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Posts da categoria ‘Abobrinha’

Estudo Modesto III

O tímido é um tipo de narcisista que finge se incomodar com a ilusão de que todos os olhos do mundo estão voltados para ele. Sendo assim, não se pode dizer que este blogueiro seja um tímido porque mesmo afetado pela dita ilusão, ele não padece do dito incômodo. Para motivar e dar seguimento à fantasia de que todos o olham e o admiram, este blogueiro, de tempos em tempos, imagina-se compositor e intérprete de peças pianísticas. Ocorreu que em algum momento nos últimos meses, ele decidiu divorciar o personagem compositor do personagem intérprete, casal que antes considerava absolutamente inseparável. Percebeu, estupefato, que a débil habilidade manual do intérprete jamais conseguirá acompanhar as ideias – todas modestas e pueris – que pipocam na cabeça do compositor. Pensou: se continuarem casados, um atrapalhará o outro. Como resultado dessa importante decisão, o velho aprendiz, que no mundo real continua medíocre, produziu mais um de seus estudos canhestros, o terceiro, cuja partitura ele a publicou na página Estudos Modestos de Piano. Tocar esta pecinha, que qualquer aprendiz não medíocre consideraria de baixo grau de dificuldade, é objetivo inalcançável para o intérprete inábil. Diante dessa limitação, como já fez no seu estudo número dois, o compositor dispôs de um software musical para tocar essa nova peça. A “música” resultante, que o aprendiz entendeu como uma dança no gelo onde os graves são o cavalheiro e os agudos a dama, pode ser escutada a seguir.

Prefácio

Dado a livros e música, como já sabe o eventual leitor do Extrato, iniciei leitura despretensiosa do livro “The Complete Guide to High-End Audio” (2010), do engenheiro acústico Robert Harley. Eu não costumo ler prefácios de livro, em particular os mais longos. Entretanto, como o prefácio desse é pequeno e assinado por um pianista de Jazz que muito admiro, resolvi lê-lo; e por ter gostado muito, resolvi traduzi-lo; e porque gosto de exibir minhas qualidades de tradutor, ei-lo aqui publicado:

Música é o gesto sonoro de uma intenção. Ao veicular palavras, o som perde seu sentido porque a qualidade física da fala é desimportante. Mas o significado da música reside justamente em sua qualidade física, no seu som. Quando um músico toca algo de uma determinada maneira e não conseguimos ouvir sua intenção (sua razão) subjacente, ouvimos apenas gestos despropositados, e assim os registramos porque não nos foram dadas indicações suficientes sobre a tal intenção. Corremos então o risco de achar que tudo é apenas gesto e, dessa forma, perder o que é real. O meio pelo qual ouvimos música (nossos sistemas de áudio, nossas salas, etc.)  não está dissociado da nossa capacidade de experimentar música. Não se pode dizer que uma música é a mesma em diferentes sistemas porque não podemos simplesmente separar a retórica musical (suas palavras) de sua realidade física (sua transferência).  Isso torna os “sistemas de transferência sonora” (nossos aparelhos de som) bem mais importantes do que costumamos pensar. São eles capazes de nos transmitir o que os músicos naquela gravação desejavam expressar? Como músico, eu frequentemente – muito frequentemente – tive a seguinte experiência: apresentar-me num concerto, ouvir a gravação depois, e me impressionar com o que se perdeu ao relembrar coisas incríveis ocorridas durante a apresentação que simplesmente não estavam na fita. As notas estavam ali, mas notas por si só não constituem música. Onde foi parar a música, a intenção? Pude concluir então o seguinte: na gravação, o significado da retórica perdeu-se. Eu jamais seria capaz de chegar à tal conclusão confiando somente na fita e não em minhas lembranças do evento real; embora o som esteja na fita, isso não significa que uma música foi gravada. Ouvir um determinado CD num determinado sistema de áudio não significa necessariamente ouvir o que está no CD. Precisamos aprender a confiar nas respostas que nosso aparelho auditivo – nossos ouvidos – dá a sistemas de áudio. Isso demanda, é claro, que estejamos em sintonia com nós mesmos – algo difícil. Pessoas para as quais música é coisa séria precisam se aproximar do que há de intenção numa gravação sonora, e só há uma maneira de se conseguir isso em casa: aprender sobre o mundo dos equipamentos de áudio. Utilize seus ouvidos (e os de outras pessoas) para ajudar a remover tudo aquilo que dificulta experimentar música numa gravação sonora. É claro que para tal não é apenas a qualidade da reprodução sonora que conta, mas isso é o máximo que o ouvinte consegue manipular. Por exemplo, sabe-se que simplesmente inverter um plugue de dois pinos de um CD player, ou mesmo de um toca-discos, pode tornar uma gravação que você achava enfadonha em sua música favorita, só porque a polaridade não estava adequada. Como não se pode dissociar música de seu conteúdo emocional, o som de uma gravação pode definir se você vai gostar da música ou não. Além disso, pode ocorrer que você não consiga ouvir uma música que goste por conta da forma como ela foi gravada. A experiência musical é algo obviamente delicado e complexo, e nós humanos somos mais sensíveis a ela do que pensamos. Podemos então configurar nossos sistemas de áudio para tentar encontrar o melhor que eles podem oferecer para nos satisfazer. Mas, só conseguiremos nos aproximar daquilo que desejamos se soubermos o que queremos. Há componentes de áudio que se aproximam da experiência musical pelos mais diferentes níveis de custo. Cada um de nós sabe de sua limitação financeira; mas, dado o desejo de evoluir o sistema de áudio que se tem, é possível fazê-lo. Mas isso não significa que músicos precisem ser audiófilos.  Embora eu tenha trabalhos gravados desde 1965, passei a pensar seriamente sobre essas questões nos últimos dez anos. Audiófilos e amantes da música alargam fronteiras, e nós todos nos beneficiamos disso. Ademais, audiófilos mais dedicados estão determinados a manter olhos e mente abertos, a aprender incessantemente, mantendo-se calmos e pacientes durante o processo. Mas, para fazer tudo isso corretamente, pode levar tempo. Há muitas pessoas dedicadas a avaliar cuidadosamente para nós todos esses componentes sonoros. Eu recomendo fazer uso desse fato, lendo criteriosamente suas avaliações, até que as preferências sonoras de um desses especialistas casem com as suas. E após um tempo, é até possível que você passe a conhecer pessoalmente um desses caras. Mas, obviamente, quem comanda são seus ouvidos. Penso que você deveria prestar mais atenção nas necessidades deles. Afinal de contas, falar sobre tudo isso é como falar de nutrição nesta época de refrigerantes diet.

