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Posts de Extrato do Miolo

Yara Lapidus

Cólera

Quanto mais leio traduções para o português de livros escritos em inglês, maior é minha vontade de empreender a difícil tarefa de ler o original, quando não de traduzi-lo. Invade-me a patética pretensão de anunciar para o mundo ignorante que aquela tradução disponível é de baixa qualidade, enquanto a minha vai evitar que os seres humanos leitores de língua portuguesa percam seu tempo com textos versionados muito distantes das reais intenções do autor. Ocorre que essa pretensão invasora é desprovida de força suficiente para sustentar a disposição de realizar o feito; algo que não ocorreria houvesse algum tipo de estímulo pecuniário, até daqueles cuja monta nos entrete com a ilusão da recompensa. Mas, como a conjuntura econômica não favorece que editoras adquiram a devida coragem para remunerar qualquer esforço de tradução deste blogueiro, resta a ele conviver com esses desejos intermitentes de verter fidedignamente para o português alguma obra literária escrita em língua inglesa. Nesses modos, passeando os olhos por minha pretensiosa coleção de livros, resolvi investigar rapidamente a obra  mais famosa do melhor escritor norte-americano que já existiu: Hermann Melville. Chamou-me a atenção a diferença nos títulos: na tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza para a CosacNaify, o livro chama-se “Moby Dick”, enquanto na edição da editora inglesa Penguim, o título é “Moby-Dick or The Whale” (com hífen e complemento). Pensei comigo: se os tradutores foram imprecisos logo no título, o que será que aprontaram no corpo do texto? Antes de ler o primeiro parágrafo do livro da CosacNaify, fiz a tradução do primeiro parágrafo da Penguim, que disponibilizo a seguir. Para fins comparativos, acrescento o primeiro parágrafo do texto da CosacNaify, e também o original em inglês, para os que desejam conferir. Das duas traduções, a minha está melhor; mais precisa ela está, com certeza, porque no primeiro parágrafo do livro não é da melancolia que Ishmael quer se livrar, como sugere a distinta dupla de tradutores, mas da cólera, como escreve originalmente o autor.

Vultos

Pode me chamar de Ishmael. Há alguns anos – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e nada em particular que me interessasse em terra, pensei em navegar um pouco e visitar a parte aquática do mundo. É a forma que encontrei para desopilar o fígado e regular a circulação. Toda vez que percebo crescer-me o sarcasmo no falar; toda vez que me invade um novembro sombrio e chuvoso na alma; toda vez que me vejo involuntariamente parado defronte a lojas funerárias, ou seguindo qualquer funeral que passe; e, especialmente, toda vez que a cólera praticamente toma conta de mim, de tal sorte que é necessário um forte princípio moral para evitar que eu invada deliberadamente a rua e comece a derrubar um por um os chapéus das pessoas, então considero que já é hora de lançar-me ao mar, o mais rápido possível. Isso é o meu substituto para revólver e balas. Com um florear filosófico, Catão atirou-se sobre sua espada; eu, serenamente, embarco num navio. Não há surpresa alguma nisso. Se ao menos os homens soubessem; quase todos eles, em algum momento, cada qual com sua intensidade, nutriu sentimentos em relação ao oceano muito próximos aos meus. (Eu)

Miragens

Trate-me por Ishmael. Há alguns anos – não importa quantos ao certo -, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que, sem querer, me vejo parado diante de agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar. Esse é o meu substituto para a arma e para as balas. Com garbo filosófico, Catão corre à sua espada; eu embarco discreto num navio. Não há nada de surpreendente nisso. Sem saber, quase todos os homens nutrem, cada um a seu modo, uma vez ou outra, praticamente o mesmo sentimento que tenho pelo oceano. (Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza)

Loomings

Call me Ishmael. Some years ago- never mind how long precisely- having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people’s hats off- then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball. With a philosophical flourish Cato throws himself upon his sword; I quietly take to the ship. There is nothing surprising in this. If they but knew it, almost all men in their degree, some time or other, cherish very nearly the same feelings towards the ocean with me. (Hermann Melville)

