Improvisação

Ao final da tarde do dia 24 de janeiro de 1975, o grande pianista de Jazz Keith Jarret, vindo de Zurique na Suíça, chegava na cidade alemã de Colônia para um concerto que faria no Opera House da cidade. O longo trajeto foi percorrido de carro e acrescentou uma boa dose de cansaço àquele que já o extenuava, tanto por conta dos apresentações realizadas dias antes na Suíça quanto das noites de insônia, provocada por sua implacável fibromialgia. Após se instalar no hotel, Jarret foi direto para o Opera House onde faria um rápido aquecimento antes da apresentação. Ocorreu que a equipe técnica do local do evento deveria ter alugado um Bösendorfer 290 Imperial, solicitado por Jarret, já que a casa não dispunha desse grand piano, mas por algum motivo desconhecido terminou por disponibilizar um Bösendorfer da casa, de ensaio, bem menor que o imperial, e ainda por cima desafinado, particularmente nas notas extremas do teclado. Jarret reclamou quando viu o piano, mas a organização argumentou que não havia mais tempo suficiente para arranjar um Imperial. Ao começar a tocar, notou a brutal desafinação do instrumento e mais uma vez reclamou, quando a organização alegou que uma afinação adequada demandaria muitas horas de trabalho. Diante disso, Jarret disse que não se apresentaria. O chefe da organização tentou apelar para a benevolência do pianista, que acabou aceitando realizar o show porque como ele iria ser gravado todo o equipamento necessário para tal já havia sido instalado. Tais contratempos acabaram adiando o início da apresentação, mas restava alimentar o músico, que ainda não havia jantado. Os organizadores haviam reservado mesa num restaurante italiano local, mas uma confusão na cozinha atrasou tanto a entrega dos pratos que o pianista conseguiu dar apenas algumas poucas garfadas na comida, correndo para o local do evento, que teria início às 23:30, horário já bastante adiantado. Durante a apresentação, executada totalmente na improvisação musical, fazendo uso de uma braçadeira, por conta das dores musculares, Jarret explorou apenas as teclas do meio do piano, cuja afinação estava mais aceitável. Para a sorte dos amantes da música que não estavam na plateia, o gravador portátil Telefunken M-5 que registrou a performance do pianista viabilizou um dos discos mais importantes da história do Jazz: “The Koln Concert”, lançado em novembro de 1975. Bem, finda essa pequena grande história, que será mais importante que meus breves comentários subsequentes, passo a contar de sua enorme influência – sem contar a do disco supracitado – sobre minha prática psicanalítica. Na literatura psicanalítica, Sigmund Freud nos informa que uma sessão de psicanálise deve se processar num ambiente de desamparo, para que o paciente, entre outros benefícios, compreenda e supere suas dificuldades a partir de forças internas, com o mínimo de estimulação externa por parte do analista. Além disso, Wilfred Bion nos fala sobre a interferência maléfica da memória do analista, sobre ele fazer uso, numa sessão de psicanálise, de suas lembranças sobre o caso do paciente. Para o eminente teórico, lembranças estimulam o surgimento de preconceitos, de dogmas na mente do analista, que dificultam ou impedem atingir o chamado insight. Assim, cada sessão deveria ser historicamente “autocontida”, com início, meio e fim. Quando li a história do disco “The Koln Concert”, percebi Keith Jarret imerso num ambiente onde o desamparo de Freud e o esquecimento de Bion estavam presentes: desamparo porque faltou-lhe comida no estômago e instrumento de trabalho nas mãos; esquecimento porque dor e cansaço “esquecidos” viabilizaram a execução do extraordinário, do imprevisível. No desenrolar despretencioso dessa analogia, percebi também que faltou a Freud e Bion falar sobre um importante elemento que Jarret executou com maestria em Colônia: improvisação. Aproveito então o notável pianista para complementar os notáveis psicanalistas: uma sessão de psicanálise também deve ocorrer num ambiente de improvisação, no qual a virtude da espontaneidade na relação analista-paciente possa se manifestar sem maiores interferências. Se há preparação prévia, entendida nesse caso como o oposto de improvisação, então há ensaio e só se ensaia algo que já foi previamente definido. No âmbito das psicoterapias, ensaiar é dispor das teorias consagradas padronizando-as num modelo médico de diagnóstico e tratamento. Mas modelos de causa e efeito como esse não fazem parte da abordagem psicanalítica. Ademais, improvisação é fundamentalmente um produto da expressão emocional humana, algo que vem de dentro, das entranhas, quase onírico, e que se manifesta através das habilidades físicas do ser humano. Sendo assim, uma sessão de psicanálise deve ser algo desprovido de padrões, de relações de causa e efeito, único, singular, que acontece num período irrecuperável de tempo, envolvida por desamparo, esquecimento e improvisação.

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