rigidez nas parcelas decrescentes é maior que nas parcelas crescentes. Uma característica importante para os fins deste post é o comportamento típico de \alpha > \beta, ou seja, de que, nas parcelas crescentes das curvas, a rigidez masculina é maior que a feminina. Assim, até o instante t_{OH}, tem-se que a tensão masculina  é sempre maior que a feminina. Como consequência, o único instante orgiástico masculino precede qualquer instante orgiástico feminino.
Entende-se por Relação Sexual Ideal (RSI) aquela na qual homem e mulher atingem, por excitação recíproca, no mesmo instante, o ápice de suas tensões sexuais, ou seja, quando t_{OH} = t_{O1F}. Se ocorrer o comportamento típico de \alpha > \beta, mostrado na figura 1, a RSI é então impossível. Entretanto, se o homem atrasar, em relação à mulher, a evolução de sua tensão em t_a:= t_{O1F} - t_{OH} unidades de tempo, a RSI é atingida. Esse atraso pode ser realizado de duas maneiras, mostradas a seguir.

GenerosoAtrasado1FIGURA 2

No gráfico da figura 2, o homem realiza o atraso t_a logo no início da relação sexual e ambas as curvas evoluem continuamente até a RSI.

GenerosoAtrasado2

FIGURA 3

No gráfico da figura 3, o homem inicia sua curva simultaneamente com a mulher, mas realiza interrupções ao longo do tempo, de tal forma que a soma dos atrasos parciais t_{a1}, \cdots, t_{an} totaliza t_{a}. Convém ressaltar que dependendo dos declividades \alpha e \alpha', a RSI pode propiciar diversos instantes orgiásticos para a mulher, ainda com o homem apresentando níveis significativos de tensão sexual. Na prática, o atraso t_a pode ser consequência de certos exercícios sexuais (preliminares, por exemplo) que excitam muito mais a mulher do que o homem. Como não há regra geral que estabeleça essa ou aquela prática sexual como mais excitante à mulher, cabe aos parceiros descobri-las.
Convém salientar que o modelo ideal apresentado não pretende conferir ao homem um papel mais significativo que a mulher na relação sexual, mas dizer que existem diferenças nas características intrínsecas de excitação: o homem, via de regra, é sexualmente mais rígido que a mulher e por isso precisa estar atento à evolução de sua excitação, de forma que o sexo seja prazeroso para ambos.

Chamadas

Chora Yoani:manchetes
Chiitas.
Chora São Paulo:
Chuva.
Chora Venezuela:
Chavez.
Chora Charlie:
Chorão.
Chora Bruno:
Choça.
Chora Mizael:
Chispado.
Chora Luís:
Chilique.
Chora Chico:
Chaminé.

