Entre Nossos Ouvidos

Artigo intitulado “Between The Ears” escrito por Robert Harley para a revista Stereophile em 29/05/2009, traduzido por mim.

Audiófilos buscam constantemente formas para aprimorar a experiência de ouvir reproduções musicais. Substituem-se pré-amplificadores, comparam-se processadores digitais, calibram-se toca-discos, avaliam-se cabos de caixas-de-som, visitam-se revendedores, e, é claro, leem-se revistas – tudo isso para tentar se aproximar um pouco mais daquilo que chamamos música.

Todas essas ações têm algo em comum: elas são tentativas físicas para incrementar o prazer de apreciar música. Mas há outra maneira de atingir tal objetivo muito mais efetiva do que qualquer calibração, qualquer substituição de componente, e mais gratificante que ter carta branca em qualquer loja de áudio high-end. E é gratuita.

Refiro-me ao que acontece entre nossos ouvidos e não àquilo que os sensibiliza. A habilidade – ou falta dela – de livrar a mente de distrações e deixar a música falar por si só tem enorme influência sobre como a apreciamos. Você já se perguntou por que um mesmo aparelho de som tocando a mesma música te proporciona diferentes formas de envolvimento com ela? A única variável plausível é o nosso estado de espírito.

Como nós audiófilos nos preocupamos com a qualidade sonora, somos mais suscetíveis a permitir que certos pensamentos atrapalhem o falar musical. Tais pensamentos geralmente estão relacionados com aspectos da característica sonora da música. A dimensionalidade sonora carece de profundidade? Os graves estão com extensão adequada? Os agudos estão granulados? Como está a performance do meu aparelho em comparação com os das revistas?

Infelizmente, esse modo de pensar é estimulado por revistas especializadas em áudio high-end. A descrição da qualidade sonora de um produto – principalmente seus atributos técnicos de performance – é a razão fundamental para que tais revistas sejam impressas, não o quanto de satisfação emocional o equipamento sonoro acrescenta. Infelizmente, esse quanto é inefável: palavras não conseguem expressar o vínculo entre ouvinte e música que certos produtos estabelecem mais facilmente que outros. Sendo assim, o que nos resta são meras descrições de características sonoras específicas, deixando a impressão de que a audiofilia é sobre dissecar e comentar criticamente a música, e não sobre se vincular mais profundamente ao seu significado.

Poucos meses após eu me tornar um crítico de áudio (e também um ouvinte muito mais crítico), entrei numa espécie de crise: percebi-me não mais apreciando música da forma que sempre apreciara. Ouvir música tornou-se uma tarefa, uma necessidade ocupacional, ao invés da experiência emocional que me fez seguir carreira no mundo do áudio. Meu dilema foi acentuado pela ideia equivocada de que ao ouvir música, em qualquer circunstância, eu sempre teria uma opinião sobre a qualidade de sua reprodução. Música para mim ficou em segundo plano em relação ao som; passou a ser uma coleção de partes interconectadas, um produto a ser desmembrado e estudado, não algo que me marcasse emocionalmente. Comecei a notar, entretanto, que sempre após o período de escrever minhas críticas mensais, a animação me retornava. Eu deixava de ser um crítico e voltava a ser um amante da música. Colocava para tocar meus álbuns favoritos, e não aqueles que só mostravam o que o aparelho de som estava fazendo. A música como um todo, não uma coleção de artefatos interligados, voltava a ser objeto da minha atenção. Era como se um enorme peso tivesse sido retirado das minhas costas. Naqueles poucos dias que precediam o inevitável retorno à próxima avaliação crítica mensal dos produtos que estavam sendo instalados, eu me recuperava do tempo perdido.

Mas novamente lá estava eu, numa sala de áudio especialmente montada para tal, raques cheios dos equipamentos de reprodução mais sofisticados do mundo, com um emprego no qual eu passava a maior parte do tempo ouvindo música, e mesmo assim eu não conseguia apreciá-la, na grande maioria das vezes. O som do meu carro me proporcionava mais satisfação musical do que isso tudo. Algo estava muitíssimo errado.

Essa experiência precipitou uma catarse que me forçou a reavaliar, entre outras coisas, o que afinal significava ouvir música. Decidi então ignorar o som físico na maior parte do tempo e deixar a música me dizer por ela própria quais componentes eram melhores que outros. A partir daí, avaliação crítica e raciocínio analítico ficaram em segundo plano em relação à satisfação musical. Comecei a ouvir as músicas que eu gostava ao invés de colocar pra tocar álbuns de diagnóstico que supostamente iriam me revelar as características específicas do produto. O impulso de desmontar, ouvir o som físico, e sempre formar julgamentos gradualmente desapareceu. Disso resultou que hoje aprecio música muito mais do que em qualquer outra época da minha vida. Paradoxalmente, som melhor resulta em música melhor apenas quando o primeiro é ignorado. Tal clarividência incrementou minhas habilidades críticas como ouvinte de música: hoje tenho um feeling muito mais apurado para identificar quais produtos vão produzir satisfação musical de longo prazo.

No entanto, ouvir analiticamente por meio de álbuns-diagnóstico deve continuar sendo parte vital do processo de avaliação. Da mesma forma, é essencial informar as características sônicas específicas dos produtos em análise: um comprador em potencial deve saber como os produtos se comportam em termos sonoros e ser capaz de decidir qual ou quais se adequam ao que está procurando. Mas esse tipo de análise diagnóstica deixou de ser dominante; tornou-se apenas um dos aspectos a avaliar. Ademais, percebi ao longo do tempo que informação obtida por meio de raciocínio analítico é uma forma menor de conhecimento sonoro-musical, enquanto o feeling sobre a qualidade de um produto – sua habilidade de veicular música – é a forma mais elevada de tal conhecimento.

Tais experiências apontam para um problema mais profundo, de como racionalidade e impulso à dissecção, como métodos para viabilizar o entendimento, dominam o pensamento ocidental. A racionalidade tradicional enxerga o todo como uma coleção de partes. A necessidade de dissecar, classificar e atribuir uma estrutura hierárquica são os pilares da racionalidade. Nossa formação ocidental faz isso parecer tão natural que sempre enxergamos qualquer entidade como sendo construída a partir de partes componentes. Por que seria diferente com música reproduzida em aparelhos de som? Sendo assim, ouvimos na música reproduzida os agudos, os graves, os médios, dimensionalidade, detalhes e sonoridade. Mas com que frequência num show ao vivo você desmembra o som da mesmo forma que o faz quando ouve áudio hi-fi? Não sei você, mas eu nunca experienciei música ao vivo em termos de balanço tonal, profundidade, falta de granularidade, ou outras características que costumamos atribuir ao som reproduzido.

Considere duas abordagens para se entender uma flor. A racionalidade tradicional iria pegá-la, dissecá-la, classificar suas partes e tentar conhecê-la, documentando seus mecanismos. Outra forma de entender a flor seria apenas e tão somente olhar para ela, apreciando sua beleza, desvendando as sutilezas de sua forma, cor, cheiro, textura, absorvendo sua essência. A primeira abordagem produz um tipo de conhecimento – importante, sem sombra de dúvidas – mas não é um conhecimento completo.

Ademais, a primeira abordagem não destrói a própria flor durante o processo? Terminada a dissecção, ficamos sem coisa alguma. Eis por que eu não conseguia mais apreciar música: o desmembramento analítico consome justamente aquilo que se busca entender. Permitir a intrusão do pensamento intelectual destrói o vínculo singular que se estabelece entre música e ouvinte.

As grandes conquistas da racionalidade – tornar música algo reproduzível, por exemplo – nos fez arrogantes a tal ponto que passamos a negligenciar as virtudes da experiência não racional. A racionalidade consegue identificar suas conquistas como prova de sua superioridade. O tipo de conhecimento gerado pela experiência não racional não é capaz de apontar para algo tangível como manifestação de seu valor. Pelo contrário, o valor da experiência não racional é totalmente interno e desconhecido para quem nunca passou por ela previamente.

Mas não é só ouvir analiticamente o som que atrapalha a apreciação musical. Qualquer atividade intelectual aplaca a experiência. O que importa é a qualidade dessa experiência – o aqui e agora – não a atribuição de um valor definido em algum padrão que foi divulgado em alguma revista de áudio high-end, comparações com outros aparelhos de som, ou qualquer outra coisa que nos distraia da música propriamente dita.

Não há nada de errado em estar insatisfeito com seu equipamento; isso é o que viabiliza sua melhoria. E um aparelho de som melhor aprimora a experiência musical. Mas você não deveria apreciar menos música se seu equipamento é pior que o do seu amigo, ou se você não tem o produto mais avançado, ou se o som que você ouve não se iguala ao que está escrito na revista. Todas essas coisas são artificialidades que são sobrepostas à realidade, não a realidade em si. O que importa realmente é a experiência – imediata, que existe naquele presente momento. Qualquer outro pensamento ou abstração intelectual diminui nosso potencial para nos tornarmos unos com a música.

Nesse modo de pensar (ou melhor, de não pensar), satisfação musical deixa de ficar dependente de meios externos. Sim, a tecnologia que é capaz de trazer música aos nossos lares é física e externa, mas a satisfação não pode ser vivenciada puramente com base no equipamento, qualquer que seja sua qualidade. Aproximar-se da música é uma forma especial de interação que seu ouvinte tem com ela, interação na qual o equipamento serve apenas como um intermediário. Sem esse estado de espírito, nenhum equipamento, por mais sofisticado que seja, irá prover o que buscamos. Minha perda temporária de satisfação musical, embora tendo à disposição salas especialmente montadas e recheadas com produtos de última geração, confirma esse truísmo.

Continue buscando, por todos os meios ao seu dispor, criticar e melhorar seu aparelho de som: pode ser esse o caminho que irá lhe trazer mais satisfação musical. Mas quando seu disco favorito estiver girando no toca-discos e o ambiente à meia luz, esqueça cabos, pré-amplificadores, acessórios e revistas. Nesse momento, a única coisa que realmente interessa é a música.

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