Keith Jarret

Maternal

As duas manifestações artísticas que mais me encantam são definitivamente a Música e a Matemática. A ordem é essa porque a que está em primeiro lugar me toca há mais tempo, desde tenra idade, quando eu acordava cedinho aos domingos para ouvir o programa da Rádio Globo dedicado ao rei Roberto Carlos. O aparelho de som, que ficava na sala, era simples, da marca CCE, e dispunha de toca-fitas, toca-discos e uma unidade amplificadora com rádio e medidores VU. Naquela hora em que o sol não existia, eu ligava bem baixinho o programa do Roberto, para não acordar ninguém, e me deitava no chão com o ouvido bem perto de uma das caixas, já que não tínhamos fones de ouvido. Essa experiência musical sempre me foi confortante: o escuro da madrugada ficava menos sombrio e a impressão que me acalmava era de que havia alguém por perto, uma companhia para me proteger dos mistérios da noite. Talvez seja por isso, por essa propriedade aplacadora do medo e da solidão, que costumo anunciar que Música para mim não é e nunca foi entretenimento, mas coisa séria, porque não é apenas estímulo sensorial agradável: música que não me acompanha, que não me instiga, que não me acolhe, não me interessa; sequer a chamo Música. Tal qual uma mãe, de dia, ela é essa companheira que me faz prosseguir; à noite, ela é protetora. Sendo a Música para mim um antídoto para o desamparo, não é muito difícil imaginar a voracidade com a qual acumulei canções ao longo dos anos, exacerbada pela praticidade dos arquivos musicais digitais, sem falar do conteúdo musical disponível na Internet. Por algum motivo, há cerca de um mês, resolvi fazer algo para o qual não sou propenso: organização. Totalmente imerso no mundo digital, que é desprovido de ruídos, decidi empreender esforço hercúleo para consolidar meus arquivos musicais num único local, estruturando sua árvore de diretórios de acordo com a qualidade do arquivo, gênero musical, artista, ano de lançamento e álbum. Transformei essa estrutura num arquivo HTML navegável e como o Extrato do Miolo é o veículo pelo qual exibo quem sou e o que tenho, disponibilizo esse arquivo numa nova página, compactado em zip, acessível para download no menu “Trabalhos”, “Música”, “Meu Acervo Musical”. O conteúdo do arquivo não ficará estático, é claro, uma vez que o acervo crescerá na exata proporção de minha disposição para desvendar aquilo que chamo maternal.

Novidades

Ensimesmados como eu são desprovidos da virtude do cultivar amizades, seja pela antipatia que despertam, seja por sua inabilidade inata ou total falta de disposição. Por isso, esse grupo de misantropos é composto por seres humanos que possuem pouquíssimos amigos ou simplesmente nenhum. A convivência social lhes é difícil, anti natural, desconfortável. Mas, para a sorte deles, há pessoas que nasceram vocacionadas para a arte da paciência e empregam seu amor fraternal inato na árdua convivência com esses próximos ingratos. Posso dizer que pertenço a esses ingratos afortunados, pois há uma alma caridosa neste mundo materialista que, vez por outra, dispõe de seu tempo para compartilhar algo comigo. Esse sujeito, a quem atrevo chamar de amigo, contou-me uma historinha interessante e, conhecedor dos temas tratados neste blog, autorizou-me a publicá-la aqui, junto com a carta que ele foi impedido de enviar. Vamos a ambas. Há pouco mais de três meses, iniciou o filho desse meu amigo a leitura do conhecido livro O Diário de Anne Frank como parte das exigências escolares do sétimo ano, antiga sexta série. Em sua mais recente edição oficial em português, lançada em 2015, o livro publicado pela editora Record traz algumas novidades: comentários da autora adolescente, censurados por seu pai Otto Frank em edições anteriores, sobre assuntos de cunho sexual e também sobre o péssimo relacionamento dos pais. Ocorreu que algumas mães de alunos leitores do livro sentiram-se bastante incomodadas por tais novidades e em comitiva dirigiram-se nervosamente à escola no intuito de obter as devidas satisfações sobre a compatibilidade da obra com a tenra idade de seus pimpolhos pré-adolescentes. A diretoria da escola, assustada com tal reação, enviou carta a todos os pais do sétimo ano colocando-se à disposição dos incomodados para trocar a edição de seus livros por uma mais antiga, caso quisessem, mas alertava que todos os assuntos tratados na nova edição seriam abordados em sala de aula. Ainda orgulhoso por ter o filho estudando em escola tão corajosa, meu amigo recebeu a notícia de uma nova visita de mães à escola, declarando-se elas não apenas incomodadas, mas agora ultrajadas com a carta da diretoria. Na boca pequena, comentou-se que nesse novo encontro houve choro, ranger de dentes e, como não poderia faltar, ameaças de evasão de alunos no ano subsequente. O resultado que meu estimado amigo temia aconteceu: a escola enviou nova carta na qual pedia desculpas pela carta anterior, mantinha o esquema de trocas e anunciava a proibição da discussão em sala de aula das novidades impróprias presentes no diário da adolescente judia. Enquanto contava esse última parte, percebi em meu amigo uma irritação desproporcional, típica de alguém que não sabe lidar com a indignação, com a revolta. Perguntei se ele realmente estava chateado apenas com essa história ou se havia mais alguma coisa que o incomodava. Foi quando ele me confidenciou que tencionava enviar para escola uma cartinha de impressões suas sobre o acontecido, mas que, sendo ele uma pessoa sensata, submeteu a cartinha à apreciação de sua digníssima esposa, mãe do seu filho. Ela, que não se sentiu ultrajada pela primeira carta da escola e muito menos pela nova edição do livro, ponderou que o eventual vazamento da cartinha, de conteúdo demasiadamente forte, poderia trazer consequências maléficas ao garoto e que portanto temia por ele. Diante dessa posição contrária à sua intenção, meu amigo se disse obrigado também a retroceder. Neste momento, ele ficou sem ar e foi preciso que eu corresse para abrir as janelas. Quando se recuperou, sem pronunciar palavra, entregou-me a tal cartinha e alguns dias mais tarde autorizou-me a publicá-la no Extrato. Ei-la:

Prezados Diretores,

    ​Sou pai de um alunos do sétimo ano e sobre o assunto de que trata esta Carta Circular no. ** que recebi da escola, gostaria de colocar objetivamente minhas impressões e opiniões. Não me agrada em absoluto que a escola tome a parte pelo todo e ceda de maneira constrangedora, para não dizer vergonhosa, a um grupo restrito de pais que, a pretexto de zelar pela “boa” educação dos filhos, questiona o cabimento de uma obra como “O Diário de Anne Frank” a alunos de sétimo ano. Este grupo de pais, do qual tenho a honra de não fazer parte, alega inadequados para esse público termos esparsos como “pênis”, “vagina” e “seios”, termos esses que colaboram acessoriamente para o veio principal do diário, que é relatar a angústia e o medo de uma pré-adolescente judia, cheia de sonhos e desejos como qualquer outra, mas que desgraçadamente vive sob a égide de nazistas. A debilidade do argumento desses pais é tamanha que suscita duas perguntas: a) A primeira manifestação dos pais terá sido fruto da hipocrisia que costuma acometer moralistas de baixíssimo nível intelectual?  Apesar da contundência, essa pergunta procede, uma vez que não se pode declarar improvável a existência de pais com baixíssimo nível intelectual e muito menos improvável a existência de pais que se declararam escandalizados com as confissões de Anne Frank mas permitem que seus filhos e filhas ouçam, por exemplo, músicas da Anitta, Wesley Safadão, MC sei lá o quê e outras reais obscenidades do gênero, cujas letras constituem em sua maioria conteúdo sexual explícito distorcido e cujas coreografias denigrem a mulher. Outra pergunta que surge é a seguinte: b) Fosse a adorável Anne Frank cristã, seria a disposição desses pais cristãos a mesma para empreender tal protesto? Essa pergunta também procede porque nós cristãos (eu também sou) aprendemos desde criancinhas no catecismo que os judeus entregaram Jesus para ser morto em troca da libertação de um bandido, ou seja, que judeus são obscenos. Enfim, minha intenção não é responder a tais perguntas, mas utilizá-las como subsídio para afirmar que quando cede a esses ditos pais escandalizados a escola sucumbe ante à hipocrisia e ao antissemitismo.

Atenciosamente,
Um pai sinceramente indignado.

13.500Hz

hi-res-musicLembro-me que num post bastante antigo, publicado numa época em que este blog ainda conseguia atrair a atenção de alguns poucos leitores mais pacientes, divulguei consternado uma condição que me acompanha ainda hoje, denominada tecnicamente acufeno, mais popularmente apelidada de zumbido ou zuído. No meu caso, trata-se de uma percepção auditiva, sem estímulo externo, que se manifesta por meio de um sinal acústico cuja frequência orbita em torno de 13.500Hz. O ruído se assemelha ao de um assobio bem fininho, quase no limite do agudo, e essa situação seria relativamente suportável não fosse o silvo implacavelmente persistente: eu desconheço o silêncio, por exemplo, no prelúdio do sono, quando os volumes do ambiente estão baixos. A única variação no citado barulho ocorre em sua amplitude, ou seja no volume do assobio: uma boa noite de sono, esporte e gingko-biloba diminuem o volume; mas cansaço, álcool, açúcar, cafeína, música, travesseiro alto e antibióticos aumentam. Entre aquele post longínquo e este, tenho notado os itens elevadores do volume mais contundentes que os diminuidores, e o efeito cumulativo têm sido a notável degradação de minha capacidade auditiva, particularmente no ouvido direito. Devo dizer que abdicar dos estimuladores da citada altura sonora não me causa maiores descontentamentos, exceto de um deles, música, que para mim é algo indissociável desta aventura denominada viver. Assim, privado dos demais itens maléficos, resolvi lidar com a questão da música aproveitando a oportunidade dada por nossos honoráveis médicos ao se declararem ignorantes quanto à terapêutica e às causas do problema: diante disso, eu próprio criei as minhas. Em primeiro lugar, vamos às causas. Nos últimos tempos, invadiu-me a crença de que esta minha condição foi provocada porque passei a ouvir música veiculada em arquivos digitais no formato mp3 e similares. Explico. Esses formatos de arquivos musicais digitais, dentre os quais o mp3 é o exemplo mais difundido, são classificados como lossy ou “com perdas”. Quando a música alcançou os pequenos dispositivos móveis, a necessidade por espaço foi premente, demanda que os volumosos arquivos musicais brutos não atendem. Chamo arquivo bruto aos arquivos digitais gerados por conversores analógico-digitais como um passo na longa cadeia dos processos de gravação musical. Em linhas gerais, os arquivos lossy são um subproduto desse processo de gravação, uma vez que resultam de uma rotina de filtragem, quando são retiradas dos arquivos brutos grandes parcelas de informação. Seguida dessa filtragem, que elimina pedaços considerados pelos “especialistas” como inaudíveis à percepção média, há um processo de compactação do arquivo lossy, que o torna atrativamente pequeno, cerca de cinco a dez vezes menor que os arquivos brutos. As informações num arquivo bruto extraído de CD, por exemplo, caminham num fluxo de cerca de 1000 kilobits por segundo, enquanto que nos lossy ditos de alta “qualidade” o fluxo é de 250 kilobits por segundo. Diante desse sofisticado tipo de corte ou censura, minha crença funda-se na convicção nada científica de que a música desses arquivos, por ser retalhada, é desnatural, contrafeita. Sem saber lidar com ela, o ouvido então reage, ruidoso. Voltei então aos meus velhos CD’s e já estava quase conformado com a impossibilidade de ouvir música no celular quando a comunidade audiófila, sempre refratária aos arquivos lossy, inventou a tal música de alta resolução (Hi-Res Music). O audiófilo é uma espécie de maluco para o qual a busca da perfeição sonora adquire contornos quase místicos: ele procura ouvir, através de seus requintados aparelhos de som, a voz de Deus. Indo muito além de minha demanda por qualidade de CD nos arquivos musicais digitais, a música de alta resolução dos audiófilos se baseia no fato comprovado cientificamente de que a resolução do ouvido humano é maior que a taxa de amostragem de 44.100Hz utilizada na gravação de CDs e outras mídias. Explico. O sinal analógico, contínuo, precisa ser discretizado nos zeros e uns do formato digital; e assim o conversor, para gerar o arquivo digital, amostra o sinal analógico a cada 1/44.100 segundos. Ocorre que nas frequências sonoras mais audíveis, o ouvido humano médio consegue discernir diferenças sonoras num intervalo de até 1/192000 segundos. Assim, estupefato, pude concluir que até nos arquivos brutos, há perda audível de informação. A partir daí, passei a adotar os arquivos digitais com música de alta resolução, comprimidos mas não filtrados, chamados arquivos Hi-Res lossless (sem perda), como uma alternativa aos formatos lossy. Há diversos sites que vendem músicas nesses formatos, cuja taxa de amostragem supera os 44.100Hz do CD; algo que torna o citado fluxo de informações superior aos 2000 kilobits por segundo. Surgiu então um problema: o que fazer com minha extensa coleção de CDs, todos amostrados com os míseros 44.100Hz? Novamente os audiófilos, aqueles menos ortodoxos, vieram em meu socorro com um recurso denominado upsample, que significa elevar a taxa de amostragem do CD interpolando matematicamente a informação digital. Fiz então o upsample de todos os meus CD’s, colocando-os em formato Hi-Res Lossless. Esse enorme esforço foi motivado pela percepção do menor efeito elevador do zumbido pela música de alta resolução em comparação à musica lossy: auto-sugestão? Pode ser, mas o fim alcançado justificou amplamente o meio adotado, auto-sugestivo ou não. Quanto à terapêutica que criei, prefiro não revelar os detalhes para não ser acusado de curandeirismo, ou de exercício ilegal da medicina. O que posso dizer é que há elementos da medicina caseira – garrafadas e preparados – e também terapia sonora, pela qual se acredita que ouvir sistematicamente um sinal sonoro dotado de todas as frequências do espectro audível, exceto aquela do zumbido (13.500Hz no meu caso), pode reduzir imensamente seu volume.

Atento

– Oi pai, bom dia! – disse o menino.porta1
– Bom dia, meu filho! – respondeu o pai.
– Melhorou?
– De que meu filho?
– Ué? Da diarreia de ontem à noite!
– Diarreia? Que diarreia?
– É que eu passei pela porta do quarto de vocês e ouvi a mamãe perguntar: “Essa merda sua não endurece não!?”

Zico

flamengo1982Minha formação futebolística está intimamente ligada ao campeonato carioca, cujos jogos eram transmitidos ao nosso tubo televisivo todo domingo à tarde, religiosamente, pela também carioca Rede Globo. Num período onde as paixões são mais intensas, a adolescência, tive a grata oportunidade de não precisar escolher para meu time do coração entre Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Portuguesa e outras superfluidades paulistanas do gênero. Havia, à minha disposição, equipes de técnica mais refinada como o Vasco de Roberto Dinamite, o Fluminense de Cláudio Adão e Paulo Vítor, sem falar no Flamengo de Zico, Júnior, Leandro, Andrade, Adílio, Marinho, Nunes, Tita e Raul.
O meu primo, poucos anos mais velho e expectador do rudimentar futebol paulista, vítima de uma doença debilitante do intelecto chamada Corinthians, opunha-se, de maneira sistemática e contundente, ao Clube de Regatas do Flamengo, time que melhor definia o futebol arte daqueles tempos, tanto no âmbito carioca quanto, por falta de adversários à altura, no nacional.

Devo confessar que a relação com esse meu primo nunca foi das mais harmônicas e não era incomum nos engalfinharmos por alguma desavença. Cultivávamos o hábito pouco saudável de provocar um ao outro com brincadeirinhas pouco ortodoxas. Certa vez, acordei repentinamente de uma sesta maravilhosa com um palito de fósforo aceso encravado entre dois dedos do pé. O revide à essa afronta imperdoável ocorreu dias depois, numa bela manhã de sábado, quando ele ingeriu apressadamente, antes de sair para o encontro habitual com a namoradinha, uma generosa chávena do seu leite matinal no qual haviam sido dissolvidas três drágeas do inexpugnável Dulcolax.
Por conta dessas e outras diabruras de parte a parte, fica evidente minha escolha pelo Flamengo, algo que se deu tão logo percebi a contundente implicância de meu primo corinthiano com a esquadra rubro-negra e seu futebol invejável. Já plenamente convencido dessa minha opção, ele radicalizou ainda mais sua oposição, que atingiria seu ápice num domingo pitoresco. Na tarde do dia 18 de abril de 1982, deu-se a primeira final do campeonato brasileiro: Flamengo x Grêmio. Era preciso que o time carioca garantisse um bom resultado em casa, porque o segundo jogo ocorreria no Estádio Olímpico. Sobre o sofá lá de casa, em frente à TV, estavam eu, meu primo e um ilustre convidado seu: um asqueroso gremista serelepe. Aos 38 minutos minutos do segundo tempo, o meia-armador Tonho Gil marca um gol para o Grêmio, na única oportunidade criada pelo tricolor gaúcho. 
Enquanto os dois pulavam, gritavam e se cumprimentavam efusivamente, eu chorava copiosamente. Àquela altura da partida, julgava quase impossível uma recuperação do meu Flamengo: não havíamos conseguido vencer a retranca do adversário durante 83 minutos; não seria então nos 7 minutos restantes que isso ocorreria. Constrangido com aquelas lágrimas por conta da presença do convidado gremista, retirei-me da sala e corri para o quarto. Ali, pensei: “Vou parar de chorar. Preciso ajudar o Mengão contra esses dois filhos da puta. Vai ser o Zico lá no Maracanã e eu aqui”.
Três minutos após minha saída, retornei recomposto ao sofá e foram necessários outros três até que Júnior, na ponta esquerda, conseguisse cruzar a bola na área para que Zico, antecipando-se ao zagueiro, ficasse cara a cara com o goleiro Leão. Numa situação como essa, até um modesto conhecedor de futebol daquela época, torcedor de qualquer time do mundo, já saberia do resultado. Quando recobrei a consciência, eu estava sambando em cima da mesa da sala, a mesma sala da qual havia fugido, aos prantos, seis minutos antes. Na partida seguinte, o Flamengo sagrou-se campeão brasileiro de 1982.

Renovado

butterNo intuito de chamar a atenção para si, após um longo tempo inativo, o Extrato resolveu renovar seu guarda-roupa procurando apresentar–se ainda mais elegante, sem negligenciar o estilo minimalista que lhe é peculiar. Ele espera atrair novos leitores e reconquistar os antigos, dispondo da velha estratégia de priorizar a forma em relação ao conteúdo. Em breve, novos posts!

Toscano

canario-belgaNo dia 5 de Julho de 1982, eu acabara de completar dez anos, idade em que o futebol para a maioria esmagadora dos brasileirinhos daquela época longínqua significava muito mais do que uma mera modalidade esportiva. Nesse dia inesquecível, foi disputada a partida Brasil x Itália pela terceira rodada da segunda fase da Copa do Mundo de Futebol, cujo país-sede era a Espanha. Eufórico com as quatro espetaculares vitórias brasileiras até ali, sem dizer do título de campeão brasileiro conquistado pelo meu Flamengo no glorioso mês de abril daquele ano sobre o truculento Grêmio, em pleno estádio Olímpico, comecei assistindo a partida absolutamente contaminado pelo clima de otimismo que se disseminara após nossa impecável vitória sobre a odiosa Argentina. Diante da fraquíssima campanha italiana na copa, dizia-se despudoramente por aqui: “Vai ser moleza! A Itália é freguês!”. Durante o jogo, aconteceu que a providência divina resolveu ser bastante benevolente com um certo toscano nascido na província do Prato em 1956. Recém egresso de um banimento de dois anos do futebol por envolvimento em escândalo de venda de jogos, massacrado pelos jornalistas esportivos de seus país e ridicularizado por sua torcida, o jogador Paolo Rossi, o tal toscano, foi um atacante convocado de última hora, para participar da Copa da Espanha, pelo destemido técnico Enzo Bearzot: único ser humano italiano da época que, em pleno exercício de suas faculdades mentais, acreditava numa possível contribuição desse futebolista, cujos preparos físico e técnico se encontravam bastante defasados em relação aos do restante da equipe. Por conta disso, Rossi foi escalado apenas no quarto jogo da esquadra azurra na competição, quando ela bateu a Argentina por dois a um, com gols de Tardelli e Cabrini. Repetiu-se sua escalação no jogo seguinte, o supracitado, contra o Brasil, quando aos cinco minutos do primeiro tempo, Rossi marca seu primeiro gol na copa, abrindo o placar da partida ao cabecear, livre de marcação, uma bola cruzada pelo lateral-esquerdo Cabrini. O time brasileiro buscou então o empate; score que lhe garantiria o prosseguimento na competição e a consequente eliminação da Itália. Assim o fez a seleção canarinho logo em seguida ao gol italiano, aos doze minutos, numa jogada espetacular de Zico, driblando seu adversário e assistindo Sócrates na área, que chutou uma bola rasteira, entre a trave esquerda e o excelente arqueiro italiano Dino Zoff. Rossi não se deixou abater e, oportunista, roubando a bola de um canhestro recuo feito por Toninho Cerezo para a intermediária defensiva do Brasil, partiu livre em direção à área e fuzilou o medíocre goleiro Valdir Peres aos vinte e cinco minutos de jogo. Assim, a Itália terminou o primeiro tempo na frente, mostrando – de maneira bastante contundente – ao time e à torcida brasileiros que venderia muito, muito cara a sua eventual eliminação. O segundo tempo iniciou nervoso até os treze minutos, quando Júnior avança da lateral esquerda para a intermediária italiana e percebe Falcão livre de marcação na entrada da grande área. O volante brasileiro conduz a bola para a esquerda, procurando uma brecha para o chute, e finalmente dispara a bola direto para o gol. Lembro-me que nesse momento, comecei a chorar num misto de alegria e desespero; naquela época, o futebol ainda me despertava essas reações apaixonadas. Pela comemoração emocionada de Falcão, percebi claramente que havíamos desrespeitado nosso adversário e que o empate apenas equilibrava as duas forças em campo, não garantido absolutamente vantagem alguma. Tal clarividência confirmou-se aos vinte e nove minutos numa bola de escanteio, cruzada bem aberta na área brasileira, e desviada por Rossi, livre de marcação, após uma tentativa de chute de fora da área, que foi direto para o fundo das redes brasileiras. Rossi e sua Itália estavam novamente na frente e assim permaneceram até o final da partida, sob os olhares de um público estupefato e o corre-corre desarticulado de uma seleção brasileira que parecia indignada com a determinação de seu oponente. Após essa partida, o futebol nunca mais foi o mesmo para mim: de alguma forma, ficaram cicatrizes, lembranças amargas de uma certeza frustrada e também um certo senso de auto preservação, advindo da percepção – rudimentar à época e que hoje se sedimentou – de que é bem mais saudável encarar o futebol como de fato uma mera competição esportiva. Durante muito tempo, acalentou-me o patético discurso de que a seleção brasileira era a melhor equipe da Copa de 82, mas que infelizmente o melhor nem sempre vence. Ao escrever este texto, constatei que tal falácia busca amenizar as dores do derrotado, pois no caso da Copa da Espanha, não foi bem isso que aconteceu. Nas fases eliminatórias, onde o perdedor volta para casa, a Itália superou seus adversários de maneira incontestável e contra seleções consideradas tecnicamente superiores: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha Ocidental. Depois do jogo contra o Brasil, Paolo Rossi, nosso carrasco de Sarriá, que virou titular absoluto, marcou os dois gols da Itália contra a Polônia e mais um na final; tentos que lhe garantiram a artilharia da competição, pela qual recebeu a chuteira de ouro e também o título de melhor jogador. Concluo, de certa forma surpreso, que a melhor seleção da Copa do Mundo de 1982 na Espanha foi a campeã Itália porque soube vencer quando precisou vencer. De lá para cá, outras copas sucederam e o Brasil pode acrescentar mais dois títulos mundiais ao seu glorioso currículo futebolístico; mas devo dizer que nenhum evento no futebol após essa terrível derrota para a Itália me trouxe tantos ensinamentos. Hoje, assistindo a mais uma copa, desta vez em meu país, é interessante observar, com os devidos distanciamento e discernimento que faltaram àquelas lágrimas abundantes nos meus ingênuos dez anos de idade, as reações dos que optaram por ficar mais profundamente envolvidos: os oportunistas badernam nas ruas; os sindicalistas fazem greve; os argentinos ridicularizam a cerimônia de abertura; os perdedores chamam a copa de circo; a sempre gentil torcida paulistana manda em uníssono a Presidenta da República tomar no cu (afinal de contas, se hostilizar os negros é um direito legítimo, por que não a presidenta?); os covardes se escondem; Galvão Bueno continua esbravejando seus disparates popularescos; a oposição diz que o juiz japonês roubou e a situação, que compensou; Scolari finalmente aprendeu a dissimular também sua truculência enquanto os saudosistas da crônica esportiva tupiniquim espinafram a jovem seleção brasileira, apesar de mais uma vitória em copas do mundo. De minha parte, esta copa será uma ótima oportunidade e motivação para me reunir com os poucos amigos e familiares, desfrutando o divertimento dessas horas raras e, acessoriamente, torcendo em conjunto pelo Brasil.

Willendorf

visualArtsNa minha opinião, nem sempre modesta, todo o agrupamento de pessoas passível de ser qualificado família deveria possuir em seu rol de bens comuns uma enciclopédia sobre Arte, tão cuidadosa e não menos volumosa que uma obra histórica ou o tradicional livro religioso, item essencial para os crentes, como a tal Bíblia da Família, por exemplo. Digo isso porque diferente da História e da Religião, a Arte proporciona uma visão única do ser humano; através dela, é possível assistir à transformação desta necessidade intrínseca ao homem de harmonizar sons, formas, cores e texturas. Conhecer tal necessidade é, em última instância, desvendar muito do espírito humano, uma vez que ela é uma das expressões mais honestas daquilo que o constitui: o amálgama do meio que circunda o homem com seus caracteres inerentes. Assim e por não acreditar na obsolescência dos livros e enciclopédias, ainda que completamente imerso na era da Internet, resolvi dispor em minha estante pretensiosa, ao lado da Bíblia de Jerusalém, a obra The Visual Arts: A History, dos autores Hugh Honour e John Fleming, em sua sétima edição. A abordagem do livro é realmente enciclopédica, pois cobre a Arte desde o período paleolítico até o final do século XX, dedicando alguns capítulos para as artes oriental e americana; tudo isso apresentado num volume único, de mil páginas, tamanho 30 cm x 23 cm, cujo conteúdo possui nível introdutório, mais descritivo que analítico. Animado com a chegada dessa obra robusta, iniciei uma incursão despretensiosa por suas páginas grafadas com letras miúdas, justamente pelo tal período pré-histórico da Arte, quando lá pelas tantas, uma certa figura muito me chamou a atenção. Tratava-se da escultura de uma deusa mãe, conhecida por Vênus de Willendorf, onde são perfeitamente discerníveis, até para o mais desatento observador, os seios generosos e os glúteos protuberantes. Em menor escala, pode-se perceber também os grandes lábios vaginais e sua inconfundível separação. Por alguma razão, o artista preferiu não esculpir o rosto, cobrindo-o com cabelos. O texto explica que tais imagens não eram incomuns naquela época primitiva e sua adoração objetivava atrair a fertilidade, em sua mais ampla concepção: a capacidade de nutrir e de reproduzir. Procurar invocar tais dádivas idolatrando seios e vagina faz todo o sentido, mas qual seria o papel da bunda nessa história? A fim de procurar respostas, matutei intensamente com meus botões e, após um tempo significativo, ocorreu-me a ideia de que o escultor não tencionou conferir um caráter utilitarista ao seu trabalho, visando o fim precípuo de atrair fertilidade. Tenho para mim que ele tentou reproduzir as regiões que mais o encantavam – com motivações puramente sexuais – na fisionomia feminina: dentre as partes interessantes, há a bunda; não há o rosto. Eis que surge então, nesses tempos remotos, as concepções mais rudimentares sobre a beleza feminina: seios fartos, glúteos abundantes, longos cabelos trançados e uma vagina bem definida. A partir daí, tal concepção se desenvolveu e, junto com ela, a faculdade artística do ser humano. Eu diria que essa estreita relação  “Mulher-Arte” é, no mínimo, bastante interessante. Quando chego nesse ponto de minhas elucubrações – uma espécie de resultado -, sou invadido por uma necessidade quase patológica para tirar conclusões. Eis então mais uma: acredito que fazer, praticar Arte é, em última instância, buscar retratar, descrever o feminino.Venus_Willendorf

À Mesa

chalaQuando Helinho chegou em casa com o canudo debaixo do braço, Dona V* sentiu um misto de orgulho e alívio. Inquieta, pensou consigo: “Quem sabe agora, longe das más influências acadêmicas, esse menino se emenda”. Para receber o filho bacharel, ela havia preparado, entre outros quitutes, um delicioso challah, a guloseima preferida do pimpolho, seguindo uma velha receita de seus antepassados judeus. Diante daquela mesa que sustentava inúmeros quitutes, Helinho empolgou-se e, tendo um generoso naco do citado pão divino – ou melhor dizendo, “pão apetitoso”, pois Helinho não crê em certos termos – a saracotear pela boca, anunciou:
– Mamãe, agora, após tantos anos de estudos, período dos mais profícuos em minha longa jornada discente, vou poder aplicar os conhecimentos adquiridos com a ajuda de tão nobres e eminentes mestres “uspianos”, sem falar nos valorosos pensadores, sobre cujas ideias construí as minhas. E tudo isso, Mamãe, veja bem! Tudo isso sem prejuízo de minha autonomia, de minha emancipação intelectual. Finalmente, praticarei esta ciência maravilhosa, que mudou radicalmente minha vida, lançando a luz inefável da consciência crítica aos quatro cantos deste nosso imenso país assolado pela ignorância, pela alienação, pela corrupção, pela mediocridade e tantas outras mazelas provocadas pelo subdesenvolvimento político, social, econômico, artístico, cultural e educacional… Cof, cof, cof… Advogarei com fervor as causas de minhas convicções, defenderei a liberdade do pensamento, questionarei os dogmas, insurgir-me-ei contra qualquer tipo de censura, polemizarei com o establishment reacionário, apontarei a idiotia do esquerdismo xiita, rechaçarei a tirania moral dos setores escravizantes da sociedade… Cof, cof….
Naquele momento, a mãe então o acudiu, batendo-lhe nas costas, rogando que interrompesse o arsenal de palavras sofisticadas que dissera, pois receava que pudesse se engasgar e também para evitar que seu discurso descambasse para um tema que havia sido razão de divergência entre os dois. Angustiada, ela ainda guardava em seu infinito coração de mãe cada palavra que Helinho proferiu alguns anos antes, sentado naquela mesma mesa, onde anunciou sua descrença inexorável em Deus:
– Eu li Schopenhauer, Mamãe! Li Nietzsche! Senti-me livre ao descobrir o mal causado pela repressão religiosa, que estreita e circunscreve a capacidade do agir, do pensar, do discernir, do raciocinar. Deus é uma ficção, Mamãe! Um artifício! Um subterfúgio! Louvo esta ciência eminentemente humana que me concedeu a clarividência, louvo estes autores iluminados, gênios do pensamento, ápice e glória de tudo o que se chama conhecimento.
Dona V*, que após tais palavras receava ouvir uma tediosa ode à Filosofia, sentiu-se derrotada e procurou convencer o filho, numa longa e cansativa discussão, de que talvez fosse possível conciliar a opção profissional com a crença no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob ou, pelo menos, na figura de um criador. Lá pelas tantas, quando percebeu a inutilidade de seus argumentos ante à intransigência do filho, resignou-se como toda mãe dedicada, vítima do tal amor incondicional. Recobrada dessas amargas lembranças e no intuito de dar um novo rumo à conversa que estavam tendo em companhia do canudo, a mãe perguntou:
– Tem alguma estratégia para levar a cabo todos esses planos profissionais?
– Pois é, Mamãe. Eu tava aqui pensando se o Papá conseguiria conversar com o Seu Frias para me arranjar uma vaguinha lá na Folha.
E assim se fez: Helinho tornou-se funcionário deste eminente diário paulistano. Ali, numa ascensão meteórica, dada a sua inteligência de asquenaze – inteligência que ele acredita ser geneticamente superior a de qualquer muçulmano – e uma profunda habilidade com as palavras, tornou-se aquilo que o jornalismo denomina colunista e dos mais renomados, daqueles qualificados pelos desavisados como polêmicos. Certo dia, novamente sentado à farta mesa de sua mãe, onde devorava um indescritível kugel de cenoura, Helinho foi submetido a um colóquio indigesto. Um considerável pedaço da guloseima atravessava o canal esofágico do colunista rumo ao seu estômago vazio quando, com aquela ternura própria de mãe, Dona V* disse:
– Meu filho, eu li aquele seu artigo sobre manifestações racistas.
– Mamãe, já pedi para que a senhora não leia o que escrevo. Fico encabulado! Constrangido!
– Mas meu filho, você é muito bom! Gosto de suas opiniões e do jeito que escreve!
– Obrigado, mamãe! Desculpe! Mas então? Gostou?
– O artigo está bem escrito, como sempre. Mas, você não acha que extrapolou um pouco?
– Não me preocupo muito com isso, Mamãe. Dentro do limite da responsabilidade, escrevo o que penso.
– Preocupo-me com você, meu filho. Receio que esse seu limite esteja excessivamente amplo. Lembra daquele artigo da Demografia do Nobel?
– Sim.
– Aquilo ali soou mal, meu filho! Chamaram de preconceito científico!
– Mamãe, eu apresentei números. Números são números: uma das ferramentas fundamentais do raciocínio lógico.
– Filho, você acredita que raciocinou da mesma forma no artigo do racismo?
– Não com números, mas com John Stuart Mill.
– Você acha que numa livre manifestação de ideias sobre esse tema, aqui no Brasil, os atores teriam poderes proporcionais?
– Sim!
– Vamos supor então um grande apresentador de TV ou qualquer bom comunicador declarando abertamente que não gosta dos negros.
– Já imaginei.
– Você acha que haveriam forças, forças emanadas de uma minoria negra, para lutar em pé de igualdade com o comunicador?
– Sim!
– Aqui no Brasil?
– Sim!
– Não minta, meu filho. Você não acredita nessa proporcionalidade!
– Como assim, Mamãe? Se digo que acredito é porque acredito.
– No artigo do Pastor e os Gays, você diz que o pastor Silas Malafaia não deveria se pronunciar quanto à cura gay.
– Eu disse que ele não deve se pronunciar na condição de psicólogo.
– Então na condição de pastor, ele pode?
– Sim!
– Usando seus programas de TV, seus programas de rádio, seus panfletos, suas revistas, seus CD’s, seus DVD’s, sua igreja?
– Humm… É….
– Você não acredita no que escreveu, meu filho! Se acreditasse, não lhe pareceria muito sensato mandar um pastor homofóbico calar a boca e, meses depois, pregar liberdade de expressão para milhares de racistas.
–  Mamãe, insinua que sou preconceituoso em relação aos negros?
– Não, meu filho. Desconheço as causas dessa diferenciação que você fez. Mas, de alguma forma, eu lamento ter te tirado da psicanálise. Talvez você mesmo já soubesse a reposta.
– Um filósofo não precisa de Psicanálise!!!!
– Filho, entenda! Essas suas ideias são muito bonitas, mas são fundadas apenas em teorias! O mundo real é diferente! A realidade não se submete à teoria: a realidade é a verdade!
– Mamãe, insinua que ainda sou inexperiente? Insinua que eu precise voltar ao banco da escola para aprender alguma coisa?
– Pelo contrário, meu filho! O problema é justamente este: você ainda está sentado no banco da escola! Nunca saiu dele!