O Empate

mara

Final de semestre na faculdade de Engenharia costuma consumir impiedosamente mentes e corpos, em especial daqueles poucos alunos mais preocupados com o bom rendimento escolar. Assim aconteceu num ordinário dezembro em Uberlândia, onde traços de um verão sufocante já se delineavam. No quarto da república insalubre que me abrigava, eu evitava a invasão dos desagradáveis insetos noturnos mantendo as venezianas fechadas, algo que me dava a devida tranquilidade para debruçar-me, na postura de um Quasímodo, sobre aqueles livros técnicos implacáveis. Nesse período, a diversão e o lazer eram absolutamente suprimidos e a máxima distração à qual me permita era ligar, durante um tempo limitado, o mini-system Pioneer que eu acabara de adquirir, cujo pagamento havia sido parcelado em doze módicas prestações. Certa vez, absorto nesse breve, porém revigorante interlúdio musical, ouço me chamarem ao telefone; algo que me causou surpresa, porque interações telefônicas sempre me foram bastante escassas, particularmente naquela longínqua época pré-celular. Do outro lado da linha, a voz suave da Cláudia – personagem de uma outra história, ocorrida anteriormente a esta, já postada aqui no Extrato – impressionava-se com o longo período de um ano e meio desde nossa última conversa.
– O que aconteceu que você resolveu ligar? – perguntei animado.
– Preciso de sua ajuda. Estou enrolada com um trabalho. Acho que você vai conseguir me salvar.
– Qual trabalho?
– O de “Máquinas Térmicas” que eu sei que você já cursou no semestre passado.
– É verdade…
– Pois é…Procurei antes o André e o Maurício, mas eles não puderam ajudar. Então estou ligando pra você.
– Cláudia, quer dizer que eu fui a sua terceira opção?
– Isso mesmo! Pode me ajudar?
Entre essa pergunta e a minha resposta final, transcorreu um curto espaço de tempo onde dois grupos de sentimentos travaram uma batalha ferrenha: de um lado, o time do “amor ao próximo”, liderado pela piedade religiosa, e do outro o do “amor próprio”, liderado pela indignação raivosa. Acabou vencendo o primeiro e minha colega de ocasião informou que no dia seguinte iria deixar o trabalho em casa a fim de que eu começasse a dar uma olhada. O problema de disputas internas como a que ocorreu em minha imatura psiquê é que sempre a parte derrotada se porta como uma má perdedora. Assim, no tapetão, o time do “amor próprio” conseguiu a anulação do primeiro litígio e partiu para o segundo com toda a agressividade que lhe é peculiar. Como nunca fui afeito a pedir opiniões a terceiros sobre minhas questões pessoais, desgastei-me sozinho durante algumas horas e finalmente percebi que não haveria um vitorioso: caracterizou-se o empate. Decidi então que faria o trabalho inteiro para ela, um trabalho medíocre, mas completo, e ao entregá-lo eu diria: “Aqui está o trabalho. Eu não gostei nem um pouco do seu oportunismo e de ter sido sua terceira opção. Peço que não me procure e nem converse comigo nunca mais.” Senti que ambas as partes ficaram satisfeitas com a virtuosa decisão e dei início ao tedioso empreendimento, única avaliação na disciplina “Máquinas Térmicas”, cujo professor alcunhávamos Maracujá, por conta de sua idade avançada. Na noite seguinte, ela me ligou para saber do progresso de minha avaliação.
– Passe aqui amanhã para pegar o trabalho. Ele já está pronto. – disse eu seriamente.
– Você já fez o trabalho? Sem mim? –  ela perguntou espantada.
– Sim. Algum problema?
– De jeito nenhum… Como posso te agradecer?
– Amanhã a gente conversa.
No outro dia, por volta das quatro da tarde, a Cláudia tocou a campainha da minha honesta república pestilenta e eu já a aguardava ansioso para desferir-lhe os golpes verbais tão bem preparados. Corri então em direção a porta e, ao abri-la, tentei iniciar a ofensa:
– Aqui está o traba….Você… tá de mini-saia!
– Ainda se lembra dela?
– De cada detalhe…
– Tá sozinho?
– Tá todo mundo em aula.
– Posso entrar?
– Por favor…

“I once had a girl or should I say she once had me”
John Lennon

Casa

Passei a maior parte da minha vida em capitais e não seria muito acertado dizer que sou um rapaz do interior, apesar de ter nascido numa cidade onde o urbano e o rural se confundiam. Entretanto, esse pouco tempo que usufruí de minha terra natal deixaram lembranças, marcas indeléveis de uma infância alegre, momentos registrados nessas fotografias, hoje desbotadas, que reiteradamente retornam à mente e que me localizam nesse tempo bom e longínquo. As reminiscências de minhas origens não têm o tom melancólico e excessivo do saudosismo, mas resultam de saudades sinceras, de  vestígios interioranos manifestos nessa minha personalidade que, na maioria do tempo, se arroga cosmopolita. Imerso nessa época irrecuperável, não me ocorre chorar aquilo que foi perdido ou desvirtuado ao longo dos anos, mas tentar avigorar o discernimento sobre mim mesmo, promover trincas nessa máscara de altivez, ingênua e artificialmente fabricada, que acreditei indispensável para os centros cosmopolitas. Dessa busca, nem sempre bem sucedida, surge a necessidade de revisitar a terra natal na sua versão contemporânea, bem menos modesta, mas que ainda guarda traços de outros tempos, onde ainda coexistem a cidade e o campo, onde as crianças ainda brincam na rua, onde as pessoas ainda se reúnem nos finais de semana, onde se volta do trabalho para  almoçar em casa, onde os vizinhos se conhecem, onde a compra na venda é marcada na caderneta, onde as distâncias são pequenas, onde a diversão é singela, onde a vida que corre aqui nos grandes centros, lá prefere caminhar. Receio que essa ligação nunca rompida com essas origens se fundamente num desejo, dissimulado pelo arrogante homem urbano, de estar em casa, em família, de ficar junto dos meus, de vivenciar seus problemas e seus prazeres, seus sucessos e fracassos, dramas e alegrias.

Duna

JanelaLembro-me do meu primeiro semestre na faculdade e de suas tardes quentes de domingo, quando eu abria a janela do meu quarto alugado. Tratava-se de um dos cômodos da casa de uma família conhecida, onde moravam pai e dois filhos, que se repartiam em outros dois quartos. Não se poderia afirmar categoricamente que era uma residência suntuosa, mas também não era simples. A vizinhança era realmente nobre e o bairro ficava afastado da cidade ruidosa. Graciosamente custeado pelo meu pai, a um preço bem abaixo do valor de mercado, o quarto onde me instalei tinha cama, criado-mudo, armário embutido, escrivaninha e um banheiro próprio: era pois, uma suíte mobiliada. Logo nas primeiras semanas de aula, notei que essa minha situação domiciliar, comparada à dos meus colegas, colocava-me numa condição similar a de um membro da realeza britânica, com o conforto e bem-estar que a cerca, mas sem a cafonice que lhe é peculiar. De qualquer forma, sentia-me constrangido toda vez que um colega, mal alojado em alguma república pestilenta, perguntava sobre algo relativo à minha moradia. Se fosse possível eu desconversava, senão mentia: não me agradava o fato de ser erroneamente classificado como um “barão”, obsoleta terminologia, muito utilizada na época, para se referir aos financeiramente afortunados. Um dos membros da família que não ocupava espaço na casa propriamente dita, mas residia numa edícola nos fundos do terreno, chamava-se Duna. Quando trancafiada, sua casinha parecia sufocar-lhe, dadas suas dimensões descomunais: aquela dobermann preta, de pelo liso e maravilhosamente reluzente, suplantava significativamente os padrões de tamanho considerados para sua raça e gênero. Pouco antes da minha chegada, ela havia sido submetida a uma intervenção cirúrgica para a retirada do útero, evitando que o câncer nessa região, diagnosticado prematuramente, se alastrasse. Não era certo dizer que ainda fosse uma mocinha na flor da idade, pois já havia tido algumas ninhadas e os donos acreditavam que sua acuidade visual, já não muito boa devido às características intrínsecas da raça, estivesse ainda mais comprometida, particularmente à noite, período em que ficava solta. Confesso que nunca me senti à vontade perto de cães e, logo nos meus primeiros dias ali, percebi que Duna padecia desse mesmo desconforto em relação aos seres humanos, incluindo seus donos, aos quais desobedecia sem a menor cerimônia. Quanto a mim, um ser humano novato perambulando em seu território, devo dizer ela não foi muito receptiva quando fomos apresentados: latiu agressivamente o tempo inteiro e ignorou sumariamente o pedaço de comida que me permitiram jogar para ela. Lembro-me dos seus olhos arregalados fitando os meus, enquanto apoiava suas patas dianteiras da grade de metal; postura que a elevava a uma altura amedrontadora. Quando voltávamos de uma saída noturna, o procedimento era o seguinte: o dono saia do carro, antes de abrir o portão da garagem, aproximava-se da porta de entrada e esperava que Duna também se aproximasse para identificá-lo. Uma vez que isso ocorresse, ele abria a porta, entrava na casa e, a duras penas, trancafiava a enorme cadela no seu casebre, quando então entrávamos com o carro. A impressão que me ocorria toda vez que assistia essa cena é que nós, seres de uma espécie dita evoluída e soberana, estávamos a mercê daquela fera canina, subjugados ao seu poderio. Com o tempo, meu desconforto com cachorros, transformado em pavor, não me permitia tocar com os pés fora da casa sem averiguar com segurança que Duna estava presa. Dentro de casa, entretanto, sentia-me aliviado e seguro, dado que havia um monstro negro do lado de fora para nos proteger de visitas indesejadas. Assim, tranquilo, enfurnava-me no quarto para estudar, principalmente nos domingos que iniciavam uma semana de provas, incluindo os tórridos, desprovidos de um brisa sequer, característica marcante dos calores de Uberlândia. O mormaço obrigava-me transladar a escrivaninha para perto da janela que, aberta, conferia-me uma falsa sensação de frescor. Certa vez, absorto na obtenção de uma derivada complicada, senti jactos repetitivos de ar quente na região que se costuma denominar popularmente de cangote e, numa reação de susto, virei a cabeça para esquerda, na direção daquela estranha fonte de ar: pude constatar então, taquicárdico e perplexo, que Duna me observava, que devia estar me observando estudar já há algum tempo, pois aquela cara grande que se apresentou diante de mim lembrou-me vultos que percebi, momentos antes, para os quais a concentração matemática não me permitiu atentar. Para a minha grata surpresa, após assistir ao meu susto e perceber o meu medo, ela continuou quieta como estivera: eu acreditava que, nessas circunstâncias, ela ficaria bastante indócil. Então, ali estava eu, estático na cadeira, olhando para ela, com as patas dianteiras no peitoril da janela e o focinho a poucos centímetros do meu. Com o passar do tempo, o medo deu lugar a um fiapo de consciência e pude notar que embora a altura da janela dificultasse um ataque, não o impediria, caso Duna estivesse realmente disposta a me ferir. De alguma forma, aquela figura corcunda, debruçada sobre uma mesa, pareceu-lhe inofensiva e então ela resolveu, cordialmente, tomar a iniciativa para estabelecer uma comunicação. Afastei-me vagarosamente da janela e, à uma distância que me pareceu segura, resolvi retribuir com palavras sua manifestação amistosa; algo que, aparentemente, ela julgou insuficiente, permanecendo como estivera: quieta. Lembrei-me então das guloseimas que costumava guardar no armário: naquela época, longe do seio materno, o chocolate serviu-me como um refúgio doce e nutritivo. Toda sexta-feira, ao voltar da escola, eu passava nas Lojas Americanas, no centro da cidade, e comprava barras variadas, nas cores negra e branca. Naquele momento em que precisava retribuir a benevolência de Duna, desrespeitando as recomendações expressas de não alimentá-la com doces, destaquei dois tabletes de uma barra de chocolate meio-amargo Nestlé e joguei pela janela. Ela então desceu, engoliu os tabletes de uma vez e retornou ao peitoril com um expressão diferente: sua ansiedade era perceptível e pareceu-me evidente que havia gostado do quitute. Após jogar mais alguns tabletes, aquela fera já subia na janela abanando o arremedo de rabo, próprio da raça; fato que me fez ficar orgulhoso de mim mesmo, daquela experiência nova de conseguir conquistar alguém. Duna então acostumou-se a subir naquela janela e eu me acostumei a reservar parte de minhas barras para ela: a cadela havia se tornado chocólotra como eu. A partir daí, nossa relação evoluiu, atingindo o ápice quando passeamos juntos, sozinhos, pela vizinhança: quem conduziu o passeio foi ela, puxando-me o tempo todo pela coleira. Terminado o semestre, resolvi então deixar aquele meu quarto principesco para habitar uma honesta república pestilenta. Seis meses depois, com enormes saudades, fui visitar minha amiga, animado pela informação de que os cães nunca esquecem seus benfeitores. Quando aproximamos de sua edícola, eu e os donos nos surpreendemos com a reação de Duna: eu havia me tornado novamente um estranho em seu território.

Contragolpe

GolEu estava de férias da faculdade quando meu pai, ao telefone, perguntou: “Quer ganhar um carro?”. Até o meu animado “Sim” correram alguns minutos para a completa assimilação de todo o significado daquela pergunta, porque um carro, para mim, sempre fora um bem de terceiros, inatingível. Naquela época, meu principal objetivo material era adquirir um aparelho de som mais potente e moderno, que explorasse todas as vantagens do “Compact Disc”, novidade tecnológica que muito me interessava. Retornei das férias, orgulhoso e destemido, conduzindo um pomposo Gol AP 1.8 a álcool, ano 1985, usado, ou melhor, abusado; mas potente, uma máquina. Ao longo da viagem até Uberlândia, fui refletindo sobre os benefícios que aquele veículo me traria: haveria uma enorme vantagem competitiva para conseguir namorar a Cláudia. Poucos dias depois que cheguei, exerci minha nova condição de pretendente poderoso e convidei a gatinha para sair. Como já mencionei aqui no Extrato, eram necessários pouquíssimos atributos para se conseguir o título de “gatinha” na engenharia; no entanto, minha musa dispunha realmente de volumes proporcionais e harmonicamente dispostos, um cabelo negro liso, longo e uma voz macia. Havíamos saído algumas vezes, apenas como amigos, mas de posse daquele Gol, fui tomado por uma coragem sem precedentes e resolvi ultrapassar definitivamente o obstáculo da amizade. Meu convite foi aceito, como quase sempre acontecia, e fui pegá-la em casa, com o carro; algo que a impressionou menos do que eu imaginava. Entretanto, essa pequena decepção foi completamente superada quando me dei conta do tamanho da saia que ela trajava: sentada ali ao meu lado, no banco do passageiro, a área das pernas que estava desnuda era mais do que satisfatória; algo tão inesperado e surpreendente quanto o Gol. Depois de repetir diversas vezes o quanto estava bonita, percebi o efeito benéfico dos elogios: ela estava diferente, menos retraída, mais espontânea. Pensei então comigo: “É hoje!”. Durante o passeio, rimos e conversamos muito; bem mais do que outras vezes. Quando fui deixá-la em casa, o carro, a mini-saia e minha presunção afrouxaram-me o controle dos impulsos e tentei atacá-la nos três beijinhos de despedida. Fui contragolpeado por duas mãos no meu peito, impedindo minha investida, e uma reação indignada.
– O que você tá fazendo? – perguntou ela.
– Tentando te beijar…Eu gosto muito de você – respondi.
– Mas eu não quero nada com você. Somos apenas amigos. E tem mais: eu não gosto de ser tocada sem aviso prévio. Por que fez isso?
– Você… tá de mini-saia e eu… tô com carro.
– Tchau!
Passaram-se alguns anos até que nos falássemos de novo e outros tantos para que eu conseguisse ter uma vaga ideia das forças instintivas, minha e dela, envolvidas nesse fatídico episódio.

made in brazil

ArrogânciaVez por outra, atrevo-me a opinar sobre searas nas quais meu conhecimento é bastante limitado. Talvez seja fruto de arrogância e onipotência, peculiaridades ainda difíceis de controlar e que já me trouxeram as pechas de insociável, antipático, pedante e outras impropriedades do tipo. Confesso que essa e outras idiossincrasias já foram mais proeminentes: encarregaram-se de desbastá-las as lições implacáveis desta ineficiente labuta chamada viver. Uma vez assimilados e analisados esses impactos, sobreveio uma rudimentar percepção de que tais impulsos provocam danos quando extrapolam meus limites e invadem territórios alheios. Dessa invasão descabida resultam as tais pechas impróprias; algo que muito me incomoda, mas uma justa reação a manifestações de insolência. Com elas, acobertei muitas vezes  fraquezas e superficialidades, pois era matéria vital não desvelá-las. Enxergar esse mecanismo, uma espécie de estupidez sofisticada, foi tão surpreendente quanto descobrir que não é possível saber de tudo, sequer daquilo que se julga conhecer em profundidade, por mais óbvio que isso possa parecer. Durante muito tempo, houve uma rejeição da minha parte, uma anafilaxia, à frase “Eu não sei”. Talvez tudo isso seja distorção de um traço remoto, acredito congênito, cujos primeiros sinais se deram no menino perguntador. Enfim, pensando nessas coisas dolorosas, sempre me acorre ao final uma inexplicável sensação de profundo acolhimento, como se estivesse nos braços da Providência Divina, quando me deparo confrontando essas minhas mazelas com as da grotesca criatura veneziana “made in brazil” chamada Diogo Mainardi.

Sábado

De vez em quando, o pai levava os dois filhos à loja de discos para que escolhessem algum de sua preferência. Quando avisados sobre o dia do evento, os meninos se empolgavam e já começavam a pensar no que iriam escolher. Um desses eventos caiu justamente num sábado frio e chuvoso e os garotos temiam que a saída pudesse ser adiada. Quando ouviram movimentação no quarto do pai, já bem cedo, foram lá, receosos, e perguntaram carinhosamente se iriam de fato ao shopping, comprar os discos. A reposta afirmativa fez com que os dois corressem para se aprontar e depois se sentassem quietos no sofá da sala, um do lado do outro, aguardando o seu benfeitor. Tão logo ele apareceu na sala, os meninos se levantaram e, sem tomar café direito, os três partiram para iniciar aquele animado sábado musical. Ao chegar à loja, os meninos se dividiram, cada qual para a seção de seu interesse. O pai, na maioria das vezes, aproveitava o ensejo para também tentar achar algo que gostava ou pudesse vir a gostar. Enquanto os filhos procuravam, chamou-lhe a atenção, por alguma razão completamente desconhecida, uma pequena e escondida área da estante onde estavam perfilados discos de Punk Rock. Curioso, começou a passar um por um, observando o pitoresco das capas, quando, de repente, interrompe e repara demoradamente uma delas. O mais velho percebeu o espanto do pai e foi tomado por uma enorme apreensão, pois tinha sido ele quem havia indicado aquela nova loja, diferente da que costumavam frequentar. O pai então retira o disco, chama um funcionário e o mostra para ele:
– Rapaz, como vocês têm coragem de colocar um disco deste pra vender?
– Doutor, é a febre do momento!
– Se causa febre é porque transmite algum tipo de doença.
– O dr. sabia que as músicas são muito sinceras?
– Não tenho a menor dúvida! Uma delas se chama Vou Fazer Cocô! Não existe nada mais sincero do que isso!
– As letras são secas, simples e diretas. É a voz da juventude.
Nesse momento, o pai mira alternadamente a juventude estampada na cara dos filhos, já atônitos e taquicárdicos, mostra-lhes a capa do disco, apontando nervosamente o título, e de onde estava, diz a eles em volta alta: “O nome do disco é Pisando na M…! Sabem o que significam esses três pontinhos aqui? Sabem? MERDA! MERDA!”. Enquanto os funcionários gargalhavam e os meninos já davam aquele sábado como perdido, o pai resolveu esperar pela escolha dos filhos. Decidiu que não compraria nada para ele daquele antro que dava “voz à juventude”. Assim, o mais velho saiu com um álbum dos Beatles, o outro levou um do Jackson 5 e o pai deixou a loja indignado com o que é considerada a obra-prima do grupo Garotos Podres. Anos mais tarde, um dos filhos me contou que nunca mais voltaram lá.

Tráfego

Alguns acreditam que o comportamento instável dos malucos é influenciado pelo ritmo lunar. Observações empíricas conduzem à teoria de que a lua cheia exacerba os doidos. Não por acaso, costumamos chamá-los lunáticos, ou desejosos de jogar pedra na lua. Foi justamente numa fase de lua cheia que algo inusitado aconteceu na Catedral Santa Terezinha em Uberlândia. Eu frequentava as missas dominicais da Catedral às 7:15 da manhã, religiosamente, e assim evitava a multidão de outros horários e também eventos pitorescos. Entretanto, a linha ideológica do pároco rejeitava a ideia de restringir o acesso às dependências da Catedral a quem quer que fosse: ricos e pobres, retos e pecadores, sãos e pinéis. Afinal, somos todos filhos de Deus, feitos à imagem e semelhança do Criador. Por isso, nós, fiéis atentos, éramos frequentemente distraídos pela presença pitoresca, constrangedora e repugnante de um mendigo maltrapilho ou de alguém desprovido das plenas faculdades mentais. No domingo ao qual me referi, impressionou-nos a quantidade e a efusividade dos doidos. Inquietos, andavam o tempo todo, percorriam a igreja descrevendo os mais diversos caminhos: circulares, curvilíneos, transversais, diagonais, etc… Rodeados por aquele tráfego, ficávamos aliviados quando alguns saíam pela porta principal, numa vã esperança de que tinham ido embora. Alguns costumavam parar e nos encarar seriamente, algo que nos causava um certo desconforto. Os momentos de silêncio eram quebrados por grunhidos, conversas sem sentido e ruídos repentinos. No início da liturgia eucarística, cansado daquele andar desenfreado, um deles resolve se sentar ao chão, bem no meio da igreja, à vista de todos. Durante o silêncio quase absoluto que reinava após a consagração do pão, um outro maluco se aproximou dele e disse em alta voz: “Hei, levanta daí rapaz! Vai embora! Deixa a gente em paz! O padre não gosta de doido dentro da igreja não!”. De fiéis silenciosos, viramos plateia e caímos na gargalhada.

Absorção

Os marombeiros criaram para si uma ceita bastante rígida, para qual a estrita disciplina é um fundamento e o mínimo de sensatez, um empecilho. O dogma a ser seguido prega a hipertrofia muscular definida, estética que é disseminada sob o pseudônimo de “saúde”. A gordura é substância sacrílega, e sua concentração no corpo, por menor que seja, onde quer que ocorra, é pecado mortal. Se ela não for queimada aqui, nesta vida, será queimada, junto com o marombeiro infiel, no fogo eterno. Essa organização religiosa se vale da Educação Física e da Nutrição, sempre indecisas e instáveis, como meios para o seu fim: o inchaço formatado do corpo. Nesse contexto, considero-me um fiel desvirtuado, daqueles que criam uma religião para si, escolhendo apenas as regras que lhes convém. Uma delas, que elegi perfeitamente adequada aos meus propósitos, é o consumo do delicioso suplemento chamado “whey protein”, ou proteína isolada do leite da vaca. Oficialmente, o suplemento, como ocorre com qualquer outro, não promete absolutamente coisa alguma, mas a doutrina marombística evangeliza que essa proteína concentrada garante o ganho rápido de massa muscular, desde que haja uma rotina intensa de exercícios e levantamento de peso. A pia crença nesse mandamento específico conduziu-me, ávida e apressadamente, a uma dessas lojas de suplementos esportivos. Consegui, embora ansioso e maravilhado, entabular conversa com o vendedor sobre as inúmeras opções de whey disponíveis na loja. Nesse estado de voracidade, costumo desligar o mecanismo do raciocínio, e aí as forças instintivas assumem totalmente o controle. Assim, uma das opções convenceu-me de imediato após o bombado funcionário ter propagandeado: “Meu brother, o whey dessa marca aqui tem uma absorção tão rápida que ele nem chega no intestino!”

Inflexão

Ultimamente, tenho vivenciado certos eventos que me indicam, de uma forma sutil, que estou ficando velho ou, pelo menos, ultrapassado. Um dia desses, voltando para casa, vi duas meninas – acredito com cerca de 16 anos – com dificuldades para recolocar a corrente na coroa de uma bicicleta. Ofereci ajuda e após o término do serviço, recebi um “Obrigado, Tio!”. Permaneci ali, parado, e enquanto elas se afastavam alegremente, refleti sobre aquele agradecimento inesperado. Lembrei-me quando, meses antes, entrei na seção de cd’s de uma loja e indaguei de uma jovem funcionária se eles tinham alguma coisa do Morrissey. Atordoada, ela me perguntou: “Quéimm??”. Esses dois acontecimentos, aliados a outros de menor intensidade, ainda não tinham sido suficientes para confirmar minhas suspeitas, até esse último final de semana, quando a certeza me ocorreu. Estava eu numa festa para adolescentes onde, entre outras atrações ruidosas, shows de música “teen” eram projetados. Entre eles, houve um que causou frisson na garotada e curioso como sou, fui lá pra ver. Bom, parafraseando o irritadiço Caetano Veloso, pensei comigo: “Ainda não havia para mim Lady Gaga. A tua mais mais completa tradução.” Diferente de outros expoentes do mundo pop, a excêntrica Lady, canhestra e disforme, não conseguiu  que a pirotecnia daquele espetáculo amenizasse sua falta de talento, a pobreza de sua performance. Dotada de um tagarelice ímpar, cacoete que a fazia vomitar frases desconexas intermináveis antes de cada uma das “músicas”, a moça revelou-se entediante, chata, um pé no saco. A mim, um fã de pop, seu formato artístico não me empolgou, não me cativou; sequer me interessou, pois retirou-lhe toda a beleza, até sua débil sensualidade. Trata-se, portanto, de mais um produto mal acabado da indústria do entretenimento. A contraposição entre minha conclusão rabugenta e o clima de euforia que se estabeleceu na festa explicitou um fato inexorável: não sou mais adaptável a novas gerações. Dobrei, portanto, o Cabo da Boa Esperança. Atravessei, de modo irreversível, a inflexão geométrica.

