Pular para o conteúdo

Prefácio

Dado a livros e música, como já sabe o eventual leitor do Extrato, iniciei leitura despretensiosa do livro “The Complete Guide to High-End Audio” (2010), do engenheiro acústico Robert Harley. Eu não costumo ler prefácios de livro, em particular os mais longos. Entretanto, como o prefácio desse é pequeno e assinado por um pianista de Jazz que muito admiro, resolvi lê-lo; e por ter gostado muito, resolvi traduzi-lo; e porque gosto de exibir minhas qualidades de tradutor, ei-lo aqui publicado:

Música é o gesto sonoro de uma intenção. Ao veicular palavras, o som perde seu sentido porque a qualidade física da fala é desimportante. Mas o significado da música reside justamente em sua qualidade física, no seu som. Quando um músico toca algo de uma determinada maneira e não conseguimos ouvir sua intenção (sua razão) subjacente, ouvimos apenas gestos despropositados, e assim os registramos porque não nos foram dadas indicações suficientes sobre a tal intenção. Corremos então o risco de achar que tudo é apenas gesto e, dessa forma, perder o que é real. O meio pelo qual ouvimos música (nossos sistemas de áudio, nossas salas, etc.)  não está dissociado da nossa capacidade de experimentar música. Não se pode dizer que uma música é a mesma em diferentes sistemas porque não podemos simplesmente separar a retórica musical (suas palavras) de sua realidade física (sua transferência).  Isso torna os “sistemas de transferência sonora” (nossos aparelhos de som) bem mais importantes do que costumamos pensar. São eles capazes de nos transmitir o que os músicos naquela gravação desejavam expressar? Como músico, eu frequentemente – muito frequentemente – tive a seguinte experiência: apresentar-me num concerto, ouvir a gravação depois, e me impressionar com o que se perdeu ao relembrar coisas incríveis ocorridas durante a apresentação que simplesmente não estavam na fita. As notas estavam ali, mas notas por si só não constituem música. Onde foi parar a música, a intenção? Pude concluir então o seguinte: na gravação, o significado da retórica perdeu-se. Eu jamais seria capaz de chegar à tal conclusão confiando somente na fita e não em minhas lembranças do evento real; embora o som esteja na fita, isso não significa que uma música foi gravada. Ouvir um determinado CD num determinado sistema de áudio não significa necessariamente ouvir o que está no CD. Precisamos aprender a confiar nas respostas que nosso aparelho auditivo – nossos ouvidos – dá a sistemas de áudio. Isso demanda, é claro, que estejamos em sintonia com nós mesmos – algo difícil. Pessoas para as quais música é coisa séria precisam se aproximar do que há de intenção numa gravação sonora, e só há uma maneira de se conseguir isso em casa: aprender sobre o mundo dos equipamentos de áudio. Utilize seus ouvidos (e os de outras pessoas) para ajudar a remover tudo aquilo que dificulta experimentar música numa gravação sonora. É claro que para tal não é apenas a qualidade da reprodução sonora que conta, mas isso é o máximo que o ouvinte consegue manipular. Por exemplo, sabe-se que simplesmente inverter um plugue de dois pinos de um CD player, ou mesmo de um toca-discos, pode tornar uma gravação que você achava enfadonha em sua música favorita, só porque a polaridade não estava adequada. Como não se pode dissociar música de seu conteúdo emocional, o som de uma gravação pode definir se você vai gostar da música ou não. Além disso, pode ocorrer que você não consiga ouvir uma música que goste por conta da forma como ela foi gravada. A experiência musical é algo obviamente delicado e complexo, e nós humanos somos mais sensíveis a ela do que pensamos. Podemos então configurar nossos sistemas de áudio para tentar encontrar o melhor que eles podem oferecer para nos satisfazer. Mas, só conseguiremos nos aproximar daquilo que desejamos se soubermos o que queremos. Há componentes de áudio que se aproximam da experiência musical pelos mais diferentes níveis de custo. Cada um de nós sabe de sua limitação financeira; mas, dado o desejo de evoluir o sistema de áudio que se tem, é possível fazê-lo. Mas isso não significa que músicos precisem ser audiófilos.  Embora eu tenha trabalhos gravados desde 1965, passei a pensar seriamente sobre essas questões nos últimos dez anos. Audiófilos e amantes da música alargam fronteiras, e nós todos nos beneficiamos disso. Ademais, audiófilos mais dedicados estão determinados a manter olhos e mente abertos, a aprender incessantemente, mantendo-se calmos e pacientes durante o processo. Mas, para fazer tudo isso corretamente, pode levar tempo. Há muitas pessoas dedicadas a avaliar cuidadosamente para nós todos esses componentes sonoros. Eu recomendo fazer uso desse fato, lendo criteriosamente suas avaliações, até que as preferências sonoras de um desses especialistas casem com as suas. E após um tempo, é até possível que você passe a conhecer pessoalmente um desses caras. Mas, obviamente, quem comanda são seus ouvidos. Penso que você deveria prestar mais atenção nas necessidades deles. Afinal de contas, falar sobre tudo isso é como falar de nutrição nesta época de refrigerantes diet.

Keith Jarret

Não há comentários

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: