Precaução


Confesso que não me é nada fácil divulgar certas notícias, em particular aquelas que de alguma forma me envergonham. Entretanto, há atitudes que o sujeito precisa tomar, ainda que seja à revelia de sua vontade pungente, quase irresistível, de proceder justamente ao contrário. Não custa lembrar que os atos do ser humano – mesmo daquele que vive minimamente em sociedade, como eu – não produzem apenas efeitos sobre si mesmo, mas pode produzi-los também em outros seres humanos, em particular naqueles mais próximos, comumente denominados familiares. A partir dessa obviedade que quase sempre é ignorada pelos mais afoitos, os ditos inconsequentes, resolvi realizar a dolorosa tarefa de censurar preventivamente o Extrato do Miolo, esse filho querido de minhas entranhas. Ocorre que no dia de ontem grande parte dos eleitores do país onde ainda resido, o brasil, conseguiu eleger para o cargo de presidente da república um sujeito que afirmou categoricamente o seguinte: “essa turma [de opositores] se quiser ficar aqui vai ter que se colocar sob a lei de todos nós, ou vão para fora ou vão para a cadeia”. Diante de um anúncio tão contundente feito por um futuro governante que colocará armas nas mãos do cidadão-comum, correligionário ou não, e em razão da obviedade citada, uma vez que ainda não posso ir “para fora” e não desejo ir “para cadeia”, decidi colocar-me sob “a lei de todos nós” e assim, de um opositor manifestante e agressivo, tornar-me-ei um opositor que não se opõe, como deseja o presidente recém-eleito e sua valente turma do uniforme verde-oliva. Na prática, com exceção deste post, excluí do Extrato todos aqueles da categoria “Política”, onde maldisse agressivamente o novo presidente, os verde-olivas e sua história pregressa constrangedora. Medo? Pelos próximos. Delírio de grandeza? Hipótese bastante plausível, diria meu analista. Exagero? Não sei. Precaução? A intenção é justamente essa. Eu penso o seguinte: não é porque a vaca está pastando nas cercanias do brejo que ela não terminará atolando nele; e antes que isso ocorra, como acredita piamente o resto do mundo civilizado, não quero eu mesmo criar dificuldades para meus próximos e eu pularmos para fora do lombo do referido bovino. De qualquer forma, apesar desses cortes profundos, o Extrato do Miolo ainda sobrevive e continuará com seus temas elevados, sem nunca perder a ironia e o bom humor.

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