 

Daniel


Local: Santuário do Bom Jesus de Matosinhos (Congonhas)
Equipamento: Câmera LG-H870
Exposição: abertura f/1.8, velocidade 1/537s e ISO50
Pós processamento: CyberLink PhotoDirector 8.0

Inauguração

– Ainda resta inauguramos um cômodo. – disse ela.
– Mas não há mesa na área de serviço! – disse ele.
– Ela não é necessária.
– Está sugerindo o piso frio do chão?
– Não, desejo algo ainda mais desconfortável.
– A máquina de lavar roupa?
– Garoto esperto!
– Ligada?
– Sem dúvida.
– Você sentada nela?
– No segundo momento.
– E no primeiro?
– Eu apoiada na máquina; você por trás.
– E sua vestimenta?
– Já providenciei o uniforme.
– De subalterna?
– Totalmente subalterna.
– Então seu primeiro momento mudará para segundo.
– Eu sei. Posso adivinhar o primeiro?
– Pode.
– Você em pé; eu de joelhos.
– Garota esperta!

Yasmine Hamdan

Estudo Modesto III

O tímido é um tipo de narcisista que finge se incomodar com a ilusão de que todos os olhos do mundo estão voltados para ele. Sendo assim, não se pode dizer que este blogueiro seja um tímido porque mesmo afetado pela dita ilusão, ele não padece do dito incômodo. Para motivar e dar seguimento à fantasia de que todos o olham e o admiram, este blogueiro, de tempos em tempos, imagina-se compositor e intérprete de peças pianísticas. Ocorreu que em algum momento nos últimos meses, ele decidiu divorciar o personagem compositor do personagem intérprete, casal que antes considerava absolutamente inseparável. Percebeu, estupefato, que a débil habilidade manual do intérprete jamais conseguirá acompanhar as ideias – todas modestas e pueris – que pipocam na cabeça do compositor. Pensou: se continuarem casados, um atrapalhará o outro. Como resultado dessa importante decisão, o velho aprendiz, que no mundo real continua medíocre, produziu mais um de seus estudos canhestros, o terceiro, cuja partitura ele a publicou na página Estudos Modestos de Piano. Tocar esta pecinha, que qualquer aprendiz não medíocre consideraria de baixo grau de dificuldade, é objetivo inalcançável para o intérprete inábil. Diante dessa limitação, como já fez no seu estudo número dois, o compositor dispôs de um software musical para tocar essa nova peça. A “música” resultante, que o aprendiz entendeu como uma dança no gelo onde os graves são o cavalheiro e os agudos a dama, pode ser escutada a seguir.

Claraval


Local: Mosteiro Cisterciense de Claraval (Claraval)
Equipamento: Samsung Note 8, Câmera SM-N950F
Exposição: abertura f/1.7, velocidade 1/29s e ISO200
Pós processamento: Photoshop Express 5.9

Prefácio

Dado a livros e música, como já sabe o eventual leitor do Extrato, iniciei leitura despretensiosa do livro “The Complete Guide to High-End Audio” (2010), do engenheiro acústico Robert Harley. Eu não costumo ler prefácios de livro, em particular os mais longos. Entretanto, como o prefácio desse é pequeno e assinado por um pianista de Jazz que muito admiro, resolvi lê-lo; e por ter gostado muito, resolvi traduzi-lo; e porque gosto de exibir minhas qualidades de tradutor, ei-lo aqui publicado:

Música é o gesto sonoro de uma intenção. Ao veicular palavras, o som perde seu sentido porque a qualidade física da fala é desimportante. Mas o significado da música reside justamente em sua qualidade física, no seu som. Quando um músico toca algo de uma determinada maneira e não conseguimos ouvir sua intenção (sua razão) subjacente, ouvimos apenas gestos despropositados, e assim os registramos porque não nos foram dadas indicações suficientes sobre a tal intenção. Corremos então o risco de achar que tudo é apenas gesto e, dessa forma, perder o que é real. O meio pelo qual ouvimos música (nossos sistemas de áudio, nossas salas, etc.)  não está dissociado da nossa capacidade de experimentar música. Não se pode dizer que uma música é a mesma em diferentes sistemas porque não podemos simplesmente separar a retórica musical (suas palavras) de sua realidade física (sua transferência).  Isso torna os “sistemas de transferência sonora” (nossos aparelhos de som) bem mais importantes do que costumamos pensar. São eles capazes de nos transmitir o que os músicos naquela gravação desejavam expressar? Como músico, eu frequentemente – muito frequentemente – tive a seguinte experiência: apresentar-me num concerto, ouvir a gravação depois, e me impressionar com o que se perdeu ao relembrar coisas incríveis ocorridas durante a apresentação que simplesmente não estavam na fita. As notas estavam ali, mas notas por si só não constituem música. Onde foi parar a música, a intenção? Pude concluir então o seguinte: na gravação, o significado da retórica perdeu-se. Eu jamais seria capaz de chegar à tal conclusão confiando somente na fita e não em minhas lembranças do evento real; embora o som esteja na fita, isso não significa que uma música foi gravada. Ouvir um determinado CD num determinado sistema de áudio não significa necessariamente ouvir o que está no CD. Precisamos aprender a confiar nas respostas que nosso aparelho auditivo – nossos ouvidos – dá a sistemas de áudio. Isso demanda, é claro, que estejamos em sintonia com nós mesmos – algo difícil. Pessoas para as quais música é coisa séria precisam se aproximar do que há de intenção numa gravação sonora, e só há uma maneira de se conseguir isso em casa: aprender sobre o mundo dos equipamentos de áudio. Utilize seus ouvidos (e os de outras pessoas) para ajudar a remover tudo aquilo que dificulta experimentar música numa gravação sonora. É claro que para tal não é apenas a qualidade da reprodução sonora que conta, mas isso é o máximo que o ouvinte consegue manipular. Por exemplo, sabe-se que simplesmente inverter um plugue de dois pinos de um CD player, ou mesmo de um toca-discos, pode tornar uma gravação que você achava enfadonha em sua música favorita, só porque a polaridade não estava adequada. Como não se pode dissociar música de seu conteúdo emocional, o som de uma gravação pode definir se você vai gostar da música ou não. Além disso, pode ocorrer que você não consiga ouvir uma música que goste por conta da forma como ela foi gravada. A experiência musical é algo obviamente delicado e complexo, e nós humanos somos mais sensíveis a ela do que pensamos. Podemos então configurar nossos sistemas de áudio para tentar encontrar o melhor que eles podem oferecer para nos satisfazer. Mas, só conseguiremos nos aproximar daquilo que desejamos se soubermos o que queremos. Há componentes de áudio que se aproximam da experiência musical pelos mais diferentes níveis de custo. Cada um de nós sabe de sua limitação financeira; mas, dado o desejo de evoluir o sistema de áudio que se tem, é possível fazê-lo. Mas isso não significa que músicos precisem ser audiófilos.  Embora eu tenha trabalhos gravados desde 1965, passei a pensar seriamente sobre essas questões nos últimos dez anos. Audiófilos e amantes da música alargam fronteiras, e nós todos nos beneficiamos disso. Ademais, audiófilos mais dedicados estão determinados a manter olhos e mente abertos, a aprender incessantemente, mantendo-se calmos e pacientes durante o processo. Mas, para fazer tudo isso corretamente, pode levar tempo. Há muitas pessoas dedicadas a avaliar cuidadosamente para nós todos esses componentes sonoros. Eu recomendo fazer uso desse fato, lendo criteriosamente suas avaliações, até que as preferências sonoras de um desses especialistas casem com as suas. E após um tempo, é até possível que você passe a conhecer pessoalmente um desses caras. Mas, obviamente, quem comanda são seus ouvidos. Penso que você deveria prestar mais atenção nas necessidades deles. Afinal de contas, falar sobre tudo isso é como falar de nutrição nesta época de refrigerantes diet.

Keith Jarret

Paola Carosella

Maternal

As duas manifestações artísticas que mais me encantam são definitivamente a Música e a Matemática. A ordem é essa porque a que está em primeiro lugar me toca há mais tempo, desde tenra idade, quando eu acordava cedinho aos domingos para ouvir o programa da Rádio Globo dedicado ao rei Roberto Carlos. O aparelho de som, que ficava na sala, era simples, da marca CCE, e dispunha de toca-fitas, toca-discos e uma unidade amplificadora com rádio e medidores VU. Naquela hora em que o sol não existia, eu ligava bem baixinho o programa do Roberto, para não acordar ninguém, e me deitava no chão com o ouvido bem perto de uma das caixas, já que não tínhamos fones de ouvido. Essa experiência musical sempre me foi confortante: o escuro da madrugada ficava menos sombrio e a impressão que me acalmava era de que havia alguém por perto, uma companhia para me proteger dos mistérios da noite. Talvez seja por isso, por essa propriedade aplacadora do medo e da solidão, que costumo anunciar que Música para mim não é e nunca foi entretenimento, mas coisa séria, porque não é apenas estímulo sensorial agradável: música que não me acompanha, que não me instiga, que não me acolhe, não me interessa; sequer a chamo Música. Tal qual uma mãe, de dia, ela é essa companheira que me faz prosseguir; à noite, ela é protetora. Sendo a Música para mim um antídoto para o desamparo, não é muito difícil imaginar a voracidade com a qual acumulei canções ao longo dos anos, exacerbada pela praticidade dos arquivos musicais digitais, sem falar do conteúdo musical disponível na Internet. Por algum motivo, há cerca de um mês, resolvi fazer algo para o qual não sou propenso: organização. Totalmente imerso no mundo digital, que é desprovido de ruídos, decidi empreender esforço hercúleo para consolidar meus arquivos musicais num único local, estruturando sua árvore de diretórios de acordo com a qualidade do arquivo, gênero musical, artista, ano de lançamento e álbum. Transformei essa estrutura num arquivo HTML navegável e como o Extrato do Miolo é o veículo pelo qual exibo quem sou e o que tenho, disponibilizo esse arquivo numa nova página, compactado em zip, acessível para download no menu “Trabalhos”, “Música”, “Meu Acervo Musical”. O conteúdo do arquivo não ficará estático, é claro, uma vez que o acervo crescerá na exata proporção de minha disposição para desvendar aquilo que chamo maternal.

CN


Local: CN Tower (Toronto)
Equipamento: Nikon D700 com objetiva Nikkor 24-120mm ED
Exposição: abertura f/4.2, velocidade 1/3s e ISO800
Pós processamento: Cyberlink PhotoDirector 8