Nota:
Essa pequenina obra de ficção é livremente inspirada no filósofo-jornalista-colunista ateu Hélio Schwartsman e naquilo que se pode considerar como sendo suas “ideias”.

Vida-Obra

freudCoachLi em algum lugar que não é possível separar a vida de alguém de sua obra, uma vez que a obra, seja ela qual for, é sempre, de alguma forma, produto da vida; fato que não impede que uma seja admirada e a outra rejeitada: as partes desse todo indissociável são portanto discerníveis. Entre outros fatores, o nível de tal discernimento sofre influência da natureza da obra, sendo mais alto naqueles trabalhos mais técnicos. Num contexto mais humano, pode ocorrer que a obra, antes admirada, fique, de certo modo, “prejudicada” ao tomarmos conhecimento de certos pormenores da vida que nos causam repúdio. Perante o arcabouço moral que nos sustenta, pode acontecer também que, em não se conhecendo vida e obra, uma eventual informação que desabone a primeira provoque fortes resistências para se conhecer a segunda. Nessas duas situações, vida e obra tornam-se uma massa monolítica indiscernível. Ambas encaradas assim, um contínuo homogêneo vida-obra, pode ocorrer que se admire com menos intensidade as pinturas de Caravaggio por conta de suas reiteradas práticas delinquentes e, em particular, do assassinato que cometeu; também é possível que resulte atenuada a sensibilidade nos escritos de Dostoiévski ao se saber que o autor russo, por ser viciado em jogo, viveu constantemente endividado, não lhe sendo possível sustentar dignamente a família até sua morte; pode-se afirmar ainda que as letras rebeldes das músicas de Caetano Veloso e sua patota estejam eternamente maculadas em virtude de que agora é “‘Proibido Proibir’, desde que não se trate de uma biografia não autorizada”; não seria um absurdo passar a ler a poesia de Drummond com um olhar menos encantado ao se saber que o escritor, chefe de gabinete do ministro da educação na ditadura Vargas, era preconceituoso em relação ao romance regionalista nordestino; pode ocorrer também que se repudie os textos humanísticos de Rousseau ao se tomar conhecimento de que o filósofo suíço abandonou num orfanato os cinco filhos que teve com sua amante. Até pouco tempo atrás, quando me acorriam à mente esses e diversos outros exemplos, certas palavras emergiam e ficavam impressas no fundo desta minha mente perturbada: moralismo, inveja, preconceito, hipocrisia. Junto com elas, surgia também uma espécie de revolta interior, de indignação, momento em que perguntas também pululavam: será que o pensamento crítico sempre precisa discernir vida e obra? Em prol de autonomia, é necessário aceitar a obra ainda que a conduta de vida do autor desagrade? Para citar um exemplo e ser menos abstrato, esse  conflito sempre me ocorre quando tento ler alguns dos numerosos textos do psicanalista italiano que atende pelo nome de Contardo Calligaris, particularmente aqueles sobre “vida a dois”. Esse afamado colunista do grupo Folha, para o qual sua conhecida reincidência em enlaces matrimoniais é uma virtude, não me soa crível quando fala ou escreve sobre esse assunto. A mim me parece que, atrás da fachada de satisfação que alega ter adquirido com seus diversos casamentos, há nesse pupilo de Lacan dificuldades em manter, de forma duradoura, um relacionamento conjugal: dos 18 ao 60 anos de idade, Calligaris desposou sete mulheres; feito que resulta uma média de 6 anos de vida útil por casamento. Se considerarmos esse número um padrão de comportamento, resta à sua atual relação pouco mais de 3 anos de sobrevida. Por falar nisso, dos diversos depoimentos desse psicanalista da burguesia paulistana, que não se furta em dar entrevistas sobre sua vida pessoal e cujo valor da sessão ultrapassa os US$400,00, pode-se concluir que o início do relacionamento amoroso com a atual esposa – atriz global e ex-mulher de galã – se deu quando ambos ainda eram casados e ela, na condição de analisanda. Esse tipo de interação que alguns analistas estabelecem, de ética altamente questionável, não é raridade na história da Psicanálise: o renomado analista indiano Masud Khan, especialista na teoria das perversões, costumava comentar abertamente, para quem quisesse ouvir, sobre as relações sexuais que mantinha com suas analisandas. Não estou afirmando que,  no caso de sua atual mulher, Calligaris tenha seguido à risca os passos do indiscreto colega indiano, muito embora, aos meus olhos muitas vezes severos, o analista que estabelece uma relação dessa natureza com o analisando, seja por qual forma ela ocorrer, coloca-se na mesma posição de um adulto que abusa de um menor, dada a diferença das capacidades psicológicas; diferença essa que é condição fundamental num trabalho verdadeiramente psicanalítico. Enfim, mesmo diante dessas peculiaridades que desabonam completamente, na minha particular avaliação, a vida-obra dessa nobre celebridade ítalo-brasileira, devo admitir que ainda não consegui me livrar do pensamento fixo naquelas quatro palavras que citei. Agora, ao final, refletindo um pouco mais sobre esse confuso texto que escrevi, pode ser que no afã de me tornar autêntico – esforço iniciado no divã de um excelente psicanalista ético – eu exagere um pouco, embrenhando-me demasiadamente em questões teóricas; atitude que me faz questionar, vez por outra e em vão, aquilo que há de mais simples: o gostar e o não gostar.

Abissal

cardosoNão é incomum que eu navegue pelo Extrato sem considerá-lo sério, austero e portanto, para os padrões atuais, enfadonho. Sua linguagem é rebuscada e a preocupação com a estética, excessiva. Os temas são geralmente elevados e a aversão pelo superficial é notória. Entretanto, o autor percebe que essa rigidez formal reflete apenas parte de sua personalidade, que está calcada não só naquilo que é profundo, mas também, em menor intensidade, no frívolo. Assim, neste post, atrevo-me a falar sobre aquilo que para mim é o ápice da superfluidade: celebridades. Então vamos lá. Um dia desses, vagando pelo incrível youtube, deparei-me com uma entrevista no programa denominado Na Moral, da Rede Globo, que, embora realizada há mais de um ano, não impediu que eu me pronunciasse, ainda que tão tardiamente: confesso que assuntos televisivos não me provocam necessidade alguma por atualização. A entrevista, conduzida pelo repórter-pseudo-poeta Pedro Bial, apresentador do programa, teve a participação do esquálido Pedro Cardoso, ator contratado da Globo, e de um fotógrafo paparazzi. Assistindo ao programa pela primeira e única vez, notei que sua dinâmica parecia ser a de incitar a polêmica: o assunto era a indústria das celebridades, defendida pelo fotógrafo e atacada pelo ator serelepe, efusivamente anunciado como sendo o inimigo número 1 dos paparazzi. Parecendo estar possuído pelo espírito de algum tagarela assanhadinho, provavelmente o do Clóvis Bornay, Pedro Cardoso iniciou a entrevista desferindo contra a profissão de seu oponente um arsenal de injúrias pré-formatadas, enquanto saracoteava pelo palco, constrangendo o entrevistador e dificultando o enquadramento das câmeras. Nesses ânimos e embasado numa autêntica filosofia de botequim, o ator argumentava que o problema fundamental não está no paparazzi em si, mas naquele que consome seus produtos, na mídia perversa e dominadora que alimenta uma indústria de ilusão. Declarou, como em todo bom discurso demagógico, que a vontade das pessoas em conhecê-lo é a mesma que ele tem em conhecê-las e, portanto, isso deveria impedir que sua privacidade fosse violada por terceiros, uma vez que ele não é diferente de ninguém. O fotógrafo teve pouquíssimas oportunidades para falar, mas, ao final e inesperadamente, revelou que o seu maior consumidor é a própria Globo, patroa dos dois Pedros e dona do programa. Diante dessa revelação, a consternação foi geral: Cardoso abateu-se como um anêmico e o canastrão Bial, que parece ter finalmente se convencido de que em mulher não se bate, pelo menos não nas circunstâncias em que uma de suas namoradas diz ter sido agredida, tratou logo de encerrar a entrevista pedindo socorro à boazuda Dira Paes, estranha partícipe do programa e cujo comentário final não me atrevo, por razões de assepsia, a citar aqui. Que o eminente ator não é diferente de ninguém, todos nós o sabemos, incluindo a mídia perversa que paga o seu salário, os paparazzi bisbilhoteiros e o público que deseja saber de sua vida. Ele se esquece entretanto que desde tempos imemoriais, as pessoas dotadas de alguma notoriedade, embora iguais a todas as outras, não conseguem e nunca conseguirão gozar de sua intimidade como qualquer anônimo. É no mínimo ingênuo querer acreditar que um notório artista conseguirá um dia ir a uma padaria, a um shopping, a uma farmácia, sem ser interpelado por alguém, sem ter sua intimidade violada em algum nível; algo impossível, uma vez que o sucesso nessa atividade está alicerçado inexoravelmente na notoriedade, no reconhecimento de um público. Um artista sem público não é artista. Os paparazzi e outros congêneres são, eventualmente, uma consequência dessa relação essencial, um de seus subprodutos. Se levarmos a sério as declarações de Cardoso no programa – algo que admito difícil de fazer – o ator demonstra sua abissal imaturidade, pelo menos no que diz respeito à sua profissão: ele deseja que ela seja desprovida de frustrações; tal qual um menino birrento, ele quer porque quer que as chatices de seu quotidiano de ator desapareçam, em particular os paparazzi. Todo o palavrório bem decorado que preparou acoberta o seguinte: ele ainda não sabe lidar com o fato incontestável de que a vida, em quaisquer de suas áreas, é feita mais de frustrações que de sucessos. Se o intelecto do ator dispor de alguma capacidade reflexiva, ele deve ter notado, após a entrevista, o ridículo de sua “atuação” e, ao tentar falar do tema numa próxima oportunidade, vai precisar optar entre revelar sua total incapacidade para conversar honesta e civilizadamente sobre a incômoda verdade de ser ele mais uma banal celebridade ou conceber um personagem sofisticado, com um discurso ainda mais hipócrita que o seu na entrevista, mas que dê a ele uma falsa sensação de segurança em relação aos dissabores do inesperado, daquilo que teima em não aceitar.

Recolhimento

pilhaRevistasPor muito pouco, ganha-se um apelido. Na saudosa época de faculdade, eu tive o meu. A razão revelo-a aqui e somente agora, quando se encontra um pouco mais consolidada minha reputação. Convidaram-me para uma destas festas ignóbeis que somente alunos de engenharia conseguem promover. Nessa agitada reunião, ocorrida numa república masculina e portanto pestilenta, era possível observar o ser humano em seus modos mais primitivos: bebida, Bob Marley, palavrões, churrasco, piadas de baixo nível, gargalhadas,  arrotos, maconha, ruídos de flatulências, Raul Seixas e uma completa desobediência à Lei do Silêncio. O que definitivamente não havia eram mulheres, pelo menos durante grande parte da festa; algo que me agastava deveras, uma vez que a presença feminina ser-me-ia muito mais interessante e proveitosa que as demais atrações. Em um determinado momento, o pessoal ficou entediado tanto quanto eu, quando então alguém lançou a ideia de juntarmos forças para nos divertirmos a custa de um colega. Nosso ataque à vítima foi fulminante, não havendo tempo e nem meios para que o colega reagisse à investida de vinte marmanjos: nós então o despimos e o lançamos à rua, apenas vestido com suas meias brancas, trancando em seguida a porta da casa. O gélido junho de Uberlândia aliado à presença de um vizinho que assistia circunspecto àquela cena dantesca tornaram os gritos do colega ainda mais desesperados e o espetáculo que havíamos concebido ainda mais divertido. Para ele, foram cinco longos minutos de tortura, e para nós, de gargalhadas ininterruptas. Após o evento, a turma acabou se animando novamente, e tendo o colega recuperado suas vestes, não mais o vimos no recinto da festa. A fim de reincidir nas gargalhadas, fiquei relembrando a cena durante algum tempo, mas logo voltei ao desapontamento inicial. Comecei então a perambular pelos cômodos da república, indo parar na sala de estar, defronte a uma torre, a uma pilha de revistas eróticas exibindo os mais variados níveis do explícito: pronto, a festa acabava de adquirir um novo significado, uma nova dimensão. Sentei ali mesmo, pondo-me a folhear atentamente, página após página, revista após revista,  todo aquele conteúdo profano. Eu já estava no final da pilha e ainda não havia percebido que me encontrava completamente circundado pela numerosa quantidade de exemplares já vistos, todos espalhados, cobrindo o chão da sala. Foi assim, nadando nesse mar de perversão, que três colegas recém chegados me encontraram, acompanhados de suas delicadas e cândidas namoradas, ao adentrarem o mesmo recinto onde eu estava. As mais variadas versões dessa história correram pelo campus, cada qual com o seu traço pitoresco, mas nenhuma correspondente à verdade. Sentindo-me exposto, recolhi-me, frequentando a escola durante o tempo estritamente necessário. Semanas mais tarde, julgando o assunto encerrado, eu caminhava absorto em direção à biblioteca quando uma colega me interpelou com um sorriso no rosto: “É você que é o ‘mão na massa’?”. À princípio, não entendi a pergunta e por isso nada respondi, mas logo me ocorreu a necessidade de um novo recolhimento.

Novos Trajes

butterEis os novos trajes do Extrato. Espero que gostem. Em breve, novos posts aparecerão, com o velho tom ensimesmado que contaminou irremediavelmente este blog.