Alucinações

Não há melhor exercício para a elevação da autoestima feminina do que transitar pelas dependências de uma faculdade de Engenharia Mecânica; melhor até do que passar por um canteiro de obras. A escassez acentuada de mulheres torna o ambiente insalubre, poluído pelo excesso dos odores produzidos pela testosterona. Há um clima de aridez, próprio das regiões desérticas, e uma paisagem repugnante, monótona e sem cor. O aluno, peregrino nessa terra seca e arenosa, quando se depara com uma moça de contornos minimamente definidos, alucina e julga ver Juliana Paes. O caminhar daquela criatura maravilhosa, que ingenua e inadvertidamente passeia pelo local, o inunda de ansiedade e estranhos fenômenos oriundos da região pélvica passam a incomodá-lo. Ele vê que outros colegas, igualmente ansiosos, começam a rodear a única fêmea-alvo da região e se irrita. Pensa em brigar pelo que já era seu, mas percebe-se um idiota, um macho desesperado numa cena selvagem do Animal Planet. Constrangido, ele recua e volta a peregrinar. Bem mais à frente, uma outra, também de contornos retilíneos,  passa por ele e se transforma repentinamente, diante de seus olhos, na Paula Fernandes.

Placebo

Meu avô, exímio troçador, contou que numa sexta-feira bastante desanimada, um colega
de trabalho esbravejou na repartição:
– Que diabos! Essa dor de cabeça me incomoda todo o dia; o dia inteiro.
– Pois eu sei de um remédio muito bom. É tiro e queda! – anunciou meu avô.
– Então me fala qual é compadre!
– Chama Regulador Xavier.
– E isso é bom mesmo?
– Nunca ouviu falar nesse remédio? – perguntou meu avô, surpreso.
– Não!
– Pois é o único que resolve! Toma uma colherada à noite: hoje, amanhã e depois.
Diante da prescrição tão segura e do silêncio circunspecto dos demais colegas, o rapaz animou-se com o tratamento, dizendo que o seguiria à risca. Na segunda, veio ao meu avô:
– Compadre, vim aqui te agradecer. Estou bem melhor.
– Fico satisfeito, compadre.
– Só uma coisinha: ontem à noite, depois da última colherada, minha mulher me perguntou por que raios eu estava tomando remédio pra regras. Ocorreu-me então ler a bula e vi que não havia menção alguma à dor de cabeça. O compadre sabia disso?
– Compadre, presta atenção: remédio bom  é remédio que cura. Curou?
– Curou!
Depois disso, a repartição não resistiu e caiu na gargalhada.

Enurese

O menininho Sigmund Freud, ao ser repreendido pelo pai por ter feito xixi na cama, esbravejou: “Quando eu crescer, vou comprar pra você a melhor cama da cidade!”. No gênio, o mal da arrogância é pecado original; no idiota, mortal.

Questão

Quando adolescente, recebi as seguintes instruções sobre sexo: “Você vai ler um livro e tomar muito cuidado com masturbação, porque a prática  excessiva compromete o sistema nervoso central”. A conversa familiar sobre este polêmico campo da vida humana resumiu-se a isso. Pouco tempo depois, me foi entregue  A Nossa Vida Sexual, do médico ginecologista alemão Fritz Kahn (foto). A instrutiva conversa deixou marcas profundas e ultimamente tem me assombrado a seguinte questão: será que meu problema de insônia é realmente psicológico?