Precaução


Confesso que não me é nada fácil divulgar certas notícias, em particular aquelas que de alguma forma me envergonham. Entretanto, há atitudes que o sujeito precisa tomar, ainda que seja à revelia de sua vontade pungente, quase irresistível, de proceder justamente ao contrário. Não custa lembrar que os atos do ser humano – mesmo daquele que vive minimamente em sociedade, como eu – não produzem apenas efeitos sobre si mesmo, mas pode produzi-los também em outros seres humanos, em particular naqueles mais próximos, comumente denominados familiares. A partir dessa obviedade que quase sempre é ignorada pelos mais afoitos, os ditos inconsequentes, resolvi realizar a dolorosa tarefa de censurar preventivamente o Extrato do Miolo, esse filho querido de minhas entranhas. Ocorre que no dia de ontem grande parte dos eleitores do país onde ainda resido, o brasil, conseguiu eleger para o cargo de presidente da república um sujeito que afirmou categoricamente o seguinte: “essa turma [de opositores] se quiser ficar aqui vai ter que se colocar sob a lei de todos nós, ou vão para fora ou vão para a cadeia”. Diante de um anúncio tão contundente feito por um futuro governante que colocará armas nas mãos do cidadão-comum, correligionário ou não, e em razão da obviedade citada, uma vez que ainda não posso ir “para fora” e não desejo ir “para cadeia”, decidi colocar-me sob “a lei de todos nós” e assim, de um opositor manifestante e agressivo, tornar-me-ei um opositor que não se opõe, como deseja o presidente recém-eleito e sua valente turma do uniforme verde-oliva. Na prática, com exceção deste post, excluí do Extrato todos aqueles da categoria “Política”, onde maldisse agressivamente o novo presidente, os verde-olivas e sua história pregressa constrangedora. Medo? Pelos próximos. Delírio de grandeza? Hipótese bastante plausível, diria meu analista. Exagero? Não sei. Precaução? A intenção é justamente essa. Eu penso o seguinte: não é porque a vaca está pastando nas cercanias do brejo que ela não terminará atolando nele; e antes que isso ocorra, como acredita piamente o resto do mundo civilizado, não quero eu mesmo criar dificuldades para meus próximos e eu pularmos para fora do lombo do referido bovino. De qualquer forma, apesar desses cortes profundos, o Extrato do Miolo ainda sobrevive e continuará com seus temas elevados, sem nunca perder a ironia e o bom humor.

Virna Lisi

Novidades

Ensimesmados como eu são desprovidos da virtude do cultivar amizades, seja pela antipatia que despertam, seja por sua inabilidade inata ou total falta de disposição. Por isso, esse grupo de misantropos é composto por seres humanos que possuem pouquíssimos amigos ou simplesmente nenhum. A convivência social lhes é difícil, anti natural, desconfortável. Mas, para a sorte deles, há pessoas que nasceram vocacionadas para a arte da paciência e empregam seu amor fraternal inato na árdua convivência com esses próximos ingratos. Posso dizer que pertenço a esses ingratos afortunados, pois há uma alma caridosa neste mundo materialista que, vez por outra, dispõe de seu tempo para compartilhar algo comigo. Esse sujeito, a quem atrevo chamar de amigo, contou-me uma historinha interessante e, conhecedor dos temas tratados neste blog, autorizou-me a publicá-la aqui, junto com a carta que ele foi impedido de enviar. Vamos a ambas. Há pouco mais de três meses, iniciou o filho desse meu amigo a leitura do conhecido livro O Diário de Anne Frank como parte das exigências escolares do sétimo ano, antiga sexta série. Em sua mais recente edição oficial em português, lançada em 2015, o livro publicado pela editora Record traz algumas novidades: comentários da autora adolescente, censurados por seu pai Otto Frank em edições anteriores, sobre assuntos de cunho sexual e também sobre o péssimo relacionamento dos pais. Ocorreu que algumas mães de alunos leitores do livro sentiram-se bastante incomodadas por tais novidades e em comitiva dirigiram-se nervosamente à escola no intuito de obter as devidas satisfações sobre a compatibilidade da obra com a tenra idade de seus pimpolhos pré-adolescentes. A diretoria da escola, assustada com tal reação, enviou carta a todos os pais do sétimo ano colocando-se à disposição dos incomodados para trocar a edição de seus livros por uma mais antiga, caso quisessem, mas alertava que todos os assuntos tratados na nova edição seriam abordados em sala de aula. Ainda orgulhoso por ter o filho estudando em escola tão corajosa, meu amigo recebeu a notícia de uma nova visita de mães à escola, declarando-se elas não apenas incomodadas, mas agora ultrajadas com a carta da diretoria. Na boca pequena, comentou-se que nesse novo encontro houve choro, ranger de dentes e, como não poderia faltar, ameaças de evasão de alunos no ano subsequente. O resultado que meu estimado amigo temia aconteceu: a escola enviou nova carta na qual pedia desculpas pela carta anterior, mantinha o esquema de trocas e anunciava a proibição da discussão em sala de aula das novidades impróprias presentes no diário da adolescente judia. Enquanto contava esse última parte, percebi em meu amigo uma irritação desproporcional, típica de alguém que não sabe lidar com a indignação, com a revolta. Perguntei se ele realmente estava chateado apenas com essa história ou se havia mais alguma coisa que o incomodava. Foi quando ele me confidenciou que tencionava enviar para escola uma cartinha de impressões suas sobre o acontecido, mas que, sendo ele uma pessoa sensata, submeteu a cartinha à apreciação de sua digníssima esposa, mãe do seu filho. Ela, que não se sentiu ultrajada pela primeira carta da escola e muito menos pela nova edição do livro, ponderou que o eventual vazamento da cartinha, de conteúdo demasiadamente forte, poderia trazer consequências maléficas ao garoto e que portanto temia por ele. Diante dessa posição contrária à sua intenção, meu amigo se disse obrigado também a retroceder. Neste momento, ele ficou sem ar e foi preciso que eu corresse para abrir as janelas. Quando se recuperou, sem pronunciar palavra, entregou-me a tal cartinha e alguns dias mais tarde autorizou-me a publicá-la no Extrato. Ei-la:

Prezados Diretores,

    ​Sou pai de um alunos do sétimo ano e sobre o assunto de que trata esta Carta Circular no. ** que recebi da escola, gostaria de colocar objetivamente minhas impressões e opiniões. Não me agrada em absoluto que a escola tome a parte pelo todo e ceda de maneira constrangedora, para não dizer vergonhosa, a um grupo restrito de pais que, a pretexto de zelar pela “boa” educação dos filhos, questiona o cabimento de uma obra como “O Diário de Anne Frank” a alunos de sétimo ano. Este grupo de pais, do qual tenho a honra de não fazer parte, alega inadequados para esse público termos esparsos como “pênis”, “vagina” e “seios”, termos esses que colaboram acessoriamente para o veio principal do diário, que é relatar a angústia e o medo de uma pré-adolescente judia, cheia de sonhos e desejos como qualquer outra, mas que desgraçadamente vive sob a égide de nazistas. A debilidade do argumento desses pais é tamanha que suscita duas perguntas: a) A primeira manifestação dos pais terá sido fruto da hipocrisia que costuma acometer moralistas de baixíssimo nível intelectual?  Apesar da contundência, essa pergunta procede, uma vez que não se pode declarar improvável a existência de pais com baixíssimo nível intelectual e muito menos improvável a existência de pais que se declararam escandalizados com as confissões de Anne Frank mas permitem que seus filhos e filhas ouçam, por exemplo, músicas da Anitta, Wesley Safadão, MC sei lá o quê e outras reais obscenidades do gênero, cujas letras constituem em sua maioria conteúdo sexual explícito distorcido e cujas coreografias denigrem a mulher. Outra pergunta que surge é a seguinte: b) Fosse a adorável Anne Frank cristã, seria a disposição desses pais cristãos a mesma para empreender tal protesto? Essa pergunta também procede porque nós cristãos (eu também sou) aprendemos desde criancinhas no catecismo que os judeus entregaram Jesus para ser morto em troca da libertação de um bandido, ou seja, que judeus são obscenos. Enfim, minha intenção não é responder a tais perguntas, mas utilizá-las como subsídio para afirmar que quando cede a esses ditos pais escandalizados a escola sucumbe ante à hipocrisia e ao antissemitismo.

Atenciosamente,
Um pai sinceramente indignado.

Belém

Quitutes
Local: Torre de Belém (Lisboa)
Equipamento: Nikon D700 com objetiva Nikkor 24-120mm ED
Exposição: abertura f/8.0, velocidade 1/320s e ISO400
Pós processamento: Cyberlink PhotoDirector 8